Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

maio 12, 2010

Um Homem Singular






Aquele embrulho lhe pareceu estranho... Mas, ao lembrar do temperamento romântico e da delicadeza do seu amor, ficou em silêncio. Decidiu esperar! Conhecia bem a linguagem daquele olhar e, naquele dia, havia uma alegria incontida que contrastava com a serenidade dos gestos e com o tom suave da sua voz. Alguma travessura eles guardavam...

Não precisou esperar muito! Enquanto ela tirava fotos e feliz, comemorava o dia do seu aniversário, ele tirou um borrifador daquela sacola e começou a espargir água sobre o embrulho. E, ante o seu espanto, a revelação: ele havia trazido da sua cidade, um buquê de rosas vermelhas e durante todo o percurso, molhava as flores, para que elas não murchassem e perdessem a beleza. Cuidava delas com o mesmo amor, carinho e atenção que dedicou àquela mulher, por anos a fio.

Foi só então que ela se deu conta de quantos anos havia se passado desde a última vez que eles se encontraram e quão precioso era ser amada, assim, por aquele homem tão especial...

Um homem inteligente! Que tem respeito pelo tempo que passa velozmente e nos reduz a pó. Que sabe que as suas cinzas vão se espalhar pelos ventos e transformar vaidade, soberba, orgulho e poder em matéria para o caminhar dos que ficam... E por ter a noção exata de sua finitude e a emoção à flor da pele, vive o amor com a delicadeza e a sensibilidade que o sentimento exige...

Um homem singular! Que assume o seu querer, mas guarda-o no silêncio do olhar e na beleza das rosas...

maio 01, 2010

O Avesso da Mentira








Se é para viver, que eu esteja sempre inteira e se é para escrever, que a verdade seja a minha conduta.
Eu, pecadora, confesso: revisitar o passado, dói!

Pois ainda é tão presente a dor da minha saudade que durmo e acordo desejando a monotonia dos dias iguais, onde tudo é igualmente familiar, mas não causa tanto sofrimento.

É que, no momento, estou em fase de despedidas e cicatrizações e escrever me expõe em carne viva! Por isso, garimpo palavras que escondem o que sinto e brinco de enganar a dor. Troco de pele. Minto! Porque a mentira é a minha fortaleza e o avesso dela é a realidade desse amor que eu nego tanto.

abril 16, 2010

Licença Para Sentir Saudades








Pelas frestas da memória visito o meu estoque de recordações, faço um inventário das minhas saudades e penso: construir-me é um processo difícil e doloroso, pois a vida e as suas urgências tentam me ensinar a abrir mão de pessoas, coisas e lugares e eu não consigo.

Já faz algum tempo que, intimada pelo carinho dos meus filhos, resolvi fazer uma faxina em meus porões. Lá, encontrei um baú repleto de lembranças que me expôs o que chamo de minha pátria de intimidades. Nessa ocasião, remexendo em velhas fotografias, cartas de amor e pedaços de carinhos, pensei: na minha vida ninguém está de passagem e, por isso, em meus afetos também não há prazos de validade.

Como posso esquecer as pessoas que partiram encantadas pelo brilho das estrelas? E as outras que, acreditando nas promessas do porvir, permaneceram ao meu lado desafiando o tempo da esperança?

Como deixar de ouvir palavras alinhavadas em ternuras - antecipando carinhos - e sentir cheiros que ficaram guardados no sítio da memória?

Como não revisitar lugares que remetem a uma alegria escancarada, se em todas as minhas lembranças há sempre um rastro de felicidade?

Por tudo isso, parece que o meu destino é não aprender a dizer adeus, pois no enredo da minha vida não há um alvará de soltura para a saudade.

abril 06, 2010

Sessenta Anos







Preciso de tempo para desenrolar o novelo da vida, pois, no passado, gastei-o com coisas de somenos importância e agora ele me foge feito areia entre os dedos. É a ampulheta passando velozmente a cobrar as horas que me restam.

