Não sei se ando nostálgica ou se os passos que me levaram àquele velho armazém trouxeram o passado para o presente. O fato é que, dessa visita, resultou saudades que me acompanham desde então, trazendo indagações para as quais não tenho respostas e nem sequer consenso. Onde está a felicidade? No passado, em seu tempo de calmaria e passos lentos, ou na vertiginosidade do presente com as suas conquistas efêmeras?
Perdida nos meandros do caminho, entre o velho armazém com seus penduricalhos e odores - reacendendo memórias - e as urgências da vida moderna, eu recorro as minhas lembranças... Volto ao tempo das cadeiras nas calçadas, da cumplicidade com o amigo-irmão, do sorriso afável do vizinho, com seu olhar e ouvidos atentos, a convidar-me para um “dedo de prosa” e da suave brisa noturna a embalar os meus sonhos de um futuro promissor. Quanto aconchego, simplicidade e paz, sob um céu de brigadeiro a cintilar estrelas em noites banhadas de luar!
Este é o quadro que ora se apresenta em seu tom de sépia e vai esvaecendo lentamente, à medida que o hoje se afigura, impondo o seu caráter de urgência, lembrando: o futuro chegou!
Ah, o futuro! - felicidade prometida, terra de Canaã! - eis que ele chega como um vendaval, a varrer poeiras de estradas, estrelas e sonhos. Quantas coisas e tantos afetos mudaram-se das minhas lembranças (...). Mas, em compensação que conquistas e belas vitórias conseguimos em todos os campos de atuação: no trabalho, na saúde, política, economia... E quanto de tudo isso, resultou em melhor qualidade de vida para todos nós?
Pensando bem, temos aí o passado com o seu significado e importância atrelados a valores, laços e vínculos que tão bem nos faziam e o imediatismo que reina hoje, junto com a vaidade e seus súditos. Todos os dias o novo fica velho e a alegria da conquista cede espaço para novos inventos, provocando distanciamento nas relações pessoais. E se por um lado temos avanços na ciência, na tecnologia e em tantas outras áreas; já não há cadeiras, nem calçadas e amigos, para abarcar tanta solidão. O progresso urbanizou também os relacionamentos e, agora, já se pode “prosear on-line”, basta digitar: www.tenhopressa.com.br e as relações, em tempos de gripe suína, ficam mais assépticas. O amigo-irmão de antes, o vizinho prestimoso e aquele velho sonho de tudo se ajeitar, se transformaram em poeira do tempo. Hoje, somos movidos pelos desejos e prazeres efêmeros... Tudo flui... Tudo é descartável, mas o progresso continua... .
E a felicidade onde está?
Na quietude da solidão abissal que se espalha por espaços, onde antes morava o riso e a alegria, eu teço lembranças. O fio condutor dessa trama é a síndrome do ninho vazio. E agora, José? O que fazer com os meus braços que, de tão poucos abraços, pendem inertes e vazios? E do silêncio que desafia as horas tornando eternos os minutos que passam?
O tempo, sempre ele... Algoz! Sorri das minhas saudades umedecidas, faz pouco caso da solidão em que me encontro, e acha graça no poema que entôo, para afugentar essa dor que tem nome: meus filhos!
"Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?”
Tinha razão o poeta Vinicius, quando cantou em versos todas as agruras que iríamos passar, a partir do momento em que decidíssemos acolitar os primeiros passos desses pequenos seres que colocamos no mundo. E, também, Chico Buarque, quando escreveu: “o tempo passou na janela e só Carolina não viu...” É, ‘Seu Chico’, ele passou voando por entre mamadeiras, brinquedos, adolescências, livros e becas, e eu, debruçada na janela, distraí-me vendo a banda passar e não me dei conta que o tempo urgia.
E agora, José? É a pergunta que me faço todos os dias, quando as lágrimas substituem o riso e constato que “naquela mesa tá faltando ele(s) e a saudade dele(s) tá doendo em mim.”
