
O telefone toca e o silêncio é invadido pela música "As Time Goes By", trilha sonora do filme "Casablanca." Do outro lado da linha, um terrorista emocional desafia as horas que passam e nada diz, nada fala encastelado em seu silêncio.
Chove lá fora. Da janela do meu apartamento vejo o mar recebendo as lágrimas do céu. Aqui dentro, também chove: lágrimas de saudades! Mas, de onde elas vêm? Procuro no arquivo das minhas lembranças e não encontro nada, nem ninguém que as mereça. Tenho olhos de saudade e uma dor agônica quando percebo o entardecer dos meus dias e vejo o quanto me entristece esses amores vãos e esse vaivém que não arrepia a pele da alma. Tenho olhos de saudade, duas páginas em branco sobre algo que nunca vivi: a plenitude do amor... Não sei lidar com um afeto que não se expõe e que silencia quando a minha fome é de palavras e de carinho.
Quero alguém que diga a que veio, pois como um andarilho profissional já caminhei por países e cidades distantes à procura deste sentimento e não o encontrei, a não ser no mar profundo do meu querer. E é dele que emerge o desejo de viver com essa pessoa que eu tanto espero e que fica silente, enquanto eu roubo dos dias a fantasia de um possível encontro e deixo guardada na janela dos meus olhos a imagem desse amor crepuscular.
O telefone toca, novamente, e eu, que habito o mundo dos sonhos sem teto ouso dizer:
- Meu amor, por onde quer que você ande, venha, a porta está aberta. Mas, venha sem medo e sem receio dessa entrega que só os corajosos e bem- resolvidos são capazes. O pó do tempo já deve ter-lhe ensinado que a vaidade e o orgulho com que exibe os seus troféus e as suas conquistas amorosas de nada mais lhe servem nessa época em que a solidão cobre o mundo...
Sei que somos todos vítimas da vontade de roçar nos amores vãos e suas bocas carmesins, contudo, para além da embriaguez do momento existe o êxtase de saber-se amado por inteiro... E, é em nome desse sentimento que eu confesso: ando com os olhos cansados de sentir saudades. Eles saem por aí percorrendo ruas, esquinas e avenidas à medida que o meu corpo suado e exausto pede arrego a essa busca frenética para recuperar o tempo perdido...
Não me deixe esperar mais! Por favor, fale! Minha alma, minha primeira pele, aquela que arrepia por dentro, espera por você desde sempre. Venha!
Há dias assim, como hoje, em que eu me sinto sufocada...
São dias escarlates onde tudo em mim é desejo e provocação. O tinteiro sobre a mesa se deixa derramar sobre a folha de papel em branco e o vermelho rubro das minhas letras vai deixando entrever o tango argentino da minha paixão.
Dentro de mim, negociando prazos e me consumindo lentamente, alguém pede passagem... Liberdade! Reprimo porque sei dos danos e das convenções, mas diante da insistência solto-a e ela ganha às ruas num misto de prazer, alegria e gozo. A fera está solta! Sou outra mulher...
Um par de sapatos vermelho e uma taça de vinho na mão ensinam-me a engolir a noite. Quero beber a tua ausência, saciar o meu desejo e depois... Ah! Depois eu canto ao teu ouvido: “ se acaso me quiseres, sou dessas mulheres, que só dizem sim”...
É carnaval! De longe, de muito longe, ouço alguns acordes de marchinhas antigas: “Quanto riso! Oh, quanta alegria!" Somos mais de mil palhaços a chorar a morte dos nossos sonhos na avenida.
A fome, o desemprego, o abandono e a dor vestem as suas fantasias e seguem pelas ruas cantando o samba enredo de um povo, enquanto, nas alas palacianas, o bloco da saudade providencia pão e circo, para que o rei momo continue a brilhar.
São três dias de entorpecimento... Pobre nação! Arlequins e Pierrôs tristes e sem esperança desfilam pelas vias com a máscara negra da desilusão, ao som de “mamãe eu quero mamar”, música executada pelos rufiões do povo... Mas, de repente, eis que chega a “quarta-feira ingrata, tão depressa, só pra contrariar”. Já não há leite para tantos! É hora de colocar o bloco da saudade nas ruas. O período eleitoral está chegando. Que venham às urnas!
