As ruas da minha cidade caminham dentro de mim e por elas passeiam a menina-moça que eu fui um dia. Hoje, ao percorrer a passos largos de saudades por essas mesmas vias de outrora, me vejo - num olhar de doce contemplação - a procurar personagens que fazem parte desse meu trajeto pelas ruas da cidade.
Tudo continua igual, nada nem ninguém mudou de endereço.
Nenhum caminhão de mudança à vista...
Por que será, então, que só eu faço parte desse cenário? Um silêncio cala o barulho que vem de fora e eu sinto nesse momento que os meus sentidos se aguçam, reproduzindo sons e trazendo aromas, que fazem aflorar através das minhas lembranças, os passos que me conduzem a esse mesmo lugar e a fragrância do jasmim que perfumam as ruas da minha cidade.
Abro a janela da minha alma e a imaginação corre solta: ruas, avenidas e praças contornam os meus sonhos de menina. Aqui, a Festa das Neves se manifesta através do som alegre dos seus parques de diversões, da alegria criança dos seus meninos com o cheiro do cachorro-quente, do espetinho de carne e da maçã do amor. Lá nas Avenidas dos Ipês Amarelos, onde a poesia e o poeta marcaram um encontro de amor, alguma lágrima furtiva ficou esquecida a banhar as folhas que caem, marcas de um tempo e de saudades, ainda, em flor. Folhas ao vento espalham-se, cobrindo ruas, dobrando esquinas e deixando nua a minha alma, que caminha hoje solitária, pelas ruas dentro de mim.
Na praça, sentado em um banco qualquer, eu encontro o poeta – único personagem resgatado nessas minhas andanças – trazendo em suas mãos um amontoado de sonhos, em folhas de outono, que se dispersam pelos chãos: é um viajante que corre em busca do tempo perdido; é um encontro que foi desfeito e uma saudade que foi esquecida. E, finalmente, é o vento que varre as ruas, hoje quase nuas, e os espelhos d’água, provocados pelas lágrimas minhas e suas.
3 comentários:
mmm, que efeito poético, o desse texto!!! parabéns, vc está cada vez melhor!!!
Realmente as imagens deram outra cor aos seus textos. Dá até mais vontade de lê-los (reli alguns deles). As imagens estão belíssimas, parabéns pela escolha.
Lembrei-me de da minha "festa das neves" quando criança, não era a mesma santa, nem a mesma cidade, mas tinha cachorro quiente, maçã do amor, roda gigante, muito riso e pouco siso. Como era bom!
Gostei das imagens!
bj
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