O que fazer com tanto amor, tantas lembranças e esse espaço vazio? Respondo: - Para saudade, recorro às palavras tentando minimizar a dor das ausências, e para o amor, faço a expurgação do egoísmo, libertando-os para a vida: sigam os seus caminhos, meus filhos! O amor que sinto é maior que eu, e tem gosto de liberdade... Tomem as suas asas, se elas não lhes forem suficientes eu empresto as minhas e, de quebra, lhes ofereço a minha coragem de amar e deixar partir. Sejam felizes! Eu estou bem.
No dia 22 de novembro de 2008, escrevi aqui o texto “Minha Casa, tem história!”
Nele, coloquei a minha alma e as minhas lembranças...
Hoje, ao abrir o site da Tertúlia Virtual, lá estava ele – o caminhão de mudanças – de novo, a me despejar dos meus sonhos.
Ah, meus amigos, decididamente vocês não sabem o quanto me fizeram feliz. Eu estava ‘sem-teto’ e, aqui, encontrei abrigo. Obrigada!"Minha casa, tem história!”A minha filha, preocupada com a minha segurança e o meu bem-estar, verbalizou dessa maneira o seu receio:
- Minha mãe, venda esta casa! Ela ficou espaçosa demais para você, depois que saímos.
Respondi-lhe no ato:
- Filha, a minha casa é um país dentro do meu país. É a minha pátria de intimidades. Ela tem cor, cheiro, som, passos e lembranças. Ela tem história! ... E se me tiram o chão, eu me torno estrangeira de mim mesma.
Ela ainda tentou argumentar, mas foi vencida pelo peso das minhas lembranças.
Disse-lhe eu: Triste é o homem, que não cultiva suas memórias!
- No passado, morei em outra casa, por força das circunstâncias fui obrigada a deixá-la e até hoje, depois de tantos anos, o caminhão de mudanças continua estacionado no mesmo lugar. É que uma menina de olhos tristes e lágrimas silenciosas, vendo-se sem saída, indagou ao motorista: - moço tem espaço aí para levar os meus pertences?
Ele respondeu: - tem, pode ir buscar. Ela, então, olhou-o bem dentro dos olhos e pediu-lhe que a ajudasse a transportar às suas lembranças. Aqui estão: a minha infância, e a felicidade correndo no meu corpo de criança, sorriso fácil, abraçando o mundo. Tem o pé de cajá – cobrindo de amarelo o chão, na madrugada - a goiabeira de onde recolho os frutos quando abro a janela do meu quarto, os pés de pinha, de groselha, de abacate e de mamão. E ainda, o flamboaiã amigo, onde instalei um balanço de cordas para recolher das nuvens, o algodão doce das minhas fantasias. Tem a horta com o verde das alfaces, coentros e pimentões lembrando-me a cor da esperança, e o tomate em seu tom vermelho, dizendo-me que em breve será tempo de paixões. Ah, não posso esquecer o jardim com suas rosas, dálias, cravos e margaridas. Como é bonito ver o orvalho da madrugada depositar as suas gotículas sobre as flores, e sentir o perfume que delas emanam misturando-se na manhã seguinte, ao cheiro que vem da cozinha. E, como é alegre a cozinha da minha mãe e doce a sua figura, a mexer no tacho de canjica, a costurar as pamonhas, a assar o milho verde, preparar a tapioca fresquinha e um delicioso bolo baeta, sempre, acompanhado de uma xícara de café. Tenho, ainda, passeando sobre as minhas memórias, o cheiro da galinha de cabidela, do cozido inigualável, dos famosos bolinhos de bacalhau, das rabanadas e dos perus assados no forno, ajudando-me a lembrar dos sons.
O crepitar do fogão à lenha é um espetáculo à parte: lembra-me o meu tio Chico e os seus fogos de artifícios nas noites de São João. A fogueira acesa provoca o calor que nos aquece, nessa época em que o vento frio anuncia que a canção da chuva vai tocar em nossos telhados. Um som de piano, e as minhas tias Marluce e Laice a dedilharem canções de amor, noite adentro; só interrompido quando o canto do galo já se faz ouvir. Nessa hora, os passos suaves de mãe Julia se aproximam e ela nos diz que a manhã já se avizinha, desejando-nos bons sonhos.
