Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

março 09, 2010

Os Caras-Pintadas





Existe um ‘Haiti’ rondando as nossas cabeças! Placas tectônicas em constantes atritos. Um espaço aberto para o lixo cotidiano dos jornais e TVs deitar-se em ‘berço esplêndido’ ou um convite para o despertar da consciência a nos pedir: ação?!

Por que será que não nos damos conta disso?
Dia após dia, de maneira escancarada, a realidade se apresenta aos nossos olhos pedindo um olhar mais atento para o que se passa ao redor... Fingimos que não vemos! E um vulcão adormecido em cinzas nos adverte: pagarás um alto preço por fazer parte dessa nação que, hoje, ignoras... É a consciência reclamando cidadania, ante a passividade e a inércia com que observamos a vida pública dos nossos representantes. Onde estão os caras-pintadas de outrora?


Imagem: Blog do Poeta Álvaro Alves de Faria

março 01, 2010

Saudades Engavetadas












Da varanda da sua casa ela espreitava o caminho. O seu olhar varria ruas e dobrava esquinas na esperança de que ele aparecesse. Contava as horas, os minutos e os segundos. Precisava da sua presença para amenizar a saudade que a consumia... De repente, como num passe de mágica, ele surgia em sua farda azul e amarela, trazendo nas mãos um amontoado de sonhos.
Era o carteiro, mensageiro de tantas ilusões!

Hoje, ao abrir o armário do seu quarto ela encontra palavras guardadas na gaveta. Pega-as e fica absolutamente entregue às suas lembranças... Pede emprestado à memória um tempo feliz e faz as pazes com o passado!

Já não lhe dói tanto ter amado sozinha durante todo esse tempo, pois a geografia do amor tem os seus acidentes de percurso e além do mais, nessa hora, uma colcha de retalhos feita de boas recordações lhe apazigua a alma aquecendo-a por dentro. Olha outra vez para suas saudades engavetadas; lembra do tempo passado, do carteiro, das ilusões e faz um inventário do seu amor! Reedita lembranças e pensa: “foi eterno enquanto durou.” Depois disso, fecha a gaveta, dá um sorriso e diz: agora eu estou pronta... Aceito! E começa a ser feliz outra vez...

fevereiro 22, 2010

Castanha e ameixa, por favor!








Insight na linguagem comum é como se fosse um estalo. De repente, uma ideia ou uma lembrança, que parece vir dos porões da vida, nos acorda pedindo um novo olhar sobre...

Por que não pensei nisso antes?! É a pergunta que fazemos nessa hora.

Pois bem, dessa vez a iluminação tem cor e sabor: castanha e ameixa, por favor! Esse é o pedido que ela sempre faz na mesma sorveteria que freqüenta há anos. E não é só isso! Têm outros hábitos que foram se instalando, lentamente, sem que ela se apercebesse: o mesmo caminho para ir e vir, o mesmo restaurante, o banco, a mesma marca de carro, a praia... Até um velho amor embrulhado para presente num papel já gasto pela poeira do tempo. Tudo igual! Não importa o tempo e as suas estações a sugerir mudanças. Ela engessou a vida, se fez estátua.

Castanha e ameixa o seu sorvete preferido durante décadas, foi o fio condutor desse estalo que ora se apresenta, pedindo soluções práticas e urgentes. Por que não se abrir para o novo mudando de cores e sabores, traçando outros destinos e fazendo novas escolhas?

São perguntas para as quais ela ainda não tem respostas, mas que já foram entregues ao tempo, para que a solução esteja muito mais em acordo com o desejo da sua alma e menos com o imediatismo que pontua as decisões baseadas em valores de referência, tais como: modismo, vaidade ou a “solidão do único cálice de vinho.”

Mudança é como carinho de mãe... Tem que ser espontânea, abrangente e alcançar o lugar aonde – ainda - não podemos ir...

fevereiro 01, 2010

Resposta ao Tempo







Não conto a minha idade pela passagem dos anos numa linguagem matemática, onde um mais um é igual a dois. Ela é a soma perfeita da alegria, do assombro e do encantamento que esbarram em mim, a todo instante, quando dobro as esquinas da vida.

