Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

julho 08, 2012

Um Tema de Improviso





Sempre que eu encontro o meu professor de redação, ele desafia-me com os seus temas de improviso. Uma brincadeira que a esta altura não me rende sequer uma nota mínima. É que andei desbotando as minhas saudades. Mas, como recusar um pedido do querido mestre que ao longo dos anos ensinou-me a pontuar as minhas dores?

Refeita da surpresa de vê-lo, assim, diante de mim, ao acaso, não resisti à tentação e comecei a desfiar o meu rosário de queixas.

Ah! Professor, não me peça para acordar as minhas lembranças, pois elas, agora, são permeadas de reticências: daquilo que não fiz, do que não fui e do que não ousei.  Doem, em mim, as folhas do tempo que eu não vivi...

Queria um momento que fosse da minha juventude, para desafiar convenções, regras e preconceitos. Queria um instante apenas, para afrontar o destino que me fez covarde e submissa.

Ousar!  Essa é a palavra de ordem para qual eu nunca dei ouvidos. Arriscar-se, atrever-se, decidir-se... Desarrumar a vida e empacotar lembranças com cheiro de naftalina foi algo que não passou de um intervalo entre a minha vontade e o meu medo. Medo de não saber reinventar a existência dando-lhe um lugar para o imponderável.

Ah, como eu queria - no passado - ter a visão do agora, onde me descobri portadora de quereres e de desejos nunca antes experimentados. Uma pausa nos ponteiros do relógio seria suficiente para que eu inventariasse as minhas dores e decidisse: daqui pra frente tudo vai ser diferente... Mas, hoje, falta-me tempo e sobra coragem!

Por isso, como é finda a nossa conversa e só me restam duas “linhas”, termino a oralidade da minha redação, dizendo: até outro dia, professor!




junho 19, 2012

Rótulos e Prazos de Validade



O que me incomoda, poucos sabem, pois viver é transitar entre o que pensam de mim e quem realmente sou... Porém, posso afirmar que algumas atitudes me causam desconforto e, uma delas é essa mania que as pessoas têm de medir e aferir graus de importância à passagem do tempo como se a vida, a felicidade e o prazer pudessem ser medidos em números e tivessem garantia de qualidade, apenas, dentro dos prazos de validade a se vencerem aos quinze, dezoito, vinte e cinco, trinta anos ou um pouco mais que isso.

Quem disse que a vida, o beijo na boca e o sexo aos quarenta, cinquenta, sessenta e outros “entas” têm que ser contidos e comportadinhos a partir daí? E por que não podem ser tão interessante, intenso e apaixonantes quanto!? O que define a qualidade de uma boa relação?  Será o orgasmo do corpo físico, que se extingue em poucos minutos, ou o arrebatamento da alma que se reconhece nos olhos do outro, quando na mesma sintonia, dando-nos a sensação de plenitude? Essas são perguntas cujas respostas dependem da subjetividade de cada um.

De minha parte, não gosto quando alguém indaga: - que idade você tem? Ou há quanto tempo está sozinha? Pois reconheço o que está implícito na pergunta: rótulos! Há tanta coisa mais importante para saber sobre mim, como por exemplo: que eu tenho sessenta e dois anos, mas alimento a minha alma e o meu corpo, todos os dias, com uma curiosidade e uma alegria naturais às crianças. E, que a estas perguntas mais frequentes que algumas pessoas fazem sobre a passagem dos anos e da solidão, eu sempre respondo:

- Não tenho idade, tenho sonhos! E não gosto de quem passa a vida medindo, mas se isso lhe dá prazer, meça, pois enquanto você faz isso, eu vou ser feliz... Pode parecer grosseira, mas muito mais indelicada que a minha resposta é alguém – ainda que inconsciente - decidir em que momento a felicidade pode bater a minha porta e condicionar isto a um número no meu RG ou a uma data qualquer que indique se o meu prazo de validade está vencido!

Habitamos um tempo em que viver só é visto como sinônimo de frustração e incompetência, mas esquecemos de que viver sozinha não quer dizer solitária. Solitária são todas as pessoas que, engessadas no tempo, não se bastam nem assumem os seus desejos e, por isso, vivem numa eterna fila à procura de alguém que administre a sua vida dentro dos rígidos padrões, do certo e errado, como se o prazer e a felicidade tivessem dia e hora marcados para serem vividos em plenitude.