O beijo de boa noite, agora, seu moço, tem gosto de saudades. Os contos de fadas e todas as fantasias que povoam o meu mundo infantil, com seus jogos e brincadeiras, pedem socorro: Por favor, ajude-me a transportar as minhas lembranças! Tem espaço aí?
O homem olhando-me entre lágrimas, disse: - menina, essa mudança eu não faço por dinheiro nenhum! A sua casa tem história. E partiu, deixando o caminhão estacionado para nunca mais voltar.
Era em lugar escuro e acolhedor que ela o escondia. Alimentava-o todos os dias de sua própria seiva e extraía da vida a alegria, a coragem e a garra, transformando tudo isso em um manto de proteção, para envolvê-lo nas noites frias e tempestuosas.
Gostava de saber que ele estava a salvo dentro dela! Concentrada em protegê-lo por dias e meses, numa eterna vigília, ela esqueceu de si e até mesmo do tempo! Lembrou-se, no entanto, do arqueiro... Sabia que ele a usara com um propósito e aceitou, com orgulho, a sua missão, embora soubesse que, no futuro, teria que pagar um preço alto por esse acordo.
(...)
Um belo dia, ele - o arqueiro - flecha em punho, arremessa-a para tão longe quanto dá a potência do seu arco. Ela então, substitui a alegria pela dor e chora, aliás, ambos choram: ele porque perdeu o acolhimento, o abrigo, o refúgio das dores do mundo e ela por saber que, a partir dali, nada mais pode fazer a não ser acompanhá-lo em sua luta titânica, para se transformar em um ser humano decente, num mundo de tantas adversidades...
E hoje, cerram-se as cortinas, o seu papel acaba ali. Devolve-o para o mundo. Esse era o pacto com o arqueiro.
A partir de agora, nasce você, meu filho, pra vida! Morro eu, mãe...

Um cheiro de terra molhada, aroma de comida caseira e um som nos leva ao passado e faz aflorar as nossas emoções. O tempo alterou o relógio das horas e aos nossos olhos a paisagem mudou, mas para o coração o arrepio da pele ainda é a linguagem das lembranças que não querem partir.
De onde vem o cheiro, o aroma e o som que revolvem memórias e plantam saudades no terreno das recordações? Vêm de lugares longínquos e das ruas que, até hoje, passeiam dentro de nós com seus odores reacendendo a velha chama das emoções perfumadas: é uma chuva miúda que molha a grama e desperta o perfume da terra trazendo um arco-íris em forma de jardim; é um fogão à lenha desenhando carinhos e cuidados em gestos cotidianos, que alimentam, afagam e vão deixando uma fragrância no ar capaz de refazer todo um caminho de volta, num momento como esse, em que as saudades esquecidas estão em repouso no baú dos tempos perdidos; é um som de acordes melancólicos que misturados ao crepitar da madeira abrasam o corpo frio, pois um inverno de saudades faz chover no coração. São as recordações que chegam e partem, redesenhando emoções.
O tempo que a tudo transforma alterou a paisagem, mas a fonte das nossas lembranças é inexaurível. Dentro de nós há um livro aberto repassando páginas, recontando histórias e trazendo à tona, fatos e personagens que resgatam um pouco da nossa vida e do passado... Gosto de olhar para essas folhas, em seu tom de sépia, e sentir o ar carregado de uma fragrância que envolve e encanta. São memórias cinzeladas em nosso coração perfumando o ambiente e o arrepio da pele, é a tradução da linguagem do corpo respondendo ao que ficou esculpido em nossa alma. Basta um cheiro, um aroma ou um som e nós viajamos para o mundo encantado das emoções atemporais...
Quando me vem essa pergunta à mente, lembro das pessoas que dizem que o seu lugar no mundo é a porta do aeroporto e que não se sentem parte integrante de local nenhum. Nessa hora, penso em mim e nas tantas mudanças que fiz e me pergunto o porquê de tal afirmação.