Não tenho medo das rugas nem da flacidez da pele, tampouco do luar de prata que se espalha sobre os meus cabelos. Tenho medo é de deixar de viver, de não espreitar o que se passa lá fora e de não aquecer o que guardo aqui dentro: meus sonhos!

Foram tantas as mudanças e tão grandes as transformações por mim presenciadas, nesses anos passados, que ouso perguntar ao tempo se “ele se rói com inveja de mim porque sabe passar e eu não sei.” Continuo a sonhar os meus sonhos de menina... Ele – o tempo – só conta do lado de fora.

Por isso, se ainda me destinam um lugar nesse trem que eu chamo de vida, deixem-me entrar no vagão da frente, porque a criança que adormece em mim, ainda está dando os seus primeiros passos e não pretendo acordá-la para contar números. Além do mais, fazer aniversário é apenas um compromisso com a possibilidade de fazer a vida diferente e ser feliz todos os dias, não importa a idade.

janeiro 25, 2010

Fora do Ar






Um relógio parado, uma roupa que não cabe mais, um voo perdido que tento inutilmente alcançar, é assim que eu me sinto: fora do tempo! Caminho, hoje, por entre as ruas dentro de mim e só encontro o passado... É um museu de imagens, palavras e sons cheio de significados. Promessas de vida!

(...)

Lá fora, em meio ao burburinho que agita a cidade, a vida fervilha... Procuro placas indicativas do caminho para felicidade e não encontro.
Que tempo é esse que despreza a gratuidade dos bens não perecíveis: amor, carinho, ternura, compreensão e respeito? Que tempo é esse tão diferente do meu, aqui dentro? Acho que perdi a bússola, o guia, o norte, o rumo, a direção! Estou fora do ar, nesse presente, onde tudo é muito confuso, atropelado, incerto... Oba, oba... Descartável!

(...)

Olho para a época em que o tom das folhas é amarelado e um hiato em minha memória é permeado por odores de naftalina, e me convenço: estou à deriva no tempo. E isso, se deve muitos mais aos valores cultuados nessa vida apressada, em que até as palavras se tornam obsoletas, do que a adaptação que me é exigida por esse mundo moderno.

Por isso, volto para o meu estoque de saudades - museu de carne e vida - e deixo que o meu sorriso se prolongue enquanto o tempo desfila as suas lembranças... Estou fora do ar!

janeiro 16, 2010

Horas de Saudades






Podemos nascer de várias maneiras e uma delas vem carregada de significação: partir; deixar a casa, cortar laços e ter no olhar um passado. Essa talvez seja a forma mais dolorida. Abrir mão do colo, do conforto e da certeza do caminho seguro... Mas, que outro jeito há? Quando crescemos o suficiente não cabemos mais nos braços e regaços e a vida nos cobra vida?!

Partir para nascer. Processo difícil e doloroso: requer tempo, coragem e uma paciência que não se encaixa nas horas de saudades... É que, de repente, tudo dói... E uma avalanche de recordações torna desejável até a rotina dos dias iguais. Tudo aquilo por que lutamos perde a importância e nosso projeto de vida sucumbe diante do poder das lembranças. Vivemos uma solidão abissal!

O que fazer então, quando o sorriso e a alegria abrem espaço para a tristeza e o desânimo ou quando alimentar-nos só é possível com o sal das nossas lágrimas?

- Nascer de novo! Desabitar medos, vencer a hesitação e deixar o porto seguro. Esquecer a pouca experiência em prol de um novo desafio. Ser livre para fazer escolhas... Tudo isso requer coragem e decisão, porque partir de algum lugar, ainda que titubeando, é a única maneira que temos de reinventar a vida e fazê-la valer a pena.