“Quanto riso! Oh, quanta alegria!”

Quando, um dia, eu não estiver mais entre vocês, por favor, não me rendam homenagens. Quero-as, em vida! Não esperem pela última pá de terra, para falar sobre seus amores.
A vocês, hoje, eu peço um pouco do que lhes dei a vida inteira: paciência, tolerância, perdão, compaixão e renúncia. Amor, carinho e ternura também fazem parte do pacote. Afinal de contas, ninguém vive só de leite materno... Não, por favor, não me digam, novamente, que não pediram para nascer. Eu, também não! Mas estou aqui, firme e forte, fazendo aos outros aquilo que gostaria que fizessem a mim.
Peço-lhes, ainda, encarecidamente, que não me chamem de perversa, cruel e mesquinha quando, na tentativa de formar cidadãos decentes, eu negar-lhes algo; nem sintam repulsa por mim quando me virem estendida no leito, doente e solitária, pois, um dia, eu já os vi assim, doentes e solitários, e, na ocasião, me doei inteira...
Quando a última pá de terra descer sobre o meu caixão, não sintam por mim – eu não estarei mais aqui – e, sim, por vocês... O tempo, esse juiz magnânimo para uns e padrasto para outros, irá desenhar o caminho que vocês irão percorrer e, a mãe vida, essa senhora do destino de todos nós, trará de volta todos os gestos e palavras de amor que, ao longo dos anos, vocês me negaram. Aí, vai doer não mais em mim...
Finalmente, quando um dia, eu não estiver mais aqui, não chorem por mim. Apenas, leiam o que escrevi... E, se nada disso fizer sentido, não se preocupem. A vida se encarregará de ensinar-lhes o que precisam aprender, pois o tempo é, e sempre será, o senhor da razão.

Olho para o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto os sonhos...
Em meu voo, pelos dias da maturidade, penso no tempo, essa areia que escorre por entre os dedos e nos rouba as mais belas horas de nossas vidas... Solto a imaginação e vou à procura da "natureza recém-lavada" dos meus sonhos juvenis. Vejo que nada mudou, apenas acrescentou-se mais um número no calendário da minha vida. Um "relâmpago de fulgor extraordinário" continua a iluminar o adiantado das horas, como se o ponteiro do relógio fosse pródigo em retardar o meu destino de ser feliz, apesar da passagem do tempo. Então, eu me pergunto:
- De que me vale um relógio na parede, com seus ponteiros austeros indicando que a vida está passando e que a terra dos meus sonhos vem sendo calcinada pelos dias que correm? Ah, certamente ele, o relógio, em seu movimento solitário tic... tac, tic... tac, não compreende a linguagem dos sonhos... Sonhos, não têm idade! Em um minuto vêm e vão sem fazer perguntas, sem saber de cronologias. Mas, o tempo impiedoso, em sua pressa de chegar, só quer saber de rituais de despedidas, com os seus pores do sol anunciando, diariamente, a morte do dia. Ele nem sabe como é bom viver apaziguada com os mistérios da vida e suas inesperadas reviravoltas, que independem da matemática dos números e da tirania das horas, que seguem indiferentes e alheias a nossa vontade.
Olho o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto sonhos... Um poder estranho e arrebatador me invade e me faz reconciliada com os meses que passam. Tudo está em seu lugar: o marcador das horas e eu. Ele segue ensimesmado em seu controle sobre o tempo e eu, perdulária perpétua, esbanjo a vitalidade das minhas fantasias e, asas estendidas, alço voo em direção ao futuro que me espera com um largo sorriso de felicidade.
Ah, o tempo! Ele sabe passar e eu não sei... Impiedoso, triunfa sobre as minhas carnes acentuando as minhas rugas, mas a minha alma se rebela e eu sigo... Vitoriosa! Contando os sonhos e aproveitando o dia.

Há dias em que estou assim... Sem chão! Uma tempestade emocional coloca em polvorosa o meu coração e me vem um enorme desejo de voltar ao quintal da infância, para resgatar aquela menina sonhadora que sempre fui e que anda perdida nas páginas da vida, escrevendo um texto que não é o seu. Nessas horas, ouço os sussurros da minha alma e viajo por cenários que a borracha do tempo vem tentando, em vão, apagar.