Tem gente que percorre quilômetros e quilômetros por estrada afora, mas se recusa a fazer a maior de todas as viagens, a única capaz de libertá-la desse sentimento de inadequação: uma viagem ao interior de si mesma. E enquanto isso não acontece, vive sempre de mochila nas costas sem saber, ao certo, qual o seu endereço no mundo. Viaja e leva junto às coisas materiais a sua mudança interna de afetos e sentimentos mal resolvidos, numa eterna andança pra direção nenhuma. Por isso, quando lhe perguntam onde se sente em casa, não sabe o que responder. Mais um entre os nômades da solidão!
Pensando nisso, lembro das várias viagens que fiz e respondo sem pestanejar: o lugar que me faz sentir em casa é dentro de mim e isso independe do local e da situação. A minha casa interior levou muito tempo para ser construída, mas as suas paredes são sólidas o suficiente para abrigar todo e qualquer tipo de mudança. Aonde quer que eu vá levarei a história que construí em minhas andanças pelo mundo e um pouco de cada canto, por onde passei. É dentro de mim que estão fincadas as raízes dos meus afetos e o abrigo que eu chamo de lar.
Em virtude disso, posso afirmar que estou sempre em um lugar confortável e seguro, pois não viajo para me encontrar... Estou sempre dentro de mim e é aqui que me sinto em casa.
Imagem autorizada por:http://www.floresdopantano.blogspot.com/
A nossa passividade ante a miséria humana nos torna cúmplices de um crime: a omissão. Até quando o silêncio da nossa indignação abafará o grito da nossa consciência?
Num entardecer feito de sonhos, onde o outono – ante-sala das lágrimas do céu – executa no ar o balé das folhas secas e nos remete de volta ao passado, eu aquieto as minhas dores visitando o antigo porão. Lá, adormecida em um velho baú e distante das garras do efêmero, guardei a minha coleção de saudades: são cartas, fotos e pequenas lembranças, miudezas de um tempo que um dia sonhou com a eternidade.
O vento frio que açoita a minha alma, neste momento, abre a janela do meu coração e eu me rendo diante da evidência de uma saudade tão teimosa: é você outra vez, povoando os meus sonhos juvenis. Tenho em mãos o velho baú e dentro dele reminiscências de nós dois que, uma a uma, vão assumindo o controle do meu pensamento, abastecendo de alegria, de emoção e de sorriso - o mesmo sorriso fácil que naquela época espelhava a nossa felicidade – os meus dias atuais.
Vivo assim, imersa em saudades e, por isso, quando a solidão me visita não me encontra despovoada. Em terreno fecundo plantei boas recordações e no meu sítio de memórias a colheita é sempre abundante. Aqui, nos espaços interiores onde caminho silenciosamente e as ausências são mais sentidas, faço-me peregrina das boas lembranças e transformo o meu cotidiano em um novo celeiro de felicidades.
Ela estava ali, novamente, diante dele. Já havia feito as pazes com a menina que fora, mas alguma coisa restara para apaziguar dentro dela. O que seria, perguntou-se, e olhou outra vez para o espelho. Foi então que se deu conta: uma chuva de prata banhara os seus cabelos e ante a exigüidade temporal que lhe rondava os dias, fez a si mesma mais uma pergunta: qual é o tempo do amor, ou seja, até que idade lhe é permitido amar?
O espelho que mostrava a imagem de uma garota feliz que amava os Beatles e os Rolling Stones e cuja vida era feita de sonhos refletia, também, uma mulher cujo ideal de felicidade não arrefecera. Ela continuava igual, os fios prateados e as auroras não dormidas - que lhe marcavam o rosto-, não a impediam de ver e sentir a vida como se a juventude ainda lhe fosse presente. Precisava, pois, reconciliar aquelas duas pessoas que habitavam dentro dela porque sabia, por certo, que uma delas teria que partir. A sociedade que lhe impunha vetos, que determinava o limite dos seus sonhos e da sua capacidade de amar, que lhe ditava regras e lhe colocava mordaças; não haveria de perdoar-lhe a ousadia de manter-se jovem, antenada e feliz, num mundo onde o império do efêmero transformava tudo e todos, em peças de museu, em um curto espaço de tempo.
(...)
