Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Arquitetura do Tempo









A minha memória é uma sala de espera cheia de significados. Nela, os baús emocionais acumulam-se.

São lembranças de uma época em que muita gente habitava dentro e fora de mim: as famílias, suas casas, seus quintais e suas histórias que se confundiam com a minha. Tudo era matéria de troco: afeto, ternura, carinho e um pouco de açúcar para adoçar a vida nos momentos de dificuldades. Havia no ar palavras e ações que se somavam ao gesto de viver: amizade, solidariedade, fraternidade...

Na arquitetura do tempo, eu desembrulho as minhas lembranças alinhavando-as em retalhos de saudades, enquanto os meus pés andarilhos caminham devagar, sem pressa, arranhando silêncios na tentativa de entender mudanças... Retiro das pausas das fotografias a alegria genuína de uma época feliz, mas sinto-me como uma ladra das horas, tentando usurpar uma felicidade com prazo de validade vencida...

Ainda assim, em minha sala de espera, as imagens em sépia se sucedem lembrando o passado. Perco-me nessa paisagem de lembranças, recordando famílias, amigos, amores, sonhos e projetos.

Havia, sim, muita gente dentro e ao redor de mim, lembrando-me que a felicidade é um sopro, um vento manso, às vezes imperceptível e que é preciso saber valorizá-la nos pequenos gestos do cotidiano.
Diziam-me: “Não a deixe fugir, não a procure longe de si. É dentro de você que ela cochila. Desperte-a!”
Deixo a sala, troco de pele, de imagens, de paisagens e venho para o presente...

Questiono o tempo, provoco, mas não encontro o quê comemorar. Apenas, um mundo novo, moderno, cheio de conquistas que estampam páginas de jornais e revistas, mas que não é suficiente para preencher vazios existenciais e dá uma resignificação para essa vida, breve e louca.

A ciência e a tecnologia deram um passo incomensurável em relação ao passado, mas nunca tanta gente se sentiu tão só, sem esperança e infeliz. O moço da carrocinha que antes entregava, em casa, pão e leite fresquinhos, hoje, entrega drogas e outras substâncias, delivery.

Embriagamo-nos de modernidade até nas relações afetivas... O que antes era para sempre, hoje, será eterno enquanto dure... O amor deixou no passado o “nós” para ser conjugado na primeira pessoa. Só o “eu” importa. Pedimos amor, mas não sabemos dá-lo. Vivemos uma solidão a dois, em casamentos de fachada, de conveniência, de interesse, onde nome e sobrenome de família e suas fortunas, contam mais que uma relação de amor, carinho, respeito e tolerância.

Corremos atrás de uma felicidade que há muito cochila dentro de nós e não percebemos, pois estamos ocupados demais em mostrar aos outros, o quanto temos de dinheiro, sucesso e poder.

E, nessa arquitetura do tempo, onde o ter vale mais que o ser, vamos deixando a vida nos levar de roldão, atropelando sentimentos, fumando vazios e bebendo solidão.


sábado, 1 de janeiro de 2011

Afinal, a que se destina a vida?






Essa, é a pergunta mais frequente que fazemos quando as dores da perda e do luto batem a nossa porta. Em geral, todos respondem: - o destino do ser humano é a busca da felicidade. No entanto, por que é tão difícil ser feliz?

Há quem diga que a felicidade está no caminho, na eterna procura... Prefiro pensar que ela é tão simples e corriqueira, e ao mesmo tempo tão sutil, que ao andar ao nosso lado sem fazer rumor, ignoramos a sua presença. E, fazemos isso, porque somos inábeis nesse quesito.


Queremos entre outras coisas: sucesso no trabalho e realização no amor. Dois grandes pilares que sustentam a nossa idéia do que é ser feliz, mas que são insuficientes para garantir esse estado, quando nos colocamos no centro do mundo e ignoramos as necessidades do outro. O outro, esse parceiro que também tem sonhos e merece respeito, atenção e carinho.

Vivemos sempre no entorno, esquadrinhando caminhos que nos levem até essa tal felicidade. Mas, desejamos que ele, o caminho, seja feito de espelhos, onde possamos ver refletida apenas a nossa imagem...

Quando vamos entender que ela é um projeto a dois quando se trata de intimidade e, abrangente, quando inclui o nosso convívio em sociedade?

Não dá pra ser feliz ignorando que o outro, não sou eu!

Sou eu, sim! Com os mesmos direitos, deveres e prazo de validade. Não sou filho único da vida! Por que, se assim fosse, um dia iria me perguntar:

Quem é essa que, agora, me assombra e se esgueira pelos cantos, querendo usurpar a minha alma? E, responderia:

- É a solidão! Triste companheira... Ausência que me faz perguntar:

- Afinal, a que se destina a vida?