Então, olho para a tela do computador e lembro-me da frase: - “A Pessoa É Para O Que Nasce”, título de um filme - do diretor Roberto Berliner - sobre a vida de três irmãs com deficiências visuais, que residem no interior do nordeste brasileiro e ganham a vida cantando nas ruas.
Não vi o documentário, mas a expressão em negrito fez aflorar o meu desejo de ser quem sempre fui... Desejo que se contradiz com o que as pessoas esperam de mim e, até mesmo, com o que, às vezes, pressionada por cobranças internas, também, quero.
Tomando como ponto de partida o título do filme, eu sinto vontade de ir aos recônditos da minha alma, onde hospedo as palavras mais doces e ternas, para tirá-las do seu anonimato, assumindo, sem pudores, que nasci para ser exatamente assim como sou: uma romântica incorrigível, daquelas que ao menor sinal de que a canção da chuva vem produzir os primeiros sons na janela do seu quarto, já se deixa derramar lânguida na tela do computador e sobre a cama dos seus sonhos.
Porém, ao longo dos últimos anos, venho tentando construir com as palavras uma personagem, que destoa de mim quando estou nos bastidores da minha alma ou nas coxias do meu silêncio. Nessas horas, eu me pergunto:
- Quantos de nós ousamos viver de acordo com os ditames do coração? Quantos de nós somos capazes de seguir, de nadar contra a correnteza da opinião alheia? Quantos de nós temos legitimidade para segurar a bandeira da liberdade e dizer: essa sou eu!
Vivemos em uma sociedade onde seguir em bando dá segurança, apesar de gerar frustrações que se propagam pelos anos afora, provocando uma corrida desnecessária aos laboratórios farmacêuticos. Somos uma “metamorfose ambulante” buscando um lugar ao sol para aquecer o inverno da nossa alma, mesmo que isso implique em anular a nossa essência...
Por isso, ao olhar para a tela do computador e lembrar-me da frase escrita acima, aproprio-me de um trecho da letra do cantor Raul Seixas para escrever: “Eu quero dizer/ Agora o oposto do que eu disse antes”:
-“A Pessoa É Para O Que Nasce”... E, eu serei sempre uma romântica incorrigível.

Uma folha de papel em branco sugere infinitas possibilidades de se reinventar a vida. Olho-a, sinto-me intimidada e, ao mesmo tempo, poderosa.
Quanto poder tem a vastidão de uma folha de papel em branco e um lápis na mão... Sou dona do meu destino. Faço as minhas escolhas. Os meus olhos, cansados da mesmice do cotidiano, procuram por novas paisagens. Partir tornou-se um verbo de urgência. Recomeçar é uma necessidade imperiosa.
O ano mal começou e apesar do meu desejo por mudanças, ainda sinto-me presa por fios invisíveis que me conectam a todo o momento com pessoas e lugares dos quais eu quero fugir.
Pauso o lápis e o pensamento sai em disparada atropelando as palavras, que insistem em colocar ordem no caos do meu dia a dia. O velho e o novo se digladiam na arena dos meus desejos mais secretos. Reticências ganham contorno em minha viagem pela folha de papel em branco: são as lembranças, o passado, o velho... Um baú que eu carrego cheio de sonhos esfarrapados.
Mas, o poder do lápis sobre o papel insiste em desenhar outras formas de viver. Então, um impulso me leva a estender as asas da imaginação e eu me lanço em um voo cego em busca de novos horizontes, deixando para trás pessoas, palavras e versos de amor amassados pelo tempo.
É hora de reinventar a vida.

O convite é irresistível! O ano de 2014 e todo o seu porvir está amanhecendo. Pelas frestas da memória se esvaem as lembranças de 2013. Quantas coisas poderiam ter sido feitas de outra forma, tanto no ano que termina quanto nos anteriores? Quantos instantes perdidos!? As imagens, em seu tom de sépia, vão surgindo lentamente e a vida passa feito um desfile de escola de samba, enquanto nós e essa mania de ser museu, resistimos.
Neste momento, vamos desfazendo os bordados dos dias passados e recolhendo os fios com que tecemos a malha do nosso destino. Então, pensamos nas escolhas que fizemos e tropeçamos nas palavras tentando fraudar o cotidiano, em vez de corrigir os nossos erros... Dizemos: quem sabe amanhã, na próxima vez ou no ano novo! Este é um recurso que costumamos usar para fugir da verdade, quando ela se apresenta diante dos nossos olhos.
