Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

junho 13, 2008

As ruas dentro de mim






As ruas da minha cidade caminham dentro de mim e por elas passeiam a menina-moça que eu fui um dia. Hoje, ao percorrer a passos largos de saudades por essas mesmas vias de outrora, me vejo - num olhar de doce contemplação - a procurar personagens que fazem parte desse meu trajeto pelas ruas da cidade.

Tudo continua igual, nada nem ninguém mudou de endereço.
Nenhum caminhão de mudança à vista...
Por que será, então, que só eu faço parte desse cenário? Um silêncio cala o barulho que vem de fora e eu sinto nesse momento que os meus sentidos se aguçam, reproduzindo sons e trazendo aromas, que fazem aflorar através das minhas lembranças, os passos que me conduzem a esse mesmo lugar e a fragrância do jasmim que perfumam as ruas da minha cidade.

Abro a janela da minha alma e a imaginação corre solta: ruas, avenidas e praças contornam os meus sonhos de menina. Aqui, a Festa das Neves se manifesta através do som alegre dos seus parques de diversões, da alegria criança dos seus meninos com o cheiro do cachorro-quente, do espetinho de carne e da maçã do amor. Lá nas Avenidas dos Ipês Amarelos, onde a poesia e o poeta marcaram um encontro de amor, alguma lágrima furtiva ficou esquecida a banhar as folhas que caem, marcas de um tempo e de saudades, ainda, em flor. Folhas ao vento espalham-se, cobrindo ruas, dobrando esquinas e deixando nua a minha alma, que caminha hoje solitária, pelas ruas dentro de mim.


Na praça, sentado em um banco qualquer, eu encontro o poeta – único personagem resgatado nessas minhas andanças – trazendo em suas mãos um amontoado de sonhos, em folhas de outono, que se dispersam pelos chãos: é um viajante que corre em busca do tempo perdido; é um encontro que foi desfeito e uma saudade que foi esquecida. E, finalmente, é o vento que varre as ruas, hoje quase nuas, e os espelhos d’água, provocados pelas lágrimas minhas e suas.

maio 24, 2008

Quem eu Sou?




A quem interessar possa eu quero dizer que não tenho pretensões literárias. Escrevo para exorcizar velhos amores e curar antigas feridas. As palavras me vêm como beija-flores: pousam e vão embora. Percorro todo o alfabeto velozmente, brincando com as palavras, tentando dar-lhes sentido para ver se alguma coisa aqui dentro - do coração - faz eco.
E entre uma frase e outra eu, às vezes, tropeço nas palavras dando-lhes um peso e uma importância que já não têm mais.

Quem eu sou, pergunto-me? Sou a soma das palavras que se juntam para falarem de amor. Tenho-as no céu da boca adoçadas pelo mel que escorrem dos amores finitos.

Ainda não consegui o meu alvará de soltura em matéria de amor. Falta-me atrevimento, ousadia para tentar um novo caminho que me liberte da zona de conforto onde eu me refugiei. Em meu sítio de memórias ainda guardo velhas lembranças que se deixam corroer pelas traças, mas não abrem mão do passado e seu cheiro de naftalina. Tento provocar avarias desconstruindo personagens mitificadas, mas o amor não quer tirar férias em meu coração. Então eu vou seguindo à trilha deixando que os meus passos contem, passo a passo, quem eu sou.

maio 22, 2008

Meus três Amores





As folhas secas do outono me fazem lembrar os baús esquecidos nos porões, guardiões de saudades esquecidas, que vez ou outra ressurgem com cheiro de naftalina. É o inverno que se avizinha trazendo o vento frio que açoita a minha alma, com lembranças já gastas de um passado ainda tão recente.

Foram três os amores que eu tive.
Três amores, três visitas: Uma esperança, uma presença e uma lembrança.
A primeira me surgiu em cima de um cavalo baio, tocou levemente em meu corpo e arrebatou a minha alma. Deixou-me trinta moedas de ouro.
A segunda me chegou de mansinho, como quem nada queria, me encontrou desarvorada e me deu o seu carinho. Foi no verão, um tempo de calor e emoção. Um beijo tímido e hesitante foi o presente e marcou a fecundação. Deixou-me três vidas.
A terceira trouxe o beijo molhado de chuva, a rosa vermelha ainda em botão, o amor cantado em versos e prosa para alegrar o meu coração. Era a primavera e a vida se fez alegria, estava no ar o amor com gosto de poesia. Deixou-me um poema e uma canção, e a certeza do seu amor em meu coração.