Este mês eu completo sessenta anos. Fisicamente, não coloquei silicone nem fiz retoques. Só na alma! Aqui onde as coisas realmente acontecem, eu fiz uma plástica. A minha está uma criança! Ávida por mudanças e com sede de conhecimento, ela passeia por caminhos onde a juventude, a pressa e o anseio por liberdade não pisaram. Os meus olhos outrora inquietos e o meu desejo febril, hoje, repousam na imensidão do mar, nas noites enluaradas e nas folhas de outono que caem lembrando que é tempo de renovação.

Sessenta anos e há pouco o que comemorar, pois a vida, de verdade, começa agora. Antes, era só um trailer! Pena que as horas sejam tão escassas para a criança, a jovem e a mulher que acordaram em mim. Uma trindade cheia de desejos e conquistas a realizar... Um trio cheio de boas intenções para se lançar ao desafio de viver sem mágoas, rancores e preconceitos de toda e qualquer natureza.

Preciso de um pouco mais de tempo para ousar o que ainda não fiz, mas ele se nega, zomba das minhas vontades, brinca com as minhas certezas e quando me dou conta, está partindo sem que eu possa lhe dizer o tanto que aprendi. Digo-lhe apenas que, hoje, é a época certa para fazer uma nova semeadura, mas ele desdenha e diz: - agora é tarde! E eu penso: Ah! Se soubesse do meu desejo por mudanças e quanto entusiasmo eu ainda tenho, talvez concedesse em atrasar os ponteiros do relógio só para me dar uma nova chance! Outra oportunidade para mudar as regras e virar o jogo da vida, que sempre começa quando está terminando...

Este mês eu completo sessenta anos, mas aqui dentro, onde as coisas realmente acontecem, estou nascendo agora. Plena de maturidade e querendo pôr em prática todas as lições que aprendi.

março 16, 2010

Por que escrevo?







Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora...

Gosto de ter as mãos cheias de letras e com elas, uma a uma, construir matéria de sonhos. Encanta-me o fato de poder manusear o alfabeto e com ele fazer escolhas de maneira lúdica. Não tenho, porém, a menor intimidade com as palavras, pois quando ouso falar elas me atropelam com a sua velocidade, distanciando-me das pausas e dos silêncios. Por isso, escrevo! Quem sabe, um recurso para disfarçar a minha timidez?!

Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco.

Há quem me acuse de saudosista e de viver no passado. Cobram-me até por vocábulos que se tornaram obsoletos e que eu os pronuncio. Dizem ser por absoluta incapacidade de abrir mão do que ficou pra trás. Não sei se isso é fato, o que sei é que ando sentindo falta de tanta coisa, que só brincando com as palavras consigo trazer para perto de mim, um pouco do muito que perdi para esse admirável mundo novo...

março 09, 2010

Os Caras-Pintadas





Existe um ‘Haiti’ rondando as nossas cabeças! Placas tectônicas em constantes atritos. Um espaço aberto para o lixo cotidiano dos jornais e TVs deitar-se em ‘berço esplêndido’ ou um convite para o despertar da consciência a nos pedir: ação?!

Por que será que não nos damos conta disso?
Dia após dia, de maneira escancarada, a realidade se apresenta aos nossos olhos pedindo um olhar mais atento para o que se passa ao redor... Fingimos que não vemos! E um vulcão adormecido em cinzas nos adverte: pagarás um alto preço por fazer parte dessa nação que, hoje, ignoras... É a consciência reclamando cidadania, ante a passividade e a inércia com que observamos a vida pública dos nossos representantes. Onde estão os caras-pintadas de outrora?


Imagem: Blog do Poeta Álvaro Alves de Faria

março 01, 2010

Saudades Engavetadas












Da varanda da sua casa ela espreitava o caminho. O seu olhar varria ruas e dobrava esquinas na esperança de que ele aparecesse. Contava as horas, os minutos e os segundos. Precisava da sua presença para amenizar a saudade que a consumia... De repente, como num passe de mágica, ele surgia em sua farda azul e amarela, trazendo nas mãos um amontoado de sonhos.
Era o carteiro, mensageiro de tantas ilusões!

Hoje, ao abrir o armário do seu quarto ela encontra palavras guardadas na gaveta. Pega-as e fica absolutamente entregue às suas lembranças... Pede emprestado à memória um tempo feliz e faz as pazes com o passado!

