Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 10 de março de 2015

De Frente para o Espelho















Ela olha para mim com atenção, porém eu percebo um indisfarçável ar de superioridade e de enfado. Tem pressa! Os passos longos e rápidos parecem me ordenar: vamos logo, a vida urge! Tem medo de que o tempo lhe roube algo, embora, não saiba exatamente o que é.

Altiva e vaidosa, tem o corpo como um troféu ambulante, cujo andar gracioso e ágil denuncia que as horas pontuadas pelo silêncio e contemplação estão longe, muito longe do percurso escolhido no presente. A sua alma, até este momento, não deu abrigo ao medo, à insegurança e as dificuldades do caminho, nem o corpo exibe as marcas dos dias que correm céleres e inclementes. Não há rugas, nem cicatrizes. Ainda não passou a vida a limpo e, por essa razão, em seus olhos não há tolerância, paciência, tampouco, compaixão.

Ela me confronta quando fala do passar dos anos, da beleza e da mocidade. Jardineira da esperança, diz que o seu tempo é outro e desdenha do meu. Fala-me de tecnologia e do avanço da ciência... Invoca para si o frescor de uma juventude plastificada e de um corpo esculpido nos corredores das academias da moda. Quando lhe pergunto sobre o amor e a amizade, uma tristeza líquida parece surgir em seus olhos, mas ela disfarça e tenta lidar com o desconforto das palavras, seduzindo-me com um discurso sobre a modernidade... Lembra de Vinícius e diz: "que seja eterno, enquanto dure".

Então, nessa hora de descuido, eu lhe pergunto: o que vê, quando se olha no espelho? Quais as suas lembranças de gaveta? Onde estão os seus afetos?

Um silêncio pesado cai sobre nós agora e, com a alma em desalinho, ela me desafia:

- Quem é você!? Coleciona saudades, por acaso?

Nesse instante, tomo-lhe delicadamente o espelho das mãos e respondo: eu sou você, ontem. Porém, de mim, o tempo nada roubou. Coleciono lembranças que possuem valor pela sua raridade nos tempos modernos e marcas de expressão que contabilizam histórias vividas.

Ela me ouve sem interrupções e depois se afasta em passos ligeiros, tentando esvaziar as horas. Tem pressa para chegar, embora não saiba bem, aonde.

Então, eu caminho em passos lentos e me posto de frente para o espelho. Nele eu vejo refletida a imagem da menina que ainda sou. O tempo atropelou as horas, mas ela está ali, bem viva, dentro de mim. Em um lugar onde as rugas e cicatrizes não alcançam nem causam danos.


Um comentário:

Manu disse...

Um belíssimo texto como sempre.
O despertar de consciências, a lúcida realidade de quem passa pela vida com a consciência do que é , do que foi, e do que deseja, sem medos, sorrindo e sem arrependimentos. Em contrapartida há quem não pare para se ver ao espelho e continue sua vida repleta de futilidades e no fim o que resta?
Que nunca o tempo nada lhe roube e continue a ser a pessoa bonita que é.

Beijinhos Julieta