Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

fevereiro 07, 2013

Sem Pouso e Sem Raízes



Como um pássaro de asas partidas eu procuro pouso. Um abrigo. Longe do deserto, do silêncio e da solidão...

Às vezes, como hoje, eu tenho uma vontade imensa de fazer uma declaração de amor rasgada, mas desisto na hora, quando percebo em seus olhos que já não me sinto em casa, com você. Estranho, lhe parece!?.  É que amar, para mim, é isso: esse desejo de me ver em seus olhos, de me sentir em casa e de deixar fluir a intensidade do meu querer... Uma viagem a dois!

Porém, sinto-me uma estrangeira, sem pouso e sem raízes e, por isso, não lhe falo mais sobre o meu amor que, agora, é feito de silêncios e de lembranças. Você continua vivo, em mim, sim, feito uma tatuagem que eu não consigo apagar, mas esse distanciamento entre nós diminuiu o ritmo dos meus passos e aquietou o som dos meus gemidos. E, como um pássaro de asas partidas, eu procurei abrigo.

No abrigo, transformações: quis ser águia, perder as minhas penas, me renovar.  Quis ser fênix, ressurgir das cinzas. Quis, nesse intervalo, aceitar o convite de amor de alguém e, nele encontrar um olhar carregado de promessas. Um porto seguro de onde eu jamais tivesse necessidade de partir... Porque partir foi tudo o que eu fiz desde que encontrei você.

Por isso, hoje, o pouso, o abrigo. Quero dar descanso para as minhas asas. Nunca mais deserto... Nunca mais solidão.




fevereiro 02, 2013

Lições da Vida







Sou um observatório do tempo. Ele é sempre um assunto recorrente na minha escrita. Gosto de vê-lo rodar ao sabor dos dias, meses e anos, à medida que vai modificando a vida das pessoas. Como uma roda gigante ele gira sem parar lembrando-nos que nada é estável e que devemos ficar atentos, pois a qualquer momento, no palco da vida, podemos estrear um papel, para o qual não estamos preparados. É que, às vezes, a máquina do tempo nos atinge com um dardo inflamado naquilo que temos de mais caro: o nosso orgulho e a nossa vaidade. Então, nessa hora, o dia parece passar em marcha lenta e ficamos confusos diante do imprevisível...

São as lições da vida ensinando-nos sobre humildade. Não a subserviente, aquela que baixa a cabeça para quem tem poder, status ou dinheiro, mas a outra, que fala à consciência e tem conhecimento da própria limitação. Essa humildade é característica dos que têm coragem de assumir a narrativa dos seus erros, da mesma maneira que assumem os seus acertos.

Passamos toda uma existência, cegos. Ignoramos as nossas falhas, fonte de aprendizado, e seguimos pela estrada como se nada houvesse acontecido. Um dia temos saúde, amor, trabalho, amizade, dinheiro, honrarias e oportunidades de realizar sonhos, no outro perdemos tudo ou quase tudo. E, o que fazemos?

- Esquecemos! Esquecemos, principalmente, quando olhamos para o outro com olhar desdém, de superioridade e de pouco caso, como se para além do nosso quintal não houvesse nada que valesse à pena. Nesse momento, não lembramos que o tempo não para – a memória é curta – e, que, quem tem saúde, amor, trabalho, dinheiro, honrarias ou oportunidades de realizar sonhos, certamente, um dia vai precisar sentir a firmeza do chão. É a roda gigante em seu movimento descendente ensinando-nos sobre o valor da humildade. Nesse instante, é sempre bom ter uma escada por perto, pois precisamos dela para descer do nosso pedestal, antes que a queda nos enfraqueça os ossos e entristeça a alma.

Por isso, devemos manter viva a imagem da nossa finitude e da transitoriedade das coisas. Devemos, também, aprender com os nossos erros, para que mais tarde não tenhamos que percorrer, pé ante pé, as bordas esgarçadas de uma vida desperdiçada e sem sentido.

Para isso, precisamos ficar alertas, pois temos o costume de esquecer o passado, fonte de ensinamento, e de colocarmos de lado a razão, que orienta a nossa caminhada mostrando-nos, a toda hora, que tudo o que principia, um dia pode ter fim e que podemos, sim, melhorar, aprender e reaprender, sempre, com as lições da vida.

janeiro 16, 2013

Saindo do Armário








Há um par de sapatos querendo sair do armário... Vermelho! Com ele, ela pretende palmilhar por caminhos nunca antes percorridos...