Já não lhe dói tanto ter amado sozinha durante todo esse tempo, pois a geografia do amor tem os seus acidentes de percurso e além do mais, nessa hora, uma colcha de retalhos feita de boas recordações lhe apazigua a alma aquecendo-a por dentro. Olha outra vez para suas saudades engavetadas; lembra do tempo passado, do carteiro, das ilusões e faz um inventário do seu amor! Reedita lembranças e pensa: “foi eterno enquanto durou.” Depois disso, fecha a gaveta, dá um sorriso e diz: agora eu estou pronta... Aceito! E começa a ser feliz outra vez...

fevereiro 22, 2010

Castanha e ameixa, por favor!








Insight na linguagem comum é como se fosse um estalo. De repente, uma ideia ou uma lembrança, que parece vir dos porões da vida, nos acorda pedindo um novo olhar sobre...

Por que não pensei nisso antes?! É a pergunta que fazemos nessa hora.

Pois bem, dessa vez a iluminação tem cor e sabor: castanha e ameixa, por favor! Esse é o pedido que ela sempre faz na mesma sorveteria que freqüenta há anos. E não é só isso! Têm outros hábitos que foram se instalando, lentamente, sem que ela se apercebesse: o mesmo caminho para ir e vir, o mesmo restaurante, o banco, a mesma marca de carro, a praia... Até um velho amor embrulhado para presente num papel já gasto pela poeira do tempo. Tudo igual! Não importa o tempo e as suas estações a sugerir mudanças. Ela engessou a vida, se fez estátua.

Castanha e ameixa o seu sorvete preferido durante décadas, foi o fio condutor desse estalo que ora se apresenta, pedindo soluções práticas e urgentes. Por que não se abrir para o novo mudando de cores e sabores, traçando outros destinos e fazendo novas escolhas?

São perguntas para as quais ela ainda não tem respostas, mas que já foram entregues ao tempo, para que a solução esteja muito mais em acordo com o desejo da sua alma e menos com o imediatismo que pontua as decisões baseadas em valores de referência, tais como: modismo, vaidade ou a “solidão do único cálice de vinho.”

Mudança é como carinho de mãe... Tem que ser espontânea, abrangente e alcançar o lugar aonde – ainda - não podemos ir...

fevereiro 01, 2010

Resposta ao Tempo







Não conto a minha idade pela passagem dos anos numa linguagem matemática, onde um mais um é igual a dois. Ela é a soma perfeita da alegria, do assombro e do encantamento que esbarram em mim, a todo instante, quando dobro as esquinas da vida.

Não tenho medo das rugas nem da flacidez da pele, tampouco do luar de prata que se espalha sobre os meus cabelos. Tenho medo é de deixar de viver, de não espreitar o que se passa lá fora e de não aquecer o que guardo aqui dentro: meus sonhos!

Foram tantas as mudanças e tão grandes as transformações por mim presenciadas, nesses anos passados, que ouso perguntar ao tempo se “ele se rói com inveja de mim porque sabe passar e eu não sei.” Continuo a sonhar os meus sonhos de menina... Ele – o tempo – só conta do lado de fora.

Por isso, se ainda me destinam um lugar nesse trem que eu chamo de vida, deixem-me entrar no vagão da frente, porque a criança que adormece em mim, ainda está dando os seus primeiros passos e não pretendo acordá-la para contar números. Além do mais, fazer aniversário é apenas um compromisso com a possibilidade de fazer a vida diferente e ser feliz todos os dias, não importa a idade.

janeiro 25, 2010

Fora do Ar






Um relógio parado, uma roupa que não cabe mais, um voo perdido que tento inutilmente alcançar, é assim que eu me sinto: fora do tempo! Caminho, hoje, por entre as ruas dentro de mim e só encontro o passado... É um museu de imagens, palavras e sons cheio de significados. Promessas de vida!

(...)

Lá fora, em meio ao burburinho que agita a cidade, a vida fervilha... Procuro placas indicativas do caminho para felicidade e não encontro.
Que tempo é esse que despreza a gratuidade dos bens não perecíveis: amor, carinho, ternura, compreensão e respeito? Que tempo é esse tão diferente do meu, aqui dentro? Acho que perdi a bússola, o guia, o norte, o rumo, a direção! Estou fora do ar, nesse presente, onde tudo é muito confuso, atropelado, incerto... Oba, oba... Descartável!