*Para Gilberto, meu filho!

janeiro 06, 2010

Economizando a Vida









Viver e não ter a vergonha de ser feliz, dizia o mestre Gonzaguinha. Mas, onde encontrar a alegria se vivemos racionando até o próprio desejo de viver? Nunca a palavra contenção esteve tão em evidência como nos dias atuais. Restrita as preocupações que abalam o mercado financeiro e colocam em xeque a economia global, agora, ela também faz parte do cotidiano das pessoas, no que se refere à luta pela felicidade. Estamos economizando vida pelo medo de ser feliz.

De repente, o mundo, esse parque de diversões para uns e teatro de horrores para outros, parece desafiar os nossos limites, impondo-nos escolhas difíceis de se realizarem. Nesse momento surge a pergunta:
- E agora, como ficamos?
- Não ficamos, vivemos!
Vivemos para usufruir do doce sabor do inusitado que a vida nos propicia a cada instante, quando nos permitimos olhar para além dos nossos estreitos e limitados horizontes. Vivemos para entender que no espaço de tempo, entre o véu da noite e o raiar do dia, existem infinitas possibilidades e que, só vivendo, amando e aprendendo é que podemos extrair da vida a seiva que nos alimenta e faz crescer.

Existem pessoas para quem o mundo é um lugar inóspito e cheio de armadilhas. Não amam e não se deixam amar. Vivem trancafiadas dentro de si mesmas e se recusam a pedir ajuda pela impossibilidade de abrirem a mente e o coração. O medo da felicidade paralisa as suas atitudes. Vivem atormentadas, presas numa cadeira de rodas imaginária, em função da dificuldade de dizerem sim para o desejo de viver e ser feliz. São cadeirantes da alma. Não posso (dar, comprar, ir, fazer...) não tenho (tempo, dinheiro, coragem, saúde...) não quero (amar, gostar, visitar, compreender, ser solidário, compassivo...). Essas são defesas usadas por quem não admite que viver se tornou um fardo.

Em contrapartida, existem os atletas da alegria. São corredores de almas e corações livres. Vivem como se não houvesse amanhã, um dia de cada vez e com isso, usufruem o tempo de maneira intensa e verdadeira. Para esses, “viver e não ter a vergonha de ser feliz,” é um compromisso e uma atitude de quem descobriu que a nossa existência só vale a pena, quando dizemos sim. Sim para um convite inesperado, para o amor que chegou de repente, para aquela viagem não programada, para aquele trabalho desafiador e para todas as convocações que nos causam surpresa e nos tiram da rotina e da mesmice, devolvendo o brilho no olhar.
Dizer sim, é desafiador, é assumir responsabilidades, mas é o único caminho para a possibilidade de ser feliz. Fora disso, só existe uma vida mais ou menos... Triste, morna e previsível.

Em decorrência disso, precisamos abrir mão da nossa economia de vida estável, porém insípida, e largar as cadeiras de rodas imaginárias, que nos aprisionam e fazem sofrer.
Deixar a vida nos conduzir para além do limite dos nossos sonhos, é ter um passaporte para um destino ignorado, é correr riscos, mas é, também, a única maneira que temos de gastar o tempo que nos foi dado e ter a certeza de que ele valeu a pena.
Portanto, não economize vida. Viva! E não tenha vergonha de ser feliz!

dezembro 28, 2009

O Mito da Felicidade







A fábrica das nossas ilusões, quando éramos crianças, nos credenciava a dar largas à imaginação e lá, vestíamos a fantasia dos nossos sonhos. Bons tempos aquele, que nos permitia o ingresso em um mundo cor-de-rosa... Desde então, enveredamos pelas ruas das quimeras e nos quedamos a sonhar, sonhar e sonhar.

Que mundo utópico foi esse que construímos? E para onde vamos nesse momento de desconstrução?

-Ah! O nosso universo de utopias teve o seu nascedouro nas histórias infantis. Lá, onde as reticências imperavam e o “se” governava soberano, criamos um reinado de possibilidades e fomos, aos poucos, eternizando ilusões. Dessa época herdamos características que nos acompanham até hoje: a inocência, a boa fé e o desejo de ser feliz para sempre.

