Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 15 de junho de 2014

Por isso, Eu Desisti do Amor












Tem dias que eu amordaço as palavras porque elas insistem em chamar teu nome. Nessa hora, eu vejo pelo espelho retrovisor e percebo que ainda tem muito sofrimento na nossa história, por isso eu desisti do amor.

Olho para a tela em branco do computador e penso em quantas vezes já escrevi, que tu eras uma página virada no livro da minha vida, para, logo em seguida, deixar que as letras do alfabeto me traiam e deixem explícito o que teimo tanto em esconder... Se a tela fosse uma folha de papel eu a rasgaria só para não ter de confessar, que as minhas frases se vestem de ternura toda vez que penso em ti e, que, nesse instante, a emoção me domina... É que o tempo atropela as horas e o que era dor vira saudade, pois não há como estornar as boas lembranças.

No entanto, um passeio discreto e silencioso pela galeria da memória traz de volta tudo o que passei e eu, enfim, redijo aqui a razão do fracasso do nosso amor de ontem.

Houve uma época em que eu fui cais... Sempre a tua espera. Cumpria a rotina das horas: vestia-me de chita durante o dia e guardava os melhores lingeries para usá-los à noite. Esmerava-me na escolha de bons vinhos, lia jornais e devorava livros. Queria ter assunto após o banquete do amor.

Durante anos, fui à luta e participei ativamente das manifestações populares do nosso país em busca de dias melhores. Lutei por cada centavo desviado dos cofres públicos e por melhores salários. Fiz boicote contra o preço do tomate e protestei, entre outras coisas, quando a conta de luz aumentou. Tudo isso, porque queria de ti o respeito e a admiração.

Dos velhos tempos dei um salto para a pós-modernidade e atualizei-me a respeito das mais novas tecnologias. Fui, também, a encontros literários, discuti sobre a política vigente, tomei ciência da economia do país e das recentes descobertas sobre os mecanismos da mente humana... Queria poder ajudar-te em teus conflitos existenciais.

Por meses a fio desvelei-me em cuidados e carinhos à beira da tua cama. Alimentei-te com a garra, o sangue e o suor da minha esperança para que tu não desistisses de viver... Reinventei-me! Fui tua mulher, tua amante e tua amiga. Fui teu colo e minha morte, pois me esqueci...

Quando, enfim, eu já havia feito de tudo um pouco para dar provas do meu sentimento, tu foste embora. Aí, eu pensei: - ninguém gosta de eternidade!

Por isso, eu desisti do amor.

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