Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 6 de março de 2015

Final Feliz


 









Em 2014, estive próxima da "indesejada das gentes". O céu de novembro, apesar do verão, parecia uma xícara de porcelana a tingir de cinza os meus dias... Porém, quando o rufar dos tambores anunciou a chegada do ano de 2015, eu fui contemplada com algumas folhas a mais no calendário gregoriano e a natureza exibiu sua mais linda paleta de cores, como se estivesse a desejar-me as boas vindas. De repente, o passar das horas estava sendo oferecido em parcelas iguais para que eu usufruísse, novamente, tudo o que 2014 ameaçava retirar: a minha vida e os meus sonhos!

Naquela altura, eu consultei o acervo da memória e dei liberdade para que o pensamento corresse sem rédeas deixando, dessa forma, que o meu destino fosse selado nos bordados da imaginação. Pensei: - preciso olhar para o que foi vivido sem ter medo de reinventar a minha trajetória e/ou essa é a oportunidade de estrear uma nova vida?

Naquele momento, depois do susto, algo estava me tirando do lugar, da zona de conforto e pedia, com insistência, que eu revisitasse o porão da minha alma. Alguma coisa me dizia que ali havia percursos a serem corrigidos tanto em manhãs de silêncio e quietude, como em tardes de temporal. Ainda marcada pela dor, pelo assombro, diante do inesperado, com dúvidas, inquietações e, sem despertar para as possibilidades não cogitadas, eu continuei indagando:

- A minha vida sempre foi muito morna... E, os meus olhos pouco acostumados a novidades e a deslumbramentos... O que fazer agora com essa possibilidade de reconstruir o caminho? Ou será que daqui por diante tudo deverá ser diferente? Naquela hora, lembrei de quem eu era e de que maneira deveria me desconstruir, se quisesse ter a minha iniciação nas coisas nunca antes provadas...

O rufar dos tambores ainda ecoava em minha cabeça como uma saudação efusiva pela vitória contra a “indesejada das gentes”, no entanto, algo me dizia que eu precisava mudar e, com certa urgência. Nada mais seria como antes... Os passos sempre ausentes da agitação dos dias, da efervescência das noitadas, dos encontros e desencontros, dos amores passageiros e das muitas viagens e festas perdidas, reclamavam por uma nova postura: precisava me libertar do cotidiano e da vida morna para estrear outra forma de viver.

Com essa ideia martelando na cabeça deixei os dias fluírem sem dar muita importância aos apelos mundanos e, só tempos depois, fui consultar o meu coração: um lugar onde razão e sensibilidade se digladiavam. Havia revisitado o porão da minha alma e constatado que a soma de afetos recolhidos pelo tempo me autorizava a começar uma vida nova, pois nada nem ninguém era tão importante que não pudesse ser esquecido... Será? Perguntei-me.

Então, de súbito, no sítio da minha memória se redesenhou uma imagem e um desejo atemporal: viver um grande amor! Lembrei-me do passado, das coisas e pessoas que havia deixado para trás e dos sonhos abortados. Naquele instante, eu desisti das possibilidades não cogitadas e de estrear outra forma de viver. Pensei: - vou continuar reconstruindo caminhos. Quem sabe, um dia, ao brincar com as palavras eu possa escrever... Final Feliz!

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