Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Carta de Confissão












Uma nova carta está se desenhando, hoje, na alfaiataria de papel. As letras parecem pular saltitantes e felizes por que, enfim, deixam de lado o terreno das metáforas e das entrelinhas e assumem o comando semântico do vocabulário do amor.

Sem pudores e sem firulas eu confesso que amar não redimiu os meus erros, mas colocou à prova a minha capacidade de ser resiliente. Continuo a mesma menina impulsiva, apaixonada, esperançosa e entregue. Nada em mim mudou! Sou como uma rocha: estou sempre no mesmo lugar. Sou cais que acolhe e porto seguro para quem deseja desembarcar em terra firme... Ainda, hoje, beirando os sessenta e cinco anos de idade, olho-me no espelho e sinto um orgulho danado da paixão e do ardor com que se movem os meus dias. Vivo em estado de alegria e de esperança. Sou forte e aguerrida... Inteira! A cada decepção junto os meus cacos e me reconstruo em mosaico. Pedaços de mim lembram-me onde fui ferida e por quem, mas a plasticidade me ensina a lição da resiliência.

Então, eu reedifico o meu altar e rezo missa em minha homenagem. Tenho pena de quem me perdeu! E, antes que alguém me acuse de narcisista, eu informo: trabalhei durante muitos anos na construção do meu eu e aprendi a gostar muito da pessoa que me tornei, no entanto, não sou parâmetro, nem sirvo de referência para ninguém. Sou demasiadamente humana!

Houve um tempo em que gostar causava-me profundo sofrimento. Tinha o corpo em carne viva e o coração lesionado por causa disso, pois amar era uma parte da minha alegria e a outra era contar os dias para encurtar distâncias, porque alguém estava sempre de partida! E, eu, menina em flor, desejava o renascimento no seu corpo... Levava horas desenhando as letras do alfabeto com confissões de um amor rasgado, assumido. Eram páginas e mais páginas encharcadas do mais puro sentimento. Sentia saudades e, por isso, usava e abusava da semântica. As palavras tinham força e significado. Amar era verbo conjugado no passado, no presente e no futuro. Eternamente! Mas, foi tudo em vão...

Porém, hoje, mesmo depois de uma longa espera e de vários cacos espalhados pelo caminho, as letras continuam pulando felizes e saltitantes, bordando esperanças na folha de papel em branco. É que eu ainda vivo como um pássaro em voo, procurando sempre por certezas geográficas, para pousar e entregar o meu imenso amor a quem fizer por merecê-lo... Sou resiliente! E, além do mais, confesso: continuo com pena de quem me perdeu!

Um comentário:

Manu disse...

Como sempre um texto lindo e comovente, onde as emoções continuam ao rubro, em que a idade não apagou a sua capacidade de amar e agora sou eu que digo:- Tenho pena de quem a perdeu!

Beijinhos Julieta