Foram três os amores que eu tive. Três amores, três visitas.
E foi assim que o amor se fez silêncio, nos braços do sonho que o acalentava.

maio 07, 2008

Sob o signo da liberdade





Andaram me procurando, não encontraram. Recolhi-me.
E agora, sob o signo da liberdade, eu estou perambulando pelas ruas esquecidas de mim. Já não tenho necessidade das grades da alma. A chuva arrastou tudo o que encontrou pela frente e deixou desabrigado o meu coração. E por estar assim, exposto às intempéries, ele apressou o passo e foi ao encontro de uma nova vida... Um lugar seguro onde pôde abrigar-se dos rigores do inverno, enquanto a primavera com o seu verde esperança, não tardou a lhe trazer o sol que a tudo iluminou e fez florescer.

Durante o tempo em que a chuva se fez presente com os seus raios e trovoadas, não pude perceber toda a beleza do arco-íris que vem depois. Mas, um pequeno raio de sol em toda a sua exuberância de luz fez surgir, da cadeia que aprisionou a minha alma por tanto tempo, a Fênix que habita em mim... Então, eu ressurgi, mas não das cinzas e sim, de um belo dia de chuva que lavou a minha alma e deixou livre o meu coração.

abril 28, 2008

Inesquecível




Uma tela em branco à minha frente sempre me convida a rabiscar ideias que pulsam a todo o momento, quando permito que os meus sentimentos fiquem à deriva. Deixo-me conduzir, então, por lembranças que a marca do tempo não conseguiu alcançar: tudo se faz presente outra vez. Um cheiro, um som e uma voz, e eu já embarquei nesse trem em busca de uma estação chamada saudade. Lá, existe um terreno fértil onde eu vou poder acolher e agasalhar todos os momentos vividos, resgatando-os para, oportunamente, transformá-los em inesquecíveis.

Somos todos passageiros de um tempo, em que as lembranças começam sempre que os primeiros fios de cabelos brancos nos conduzem ao porto solidão. Nesse lugar, ficamos a sós e em meio a esse silêncio interior, buscamos em nossas memórias por momentos intangíveis.


Uma casa com pomar e imensos canteiros é a mais bela tradução de uma infância feliz. De manhã, ao primeiro raio de sol, lá estava eu, toda faceira, recolhendo todos os cajás que as minhas mãos infantis pudessem alcançar. Depois vinham as pinhas, as goiabas e as groselhas, muitas vezes colhidas sob uma chuva fina que só contribuía para deixar o amanhecer mais encantador. Café da manhã tomado, corria eu para os canteiros de flores e hortaliças, onde os pés de alface, de coentro, de tomate e de pimentão, molhadinhos do orvalho da madrugada, ofereciam aos meus olhos um espetáculo de cores em perfeita sintonia com a suavidade do perfume da rosas, das margaridas, dos cravos e dálias que enfeitavam o jardim da minha mãe. Esse é o cheiro... Inesquecível.


Foi há tanto tempo e aqui dentro - do coração - parece que aconteceu ontem: um rádio antigo tocava a música o ‘Lago dos Cisnes’ embalando a novela que se passava às 17h30min, para logo em seguida, a primeira batida das l8 horas, a suave ‘Ave Maria de Gounod’, se fazer ouvir. Depois, após o jantar, íamos todos à sala do piano, ouvir Ray Conniff em suaves acordes, transformando a noite em uma doce melodia. Esse é o som... Inesquecível.


Uma rede na varanda – para ler gibis - um balanço de cordas no pé de flamboaiã, brincadeiras com bola de gude, com bambolê, jogar amarelinha e brincar de casinha, trazem hoje, aqui e agora, o eco de uma voz... Inesquecível. “Menina, passe já para dentro! Está na hora de tomar banho, almoçar, ir ao colégio, dormir, acordar, apanhar cajás...”.


É a vida que continua gerando lembranças e trazendo saudades: Um cheiro... Um som... Uma voz... Inesquecíveis.

abril 25, 2008

Sonhos!









Tínhamos um encontro marcado, todos os dias, eu e o poeta. Sempre que eu ligava o computador, ali estava ele, sereno, afetuoso e magnânimo em seus comentários. Fui me acostumando a tê-lo por perto e me distraí, quando me dei conta estava totalmente seduzida por suas palavras: o amor se instalou em meu coração.

Ah! Meu poeta distraído, por onde andará, hoje, todo o sentimento do mundo que você poeticamente transforma em ‘palavras caramelo’? Sinto saudades das coisas e dos afetos que não vivemos, separados que fomos por caminhos que não se cruzaram. Como teria sido o encontro entre a menina sonhadora e o poeta distraído? Caberia em palavras um sentimento tão puro que nem um coração tão grande parece ter espaço para abrigar?

Sonhos... São sempre sonhos as viagens que fazemos juntos. Eu aqui a desenrolar os fios de um novelo, peça de ficção, de uma história de amor que nunca aconteceu, e você daí, tal e qual um poeta apaixonado, a me mandar versos encantados que seduzem e arrebatam a minha alma.

março 29, 2008

Canção da Chuva



Lá fora, a chuva cai silenciosa e intermitente. Aqui dentro, as lembranças vão surgindo no mesmo ritmo, deixando a descoberto a criança que fui um dia. Basta uma garoa e lá estou eu, menina, a correr pelos campos, olhando para o céu e pedindo a São Pedro que faça cair um toró capaz de lavar a minha alma.

