Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quinta-feira, 16 de março de 2017

Sou o que Penso









Passado e presente caminham de mãos dadas dentro de mim. Ambos conversam a respeito da passagem do tempo, suas limitações e consequências na vida das pessoas. Um diálogo amigável que eu ouço todos os dias, enquanto observo o desconserto das horas na minha própria vivência.

O pretérito foi um tempo de luz, de alegrias e descobrimentos. Quando quero acessá-lo basta uma volta em torno do cerco da memória e os ponteiros do relógio e o seu girar permanente, nada podem fazer contra a força das lembranças. Tudo volta ao tempo presente, outra vez. Nessa hora, pele ressecada, músculos fatigados, andar pausado, rugas e fios prateados nada disso conta. Sou o que penso, o que sonho. Os meus pensamentos têm asas. E, ... como voam! Na minha memória o arranjo das palavras passado e presente não impedem o meu sonho de sonhar. Continuo sentindo, no corpo e na alma, a força do desejo e da paixão. Eles pulsam com igual intensidade dentro de mim tornando vivo tudo o que é sonho. Passado e presente se confundem.

Por que será, então, que me tornei uma mulher invisível!?

- Ah, tempo presente! Por maior que seja o voo imaginário dos meus pensamentos, eles sempre esbarram no desconserto das horas. O desejo, a paixão e a alegria de viver parecem estar camuflados sob as asas da palavra passado. As pessoas agora olham para mim e só veem os fios de prata que banham a minha cabeça e fazem de mim uma pessoa invisível e assexuada. Ninguém me olha mais com admiração, com interesse, com desejo e tesão. Tornei-me uma mulher respeitável, uma senhorinha de cabelos brancos, a quem as pessoas dão o lugar na fila de bancos e supermercados, e a quem as crianças chamam de vovozinha, mesmo que ao meu lado estejam pessoas bem mais velhas, embora disfarçadas sobre camadas e camadas de maquiagem, tinturas, intervenções cirúrgicas e botox. A ninguém interessa investigar os meus pensamentos. O que é uma pena! Pois, se assim o fizesse, talvez lhe causasse espanto a força do meu querer.

Por isso, é triste constatar que tornei-me uma mulher invisível, apesar da força do desejo que ainda sinto, da paixão e do interesse pela vida, do espanto e curiosidade diante do inusitado e da eterna busca por conhecimento e aprendizado. Vivemos numa sociedade do espetáculo, onde só vale aquilo que prende e chama a atenção... Tempos líquidos, descartáveis! Aceitar que os meus cabelos brancos contem a importância do meu passado é uma mera circunstância. Poderia pintá-los e parecer mais jovem. Não o faço! Por convicção e por aceitar que eles por si só, nada dizem sobre mim. A minha juventude e o meu tesão pela vida estão dentro de mim. Sou o que penso!