A essas pessoas eu digo: sou de amores longos; antigos. Daqueles em que os anos se contavam em respeito, cumplicidade e paixão... Muita paixão.  Não gosto de amores sem teto. Desses que a fila anda numa frequência tão assustadora que mal dá tempo de exercer ternuras e fazer carinhos. Incomoda-me esse caos interior que as pessoas abrigam dentro do peito e que as levam a uma corrida incessante e frenética, como se a idade ou o tempo pudessem ser empecilhos à conquista da felicidade.

Por isso, não me coloquem rótulos, nem prazo de validade, pois tenho por hábito ser feliz e viver o amor em qualquer tempo e idade... E, sempre!




junho 08, 2012

Segredos de Confessionário




No teclado, as letras fora da ordem alfabética, lembram-me o lúdico e, instintivamente, quero brincar com as palavras, mas olho para elas e, dentro do meu silêncio tagarela, penso: este é o momento certo para juntar-lhes as notas musicais dos meus gemidos e compor uma linda canção de amor. 

Porém, hesito, pois apropriar-me das palavras e assumi-las como senhora dos meus sonhos e dos meus desejos leva-me, inevitavelmente, a escrever segredos de confessionário.

- Será que estou pronta para fazê-lo, pergunto-me!? E, antes que a dúvida amordace novamente as minhas frases, deixo que as minhas mãos deslizem pelo teclado, libertando-as. Hoje, darei carta de alforria aos meus pensamentos. Vou revelar o meu segredo.

- Amei-o tanto e tão profundamente que esqueci de mim. Dediquei os melhores anos da minha juventude a uma esperança estéril, irmã gêmea do abandono ao qual me entreguei, quando, por minha livre e espontânea vontade, alimentei ilusões de poder reconstruir os caminhos por onde, um dia, desfilou o nosso amor de ontem.

Ontem, tempo pretérito, passado que não passa, pois ainda que lhe reconheçamos o cheiro de naftalina e a fragilidade dos sonhos, falta-nos o alicerce da vontade para admitir que: só é nosso aquilo que possuímos. E, eu nunca o tive. Faltou entrega, mas muito mais do que isso, faltou honestidade e atitude. Sobrou covardia!

Não lhe cobrei royalty por alimentar a sua vaidade com o meu amor, e sim, dignidade e respeito, pois não lhe bati à porta com um pires na mão, apenas amei-o em silêncio, por um longo tempo. Tempo que um dia se esgota sem arrependimentos nem mais saudades, pois venho descobrindo que gosto mesmo é de falar de amor...

maio 24, 2012

Manual de Sobrevivência




O velho manual de instrução estava ali ao alcance das suas mãos, mas ele desdenhava, olhava de soslaio, evitando comprometer-se. De que lhe serviam aquelas páginas gastas, fruto da experiência alheia!? Queria sorver a vida de um só gole, levantar um brinde a si mesmo e dizer: não dependi de ninguém!

Fonte de prazer e de orgulho foi gastando a frase até se deparar com a solidão, essa velha amiga de todos nós. Recorreu, então, às compras, à bebida e às drogas na tentativa de suprir o abandono ao qual se entregou.

(...)

Hoje, refeito das dores e com mais experiência ele diz:

- Vivo na contramão das coisas. Enquanto uns acumulam bens, serviços e honrarias, eu pratico o desapego daquilo que ao longo do tempo classifiquei como prioridade... Os meus passos outrora hesitantes se encaminham, hoje, céleres para o terreno fértil das coisas simples. Há tão pouco tempo para sentir! Que falta me fez um manual de instrução com as palavras amor e sabedoria em letras maiúsculas, no início do meu caminhar.

Ao nascer me foi dito que a conquista da felicidade era para os mais fortes, belos, sagazes e disponíveis para viver os prazeres da vida.  Orgulho, vaidade e ambição eram o trio de ouro que me levaria ao pódio. Dinheiro e poder o fio condutor para esse almejado lugar.  Ninguém mencionou as palavras amor e sabedoria! Essas, somente o tempo nos apresentou, apesar de conhecê-las por meio de alguns velhos clichês: só o amor constrói; e, dinheiro paga a conta, mas não traz felicidade. 