Foram anos dentro das prateleiras das convenções, sufocando desejos e abrindo mão de suas fantasias, mas, agora... Chega! A montagem do cenário, daqui para frente, será de sua autoria. Essa peça será encenada, custe o que custar, pensou.

Carregada de urgência e expectativa ela calçou os sapatos e, subitamente, viu a sua imagem refletida no espelho... Lembrou-se dos anos passados. Um mar de prata cobria-lhe os cabelos. Não importa, disse para si mesma! “Não há limite de idade para o desvario”. E, seguiu...


janeiro 08, 2013

Escolhas



Escolhas! Tudo na vida é escolha. Quando opto pela direita esqueço a esquerda; quando traço um caminho de linhas retas distancio-me das curvas; se desejo o novo desapego-me do velho. Tem sido sempre assim: uma hora ou outra tenho que decidir.

Passaram-se os anos, enquanto me recusava a ouvir os ponteiros do relógio marcar o tempo e selecionar as horas que me restavam de juventude. Fiz-me surda às urgências da vida e ao passar veloz dos dias e, tal qual um oleiro, fui moldando a argila dos meus sonhos de maneira que neles só coubesse a certeza de que, um dia, tudo enfim daria certo. Acreditei que tinha a posse da eternidade e fiquei à mercê das minhas fantasias.

Nesse meio tempo, criei um personagem e, delicadamente, dei-lhe forma; um sopro de vida. Pronto, nasceu o amor! Não, o real, mas aquele fruto do meu desejo e da minha imaginação. Então, passei anos a fio esperando por ele, até perceber que vesti os dias com a fantasia dos meus sonhos e que, na realidade, esse amor nunca existiu. Não, como eu o tinha imaginado... Foi aí que resolvi que já estava mais do que na hora de fazer uma escolha: não contar mais os dias pelos sonhos acalentados, deixar que as páginas da vida se lançassem ao sabor dos ventos e que a história traçasse o seu próprio percurso, sem a interferência da minha vontade. Uma decisão que iria me tirar da zona de conforto, onde tudo era poesia, e me expor, às vistas, o amor como era na realidade...

O que devo fazer para levar essa determinação adiante, perguntei-me?

- Ressignifique o amor! Disse-me a voz da razão. Insatisfeita, voltei à questão:

- Será essa a solução para as minhas dores? Existirá uma maneira de fazer esse afeto dar certo, sem que eu perca a minha essência? Pois, à medida que me deixo levar por ele vou ficando, cada vez mais, distante de mim mesma: esvaziada, despedaçada, desarticulada...

E, entre um pensamento e outro, indaguei-me novamente:

- Com quantos sim e não eu posso construir o castelo que vai abrigar esse sonho tão desejado? Pois, se sou companheira e adoço a vida com açúcar e com afeto, ele, o amor, dizendo-se cansado e entediado, foge da rotina e procura as damas da noite com as suas bocas carmesins. Quando ofereço a constância e a fidelidade do meu sentimento, sente falta da indiferença, do jogo e do faz- de- conta que as “outras” usam para manipular as relações afetivas... É sempre assim: ofereço o dia, ele quer a noite. Oferto a noite, ele deseja o vazio...

Afinal de contas, existe a possibilidade de uma escolha sensata, que abrigue, ao mesmo tempo, o desejo de amar e ser amada  e o de permanecer fiel a minha essência?

- A resposta pareceu-me apontar para o óbvio: existe! Pois, como já escreveu alguém: - “ Minha felicidade sou eu, não você. Não só porque você pode ser temporário, mas também porque você quer que eu seja o que não sou”.

Por isso, decidi:

- A partir de hoje deixo que a vida escreva em minhas páginas, um novo capítulo, onde o amor “ressignificado” possa contar uma história real e mais feliz do que as que eu tenho vivido até esse momento... Fiz minha escolha.

dezembro 01, 2012

A Verdade na Palavra Escrita




Ele chega pisando forte e vai logo avisando:

- Hoje, é o último dia de aula do curso de redação.  O tema é livre, mas eu quero “sangue, suor e lágrimas”. Quero a verdade na palavra escrita!

