Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Carta para Rolando




Rolando,

A escritora Hilda Lucas nos diz, em uma de suas entrevistas, por ocasião do lançamento do livro, “Memórias Líquidas”, que: “a única maneira de alguém que perdeu um ente querido superar a dor é abraçar a vida com unhas e dentes, enfrentar a morte, olhá-la nos olhos, perder o medo de viver/morrer e ousar ser feliz de novo; senão, você reduz a morte daquela pessoa ao único acontecimento importante da vida dela. E quem viveu o suficiente para deixar dor, saudade e boas lembranças fez muito mais em vida do que apenas morrer”.

E, é por isso que, hoje, estamos reunidos aqui na Tertúlia Virtual. Vamos deixar de lado essa dor que não tem nome e sentarmo-nos à beira da fogueira, para juntos nos debruçar sobre as lembranças e, com elas, marcar a tua presença em nossas vidas, com alegria e saudade.

A morte é somente uma passagem para quem sabe semear afetos e construir ternuras, pois, daqui a algum tempo, poderemos até esquecer o teu rosto, mas ao tentar esculpi-lo, teremos no celeiro das recordações, a fonte perene que nos impede de esquecê-lo.

A fogueira que acendeste lá no “Entremares” é a mesma do Léo Buscaglia, do livro Vivendo, Amando e Aprendendo. Ali, ele nos diz que se não te importas com alguém, não perguntes como ele vai, mas se tens interesse, realmente, em saber como está essa pessoa, então senta-te e acende uma fogueira, pois na simbologia do teu gesto está a dimensão do teu amor e do teu cuidado para com o outro. E, foi isso que fizeste durante todo esse tempo, acendeste uma para nos aquecer, oferecendo-nos o melhor de ti...

Pois bem, meu amigo, embora sejamos, agora, tão menos sem ti, nos comprometemos a alimentá-la, para que nunca falte o calor da amizade, do carinho e da solidariedade, essa tríade tão necessária para que prossigamos com a nossa jornada nesse planeta Terra. Por ora, ainda dói muito a tua ausência, mas estamos pedindo ao tempo que passe célere, a fim de que essa dor se transforme numa saudade que, com toda certeza, vamos sempre gostar de ter.

Parte em paz! Pois daqui estaremos a brindar, sempre, e ao redor da fogueira, para lembrar de ti com alegria e saudades.
TIM, TIM.

PS: Esse texto foi publicado em Agosto de 2011 no blog Cartas de Julieta, por ocasião do falecimento de Rolando.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Resposta




Na quietude da varanda e, ainda, desembrulhando lembranças, ela esperava. Sabia que não devia, mas esperava... Longos dias se passaram. O relógio seguia arrastando os ponteiros, indiferente.

Havia prometido a si mesma não mais falar do passado, por isso não se atrevia a escrever sobre o sofrimento que lhe corroia a alma. A partir daquele momento em que escrevera a penúltima carta de amor, resolveu que traçaria a sua tristeza no silêncio e, em silêncio. Mas, esperava... O dicionário dos afetos que descobriram juntos, decerto, haveria de servir, também, para refrescar-lhe a mente, obrigando-o a remexer nas gavetas da sua memória.

Pensando nisso, não viu o tempo correndo lá fora. Ele contava ali dentro, no terreno da esperança e, sempre, devagar, quase parando, em conta-gotas que era para não destruir tão cedo as suas ilusões.

Trinta e sete anos se passaram, desde então e, só agora ela tomou coragem para perguntar-lhe: por quê?

- Por que ressuscitou da sua laje fria e remexeu no cadáver insepulto de um amor esquecido no tempo? Que prazer haveria de obter, ainda, para sua vaidade, saber-se amado apesar de...

É, meu amigo, você não respondeu e jamais responderá nem a penúltima, tampouco a última carta de amor. Faz parte do seu show! É o pedaço desse latifúndio a que você dá o nome de vida... Improdutiva, com certeza! Pois de afetos não cultivados pelo respeito e pela gratidão de se saber amado apesar de...

Um silêncio que fala foi a sua resposta. A última pá de cal sobre um amor que venceu o tempo, mas foi vencido pela insensibilidade de quem, da vida, só deseja o farfalhar dos ventos nas saias rodadas dos amores vãos.

Em todo caso, eu peço emprestada, novamente, as palavras de Carpinejar e termino dizendo: Não irei me vingar com as cinzas, arrancar as folhas que não combinam comigo, ou que me provocaram decepções. Não serei visto queimando fotografias, cartas e paixões numa lata de lixo, apenas porque não me servem mais. O que namorei vai me enamorar a vida inteira. Estará lá numa página definida, permanente, com a letra segurando as linhas”.

Todos os meus erros são esperançosos pela releitura”.