Vaidade! Tudo é vaidade. Está escrito no mais antigo de todos os livros. Por que será, então, que teimamos em não enxergar o óbvio? O que mais se vê por aí são egos inflados por letras mortas e palavras sem vida!  Buscamos honrarias, mas esquecemos de duplicar o conhecimento em favor do bem comum.  Viver é tão simples, ser feliz mais ainda, no entanto, investimos tempo e esforço naquilo que está distante de nós e esquecemos o amor, fonte de toda sabedoria!

Pensando nisso, lembrou-se do velho manual de instrução, que o amor de  mãe havia colocado em suas mãos para que as dores do mundo não lhe pesassem tanto e sorriu...

Afinal, a vida ensina!



maio 20, 2012

Atitude





Há algum tempo, o professor de redação pediu-me para dissertar sobre um tema qualquer e, naquele dia, nada parecia mais pertinente, pois eu sangrava por dentro.  Então, escrevi: - eu rasgo o verbo com o meu amor, abro um sulco nas minhas feridas e exponho as minhas cicatrizes, mas tomo uma atitude. Nascia ali, nas páginas da minha dor, a escrita mais sincera que alguém ousou colocar nas pautas de um caderno.

Sem preâmbulos, fui logo dizendo que em mim as palavras não adormecem, elas ganham asas e saem rumo ao seu destino. E, naquela hora, a direção era você. Cobrava-lhe uma atitude! Sim ou não era a resposta ansiada. Talvez, amanhã ou depois seriam frutos de sua indecisão... Não me interessavam.

Pedi-lhe um posicionamento, você respondeu-me com o seu silêncio e, mais uma vez, na ausência das suas palavras perdeu-se o encantamento do meu sentir: acabou-se o amor, diluiu-se o desejo e a minha admiração.

Já não lembro mais o seu rosto, esqueci a sua voz, o som dos seus passos e o perfume do seu corpo. Você não se encaixa mais nas minhas lembranças e, hoje, o passado só me serve para fazer poesia e brincar com as palavras.

Por isso, coloquei nos dedos a sua hesitação e com ela escrevi o tema. Tomei uma atitude e esqueci você!





maio 12, 2012

O Medo e a Vontade




Flavia, do blog "sabe de uma coisa?" escreveu: "(...) ainda não aprendi a manejar com destreza nem os sentimentos, essas pulsões ininteligíveis, nem a palavra, essa lâmina expurgadora (...) E não é que seja essa a minha vontade - essa é a vontade  do meu medo, da minha inexperiência em domá-las”. Por outro lado, o escritor Paulo Coelho nos diz: - “as palavras são a vida colocada no papel”.

Como ficamos então se o nosso medo é maior do que a nossa fome de palavras e elas são a vida descrita no papel?

- Ainda não sei, estou tentando descobrir. Porém, acredito que a vida de verdade é escrita no silêncio, pois o medo que nos leva a domesticar os signos é fruto, talvez, da total incapacidade das pessoas em traduzi-los e, por isso, nos fechamos nessa ausência de ruído.

O escritor Leo Buscaglia nos diz que há muitos tipos de símbolos. A linguagem oral – ou escrita - é apenas um deles. Diz, também, que as coisas mais lindas poderiam acontecer se nos calássemos.

Meditando sobre isso, nesse dia chuvoso, propício a lembranças e saudades, eu me pergunto:- por que será que quando calo a minha fome de palavras, tudo que me resta é a tua ausência e o teu silêncio? Será que a vida te dói tanto na alma, que preferes escondê-la das pautas do teu caderno domesticando os símbolos para não expor a tua nudez? Se tudo isso é verdade tenho que lamentar, porque como disse Leo, em seu livro, “Vivendo, Amando e Aprendendo”: “basta uma coisa muito, muito pequena para nos unir e, no entanto, estamos todos tão juntos, mas morremos de solidão”.
  
