Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 1 de setembro de 2013

O Dono do Tempo












Ele passa por mim, às vezes, como um vento manso acariciando o meu rosto, trazendo do quintal da minha infância lembranças que me são caras; outras, como uma tempestade, colocando a minha alma em polvorosa por não saber como detê-lo...

Ah, o tempo! Hoje, ele passeia pelas minhas memórias como um rio caudaloso. Memória, um lugar onde eu recolho lembranças de quem fui e do que me tornei ao seguir em bandos por caminhos que não eram meus.

A princípio, tudo o que eu mais queria era amor, carinho e um cantinho para botar os meus livros, meus discos e nada mais. Mas aí veio o progresso e a vida passou a fazer exigências, que me colocaram cada vez mais distante dos meus sonhos de menino... No quintal da minha infância a vida era tão simples e os afetos tão verdadeiros. Nele, eu costumava ouvir as batidas do meu coração, que era a minha bússola quando a vida me convidava a navegar por outros mares. Porém, o tempo passou e a modernidade tangeu, pôs em fuga as minhas fantasias de menino e, hoje, tudo o que eu escuto é o som do teclado de um computador no silêncio da noite.

Do quintal, do amor, do carinho, dos livros e discos só restam lembranças que se perdem na azáfama diária. Hoje, eu tenho pressa, pois o tempo urge! Preciso colocar a minha vida na mídia para que ela faça sentido. O que eu como, o que visto, aonde vou e com quem me relaciono, tudo isso me resume... E a minha alma segue faminta, apartada das coisas que verdadeiramente importam. Olho e vejo que já não há vida ao meu redor. Tudo o que vivo, hoje, é "teclavel".

Entro na minha casa e a sala de jantar está vazia. O sorriso, a viagem e o prato estão expostos no facebook, no instagram ou no twitter, entretanto a comida esfria e os olhos e ouvidos que antes estavam atentos, agora, se escondem para não incomodar a quem vive com tanta pressa e a quem colocou tantas cercas ao seu redor.

Então, eu penso: ah, como eu queria ser o dono do tempo e voltar ao quintal da minha infância! Deixaria essa solidão viajante pelas teclas do computador e olharia mais nos olhos de quem amo, antes que seja tarde demais...

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