Pensando nisso tomou uma resolução: a partir de agora irei celebrar o cotidiano sempre, amar de novo e com maior intensidade ‘como se não houvesse amanhã’, pegar as rédeas da minha felicidade e, com ela, sair por aí, tomando banho de chuva, de rio, de mar, escrevendo em suas areias um poema de amor à vida. Irei possuir o desejo pelo insaciável e com ele vivificar a minha existência até o fim dos meus dias.
E sendo assim, quebrou o espelho e fez em pedaços a sua carteira de identidade. A partir daquele momento, ambas, menina e mulher teriam a idade dos seus sonhos... E saiu, “caminhando contra o vento sem lenço e sem documento.” Feliz!
"Você irá passar 10 anos numa pequena ilha deserta no Pacífico, e só poderá levar cinco coisas ou pessoas.Quais seriam?".
Eu levo:
Os políticos corruptos,
Os traficantes de drogas,
Os pedófilos,
Quem promove o trabalho escravo nos dias atuais e
A prostituição infantil.
Depois disso é só rezar para que o lema da nossa bandeira, “Ordem e Progresso”, faça jus a nossa cidadania, e que eu encontre um barco para voltar porque ninguém merece uma vizinhança tão incômoda.
Constata-se a existência do preconceito racial em muitas partes do mundo porque algumas pessoas ainda não entenderam que a roupa da alma não é a pele, que na sociedade atual, onde predominam tantos avanços e conquistas nos direitos humanos, não há espaço para o vilipêndio do homem pelo próprio homem e que é premente uma releitura dos erros do passado, para que não incorramos em mais um retrocesso na história da humanidade.
Vivemos uma época onde não há espaço para idiossincrasias que nos levem a ignorar que os homens se vestem pelas almas e que nelas, residem a força e a fortaleza capazes de modificarem o mundo.
Na atual conjuntura, onde o homem que é forjado na ânsia pela liberdade de ser - de expressar-se livremente - não reconhece cor, raça nem fronteiras senão o que lhe falam os ditames da sua consciência de cidadão livre, não se admite que nenhuma lei ou decreto possa distinguir o ser humano dos seus pares, sem que atraia para si a revolta e o menoscabo de uma sociedade civilizada.
Ninguém desconhece que se lançarmos um olhar em direção ao passado, haveremos de concluir que avançamos muito em direção à conquista dos direitos humanos e resgatamos parte dos nossos erros históricos, mas feito uma chaga ainda estão por aí, as conseqüências de anos de obscurantismo político e cultural. As feridas abertas pelo regime do “Apartheid” que negava aos negros os seus direitos políticos, sociais e econômicos, ainda se fazem presentes na África do Sul e a voz do ex-presidente Nelson Mandela, apesar de ecoar em nós até os dias de hoje, não nos redime da culpa de continuarmos, hipocritamente, fingindo que o preconceito racial não existe e que não segregamos as pessoas em função da cor da sua pele.
Por tudo isso, só nos resta admitir que mesmo diante da luta e do progresso de um homem e do sonho de muitos, ainda temos um longo caminho a percorrer para que possamos assistir a uma sociedade mais justa e mais igual, onde não haja fronteiras nem de cor nem de raça, e onde as futuras gerações estejam livres dessa chaga que tanto nos envergonha.
Feito nuvem de algodão doce a brincar com os meus sentidos, a tela do computador me convida a escrever sobre as saudades que venho acumulando ao longo dos anos. Hesito por saber-lhes românticas e, por que sei que logo vão lhes dar nomes, endereço e carteira de identidade. Mas, como resistir ao convite se vivo submersa em lembranças de um passado ainda tão recente.
Gosto, sim, de escrever sobre o amor. Coleciono saudades. Misturo lembranças de amores vividos com fantasias, e assim, componho os meus sonhos. Porém, não há destinatários para as minhas palavras de amor a não ser o próprio amor. Ele, e somente ele, tem a chave perdida dos desejos secretos, para cuidar dos meus devaneios dando-lhes abrigo, acariciando o meu coração em noites de tormenta.
Portanto, não ousem jamais atribuir nomes as minhas saudades, porque de verdadeiro só existe o que sinto, o mais são trocadilhos de palavras que os incautos se apropriam para saciarem as suas vaidades.
