Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sistema de Cotas - A Cor do Brasil






O sistema de cotas para negros, nas universidades públicas brasileiras, nos coloca diante da realidade de um fato que há muito tentamos maquiar dando-lhe a feição de jeitinho brasileiro, ou seja, jogando para debaixo do tapete ou para escanteio, uma discussão que não nos obrigue a olhar de frente para o que evitamos assumir: somos uma nação racista e elitista e, por conseguinte, temos um sistema de educação excludente.

Defendemos a política de cotas porque é mais fácil do que reparar décadas e décadas de omissão, em relação aos direitos das minorias. Fingimos que não temos preconceito de raça e ignoramos a desigualdade social, presente também nas salas de aula, e assim vamos protelando “ad infinitum” as soluções que minimizem a distância entre brancos ricos, brancos pobres e negros de terem acesso à educação e à cultura em igualdade de condições. Proferimos, solenemente, um discurso a cada ano de eleição em favor dessas minorias e esquecemos de pô-lo em prática, tornando-o vazio e inaplicável. Por isso, para aliviar a nossa consciência e responder ao clamor dos excluídos, criamos um sistema de cotas e com esse ardil vamos adiando os investimentos necessários à educação de base, protelando ainda mais o sonho dos que esperam por uma justiça social que nunca chega, e obrigando-os a contentar-se com as sobras de um banquete para o qual nunca são convidados, apesar de habitarem a mesma casa.

Se pararmos para analisar a questão das cotas, veremos que, além de ser um fator de segregação, ela em nada contribui para que o aluno se integre ao ambiente acadêmico, uma vez que a própria exclusão já o diferencia e marginaliza, humilhando-o em sua dignidade. Ao ingressar na universidade pela política de cotas, o ser humano sente-se estigmatizado – aquele ali é cotista! – e aviltado em sua cidadania. Cobram-lhe esforço e dedicação dobrados pela oportunidade oferecida, e ainda são olhados de soslaio pelos seus pares numa clara alusão à sua condição social e a cor da sua pele.

Precisamos mudar isso e o movimento pela inserção de negros, na universidade, tem que continuar lutando por uma justiça social que abranja o direito que lhe outorga a carta magna desse país; de que todos são iguais perante a lei. E em sendo assim, que lhes devolvam a cidadania e o respeito, em igualdade de condições: verde, amarelo, azul e branco. A nossa cor... Brasil!

sábado, 3 de outubro de 2009

Com a Vida nas Mãos





O aborto continua a ser discutido em todas as camadas da nossa sociedade, provocando debates calorosos e acirramento nos ânimos, de quem é a favor ou contra esse tema tão controverso.

Muito se tem falado sobre o assunto e várias são as razões pelas quais se busca um consenso. Debate-se o direito das vítimas de estupro, das gestantes com gravidezes de risco de morte e, ainda, daquelas em que há possibilidade da criança nascer com grave deficiência. Os que defendem a legalização invocam pra si, entre outros argumentos, o direito de escolha baseado no princípio da liberdade, arrazoado esse que encontra eco em boa parte dos que levantam a bandeira do aborto, como um direito inalienável de se dispor do corpo como melhor lhe aprouver. Afirmam que, descriminalizá-lo é tirar da clandestinidade uma prática que tem provocado problemas de saúde e morte, de um incontável número de mulheres expostas a toda sorte de procedimentos malfeitos, quando realizados por pessoas que não têm habilidade nem conhecimento específico para tal prática.

Ainda que pesem todos esses argumentos, os que lutam contra essa ideia alegam aspectos legais, éticos, morais e religiosos para proibir a sua legalização. Debate-se, por exemplo, o direito da gestante sobre o feto e a partir de que momento ele pode ser considerado humano ou vivo (se na concepção, no nascimento ou em um ponto intermediário). Discute-se a dor pela qual passa o feto durante o procedimento e as conseqüências psicológicas na vida da mulher. Põe-se abaixo, ainda, o argumento de que uma criança indesejada teria sérios problemas no futuro, uma vez que não se pode medir o que seria bom ou ruim na vida dela, se lhe tiram o direito de escolha, entre a vida ou a morte. E além do mais, alegam a favor do seu discurso que a vida humana pertence a Deus.

Por todos esses aspectos, percebemos o quanto é difícil nos posicionar, tendo em vista que o tema ainda será motivo de intensos debates, a fim de que se encontre uma solução que passe pelo respeito à vida e a preservação dos direitos humanos, que tenha na liberdade o seu maior símbolo. Enquanto isso, só nos resta esperar que o bom senso prevaleça para que, no futuro, possamos decidir, livre e conscientemente, sobre matéria tão polêmica.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cárceres da Vida














Se eu pudesse fatiar o tempo e transformá-lo em pequenos pedaços, certamente construiria uma bela colcha de retalhos, feita das minhas lembranças e tecida ao som dos acordes que encantaram a minha vida. Dirão alguns: mais isso é saudosismo! E eu respondo, é sim senhor!

Sou cria das águas da chuva, dos córregos, das árvores, dos contos de fada, do atirei o pau no gato tô tô e do tempo em que a palavra saudade era sinônimo de bem viver. Tenho as raízes da minha infância fincadas no chão batido das boas recordações e por isso vivo imersa em lembranças que não me deixam esquecer as brincadeiras que, hoje, veem à tona pelas lentes do passado: bastava o céu escurecer e lá estava eu, sorriso aberto abraçando a chuva que lavava o corpo e banhava a alma sedenta, das águas de março. Fui moleca de subir em árvores, telhados, de jogar com bolas de gude, de brincar de amarelinha, de venda, bambolê, esconde-esconde, casinha e outras atividades lúdicas que deram um colorido intenso ao meu viver.

Saudade é sempre um tema recorrente quando nos deparamos com outra maneira de viver a idade da inocência e da alegria: são crianças trancafiadas em casa, encarceradas na solidão dos apartamentos, privadas do exercício das descobertas e algemadas junto ao televisor, sendo induzidas pelo consumo desenfreado numa vida cada vez mais faz de conta. São infâncias roubadas, em nome da conveniência de adultos hipnotizados pela cultura do ter e vítimas da cegueira de um tempo que esquece de dar tempo e sentido, ao que é viver (...).

Estou sempre a me questionar sobre o futuro dessas crianças adultas, isoladas e solitárias. Em que vãos se escondem as suas almas infantis e em que época de suas vidas poderão algum dia, resgatar à infância perdida? A resposta talvez esteja andando por aí, de mãos dadas com as drogas, o alcoolismo, o suicídio e também, na solidão dos cárceres da vida adulta.