(...)

Olho para a época em que o tom das folhas é amarelado e um hiato em minha memória é permeado por odores de naftalina, e me convenço: estou à deriva no tempo. E isso, se deve muitos mais aos valores cultuados nessa vida apressada, em que até as palavras se tornam obsoletas, do que a adaptação que me é exigida por esse mundo moderno.

Por isso, volto para o meu estoque de saudades - museu de carne e vida - e deixo que o meu sorriso se prolongue enquanto o tempo desfila as suas lembranças... Estou fora do ar!

janeiro 16, 2010

Horas de Saudades






Podemos nascer de várias maneiras e uma delas vem carregada de significação: partir; deixar a casa, cortar laços e ter no olhar um passado. Essa talvez seja a forma mais dolorida. Abrir mão do colo, do conforto e da certeza do caminho seguro... Mas, que outro jeito há? Quando crescemos o suficiente não cabemos mais nos braços e regaços e a vida nos cobra vida?!

Partir para nascer. Processo difícil e doloroso: requer tempo, coragem e uma paciência que não se encaixa nas horas de saudades... É que, de repente, tudo dói... E uma avalanche de recordações torna desejável até a rotina dos dias iguais. Tudo aquilo por que lutamos perde a importância e nosso projeto de vida sucumbe diante do poder das lembranças. Vivemos uma solidão abissal!

O que fazer então, quando o sorriso e a alegria abrem espaço para a tristeza e o desânimo ou quando alimentar-nos só é possível com o sal das nossas lágrimas?

- Nascer de novo! Desabitar medos, vencer a hesitação e deixar o porto seguro. Esquecer a pouca experiência em prol de um novo desafio. Ser livre para fazer escolhas... Tudo isso requer coragem e decisão, porque partir de algum lugar, ainda que titubeando, é a única maneira que temos de reinventar a vida e fazê-la valer a pena.

*Para Gilberto, meu filho!

janeiro 06, 2010

Economizando a Vida









Viver e não ter a vergonha de ser feliz, dizia o mestre Gonzaguinha. Mas, onde encontrar a alegria se vivemos racionando até o próprio desejo de viver? Nunca a palavra contenção esteve tão em evidência como nos dias atuais. Restrita as preocupações que abalam o mercado financeiro e colocam em xeque a economia global, agora, ela também faz parte do cotidiano das pessoas, no que se refere à luta pela felicidade. Estamos economizando vida pelo medo de ser feliz.

De repente, o mundo, esse parque de diversões para uns e teatro de horrores para outros, parece desafiar os nossos limites, impondo-nos escolhas difíceis de se realizarem. Nesse momento surge a pergunta:
- E agora, como ficamos?
- Não ficamos, vivemos!
Vivemos para usufruir do doce sabor do inusitado que a vida nos propicia a cada instante, quando nos permitimos olhar para além dos nossos estreitos e limitados horizontes. Vivemos para entender que no espaço de tempo, entre o véu da noite e o raiar do dia, existem infinitas possibilidades e que, só vivendo, amando e aprendendo é que podemos extrair da vida a seiva que nos alimenta e faz crescer.

Existem pessoas para quem o mundo é um lugar inóspito e cheio de armadilhas. Não amam e não se deixam amar. Vivem trancafiadas dentro de si mesmas e se recusam a pedir ajuda pela impossibilidade de abrirem a mente e o coração. O medo da felicidade paralisa as suas atitudes. Vivem atormentadas, presas numa cadeira de rodas imaginária, em função da dificuldade de dizerem sim para o desejo de viver e ser feliz. São cadeirantes da alma. Não posso (dar, comprar, ir, fazer...) não tenho (tempo, dinheiro, coragem, saúde...) não quero (amar, gostar, visitar, compreender, ser solidário, compassivo...). Essas são defesas usadas por quem não admite que viver se tornou um fardo.