Pobres meninas sonhadoras! Criamos o mito do príncipe encantado e lhe entregamos a direção de nossas vidas, com a exigência de que ele nos fizesse felizes para sempre. Mas, ao despertar, encontramos um mundo real em preto e branco, para administrar e fomos obrigadas a nos despedir dos nossos devaneios.

Pobres meninos sonhadores! Perdidos, também, em seu mundo faz-de-conta, assumiram poderes que não lhes competia. E, agora, reféns de um compromisso que lhes confere status de super-homens, perdem-se na curva do tempo e atabalhoados não sabem como lidar com a incompetência de gerenciar sonhos, numa sociedade tão moderna...

Recomeçar talvez seja a palavra desse momento em que nos apercebemos apenas mulheres e homens humanizados. Deixar para trás velhos sonhos e abrir-nos para o novo. Nem príncipe nem princesa, nem super-homem nem Cinderela. Desconstruir imagens, mitos e perder poderes em nome de uma felicidade possível, onde não haja vencidos nem vencedores, talvez seja o caminho que nos conduza a um novo modelo de realidade: homens e mulheres companheiros inseparáveis em busca de autoconhecimento. Quando, enfim, isto acontecer, a nossa fábrica de ilusões terá as suas portas cerradas e nós estaremos livres dos sonhos que nos distanciam da realidade.

dezembro 05, 2009

A Luta pela Cidadania Feminina






Muito se comenta sobre o avanço que a mulher tem conseguido, na luta pela sua emancipação, em nossa sociedade. Acompanhando a história, vemos que antigamente o seu papel ficava restrito às funções domésticas e a obediência ao marido. Hoje, em pleno século XXI, celebramos grandes conquistas que beneficiam não só a nossa vida, como também, a da humanidade.

Ao enveredarmos pelos séculos passados, vamos seguir a trajetória dessa personagem feminina, que durante muito tempo foi vista por uma sociedade patriarcal, apenas como um instrumento reprodutor e propriedade do marido. Na luta para adquirir o direito de instruir-se, votar, participar ativamente da vida socioeconômica e de ocupar postos governamentais, temos como referência pessoas como: Nísia Floresta, Bertha Lutz, Betty Friedan, Simone de Beauvoir, dentre outras, cujas ideias foram decisivas para fortalecer a luta pela cidadania da mulher.

Ao lembrarmos o fatídico oito de março de 1857, em Nova York – "quando 129 operárias morreram queimadas por que ousaram reivindicar a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade" - devemos celebrar tantas vitórias quantas sejam necessárias para que, hoje, possamos dizer com orgulho: sim, nós podemos!

Podemos, neste século XXI, continuar a luta – iniciada por essas mulheres – por uma sociedade mais justa, onde direitos e deveres se equivalham no que diz respeito à igualdade salarial, ao acesso a cargos públicos, a uma maior participação na vida política do nosso país e, principalmente, na questão do constrangimento físico ou moral. Que a Lei Maria da Penha, um marco na luta contra a violência doméstica – nesta década - seja uma conquista que possibilite a abertura de novos horizontes na tão sonhada equiparação entre os direitos do sexo masculino e feminino, pois só dessa forma, caminharemos lado a lado, com respeito e admiração, não mais homens nem mulheres e sim, cidadãos.

Sendo assim, a emancipação feminina, fruto de uma longa caminhada no curso da história e uma luta permanente em busca da igualdade, será uma celebração que virá para atender a uma justiça social que se faz premente, uma vez que, como cidadã, nós contribuímos para o progresso socioeconômico e político da nação.

novembro 21, 2009

Afeto à La Carte



Se alguém nos pedisse a definição do amor em uma palavra, no sentido de encontro, aconchego e encanto, nós o convidaríamos a conhecer o lugar onde cores, sabores e cheiros se misturam para produzir o afeto à la carte: a cozinha.

Cozinhar é a forma mais simples e genuína de dizer: eu te amo. É a maneira artesanal de se distribuir carinho por meio dos alimentos. E nada melhor que aproveitar as cores dos artefatos, ingredientes e temperos diversos – que fazem parte desse ambiente - para criar aquela comida especial e homenagear a pessoa que amamos. É o amor entregue com açúcar e com afeto.