Lembro-me, agora,  da vontade e do medo de Flavia e desisto de buscar o entendimento. Opto por traduzir os sinais das páginas do meu silêncio, libertá-los e confessar sem receio: eis a minha vida e a minha alma expostas no papel. Sou eu em carne viva! Sou eu, ainda... Tua!




maio 06, 2012

A Vida em Pequenos Gestos



Em dias de temporal... Sou criança! As lágrimas do céu purificam-me deixando-me em estado de leveza e quietude. Deixo-me seduzir pelas lembranças e o meu avesso sai a passear com o adulto que eu me tornei. É a oportunidade que tenho de lavar a minha alma, de corrigir o meu percurso e de observar a vida em seus pequenos gestos.

Em dias de temporal... Sou menina! Desligo a TV, não leio jornais nem revistas, não quero saber da crise por que passa o mercado internacional, tampouco sobre a última cotação do dólar. Não viajo nem olho vitrines! Em dias de temporal... Já disse: sou menina! Pego a vida pelas mãos e saímos a passear por aí, procurando alguém de sorriso e coração abertos para alegrar o dia e apaziguar a alma.

A vida em flash de memórias convida-me a olhar lá fora e tal qual um filme em preto e branco revejo-a como ela é: uma sucessão de acontecimentos, uma roda gigante que não para de rodar, intercalando movimentos de subida e descida para nos mostrar que nada é para sempre; nem as tristezas nem as alegrias, somente as boas lembranças... Essas, sim, oriundas dos pequenos gestos, são as responsáveis por encherem os nossos dias de uma alegria inefável. 

Olho ao redor e me detenho a observar o vaivém das pessoas, que em movimentos frenéticos ligam á TV; leem jornais e revistas, apressadamente; acompanham as notícias do mercado cambial através da internet e certificam-se das últimas decisões do governo. Viajam e olham vitrines... Diariamente!

Então, eu penso: se tudo se repete e se a roda gigante em sua subida e descida nos faz enxergar as oscilações do nosso viver, por que será que não nos damos conta de que somos viajantes de uma terra onde a felicidade só se encaixa nos pequenos gestos? 

Nessa hora, desejo que um temporal desça sobre mim e lave a minha casa de dentro inundando espaços e porões, por onde as teias de aranha teceram certezas de que a vida é só essa repetição de fatos... Já não sou adulto! A criança que há em mim deixou-se seduzir pelas lágrimas do céu e descobriu a vida em seus pequenos gestos.

maio 01, 2012

Amor e Liberdade




Existem amores que carregam no peito o lema: sem jeito pra ser feliz! Entendem-se bem com a poesia quando derramam seus versos nas páginas em branco, mas não encontram espaço na vida real. Faltam-lhes as asas da liberdade, pois amar é morar dentro do outro sem tomar posse. 

O amor deveria ser uma casa de portas e janelas abertas, para que pudéssemos entrar e sair livremente. Uma casa de passagem onde a alegria do encontro, da cumplicidade e do companheirismo fossem responsáveis por retardar a despedida e, quando houvesse, que ela tivesse a medida do respeito e da admiração dos primeiros dias.

Mas não é isso que acontece, apesar de vivermos uma época em que a liberdade amorosa é tão cultuada. Há sempre nas relações atuais, uma porta cujo indicativo saída de emergência parece invocar a impermanência e, por ali passam a intolerância, a violência e o desamor. Queremos amar e ser amados. Falamos tanto sobre o amor, celebramos esse sentimento em cantos e em versos, mas o que prevalece, nesses tempos modernos, é um novo conceito de escravidão, onde se barganha a posse do outro em troca de um possível afeto. Afeto que está mais para jugo, subserviência e senhorio do que para o amor, pois quem deseja subjugar o outro desconhece a liberdade da alma e a sua capacidade de se doar livremente...

Desconhece, também, que quanto mais livre somos mais fazemos festa dentro de nós para celebrar esse porto seguro, que é dormir e acordar dentro dos olhos do ser amado... Eternamente! E, que essa, sim, é uma “escravidão escolhida” e, só por isso, tão importante e duradoura.

Por isso, estamos fadados a encontros e desencontros, enquanto não aceitarmos que tu e eu podemos ser uma equação feliz, a partir do momento em que reduzirmos às expectativas, em torno das quais construímos o nosso patrimônio emocional, a um único objetivo: à felicidade de morar dentro do outro sem tomar posse, pois o verbo amar para ser conjugado precisa de liberdade.

abril 13, 2012

Não Me Faça Doer Tanto





Vivo pelo avesso onde tudo é carne viva: desejo, saudade, tempo e solidão.