Em contrapartida, existem os atletas da alegria. São corredores de almas e corações livres. Vivem como se não houvesse amanhã, um dia de cada vez e com isso, usufruem o tempo de maneira intensa e verdadeira. Para esses, “viver e não ter a vergonha de ser feliz,” é um compromisso e uma atitude de quem descobriu que a nossa existência só vale a pena, quando dizemos sim. Sim para um convite inesperado, para o amor que chegou de repente, para aquela viagem não programada, para aquele trabalho desafiador e para todas as convocações que nos causam surpresa e nos tiram da rotina e da mesmice, devolvendo o brilho no olhar.
Dizer sim, é desafiador, é assumir responsabilidades, mas é o único caminho para a possibilidade de ser feliz. Fora disso, só existe uma vida mais ou menos... Triste, morna e previsível.

Em decorrência disso, precisamos abrir mão da nossa economia de vida estável, porém insípida, e largar as cadeiras de rodas imaginárias, que nos aprisionam e fazem sofrer.
Deixar a vida nos conduzir para além do limite dos nossos sonhos, é ter um passaporte para um destino ignorado, é correr riscos, mas é, também, a única maneira que temos de gastar o tempo que nos foi dado e ter a certeza de que ele valeu a pena.
Portanto, não economize vida. Viva! E não tenha vergonha de ser feliz!

dezembro 28, 2009

O Mito da Felicidade







A fábrica das nossas ilusões, quando éramos crianças, nos credenciava a dar largas à imaginação e lá, vestíamos a fantasia dos nossos sonhos. Bons tempos aquele, que nos permitia o ingresso em um mundo cor-de-rosa... Desde então, enveredamos pelas ruas das quimeras e nos quedamos a sonhar, sonhar e sonhar.

Que mundo utópico foi esse que construímos? E para onde vamos nesse momento de desconstrução?

-Ah! O nosso universo de utopias teve o seu nascedouro nas histórias infantis. Lá, onde as reticências imperavam e o “se” governava soberano, criamos um reinado de possibilidades e fomos, aos poucos, eternizando ilusões. Dessa época herdamos características que nos acompanham até hoje: a inocência, a boa fé e o desejo de ser feliz para sempre.

Pobres meninas sonhadoras! Criamos o mito do príncipe encantado e lhe entregamos a direção de nossas vidas, com a exigência de que ele nos fizesse felizes para sempre. Mas, ao despertar, encontramos um mundo real em preto e branco, para administrar e fomos obrigadas a nos despedir dos nossos devaneios.

Pobres meninos sonhadores! Perdidos, também, em seu mundo faz-de-conta, assumiram poderes que não lhes competia. E, agora, reféns de um compromisso que lhes confere status de super-homens, perdem-se na curva do tempo e atabalhoados não sabem como lidar com a incompetência de gerenciar sonhos, numa sociedade tão moderna...

Recomeçar talvez seja a palavra desse momento em que nos apercebemos apenas mulheres e homens humanizados. Deixar para trás velhos sonhos e abrir-nos para o novo. Nem príncipe nem princesa, nem super-homem nem Cinderela. Desconstruir imagens, mitos e perder poderes em nome de uma felicidade possível, onde não haja vencidos nem vencedores, talvez seja o caminho que nos conduza a um novo modelo de realidade: homens e mulheres companheiros inseparáveis em busca de autoconhecimento. Quando, enfim, isto acontecer, a nossa fábrica de ilusões terá as suas portas cerradas e nós estaremos livres dos sonhos que nos distanciam da realidade.

dezembro 05, 2009

A Luta pela Cidadania Feminina






Muito se comenta sobre o avanço que a mulher tem conseguido, na luta pela sua emancipação, em nossa sociedade. Acompanhando a história, vemos que antigamente o seu papel ficava restrito às funções domésticas e a obediência ao marido. Hoje, em pleno século XXI, celebramos grandes conquistas que beneficiam não só a nossa vida, como também, a da humanidade.

Ao enveredarmos pelos séculos passados, vamos seguir a trajetória dessa personagem feminina, que durante muito tempo foi vista por uma sociedade patriarcal, apenas como um instrumento reprodutor e propriedade do marido. Na luta para adquirir o direito de instruir-se, votar, participar ativamente da vida socioeconômica e de ocupar postos governamentais, temos como referência pessoas como: Nísia Floresta, Bertha Lutz, Betty Friedan, Simone de Beauvoir, dentre outras, cujas ideias foram decisivas para fortalecer a luta pela cidadania da mulher.