Nesse momento, vira-se em minha direção, sorri e completa: - siga o fluxo de suas emoções e deixe que as palavras jorrem sem nenhuma censura.  Depois, olha discretamente para o meu caderno de anotações, como se lhe adivinhasse o conteúdo e deixa-me a sós. Preocupada, pergunto-me: será que ele viu a poesia, na qual eu ainda clamo por tua presença? Sem resposta e sem saída, começo a escrever.

Nos dias de ócio, quando a casa está adormecida e o silêncio arrasta-me para o quintal dos meus sonhos, eu fico ali quieta, no meio do redemoinho das minhas emoções. Arredia, recuso-me a seguir os passos de um sentimento que teima em derramar-se pelas pautas do meu caderno.  Tento fechar as cortinas do passado, enquanto luto bravamente contras às horas que passam lentamente, mas de nada adianta. Ele surge nas minhas lembranças como um cavaleiro intrépido, traz desassossego para a minha alma, desconstrói as certezas com as quais eu edifico os muros da minha indiferença e, ainda exige de mim, coragem e atitude.

Então, rendo-me às evidências e percebo que não sou proprietária do meu tempo, pois ele me espreita a toda hora, quando resolvo apagar os vestígios da tua passagem pela minha vida.  Já não luto mais! Deixo-me seduzir pelas recordações, retiro o verbo do passado e murmuro: ainda penso em ti! Em seguida, rabisco o teu nome nas folhas de papel em branco e deixo que o meu desejo crie a mais bela poesia de amor. Depois, com a casa ainda adormecida e as lembranças, agora, em voz alta, levanto-me devagar, olho-me no espelho e mapeio as rugas do rosto, enquanto lembro o tempo que passou.

Nessa hora, uma dor lancinante faz o meu coração pulsar mais forte, quando penso que tu fugiste dos meus olhos sem me dizer adeus. Revoltada, pego os meus versos de amor e os faço em pedacinhos. Destruo a minha verdade.

Porém, no dia seguinte, em sala de aula, quando vejo o mestre aproximar-se de mim exigindo que eu costure o texto com “sangue, suor e lágrimas”, sinto-me duplamente traída: por sua argúcia e por minha emoção.

Então, mais que depressa, guardo a poesia dentro do caderno de anotações e começo a escrever, sob o olhar atento do professor de redação. 


novembro 10, 2012

Excesso de Bagagem











Vendo-me triste, alguém pergunta:

- O que te faz feliz?

Sem titubear, respondo-lhe que receber e enviar cartas de amor, escritas à mão, devolve-me o sorriso. Surpreendido com o inusitado da resposta, indaga-me:

- Por quê? E, eu lhe digo:

Porque ao abri-las sinto o perfume da felicidade e quando escrevo, nenhuma parte de mim se esgueira por entre os parágrafos. Ali, sou eu nua; amando sem máscaras e sem medo de ser feliz.

No acervo pessoal das minhas melhores lembranças, há sempre um carteiro e uma caixa de correio abastecendo-me de sorrisos e de sonhos. E, na memória afetiva, ecos de um tempo que ainda ressoa em mim lembrando-me de uma jovem que era feliz por que amava, era amada e sentia desejo de partilhar esse afeto com toda a humanidade.

Na construção da narrativa, daquela época, o amor era a coisa mais importante. Ele era o fio condutor para uma vida plena e feliz. Tudo o mais era valor agregado; necessário, mas não indispensável.  Não havia excessos, tampouco prazos de validade.

Porém, hoje, quando os arautos da má notícia anunciam o ‘fim do mundo’ para o dia 21 de dezembro, do corrente ano, preocupo-me com proximidade da data e resolvo fazer um inventário dos meus bens, para melhor aproveitar o tempo que me resta. Perdida nos pensamentos chego à conclusão de que dará excesso de bagagem, se eu resolver levar  o que acumulei durante décadas, pensando que tudo aquilo era a felicidade: casas, carros, títulos de clube, celulares, notebook, roupas de marca, aplicações e algumas quinquilharias... Lembranças das viagens que fiz.