Retalhos de uma vida inteira são lembrados, nesta hora, à medida que a nossa imaginação vai costurando o bordado das nossas dúvidas em letras maiúsculas: E, SE TIVÉSSEMOS AGIDO DE OUTRA MANEIRA!? Perguntas como: por que e o porquê tomam forma dentro de nós exigindo desculpas ou justificativas que não temos mais... E o tempo, em sua inexorabilidade, vai passando como antes, até que a sabedoria nos alcance e possamos responder pelos nossos atos e por nossas escolhas, sem esperar que, ao raiar de um novo ano, sejamos apresentados, com fogos de artifícios, a uma vida nova. Pois, como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade: - "É dentro de nós que o Ano Novo cochila e espera desde sempre".
Portanto, desejo que em 2014 possamos, sim, saldar o homem antigo que existe em nós. Antigo, mas sábio o suficiente para não dizer: - Feliz Ano Novo e fazer tudo velho outra vez.

Há pessoas que não sabem voltar. Perdem-se no caminho... Eu sou uma delas!
As linhas, na folha de papel em branco, parecem dançar na minha frente, ansiosas pelos desenhos da minha imaginação. Uma suave ondulação semelhante aos movimentos da linha e da agulha vai dando forma ao tecido, que ora se apresenta diante dos meus olhos. É a alfaiataria dos meus sonhos costurando as minhas letras, neste momento em que a emoção passeia por lugares longínquos em busca do tempo perdido.
Enquanto os meus olhos, hesitantes, passeiam pela folha de papel, os meus dedos cheios de ternura e de saudades teimam em escrever parágrafos inteiros de uma carta de amor que você jamais irá receber. Nesta hora, tropeço nas vírgulas e esbarro nos pontos e vírgulas em busca de uma pausa maior. É o intervalo necessário que eu preciso para analisar este amor que, hoje, repousa no arquivo morto das minhas memórias desafiando o tempo e os bordados da imaginação.
Arquivo morto é o nome que eu dei para as lembranças que teimam em ficar nos anais da minha história, somente para despertar o meu gosto pelas palavras, que chegam de mansinho, principalmente, quando a terra molhada de saudades umedece o plantio das minhas recordações... Mas descobri, escrevendo, que não sei voltar. O tempo aqui dentro – do coração - foi inexorável e desafiou a célebre frase do escritor José Américo de Almeida: - “Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta”. Eu me perdi! Perdi-me no caminho quando me descobri infértil, incapaz de gerar um sentimento de amor em você. Eu, um poço de carinho e de ternura, uma inimaginável fonte de paixão, romantismo e encantamento não fui capaz de seduzi-lo. No tapete das minhas fantasias, eu voei sozinha e, na alfaiataria dos meus sonhos, costurei palavras de um amor solitário. Dei-lhe o melhor de mim durante anos, esquecendo-me... Contava com você no meu projeto de felicidade, mas foi tudo em vão. Viajei sozinha e desenhei a sua ausência nas lágrimas que caiam em profusão. Foi aí que eu resolvi abrir o arquivo morto das minhas memórias: páginas e páginas viradas de um amor esquecido no tempo clamavam por um desfecho.
Então, fui desfazendo o bordado das minhas palavras e desfiei o meu amor por você, fio a fio. Neste momento, não há mais vírgulas, ponto e vírgulas, interrogações e exclamações. Já não há saudades. Coloquei um ponto final na alfaiataria dos meus sonhos.

Lá do alto os pássaros olham a paisagem e sentem pena de nós.
- Pobres humanos! Andam sempre de cabeça baixa catando ouro, comprando espaços e delimitando terrenos. Apegam-se às coisas e esquecem as pessoas. Então, um belo dia, eles acordam e sentem-se vazios. Nesta hora, os olhos da saudade miram o passado com respeito e um silêncio se impõe. Uma ausência sentida ou uma morte anunciada denunciam que o relógio correu célere. Não há mais tempo. A viagem acabou!