Os olhos da minha memória percorrem as dobras do tempo e, estupefata, concluo que a felicidade deve ser um lugar longínquo ou uma palavra inventada por quem acredita que tem a posse da eternidade e, por esse motivo, está sempre adiando a vida. Esquece que ela é feita de momentos e que não devemos perdê-los. Thoreau, já nos alertava sobre isso quando dizia: “Ah, Deus, chegar às portas da morte só para ver que nunca se viveu”.

Penso que aqueles que estão sempre adiando um projeto, protelando uma decisão ou deixando de fazer qualquer coisa que exija coragem, determinação e confiança em si mesmos dizem a mesma coisa. São os amantes dos tempos suspensos! Protelam a sua felicidade e adiam a própria vida e, assim, constroem muralhas em torno de si para se protegerem. Adiam a vida, sim, e quando a morte lhes ensina sobre o valor do tempo, sobre limites e finitude eles se enchem de tristeza pelas coisas que não viveram e dizem: ah, se... 

Vivo pelo avesso onde tudo é carne viva! E, em mim, tudo dói: o projeto de vida esquecido na gaveta, o beijo e o abraço que não dei, o encontro ao qual não compareci, os riscos que eu evitei por medo de sofrer, e tantas e tantas coisas; mas, principalmente, o amor que enclausurei por medo de ser feliz ou por incompetência de lidar com o imponderável... E isto, hoje, me leva a perguntar:

Tempo, tempo, tempo, que queres tu, de mim? E, quantas vezes mais eu farei essa indagação, mas evitarei ouvir a resposta somente por medo de tomar decisões, de traçar caminhos e de seguir? Quantas horas eu ainda perderei assistindo aos meus desejos se transformarem em poeira de estrada, de estrelas e de sonhos?

Em seu livro, Vivendo, Amando e Aprendendo, Leo Buscaglia nos alerta: “A vida é um banquete e a maior parte dos idiotas está morrendo de fome”.

Então, eu penso: morro a cada dia! Morro quando não digo que preciso de você ou quando tenho que decidir entre o sim e o não e opto pelo talvez, levando os meus passos e os meus sonhos para um futuro incerto. Tão poucas palavras, sim ou não, mas decisivas no meu percurso em busca da felicidade. Felicidade que eu coloco bem longe de mim, quando ajo dessa forma e, que um dia, quando a solidão for a minha única companheira me fará pedir: por favor, não me faça doer tanto!

março 25, 2012

Reescrevendo a Vida




Viver é escrever a sua história de próprio punho. É ser autor do seu destino...

Nascemos sem passado. Somos folhas de papel em branco, onde as pessoas brincam com as palavras e vão criando o roteiro da nossa vida. Nas primeiras experiências estamos absolutamente entregues, tal qual o barro nas mãos do oleiro. Sem reservas! O tempo, esse compositor de destinos, dirá o que prevaleceu na arte de escrever: se a onipotência ou a sensibilidade das pessoas que passam no caminho e deixam suas marcas impressas na nossa alma...

Debruçando-me, hoje, sobre as lembranças, acredito que a primeira opção é responsável por vivermos em constante rota de fuga para esquecer o passado. Isto significa dizer que, em determinados momentos, damos poder demais às pessoas e quando elas nos tomam de assalto a fé e a confiança, recomeçar se faz necessário. Nessa hora, é importante lembrar que sempre é possível reconstruir caminhos e agir de conformidade com essa canção: “começar de novo e contar comigo, vai valer a pena, ter amanhecido, sem as tuas garras, sem o teu domínio...”

Recomeçar, mas sempre com os olhos da memória voltados em direção aos nossos sonhos. Tendo conhecimento de que o amor e a felicidade estão mais próximos do riso do que do pranto e são escolhas nossas. E, ainda, que entregar a vida nas mãos do outro requer a maturidade e a sabedoria que só a passagem do tempo nos pode conceder. Por isso, não devemos abrir mão delas, caso contrário, estaremos voltando às páginas em branco e a inocência dos primeiros anos, permitindo assim, que escrevam o roteiro e ditem as nossas escolhas.