Perplexa, constato que nada daquilo caberá no meu caixão - ele não tem gavetas - nem nos sete palmos de terra destinados a mim, quando chegar à derradeira hora.

Entre surpresa e aliviada por não carregar mais nenhum peso, decido que já é hora de despojar-me também, das vaidades, das ambições, do orgulho, dos rancores e mágoas que alimentaram a minha alma nessa breve passagem pela vida. E agora, que me encontro livre, leve, solta e sem nenhuma carga, sinto-me triste. E, essa tristeza que você vê no meu olhar empanando-lhe o brilho, é pelas pessoas que ainda valorizam coisas que as traças e a ferrugem vão destruir, pois, nesse exato momento, quando penso em felicidade, só me vem à mente aquela época em que a alegria corria solta pelos meus olhos. Por isso, volto à sua pergunta:

- O que te faz feliz? E, reafirmo.

Sinto-me feliz quando abro as cortinas do passado e uma saudade imensa invade-me de tal forma, que eu roubo uma fatia do tempo e percebo que ali, naquele antigo cenário; composto por um carteiro, uma caixa de correio e pelos bordados da minha imaginação está a melhor parte de mim... A mais feliz!  Sem excessos e sem  bagagem.

outubro 05, 2012

Em Tom Confessional




Cansado das entrelinhas e do jogo de palavras que escondem a nudez da minha alma você propõe uma trégua e pede:

 - Fale-me do tempo e do amor, em tom confessional!

 Tento articular algumas palavras para esquivar-me, mas é inútil.  Você tem fome de leão e está disposto a dilacerar até o último pedaço da minha intimidade. Desde já, assume as funções do vicariato e fica à escuta. Promete segredo. Diz que veio em missão de paz. Afinal de contas, hoje, somos apenas bons amigos.

Esgotada, física e mentalmente, por uma luta interna onde as vozes do meu querer levam-me de encontro à realidade, estendo as minhas mãos, mostro-lhe três folhas em seus tempos; passado, presente e futuro e confesso-lhe:

- Meu coração era jovem e verde como a esperança! Uma sala de espera, um lugar onde, pacientemente, eu bordava todos os meus sonhos. Tinha a alma tatuada com a frase: desistir, jamais! E, um abraço lambuzado de palavras doces.  Naquele tempo, eu não sentia saudades de mim porque tudo ainda era floração. O relógio, em compasso de espera, fazia as horas passarem lentamente, enquanto a minha vida desabrochava em todo seu esplendor, contemplando um belo porvir! Eu me preparava para viver um grande amor.

Então, eis que surgiu o momento presente e eu deixei a sala para ganhar às ruas. Estava pronta, amadureci.  Encontrei o amor e fiz dele o inquilino do meu coração.  Abri os braços e ofereci-me como agasalho para os tempos de tempestades e incertezas. Fiz a doação de um sentimento incondicional.  Fui um templo de alegria e respeito, um porto-seguro, mas de nada adiantou. Você – o amor que eu encontrei – carregava sempre uma mala, o desejo de partir e o passaporte em mãos.  A luz cambiante do momento presente o seduzia e a inquietação da sua alma viajante transformava o aeroporto em porta da sua casa. Mal chegava e já estava de partida. Sabe Deus para onde! Quiçá, para outros braços... Não o vi mais, durante anos.

Porém, quando o futuro começou a mostrar a sua cara e, com ela, uma solidão desenhada: os achaques da idade, os primeiros cabelos brancos, as rugas e cicatrizes do corpo e da alma, tudo isso fez você se aperceber de que as horas passaram inclementes. Já não lhe sobravam anos para tanta aventura. Por isso, tentou voltar à época da sala de espera – quando o meu coração ainda era jovem e inexperiente - e procurou o porto seguro do meu afeto, mas só encontrou a solidão do cais, pois eu também resolvi partir deixando-lhe apenas um bilhete em tom confessional:

“Meu querido,

Passado, presente e futuro – as três folhas secas - são partes de uma mesma árvore e podem significar a morte ou a ressurreição. É tudo uma questão de escolha. Você preferiu a morte. Eu, a vida, mas, agora, é tarde demais para nós dois. Estou amando novamente.  Adeus”!


setembro 25, 2012

Sobre Viagens e Saudades




Ando com saudades de mim. Quero me visitar, mas sem malas nem máquina fotográfica. Sem lembranças... Desejo partir, enquanto o dia ainda descansa nos braços da noite. Quero viajar! Perder-me no emaranhado das ruas de um país desconhecido e sentir-me anônima: suprema delícia de ser eu mesma. Encontrar-me!