- Pobres humanos! Vivem todos assim: atordoados com a quantidade de coisas a fazer... Escravos da era digital não olham mais para as pessoas, desaprenderam a arte de ouvir. Sentimentos como compaixão, misericórdia e solidariedade não têm lugar nessa azáfama em que eles transformam o seu dia a dia. Esquecem que a vida é um ritual de passagem e que, cedo ou tarde, serão cobrados por esse tempo que lhes foi concedido ao chegarem ao planeta terra.
- Pobres humanos! Lamentam os pássaros. Correm como loucos atrás das horas, enquanto a vida rabisca numa folha de papel em branco, os passos rápidos que eles dão em direção ao futuro, sem ao menos se darem conta de contemplar o dia que começou a tingir-se de amanhecer.
Nos porões das suas consciências suas vozes reclamam: parem, respirem, olhem e reflitam... Tudo em vão! Eles seguem tropeçando nos dias, cegos e surdos aos apelos do bom senso, sem se darem conta de que só têm o momento presente para viver e que não há como passar uma borracha ou corrigir o que ficou para trás e não foi vivido plenamente.
Recomeçar, reconstruir – pensam os pássaros! Eis um verbo de difícil conjugação, pois para isso – os humanos - dependem da paciência, da tolerância e da capacidade de perdoar dos outros. Dos que ficaram às margens de suas vidas.
- Pobres humanos! Restringiram o seu cotidiano a uma viagem em busca de luxo, riqueza, poder e sedução e, agora, andarilhos profissionais, sem Mapas e sem GPS, perdem-se nos caminhos de volta a si mesmos. Uma viagem triste e solitária.
- Pobres humanos! Lamentam os pássaros, enquanto cantam e olham felizes para o céu azul e para o dia, este momento presente, que sempre se veste de encanto e beleza para quem tem olhos que veem.
Imagem do Blog: http://lis-costa.blogspot.com.br/ Um endereço para encantar os olhos e o coração.
Depois de tantos anos sem vê-lo, eis que surge, no meu caminho, o velho e querido professor de redação. Provocativo, ele propõe: - fale-me agora sobre as saudades e o reencontro! Mas, nada de reticências, nem de subterfúgios!
Sem pestanejar eu vasculho os arquivos da minha memória e começo a falar.
Das Saudades
- Ontem, ao percorrer as ruas da minha cidade, me vi menina, adolescente. De repente, ao passar pelos mesmos lugares onde a saudade fez morada, senti vontade de ser autora da minha própria história e registrar as emoções, em câmera lenta, para que esse tempo fugidio não levasse embora, outra vez, o rosário de lembranças que a minha memória teima em desfiar quando os meus pés insistem em seguir por caminhos já conhecidos.
Naquele momento, as minhas recordações ensaiaram um passeio nostálgico pelo passado e sons, sabores, cheiros e perfumes contaram a história de um amor que, ainda pulsante, atravessa décadas trazendo cada cena viva no coração como se ontem fosse hoje.
Éramos jovens e inexperientes vivendo o primeiro amor. De mãos dadas passeávamos pela pracinha, aproveitando cada minuto daquele encontro tão fugaz e ao mesmo tempo tão intenso. Ao longe, o som de uma vitrola tocava os primeiros acordes de “Aldilá” e o ar se enchia de uma melodia que, durante muito tempo, embalou os meus sonhos juvenis. Para celebrar a magia daquele instante pedíamos, na mercearia mais próxima, o refrigerante “Grapette”, que acabara de ser lançado no mercado. Um sabor que se perpetua até os dias atuais, como se nada estivesse fora do lugar.
O calendário marcava o mês de janeiro e uma chuva fina despertava o cheiro da terra, que em breve eu iria deixar. Eram as férias de verão acelerando o tempo e promovendo despedidas. Em minhas mãos eu levava as dele impregnadas do perfume “Lancaster”. E, assim, a minha memória ia colecionando saudades até o próximo encontro, deixando a minha imaginação toda assanhada.
Do Reencontro
Caminhava pela beira-mar quando o vi ao longe. Meu coração batia cada vez mais forte à medida que ele se aproximava, como se hoje fosse ontem. Porém, nas folhas dos calendários as estações haviam se sucedido, ano após ano, embora a minha emoção tenha esquecido de registrar.