A essa altura, quem não lembra da cozinha de sua casa em tempos de festas: carnaval, páscoa, são joão, natal..., com seus ruídos, sons e cheiros reacendendo lembranças? Palco de tantas histórias engraçadas, de reuniões familiares acompanhadas de uma xícara de café e de um saboroso bolo de milho, macaxeira ou fubá. A cozinha reflete o calor, a ternura e a simplicidade de quem sabe receber com arte e carinho. É o afeto à la carte posto à mesa em sistema de gratuidade.

Nesse momento, vamos ao encontro da nossa memória afetiva e revemos cenas do mais puro amor: uma toalha de xadrez, pratos brancos sobre a mesa, um jarro com flores do campo, uma cesta de pães quentinhos, ovos mexidos, queijos, presuntos, bolos, biscoitos, tapiocas, sucos, leite e café; compõem o cenário de uma linda manhã de verão. Mais tarde, uma bela feijoada de frutos do mar, um feijão tropeiro, uma carne assada com macaxeira e manteiga de garrafa, uma boa moqueca de peixe, um baião de dois, virado à paulista, frango com quiabo e tantas opções quanto seja o desejo de agradar e fazer feliz a quem se ama. À noite, dispensando o luar e as estrelas, podemos jantar a luz de velas, sentindo o cheiro do café moído na hora, a velha canja de galinha a fumegar no prato, um cuscuz quentinho servido com queijo de manteiga e rodelas de inhame com sobras da carne assada do almoço. Tudo servido ao ponto: carinho, ternura, tempo e disposição de ver, ouvir e sentir o outro, na intimidade de um espaço, onde o riso solto, a alegria e a descontração, têm a difícil missão de adoçar o sal e o fel de cada dia.

Por tudo isso, sempre que alguém nos pede para falar sobre esse sentimento, lembramos da cozinha, ponto de encontro e encanto, espaço onde o festival de cores brinca de fazer inveja à beleza do arco-íris... Lugar para servirmos o amor com açúcar e com afeto.

novembro 14, 2009

Ah, Se...






Um telefonema na noite, uma morte anunciada... Perplexos, nós nos indagamos: - “por que será que as pessoas não se acostumam com ela e de onde vem esse assombro, esse estranhamento, essa dor?”

- Culpa, parece a resposta plausível!

Vivemos a esquecer certas conjugações: amar e cuidar, por isso nos surpreendemos tanto quando na calada da noite ela – a morte - nos chega sorrateira e desfaz a nossa tola pretensão de que o relógio parou e que temos toda a eternidade para fazer o que urgia ser feito, aqui e agora.

Ah, se... Essa é a resposta que apresentamos quando a inexorabilidade do tempo nos confronta com os marcadores das horas e vemos que é tarde para falar de amor, amizade, saudade, ausência, solidariedade (...).

Ah, se...

novembro 05, 2009

O Amor em Digitais






O tempo, construtor de sonhos, pulou a cerca das horas e modernizou o amor. Hoje, basta teclar www.solitarioprocura.com.br ao alcance das nossas mãos, podemos escolher com quem partilhar a nossa vida. É o amor na era digital.

Fruto do avanço tecnológico, o computador, essa ferramenta que encurta distâncias e transforma a rotina das pessoas, provocou uma verdadeira revolução na maneira como elas se relacionam. Basta uma tecla acionada e escolhemos o amor em digitais, que pode ser: louro, moreno, alto, baixo, gordo, magro, olhos azuis, castanhos...
Se antes o espaço geográfico era motivo de distanciamento entre os casais, agora, com apenas um toque, uma janela se abre e podemos visualizar e ouvir quem está do outro lado da tela, atenuando, assim, a solidão e a saudade tão comuns àqueles que mantêm relacionamentos à distância. Além disso, temos a vantagem de disfarçar por meio da economia de palavras, os erros do nosso português ruim, pois numa linguagem simbólica não virou naum, você virou vc e também virou tb.