Viajar para encontrar-me! Hoje, é tudo o que eu mais almejo. Passear pelas ruas dos meus sonhos livremente e olhar sem pudores e sem distanciamento para os meus desejos, assumindo-os.

Quero viajar para esquecer a geografia dos meus passos na pátria de intimidades da qual eu exilei o amor e, só assim, refugiar-me outra vez em seus braços. Cansei de vivê-lo, apenas por meio da escrita e da minha pontuação hesitante.

Por isso quero partir, enquanto ainda sinto saudades de mim... Saudades da minha fome de infinito e de acordar palavras que me façam caber em seus braços, pois, atualmente, tudo o que faço é pontuar as minhas letras com reticências, nas páginas de um amor não assumido.


setembro 02, 2012

Reminiscências – Parte Dois



















Numa dessas coincidências da vida volto, no dia seguinte, ao supermercado e encontro, novamente, o meu professor de redação. Conversamos sobre assuntos corriqueiros e, em determinado momento, ele cobra-me o texto anterior, dizendo que o tema sobre o passado ficou incompleto. Faltaram parágrafos sobre o amor: suas dores, alegrias e intimidades. Exige confissões... Digo-lhe que a memória da paixão é frágil. Ele insiste. Eu resisto! Estou cansada de despir-me a cada palavra escrita. Mas, como não tenho alternativa esforço-me para cumprir a tarefa. Vou tirar, mais uma vez, a roupa dos pensamentos... Fazer strip-tease das minhas fantasias.

Houve uma época em que o amor costurava as minhas pautas. Eu alinhavava palavras de carinho e ternura e, com elas, bordava as páginas dos meus textos. Remanescente de uma geração que lutara por liberdade e igualdade acreditei que o passado era um tempo comum aos dois gêneros e que, juntos, poderíamos construir uma relação de amor, confiança e respeito nesse mundo contemporâneo. Ledo engano. A história evoluiu, o homem, não! Ele saiu da caverna, mas continua aparvalhado. Deseja as benesses da evolução para sua espécie, no entanto recusa-se a conceder os mesmos privilégios para a mulher.


Procuro nos arquivos da memória, onde cataloguei as lembranças e não encontro, professor, esse amor que me faça garimpar palavras para antecipar saudades. No terreno dos meus sonhos só houve amor de perdição. Não tenho alegrias e intimidades para festejar, pois desse sentimento só conheço as dores: traição, abandono e solidão. Recuso-me a inventar trajetórias por onde os meus pés não caminharam. Portanto, não me peça para refazer a redação e falar sobre um amor que eu não conheço. Conheço, sim, o amor no universo masculino. Uma terra sem lei e sem respeito.


Cresci no mundo dos homens – de tantas prerrogativas - mas não aceito os seus arreios, não comungo de suas ideias, nem pactuo com os seus privilégios... A não ser que possa usufruir dos mesmos direitos.


Quero para mim, também, o direito à infidelidade, à traição e à esbórnia sem o julgamento nem a condenação do mundo machista. Quero usar as mesmas armas e provocar as mesmas feridas. Quero contar vantagens, fazer piada do sofrimento alheio, enganar os tolos e beber à sua inocência e, ainda assim, não ser taxada de leviana, irresponsável, nem de adúltera. Quero tantas coisas, mas, principalmente, quero que o tempo corra justo, pois nessa luta inglória, onde masculino e feminino se digladiam em busca de direito, poder e reconhecimento, só quem perdeu foi o amor...


E, é por isso, professor, que a minha redação sobre reminiscências está incompleta. Faltou saudade para contar histórias.

agosto 26, 2012

Reminiscências










De longe, na fila do supermercado, ele – meu professor de redação - grita: essa é fácil, Juliêta! Fale-me do passado. Amanhã!