Andar pausado, cabisbaixo e pensativo não lembrava em nada aquele homem decidido, altivo e orgulhoso que eu conheci tempos atrás e que me deixou por um novo amor. Muitas décadas haviam se passado, mas as palavras não ditas e o silêncio que eu me impus, naquela época, saltaram dos parágrafos da minha tristeza e cobraram-lhe uma explicação: por quê? Por que, uma pergunta que permanece sem resposta até os dias atuais. Uma promessa não cumprida. Uma carta que nunca chegou. Uma história que nunca teve fim!
Bem sei que a vida é feita de despedidas e de amores que vêm e vão. È natural! Mas, não é disso que eu estou falando. O que pergunto é sobre a ausência de palavras, esse silêncio que incomoda porque o outro ainda é espera. E, é espera, porque as palavras, as frases e os parágrafos ficaram cheios de reticências, de vou ali... Já volto! Uma história que nunca foi passada a limpo. Um reencontro que nunca aconteceu.
E, nada dói mais, professor, que a rejeição implícita naquele que se abstém de falar. O silêncio dele é um lápis, uma arma pousada sobre a folha de papel em branco, alterando o meu destino e impedindo-me de ser feliz. É a minha vida suspensa pelos fios de uma trama que não faz mais sentido. É prisão, quando tudo o que eu mais desejo é a liberdade para seguir a minha vida adiante.
Por que não verbalizou a promessa feita e salvou as recordações de um passado que foi tão doce? É a pergunta que não quer calar!
Por isso, querido mestre, ao falar sobre o reencontro, tudo o que eu posso dizer é que restou um gosto amargo na boca e uma sensação de que nada valeu à pena, por que entre salvar as lembranças, o carinho e a amizade de um amor da juventude, ele optou pelo silêncio.
Um lápis continua repousando sobre uma folha de papel em branco, enquanto eu olho, todos os dias, para uma caixa de correio que já nem abre mais.
.jpg)
Ontem, enquanto caminhava pela beira-mar resolvi: quero ser feliz! Preciso roubar do tempo dias ensolarados. Estou cansada de encarcerar a tristeza, para transformá-la em prosa diária, por isso resolvi abrir as grades que me aprisionam. Quero poder voar livre, leve e solta outra vez. Depois de anos de confinamento, alimentando expectativas alheias, desejo fazer strip-tease dessa alma cheia de roupagens e máscaras, que carrego há tanto tempo. Elas – as roupagens e máscaras - não me pertencem mais.
Conheço todos os caminhos que levam à solidão e tenho no meu corpo as marcas dos textos, que não foram escritos com ternura e com carinho. Quero, agora, entrar em cena com a cara limpa e receber os aplausos por expor a minha nudez com a coragem dos que, embora saibam fazer valer os seus direitos, optam por um caminho onde predominam o amor e o respeito.
No primeiro ato, direi a que vim: arquivei tantas dores e tantos desencantos, que resolvi não financiar a felicidade em módicas parcelas. Tenho pressa em ser feliz! E, quem quiser partilhar o seu dia a dia comigo, tem que já ter provado da fome e da sede de não se sentir amado e de querer fazer a vida valer à pena, daqui por diante. Tem de não gostar, principalmente, de jogos amorosos, de dissimulações, nem de brincar de esconde-esconde. Estou à procura de gente bem resolvida. Cansei de pessoas para quem o mundo é um eterno parque de diversões.
Em cena, para o segundo ato, tiro a máscara da hipocrisia e continuo expondo os frutos da minha liberdade: não prometo te seguir como um cão fiel. Tenho vontades e opiniões que contrariam a cartilha do teu desejo e não vou negociar a minha liberdade em troca de um par de algemas do mais puro ouro. Quero o direito de ir e vir, de sentir e não sentir, de gostar e não gostar. Quero o direito de ser singular, de ser quem sou sem precisar usar máscaras para te agradar. Dizem que no amor, assim como na guerra, vale tudo. Não sei qual é a extensão ou o significado desse "tudo", mas te digo que vou usá-lo, também, a meu favor...
Nesse que seria o último ato, eu faço strip-tease da minha alma e exponho as minhas entranhas, de maneira que não restem mais dúvidas a meu respeito.