Ele está ali, parado, convidando-me para um encontro. Recuo porque tenho medo e pergunto-me: será que eu estou pronta?
Ela, a menina em mim, diz que não, a mulher responde sim! Ambas carregam, em seus corações, esperanças... E duelam entre si.
Imóvel em seu canto, ele nos espreita a espera de confissões. Quem dará o primeiro passo, parece se perguntar. E ela, até então hesitante, diz: quem é essa que agora me desafia, propondo mudanças e remição para os meus pecados?
Amei sim, e fiz do amor meu projeto de vida. Colori os meus dias com sonhos românticos desafiando os costumes da época. Dei mais de mim do que deveria, ignorando as regras do jogo e da conveniência, ousei cantar em versos esse sentimento por dias, meses e anos, embrulhando-o para presente e colocando-lhe o selo da eternidade. Desafiei o tempo plantando esperanças, tentando salvar o amor, mas o relógio da vida não me deu trégua. Foi um sonho, apenas um sonho e nada mais.
E agora, diante dele e de seu silêncio respeitoso, ela se esvazia de todas as saudades para deixar que a outra fale por si.
-Não me reconheço mais, diz a outra. E voltando-se para ele – o Espelho - diz: acaba de nascer uma nova mulher... Eu! Eu que de mim gosto tanto, coloquei o amor para dormir até que alguém que realmente o mereça venha acordá-lo. Quiçá faça como na canção do Caetano: “venha nos restituir a glória, mudando como um Deus, o curso da história, por causa da mulher”.
E, sem isso, nada feito... Cresci! E a mulher, em mim, disse sim... Mudei! Fiz as pazes com a menina que fui, até então, diante do espelho.
Certas pessoas já nascem etiquetadas e com prazos de validades vencidos. Carregam a inapetência pela vida e se deixam consumir pela pulsação dos dias iguais, como se viver fosse um fardo. Seus traçados são em linha reta e a sinuosidade das curvas que tantas surpresas nos causam, não faz parte do seu viver, por isso trazem, em seus semblantes, as marcas da tristeza, da amargura e do luto.
Conviver com elas é navegar em noites de tempestades, é deixar esvaecer a nossa alegria, para dar lugar ao encadeamento de suas desgraças.
São chamadas de almas penadas porque vivem em completo estado de expiação e temem que, a alegria e o contentamento possam usurpar a remissão dos seus pecados. Planejam a sua vida como um filme preto e branco, feito de desertos, sofrimentos e com um fim presumível.
Quem não conhece uma pessoa assim?
- Elas são vorazes, sugam as nossas energias, alimentam-se do nosso deslumbramento pela vida, e depois, desconcertam as nossas certezas numa tentativa de levá-las a escorrer pelo ralo. São sombras que se abrigam em centelhas, por não terem luz própria.
Ainda bem que, para contrapor a essas criaturas, temos as almas margaridas. Quão belas são!
Seus desenhos são feitos de curvas, que falam de possibilidades... Possibilidades infinitas de fazer, acontecer, dar certo a essa vida cheia de manhas, sôfrega em nos propor desafios para além das nossas combalidas forças.
Alguém conhece uma pessoa assim?
- Elas flamejam por que são feéricas e ao seu toque, tudo se faz vida, alegria e certezas. Iluminam e a sua luz reverbera em nós tornando-nos melhores. Desconhecem o egoísmo, a inveja e a maldade. São dádivas na vida de quem as possui como companhia. Por isso me faço peregrina nos campos e jardins à procura de almas margaridas.
Preciso despoluir-me...
*Este texto é uma homenagem a Nina Sena: cronicasdeumameninafeliz.blogspot.com
*E a menina Beatriz Menéres, pela imagem da margarida
O meu amor não tem passado, nele só existiu você em mim e isso fez toda a diferença.
O meu amor não tem presente, nele as dores ainda se vão.
O meu amor não tem futuro, nele só o passado resiste e este, é feito das minhas lembranças esfumaçadas...
Preciso de um amor que não doa!