Acho graça na provocação e aceito o desafio, pois preservo as minhas lembranças em um recanto guardado pelos cercados da memória. Aqui, onde as horas descansam, preguiçosamente, eu encontro um campo fecundo para onde posso vir sempre que seja necessário reinventar a minha própria geografia. Digo reinventar porque não sei o que fazer com esse tempo presente, que só tem serventia para mudar a narrativa dos meus sonhos.

Falar sobre o que passou – quando se foi feliz - é sempre agradável, embora saibamos que o saudosismo é considerado traço distintivo de quem já dobrou o “cabo da boa esperança” e, por vezes, motivo de ironia da parte de quem nos escuta. Mais uma vez aceito o convite, só me resta abrir às comportas do tempo.

Sinto falta do passado, admito! E, falar sobre ele é revisitar a janela dos dias que se foram para dar livre passagem à saudade. É ter em mãos um passaporte para encurtar à distância, entre as páginas viradas da vida. Vida que, hoje, se anuncia tão pródiga em dilapidar o capital dos nossos sonhos. Falar no passado – ontem, antigamente, na minha época - é desconstruir a lógica que rege o tempo linear trazendo-o para afrontar esse presente, que se mostra tão sem futuro.

Futuro que não cabe nos arquivos da minha memória, pois, aqui, eu só coleciono saudades. Saudades de um período sem Celular, sem Twitter, nem Facebook, mas pleno de afetos verdadeiros...

Triste presente, esse de palavras e amores obsoletos, onde temos que “ tuitar ” todo o nosso sentimento em 140 caracteres. Triste presente, esse de janelas de Facebook, a sugerir amigos. Amigos sem tempo, apressados e reticentes. Números! Tempo triste, esse, de estatísticas para medir afeto, carinho e amizade. Um milhão de amigos, no entanto, uma solidão doída, não partilhada.

Por isso, sinto tanta falta do passado. Principalmente, quando o presente ainda não dobrou a esquina e o futuro é incerto. Sinto falta porque sou olhos, ouvidos, abraços e mãos estendidas. Sou antiga. Sou passado.

agosto 02, 2012

Uma Saudade



Ontem, caminhando pela areia da praia, lembrei-me de ti, Rolando. De imediato, me veio o nome de um filme cujo título era: “Nunca te vi, sempre te amei”. Lembrei também que a morte sequestrou os anos que te restavam e, pérfida, dispensou o resgate.

O que fazer agora com essa imensa saudade, meu amigo?

- Conformar-me e deslizar os olhos, diariamente, pelo “chão do infinito” à espera que uma estrela cadente me dê notícias tuas?!

- Não! Decididamente não! Porque saudade é o único patrimônio que amealhei durante esses anos de distância geográfica - entre nós - e não pretendo abrir mão dela, para transformar a tua lembrança num amontoado de cinzas.

Ontem, hoje e sempre, o que eu mais desejo é colocar lenha na fogueira que um dia acendeste, para lembrar-me de ti e das tuas palavras. Palavras que me aqueciam nas noites frias de inverno da alma...

Por isso esse texto, hoje. Desisti de ouvir estrelas. Vou ao teu encontro lá no “Entremares”. Quero constatar que a morte é só uma palavra, uma distância, um vazio. E tu, Rolando; uma amizade, um amor, uma saudade. Sempre!

julho 21, 2012

As Três Marias




Diariamente, caminho pelas ruas dentro de mim e encontro três mulheres. Anônimas! Dei-lhes o nome de Maria: a santa, a mãe e a outra.

No jogo da vida, Maria, a santa, vence de goleada. É imbatível e a todos encanta. Geração, após geração destoa dos costumes vigentes e da modernidade mantendo-se incólume. Com a sua áurea de santidade, convence aos outros de que reta é a sua conduta e que foi concebida para a liturgia do lar... Nada mais a acrescentar sobre ela.

Maria, a mãe!  Lava, passa, cozinha e educa... Tem carta branca para entrar no paraíso, pois na contabilidade da sua vida somente doou carinho, afeto, amor e cuidados. Os filhos são o seu único tesouro. Poderíamos chamá-la, também, de renúncia, pois colocou cercas ao seu redor. Despediu-se da vida quando um frescor interno ainda habitava a sua alma. Poderia ter alçado grandes voos, mas optou por viver à sombra dos que brilham. E, isso é tudo o que sei sobre ela.