Tenho, assim como tu, desejos e vontades não satisfeitas... A pluralidade me encanta! Olho para o lado e vejo alguém interessante. Penso em ti e não há como não fazer comparações. Vejo as marcas do tempo em teu corpo e sinto a solidão da tua alma viajante por universos que não me cabem. Eu, também, viajo de vez em quando... Conheço a tua fome e a tua sede, pois participo do mesmo banquete que te abastece. Elas, essa tua fome e essa tua sede, também são minhas. Vivo faminta e sedenta desde que aportei em tua vida, e posso ser e agir como tu a qualquer momento, no entanto, escolho ser eu...
Eu, nua e crua! Inteiramente liberta. Livre para voar! Carteira de identidade em uma mão e direitos assegurados na outra, mas optando por fazer strip- tease da minha alma, somente para te provar que posso ser feliz longe de ti e desse teu mundo faz de conta.
Amar é não caber em si... É dar espaço para o outro e, juntos, habitarem o mesmo lugar.
A solidão não escolhida vai causar espanto, tristeza e dor quando nos dermos conta de que o amor não é um jogo, uma brincadeira ou um faz de conta para nos distrair das mazelas do cotidiano. Ele é uma fatura que se paga diariamente e pouco importa se o produto está desgastado, impróprio para o uso ou fora da validade. O amor deve ser cego e surdo aos apelos mundanos, que são muitos, mas que passam, assim como as nuvens em dias de céu azul.
Ela andava a procura do par perfeito, ele idealizava a mulher ideal: linda, boa aparência, saudável, bem-sucedida, independente e disposta a fazer concessões. Ela, idem! Mas, após vários encontros e desencontros, ambos estão sozinhos. Por que será que isso aconteceu?
A meu ver estamos todos reféns do medo de ser felizes, porque amar dá trabalho, requer envolvimento, renúncia e, sobretudo, distanciamento do mundo de fantasias que criamos, quando decidimos procurar o homem ou a mulher ideal.
Não existe o par perfeito! Não existe entrega de amor sob encomenda em domicílio. Temos que fazer por merecê-lo...
Quando idealizamos a pessoa baseado apenas na aparência e de acordo com o grau de nossa exigência – sempre carregada de expectativas - esquecemos que o tempo corre célere e que as pessoas mudam com o tempo. O belo fica feio, o corpo sarado vira um bagulho, os cabelos ficam ralos, o andar vacilante e nada mais restará, no futuro, daquela beleza estonteante que um dia nos conquistou. Com o passar do tempo, tudo o que nós mais queremos é alguém que nos ouça e que enxergue em nós algo mais que um corpo e um rosto bonitos. E, esse algo mais é o que nós temos de melhor para oferecer. É o amor genuíno, sem interesses mesquinhos e sem narcisismos, pois ao longo dos anos já nos fartamos de nós mesmos e de viver em farras e festas, que em nada nos acrescentam. Também, não precisamos mais de um milhão de amigos na nossa agenda, que, na maioria das vezes, não estão disponíveis para nos consolar, quando deles precisamos...
Nesse meio-tempo, agiganta-se em nós o desejo de fazer a vida diferente e, ao voltarmos os olhos para o passado, veremos o quanto de nós ficou perdido lá atrás, por conta de escolhas impensadas e insensatas. Nessa hora, podemos ver que ao escolhermos o par ideal estávamos, na realidade, procurando por uma cópia de nós mesmos e que o certo, naquela época, seria esvaziar-se de si, para poder receber o outro com amor, tolerância, compreensão e, sempre, de mãos dadas, porque a solidão um dia chega e chega para todo mundo, principalmente, para aqueles que basearam as suas escolhas, apenas em padrões de beleza ou coisas de somenos importância.
Portanto, se você procura alguém para se relacionar, lembre-se primeiro de olhar-se no espelho e descubra o que não está lhe agradando - às vezes, precisamos mudar a alma - pois buscar o outro como muleta não é a solução, tampouco exigir aquilo que ele não pode dar. O par perfeito só existe em contos de fada e as pessoas precisam ser amadas por inteiro, com seus erros e acertos, defeitos e imperfeições, delicadeza e ternura, porque tudo isso faz parte de sua singularidade. Ama-se o outro pelos seus grandes feitos e também pelos seus desacertos, que é parte integrante de sua humanidade.