Por outro lado, se hoje é possível dispormos desse instrumento para facilitar a comunicação e diminuir distâncias, é importante que façamos uma indagação: - “que afeto é esse feito de ausências e que sobrevive sem o cheiro, o tato e a emoção do olhar?” O amor, vivenciado dessa maneira, é a antítese daquele que guarda na pele o perfume, na boca o sabor do último beijo e no olhar, a intensidade da paixão. Longe dos sentidos perdemos o melhor da relação: o encontro, o brilho no olhar e a possibilidade de guardar num diário, não virtual, aquela rosa branca - lembrança de uma tarde de carinho - o papel do chocolate preferido e uma mecha de cabelo envolta, cuidadosamente, num laço de fita vermelha. Saudades perfumadas, indeléveis e tão antigas quanto aquele coração esculpido na árvore que, ainda hoje, conserva as nossas promessas... Um amor também em digitais, mas presente, que não possamos esquecer e ignorar ao simples toque da tecla “delete”.

Por tudo isso, só nos resta admitir o sucesso dessa conquista, fruto da modernidade, mas lamentar que o tempo que pulou a cerca das horas, não seja o mesmo que tingiu de sépia as páginas onde registramos a nossa história, porque lá, nas folhas perfumadas de um velho diário, vamos encontrar a vida real ao vivo e em cores, seus encontros e desencontros e um amor construído dia após dia.

outubro 14, 2009

Sistema de Cotas - A Cor do Brasil






O sistema de cotas para negros, nas universidades públicas brasileiras, nos coloca diante da realidade de um fato que há muito tentamos maquiar dando-lhe a feição de jeitinho brasileiro, ou seja, jogando para debaixo do tapete ou para escanteio, uma discussão que não nos obrigue a olhar de frente para o que evitamos assumir: somos uma nação racista e elitista e, por conseguinte, temos um sistema de educação excludente.

Defendemos a política de cotas porque é mais fácil do que reparar décadas e décadas de omissão, em relação aos direitos das minorias. Fingimos que não temos preconceito de raça e ignoramos a desigualdade social, presente também nas salas de aula, e assim vamos protelando “ad infinitum” as soluções que minimizem a distância entre brancos ricos, brancos pobres e negros de terem acesso à educação e à cultura em igualdade de condições. Proferimos, solenemente, um discurso a cada ano de eleição em favor dessas minorias e esquecemos de pô-lo em prática, tornando-o vazio e inaplicável. Por isso, para aliviar a nossa consciência e responder ao clamor dos excluídos, criamos um sistema de cotas e com esse ardil vamos adiando os investimentos necessários à educação de base, protelando ainda mais o sonho dos que esperam por uma justiça social que nunca chega, e obrigando-os a contentar-se com as sobras de um banquete para o qual nunca são convidados, apesar de habitarem a mesma casa.

Se pararmos para analisar a questão das cotas, veremos que, além de ser um fator de segregação, ela em nada contribui para que o aluno se integre ao ambiente acadêmico, uma vez que a própria exclusão já o diferencia e marginaliza, humilhando-o em sua dignidade. Ao ingressar na universidade pela política de cotas, o ser humano sente-se estigmatizado – aquele ali é cotista! – e aviltado em sua cidadania. Cobram-lhe esforço e dedicação dobrados pela oportunidade oferecida, e ainda são olhados de soslaio pelos seus pares numa clara alusão à sua condição social e a cor da sua pele.

Precisamos mudar isso e o movimento pela inserção de negros, na universidade, tem que continuar lutando por uma justiça social que abranja o direito que lhe outorga a carta magna desse país; de que todos são iguais perante a lei. E em sendo assim, que lhes devolvam a cidadania e o respeito, em igualdade de condições: verde, amarelo, azul e branco. A nossa cor... Brasil!

outubro 03, 2009

Com a Vida nas Mãos





O aborto continua a ser discutido em todas as camadas da nossa sociedade, provocando debates calorosos e acirramento nos ânimos, de quem é a favor ou contra esse tema tão controverso.