Maria, a outra! O próprio nome já lhe pesa... A que poderia ter sido e não foi. Nela há uma rebeldia latente, um desejo enorme de transgredir... Por anos a fio guarda dentro de si uma inquietação que lhe consume os dias e as noites. Debruça-se sobre as lembranças do passado e não aceita que a sua condição de mulher seja passaporte para o atraso das ideias, dos costumes e, principalmente, da justiça social. E, no fluxo de suas incertezas, no silêncio contemplativo das madrugadas, pergunta-se:

- Por que me sinto assim despovoada, estrangeira de mim mesma? Qual o meu lugar no mundo se me tiram o direito à voz e à vida?  Aonde me encaixo no momento atual? Estudo, trabalho, pago os meus impostos e estou em dia com as minhas obrigações cívicas: ajudo a eleger aqueles que vão decidir o destino do meu país. Por que, então, cerceiam o meu direito de ir e vir colocando-me um cabresto, que me desvia do caminho e do avanço significativo das ideias que libertam? Pensando nisso, pede:

- Não me obriguem a olhar para o passado, pois nele eu só enxergo a santa e a mãe.  Elas ainda permanecem no altar do tempo, mas a outra, hoje, é a mulher que mais percorre caminhos, dentro de mim, nas noites insones, pois tem muita sede de viver.  E, em sendo assim, dou-lhe voz e vida tirando-a do anonimato.

- A outra sou eu: moderna, atual, senhora do meu destino e dos meus desejos. Uma mulher bem resolvida...  Sou, também, a santa e a mãe. Juntas, formamos uma trindade pensante. Indissociável. Só não vê quem não quer!





julho 08, 2012

Um Tema de Improviso





Sempre que eu encontro o meu professor de redação, ele desafia-me com os seus temas de improviso. Uma brincadeira que a esta altura não me rende sequer uma nota mínima. É que andei desbotando as minhas saudades. Mas, como recusar um pedido do querido mestre que ao longo dos anos ensinou-me a pontuar as minhas dores?

Refeita da surpresa de vê-lo, assim, diante de mim, ao acaso, não resisti à tentação e comecei a desfiar o meu rosário de queixas.

Ah! Professor, não me peça para acordar as minhas lembranças, pois elas, agora, são permeadas de reticências: daquilo que não fiz, do que não fui e do que não ousei.  Doem, em mim, as folhas do tempo que eu não vivi...

Queria um momento que fosse da minha juventude, para desafiar convenções, regras e preconceitos. Queria um instante apenas, para afrontar o destino que me fez covarde e submissa.

Ousar!  Essa é a palavra de ordem para qual eu nunca dei ouvidos. Arriscar-se, atrever-se, decidir-se... Desarrumar a vida e empacotar lembranças com cheiro de naftalina foi algo que não passou de um intervalo entre a minha vontade e o meu medo. Medo de não saber reinventar a existência dando-lhe um lugar para o imponderável.

Ah, como eu queria - no passado - ter a visão do agora, onde me descobri portadora de quereres e de desejos nunca antes experimentados. Uma pausa nos ponteiros do relógio seria suficiente para que eu inventariasse as minhas dores e decidisse: daqui pra frente tudo vai ser diferente... Mas, hoje, falta-me tempo e sobra coragem!

Por isso, como é finda a nossa conversa e só me restam duas “linhas”, termino a oralidade da minha redação, dizendo: até outro dia, professor!




junho 19, 2012

Rótulos e Prazos de Validade



O que me incomoda, poucos sabem, pois viver é transitar entre o que pensam de mim e quem realmente sou... Porém, posso afirmar que algumas atitudes me causam desconforto e, uma delas é essa mania que as pessoas têm de medir e aferir graus de importância à passagem do tempo como se a vida, a felicidade e o prazer pudessem ser medidos em números e tivessem garantia de qualidade, apenas, dentro dos prazos de validade a se vencerem aos quinze, dezoito, vinte e cinco, trinta anos ou um pouco mais que isso.

Quem disse que a vida, o beijo na boca e o sexo aos quarenta, cinquenta, sessenta e outros “entas” têm que ser contidos e comportadinhos a partir daí? E por que não podem ser tão interessante, intenso e apaixonantes quanto!? O que define a qualidade de uma boa relação?  Será o orgasmo do corpo físico, que se extingue em poucos minutos, ou o arrebatamento da alma que se reconhece nos olhos do outro, quando na mesma sintonia, dando-nos a sensação de plenitude? Essas são perguntas cujas respostas dependem da subjetividade de cada um.