Por isso, ao olhar para o outro procure enxergar a sua alma e lembre-se, principalmente, de que gente não é carne de açougue nem manequim de loja para ser exibido pelo mundo afora... O par perfeito só existe quando o verdadeiro amor está presente e dá espaço para que o outro apareça.

Ainda, estou aqui.
É domingo! Acabei de almoçar. Pego a estrada e vou para o meu apartamento. Refúgio do barulho externo e um lugar para pensar em nós dois...
Muda a paisagem, muda o olhar, mas a tua lembrança me acompanha... Sempre! Da janela do meu quarto ouço o barulho das ondas e vejo o sorriso do mar em suas franjas de espuma. Penso em ti.
* "Há quem se alimente da efervescência da metrópole, onde jamais se sente só. Outros se refazem na quietude das montanhas, no vagar do campo, no frescor da beira-mar". Essa sou eu! No frescor da beira-mar eu me encontro e te encontro. Somos só nós dois e a minha alma se alegra com as memórias desse lugar.
Nessa hora, cartas na gaveta e retratos na parede doem. Eu não funciono na velocidade da banda larga. Passo ao largo da modernidade... Ainda, doem em mim as amarras do passado... No meu corpo, o teu cheiro acorda lembranças. Sou olhos, ouvidos e boca em permanente diálogo... Tu continuas vivo em mim feito uma tatuagem, que eu não desejo apagar. A lembrança do nosso amor pacifica os meus dias e eu festejo, sem economia de palavras, a memória do que ficou. Pouco importa onde e com quem estejamos hoje. A morte me ensinou o valor do tempo, por isso eu celebro sempre os dias que passamos juntos. Um rastro de luz, um cheiro, um perfume, uma música são suficientes para eu mergulhar, com abandono, nas recordações de nós dois e roubar do tempo momentos para a eternidade.
Por isso e só por isso, eu transformei o meu coração numa sala de espera. Ainda, estou aqui!
Estou fora!
A minha alma festeja cartas e fotografias amareladas pelo tempo, que já não doem... Amei, amei demais! Consumi dias e noites a tua espera. Mas, acabou. Foi um longo processo, pois não acredito em amor que se esvai como fumaça. Amor, que é amor dura pelo menos quatro estações. O meu quase fez bodas de ouro, embora nesse meio tempo eu tenha sucumbido a outros afetos... Essa foi a minha redenção! Permitir que alguém lavasse as minhas feridas e perfumasse o meu corpo com a delicadeza do seu amor.
Alguns dirão: - tanto tempo perdido!? E, eu respondo:
- Não, eu não perdi tempo. Eu mudei a narrativa dos meus sonhos e incluí novos personagens, mas o meu desejo de ser feliz permaneceu igual. Essa foi a minha salvação! Olhar para o outro e permitir que ele visitasse a minha alma e perfumasse o meu corpo, enquanto desfilavas a tua vaidade colecionando memórias inúteis e lixos emocionais.
Por isso, hoje, tu és apenas uma nota dissonante nas páginas viradas da minha vida. Revisito o passado vez em quando só para me lembrar daquilo que não desejo mais, pois como disse Carpinejar: sexo sem amor é ginástica... Estou fora!
* Trecho extraído da revista Bons Fluidos. Ed. 173. Agosto/2013
Passeio sem pudores pelos meus sonhos e toco com delicadeza na tua dor só para te dizer que ainda estou aqui... Uma parte de mim te pertence para sempre e a outra é uma reserva imaginária daquilo que penso que juntos poderíamos ser.
Sempre que escuto os sussurros da minha alma, um mergulho no tempo das boas recordações te traz de volta e eu digo baixinho: ainda te amo, mas não tenho respostas para tua ansiedade... Eu só sei que é muito bom te saber por perto, embora faltem palavras para definir o que somos, hoje, um para o outro. Eu só sei, também, que num canto escondido pelos cercados da memória guardei a lembrança do nosso último bolero... Uma dança de corpos nus e almas revestidas do mais puro amor.
Então, agora, nesse exato momento em que eu passeio sem pudores pelos meus sonhos e que tudo o que tenho é uma parte de mim que é inventada e a outra, que é só saudades, eu respondo a tua pergunta: ainda sou toda tua!