Muito se tem falado sobre o assunto e várias são as razões pelas quais se busca um consenso. Debate-se o direito das vítimas de estupro, das gestantes com gravidezes de risco de morte e, ainda, daquelas em que há possibilidade da criança nascer com grave deficiência. Os que defendem a legalização invocam pra si, entre outros argumentos, o direito de escolha baseado no princípio da liberdade, arrazoado esse que encontra eco em boa parte dos que levantam a bandeira do aborto, como um direito inalienável de se dispor do corpo como melhor lhe aprouver. Afirmam que, descriminalizá-lo é tirar da clandestinidade uma prática que tem provocado problemas de saúde e morte, de um incontável número de mulheres expostas a toda sorte de procedimentos malfeitos, quando realizados por pessoas que não têm habilidade nem conhecimento específico para tal prática.

Ainda que pesem todos esses argumentos, os que lutam contra essa ideia alegam aspectos legais, éticos, morais e religiosos para proibir a sua legalização. Debate-se, por exemplo, o direito da gestante sobre o feto e a partir de que momento ele pode ser considerado humano ou vivo (se na concepção, no nascimento ou em um ponto intermediário). Discute-se a dor pela qual passa o feto durante o procedimento e as conseqüências psicológicas na vida da mulher. Põe-se abaixo, ainda, o argumento de que uma criança indesejada teria sérios problemas no futuro, uma vez que não se pode medir o que seria bom ou ruim na vida dela, se lhe tiram o direito de escolha, entre a vida ou a morte. E além do mais, alegam a favor do seu discurso que a vida humana pertence a Deus.

Por todos esses aspectos, percebemos o quanto é difícil nos posicionar, tendo em vista que o tema ainda será motivo de intensos debates, a fim de que se encontre uma solução que passe pelo respeito à vida e a preservação dos direitos humanos, que tenha na liberdade o seu maior símbolo. Enquanto isso, só nos resta esperar que o bom senso prevaleça para que, no futuro, possamos decidir, livre e conscientemente, sobre matéria tão polêmica.

outubro 01, 2009

Cárceres da Vida














Se eu pudesse fatiar o tempo e transformá-lo em pequenos pedaços, certamente construiria uma bela colcha de retalhos, feita das minhas lembranças e tecida ao som dos acordes que encantaram a minha vida. Dirão alguns: mais isso é saudosismo! E eu respondo, é sim senhor!

Sou cria das águas da chuva, dos córregos, das árvores, dos contos de fada, do atirei o pau no gato tô tô e do tempo em que a palavra saudade era sinônimo de bem viver. Tenho as raízes da minha infância fincadas no chão batido das boas recordações e por isso vivo imersa em lembranças que não me deixam esquecer as brincadeiras que, hoje, veem à tona pelas lentes do passado: bastava o céu escurecer e lá estava eu, sorriso aberto abraçando a chuva que lavava o corpo e banhava a alma sedenta, das águas de março. Fui moleca de subir em árvores, telhados, de jogar com bolas de gude, de brincar de amarelinha, de venda, bambolê, esconde-esconde, casinha e outras atividades lúdicas que deram um colorido intenso ao meu viver.

Saudade é sempre um tema recorrente quando nos deparamos com outra maneira de viver a idade da inocência e da alegria: são crianças trancafiadas em casa, encarceradas na solidão dos apartamentos, privadas do exercício das descobertas e algemadas junto ao televisor, sendo induzidas pelo consumo desenfreado numa vida cada vez mais faz de conta. São infâncias roubadas, em nome da conveniência de adultos hipnotizados pela cultura do ter e vítimas da cegueira de um tempo que esquece de dar tempo e sentido, ao que é viver (...).

Estou sempre a me questionar sobre o futuro dessas crianças adultas, isoladas e solitárias. Em que vãos se escondem as suas almas infantis e em que época de suas vidas poderão algum dia, resgatar à infância perdida? A resposta talvez esteja andando por aí, de mãos dadas com as drogas, o alcoolismo, o suicídio e também, na solidão dos cárceres da vida adulta.