De minha parte, não gosto quando alguém indaga: - que idade você tem? Ou há quanto tempo está sozinha? Pois reconheço o que está implícito na pergunta: rótulos! Há tanta coisa mais importante para saber sobre mim, como por exemplo: que eu tenho sessenta e dois anos, mas alimento a minha alma e o meu corpo, todos os dias, com uma curiosidade e uma alegria naturais às crianças. E, que a estas perguntas mais frequentes que algumas pessoas fazem sobre a passagem dos anos e da solidão, eu sempre respondo:

- Não tenho idade, tenho sonhos! E não gosto de quem passa a vida medindo, mas se isso lhe dá prazer, meça, pois enquanto você faz isso, eu vou ser feliz... Pode parecer grosseira, mas muito mais indelicada que a minha resposta é alguém – ainda que inconsciente - decidir em que momento a felicidade pode bater a minha porta e condicionar isto a um número no meu RG ou a uma data qualquer que indique se o meu prazo de validade está vencido!

Habitamos um tempo em que viver só é visto como sinônimo de frustração e incompetência, mas esquecemos de que viver sozinha não quer dizer solitária. Solitária são todas as pessoas que, engessadas no tempo, não se bastam nem assumem os seus desejos e, por isso, vivem numa eterna fila à procura de alguém que administre a sua vida dentro dos rígidos padrões, do certo e errado, como se o prazer e a felicidade tivessem dia e hora marcados para serem vividos em plenitude.

A essas pessoas eu digo: sou de amores longos; antigos. Daqueles em que os anos se contavam em respeito, cumplicidade e paixão... Muita paixão.  Não gosto de amores sem teto. Desses que a fila anda numa frequência tão assustadora que mal dá tempo de exercer ternuras e fazer carinhos. Incomoda-me esse caos interior que as pessoas abrigam dentro do peito e que as levam a uma corrida incessante e frenética, como se a idade ou o tempo pudessem ser empecilhos à conquista da felicidade.

Por isso, não me coloquem rótulos, nem prazo de validade, pois tenho por hábito ser feliz e viver o amor em qualquer tempo e idade... E, sempre!




junho 08, 2012

Segredos de Confessionário




No teclado, as letras fora da ordem alfabética, lembram-me o lúdico e, instintivamente, quero brincar com as palavras, mas olho para elas e, dentro do meu silêncio tagarela, penso: este é o momento certo para juntar-lhes as notas musicais dos meus gemidos e compor uma linda canção de amor. 

Porém, hesito, pois apropriar-me das palavras e assumi-las como senhora dos meus sonhos e dos meus desejos leva-me, inevitavelmente, a escrever segredos de confessionário.

- Será que estou pronta para fazê-lo, pergunto-me!? E, antes que a dúvida amordace novamente as minhas frases, deixo que as minhas mãos deslizem pelo teclado, libertando-as. Hoje, darei carta de alforria aos meus pensamentos. Vou revelar o meu segredo.

- Amei-o tanto e tão profundamente que esqueci de mim. Dediquei os melhores anos da minha juventude a uma esperança estéril, irmã gêmea do abandono ao qual me entreguei, quando, por minha livre e espontânea vontade, alimentei ilusões de poder reconstruir os caminhos por onde, um dia, desfilou o nosso amor de ontem.

Ontem, tempo pretérito, passado que não passa, pois ainda que lhe reconheçamos o cheiro de naftalina e a fragilidade dos sonhos, falta-nos o alicerce da vontade para admitir que: só é nosso aquilo que possuímos. E, eu nunca o tive. Faltou entrega, mas muito mais do que isso, faltou honestidade e atitude. Sobrou covardia!

Não lhe cobrei royalty por alimentar a sua vaidade com o meu amor, e sim, dignidade e respeito, pois não lhe bati à porta com um pires na mão, apenas amei-o em silêncio, por um longo tempo. Tempo que um dia se esgota sem arrependimentos nem mais saudades, pois venho descobrindo que gosto mesmo é de falar de amor...