Precisamos saber, também, que em pleno século XXI a ordem do dia é ser feliz e isso inclui quebrar velhos padrões, pois, por mais que pareça clichê, a felicidade mora dentro e não fora de nós. Qualquer coisa que venha de fora é apenas um complemento ou, no máximo, um convidado a participar da nossa festa interior.

Dessa forma, podemos concluir que viver, viver de verdade, é reescrever a vida, mas de próprio punho. É reconstruir caminhos de acordo com os nossos sonhos. É começar tudo de novo, com garra, confiança, coragem e assumindo a autoria da própria vida.

março 19, 2012

O Que Aprendi Sobre o Amor




Na minha pressa em conhecer o amor, fiz um rascunho, um esboço, um desenho mal-acabado sobre ele e te inventei... Depois, saí de mim para buscar abrigo em ti. Que pena! Estavas vazio. Então eu aprendi...
Aprendi que a eternidade cabe ali, justinha, dentro do meu amor, pois gosto do para sempre, do cotidiano, de suas certezas e de saber onde me encontrar, quando estou fora de mim...
Aprendi que quando eu estou fora de mim é porque fiz morada dentro de ti. Sou a noite que abraça o dia e a alma que incendeia ... O amor que eu aprendi pressupõe convicção, estabilidade e segurança. Fora da materialidade! Nele, eu adormeço e acordo todos os dias, como no útero materno, e dele, tiro o meu sustento!
Aprendi que ele prolonga o meu sorriso para acolher a tua alegria, empresta a minha memória para os teus esquecimentos, faz minhas as tuas saudades e, com elas, cria uma colcha de retalhos para agasalhar os teus sonhos.
Aprendi, ainda, que é no meu corpo que ele procura abrigo para a tua ânsia de eternidade e, um lugar de acolhimento, onde a tua alma reconhece a minha... Aprendi, também, que quando estamos absolutamente entregues, numa relação, longe é uma distância que não existe, nem se ressente, nem se inquieta com ausências, pois amar é ir além da paixão e do prazer!
Por último, aprendi que amar é atravessar o momento da nudez. É quando a minha alma incendeia a tua...

março 06, 2012

Memórias do Olhar




Houve um tempo em que você sabia o significado da palavra amor. Bastava olhar nos meus olhos. Hoje, vira as sílabas pelo avesso, estuda a semântica, analisa dados, mas continua sem entendê-lo. Perdeu o hábito de ser feliz!

Faz parte do processo evolutivo do ser humano estudar a linguagem das palavras e buscar a sua significação. Mas, o essencial, aquilo que tem importância, não está na escrita e sim, no silêncio – aquele que fala através do olhar - embora poucos o compreendam ou lhe deem atenção.
Não importa o que eu diga ou escreva. Não se prenda a dados! Não me leve tão a sério! Estou apenas exercitando a minha liberdade de criar, de brincar com as palavras. Esteja atento, sim, ao que dizem os meus olhos, pois eles traduzem aquela nudez que eu não desejo expor, mas que escapa derramando a memória dos desejos que deixei guardados nas gavetas da minha alma.

Por isso, não desvie os seus olhos dos meus... Essa é a única maneira de você entender o significado da palavra amor. Quanto às palavras, esqueça-as! Elas não guardam saudades, tampouco desejos.

fevereiro 13, 2012

Grávida de Esperança










Um encontro casual, embora improvável, é o que desejam os meus olhos quando percorrem lugares, ruas, esquinas e, ávidos procuram por ti.

Quase meio século de sonhos e esperança a se derramarem pelos desertos da tua ausência... Tantas horas já se passaram desde a última vez que nos vimos e esse amor teimoso, enxerga a eternidade como um bebê e continua esperando, esperando...

Os sonhos da alma ainda transbordam no horizonte perdido dos meus desejos mais secretos. Os da pele? Ah! Esses perderam-se nas dobras do tempo, mas continuam vívidos e cheios de quereres.