Ao lembrarmos o fatídico oito de março de 1857, em Nova York – "quando 129 operárias morreram queimadas por que ousaram reivindicar a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade" - devemos celebrar tantas vitórias quantas sejam necessárias para que, hoje, possamos dizer com orgulho: sim, nós podemos!

Podemos, neste século XXI, continuar a luta – iniciada por essas mulheres – por uma sociedade mais justa, onde direitos e deveres se equivalham no que diz respeito à igualdade salarial, ao acesso a cargos públicos, a uma maior participação na vida política do nosso país e, principalmente, na questão do constrangimento físico ou moral. Que a Lei Maria da Penha, um marco na luta contra a violência doméstica – nesta década - seja uma conquista que possibilite a abertura de novos horizontes na tão sonhada equiparação entre os direitos do sexo masculino e feminino, pois só dessa forma, caminharemos lado a lado, com respeito e admiração, não mais homens nem mulheres e sim, cidadãos.

Sendo assim, a emancipação feminina, fruto de uma longa caminhada no curso da história e uma luta permanente em busca da igualdade, será uma celebração que virá para atender a uma justiça social que se faz premente, uma vez que, como cidadã, nós contribuímos para o progresso socioeconômico e político da nação.

novembro 21, 2009

Afeto à La Carte



Se alguém nos pedisse a definição do amor em uma palavra, no sentido de encontro, aconchego e encanto, nós o convidaríamos a conhecer o lugar onde cores, sabores e cheiros se misturam para produzir o afeto à la carte: a cozinha.

Cozinhar é a forma mais simples e genuína de dizer: eu te amo. É a maneira artesanal de se distribuir carinho por meio dos alimentos. E nada melhor que aproveitar as cores dos artefatos, ingredientes e temperos diversos – que fazem parte desse ambiente - para criar aquela comida especial e homenagear a pessoa que amamos. É o amor entregue com açúcar e com afeto.

A essa altura, quem não lembra da cozinha de sua casa em tempos de festas: carnaval, páscoa, são joão, natal..., com seus ruídos, sons e cheiros reacendendo lembranças? Palco de tantas histórias engraçadas, de reuniões familiares acompanhadas de uma xícara de café e de um saboroso bolo de milho, macaxeira ou fubá. A cozinha reflete o calor, a ternura e a simplicidade de quem sabe receber com arte e carinho. É o afeto à la carte posto à mesa em sistema de gratuidade.

Nesse momento, vamos ao encontro da nossa memória afetiva e revemos cenas do mais puro amor: uma toalha de xadrez, pratos brancos sobre a mesa, um jarro com flores do campo, uma cesta de pães quentinhos, ovos mexidos, queijos, presuntos, bolos, biscoitos, tapiocas, sucos, leite e café; compõem o cenário de uma linda manhã de verão. Mais tarde, uma bela feijoada de frutos do mar, um feijão tropeiro, uma carne assada com macaxeira e manteiga de garrafa, uma boa moqueca de peixe, um baião de dois, virado à paulista, frango com quiabo e tantas opções quanto seja o desejo de agradar e fazer feliz a quem se ama. À noite, dispensando o luar e as estrelas, podemos jantar a luz de velas, sentindo o cheiro do café moído na hora, a velha canja de galinha a fumegar no prato, um cuscuz quentinho servido com queijo de manteiga e rodelas de inhame com sobras da carne assada do almoço. Tudo servido ao ponto: carinho, ternura, tempo e disposição de ver, ouvir e sentir o outro, na intimidade de um espaço, onde o riso solto, a alegria e a descontração, têm a difícil missão de adoçar o sal e o fel de cada dia.

Por tudo isso, sempre que alguém nos pede para falar sobre esse sentimento, lembramos da cozinha, ponto de encontro e encanto, espaço onde o festival de cores brinca de fazer inveja à beleza do arco-íris... Lugar para servirmos o amor com açúcar e com afeto.