Procuro por ti todas as noites, meu amor, e te encontro! Na minha fantasia dançamos, nus e sem máscaras, a mais bela canção de amor: a entrega. Então, grávida de esperança eu fecho os olhos da alma e o meu corpo fala... Tateando, exigente.

fevereiro 01, 2012

Nua! Sem Medo de Amar




Perguntaste-me outro dia: - Quem é você?
Respondi: - Se queres saber quem eu sou, despe-me e olha profundamente para o meu avesso. Essa sou eu. Nua! Sem medo de amar...
Não irás me encontrar na superfície ou borda, pois na aparência sou igual a todo mundo quando tento disfarçar o medo, a insegurança, o orgulho, a vaidade e, também, o meu amor. Procura-me ali, naquele cantinho escuro, porque perdida entre sombras e lembranças que se movem dentro de mim; encontrarás ternura, carinho, paixão, arrebatamento e paz. Essa sou eu. Nua! Sem medo de amar...
Perguntaste-me se eu ainda te amo. Respondi: - Voltarei a te amar quando me quiseres despida, transparente, diáfana, porque só assim posso ser tua... Sendo eu! Não me peças para querer-te quando me obrigas a esconder o meu avesso no labirinto das aparências, pois a única forma de me sentir viva e inteira é na liberdade de ser quem sou... Nua! Sem medo de amar...
Não satisfeito com as respostas, perguntaste-me o que realmente querias saber: - Ainda és minha?
Então, pensei, pensei e respondi: - Não, não sou... Tua!? Não! Pois quero-te também inteiro. Sem manhas nem artimanhas. Livre das aparências... Nu! Sem medo de amar...
Quero o teu avesso!

janeiro 20, 2012

Entre Números e Sonhos



Há um tempo que passa e, esse conta-se em números – é a juventude do corpo, que tem pressa porque vive aprisionado na ilusão dos dias... Há outro que também passa, mas esse conta-se em sonhos - é a maturidade da alma! É quando a bênção da idade madura põe fim à ansiedade, à urgência e nos liberta da censura e da escravidão dos números, fazendo-nos menos exigentes, mais reflexivos, pacientes, sábios e sonhadores.
Hoje, enquanto a passagem dos anos faz marcas em meu corpo e acrescenta-lhe um algarismo, desejo, razão e sensibilidade juntam-se harmoniosamente, para que a minha alma engatinhe no mundo livre dos sonhos. Nessa hora, eu faço um brinde à sua independência e vontade de ser feliz: sem amarras!
O meu olhar, a partir desse momento, passeia pelos dias absorvendo tudo ao redor. Nada escapa a minha retina... O brilho das estrelas não é apenas luminosidade, é festa para os meus olhos e o clic da máquina fotográfica não capta apenas o instante, ele registra a eternidade para a qual eu estou prestes a dar as minhas despedidas. Então, tudo passa a ter um sentido e um peso diferente. Aí, eu penso na minha juventude e relembro.
- No meu passado, tudo era motivo de frustração: fiquei infeliz porque perdi uma viagem, um emprego, um “grande amor”; fiquei triste porque rompi com o meu melhor amigo, mudei de endereço, de planos; e, entre outras coisas, fiquei depressivo porque não suportei o peso do adeus definitivo, o ser diferente e não saber partilhar a minha solidão. Orgulho, vaidade, soberba e poder foram heranças da minha juventude. E, agora, razão e sensibilidade são testemunhas da minha melhor idade.
Pouco importa, atualmente, se o vizinho tem uma casa, um carro ou um emprego melhor que o meu. Se a fibra do meu cabelo, a cor da minha pele ou a minha orientação sexual fizer a festa para os desocupados de plantão. Nem se deixo de sair nas colunas dos dez mais – ricos e famosos – tampouco se o meu português ruim impedir-me de sentar à mesa do chá das cinco...
Rótulos e etiquetas!? Estou dispensando, hoje, em nome da liberdade de ser feliz comigo mesma, pois tenho, dentro dessa alma que engatinha, – apesar dos anos - um manancial de amor, ternura e carinho que não envelhecem, nem se contam pelo uso.
Por isso, enquanto a minha alma caminha por entre números, eu festejo a sua maturidade brindando à vida, aos sonhos, ao fim das urgências e ao tempo que passa trazendo leveza, quietude, mansidão e sabedoria.