Que saudades que eu tenho de ser criança outra vez! Ela é a minha melhor parte... É o sonho, a magia, a ternura, a inocência e o mais importante: é a soma de toda a humanidade dentro de mim. Posso abrigar dentro dela, o branco e o negro, o feio e o belo, o perfeito e o imperfeito, o oriental e o ocidental, sem que isso faça a menor diferença, pois ela desconhece a maldade e o preconceito.


Não por acaso, hoje, sentindo essa chuva fina que cai como lágrimas dos céus a derramarem-se sobre o meu rosto; eu sinto saudades da minha infância e da alegria criança que eu nunca perdi. Tenho ímpetos de sair por aí me banhando nas águas de março, oferecendo o rosto para o beijo molhado da chuva a purificar a minha alma e aquietar o meu coração tão saudoso do passado.

A minha memória afetiva traz o som de um piano a executar o ‘Noturno de Chopin’ noite adentro, em sintonia com a canção da chuva que torna o ambiente acolhedor e propício às saudades em tom maior.


Um jardim cheio de flores, borboletas a pousar em rosas, margaridas, cravos e dálias e uma grama molhada pelo orvalho da madrugada denunciam que a criança que há em mim, está pedindo passagem: “são as águas de março fechando o verão” é a saudade de mim, fazendo morada em meu coração.

março 14, 2008

Antes que seja tarde!




A você que percorreu comigo toda a Via Láctea e, entre sorrisos e beijos, caminhou por entre astros e estrelas, murmurando palavras de amor, eu venho, hoje, prestar a minha homenagem.

Obrigada, por seu amor tão puro, tão lindo e tão sedutor. Obrigada pela beleza desse amor cantado em versos e em prosas e por ter me apresentado a ele de uma maneira tão doce, tão terna e ao mesmo tempo tão arrebatadora...

Foram anos de encantamento e magia, que eu plantei no jardim das saudades que gosto de ter e para as quais eu volto, sempre que do amor alguém me faz descrer.

Quisera, ainda, com você poder compartilhar uma lua cheia, um chão coberto de estrelas. Vagar por entre nuvens, vivendo os mesmos sonhos e as mesmas emoções e, de mãos dadas, pisar nos astros de maneira distraída... Mas não posso. E essa impossibilidade me diz que isto também é amor. É outra forma de amor. É respeito, é carinho, é o amor numa dimensão que não se mede pelo prazer, nem pela dor e, sim, por tudo o que ele representou enquanto durou.

A você que me ofertou flocos de algodão doce em forma de carinho e fez uma passarela de pétalas de rosas para que o meu caminhar fosse mais suave, eu retribuo dizendo, antes que seja tarde: Obrigada, por você ter existido em minha vida de uma maneira perene, afetuosa e singular.

março 02, 2008

Procura-se!




Procura-se um amor pra chamar de seu, que venha embrulhado em ternuras e que seja afeito aos carinhos meus. Sinto falta do amor... do amor simples, despojado e generoso, que não tenha pressa em partir e que se encante com a possibilidade do ficar. Sinto falta do amor que adore uma lua cheia, que goste de se banhar nas estrelas e que me faça versos ao luar. Sinto falta do amor que goste da terra molhada, do jardim cheio de flores e o do orvalho da madrugada.

Procura-se um amor que conjugue o verbo amar, que saiba rimar saudade com poesia e que tenha pressa em voltar.

Procura-se um amor que goste de chamego, de ternura e de aconchego e que venha para ficar... enquanto houver estrelas e noites de luar.

fevereiro 29, 2008

Gratidão


















Tenho alma de criança e embora o meu corpo acompanhe a minha idade, sinto a vida de uma maneira leve, quase lúdica. Nada me pesa, nem as mágoas, nem os rancores, nem os sofrimentos que chegam sem aviso prévio. Aprendi a agradecer a Deus por tudo que ele me enviou em forma de bênçãos e também de dificuldades, pois, percebi que a natureza sempre provê na hora certa àqueles que andam nos caminhos da retidão e da justiça.

Meu lema é: fazer aos outros, aquilo que gostaria que fizessem comigo e, em sendo assim, vivo sempre em estado de graça. De nada a minha consciência me acusa e eu preciso dessa paz de espírito para poder levar a minha vida com leveza.

Quando algo ocorre fora do script eu logo me pergunto: o que é que isto está querendo me dizer? Se me comportei mal procuro corrigir e se não entendi a mensagem, fico alerta para futuras providências. Não sei viver diferente! O respeito pelo outro é o que me impulsiona a agir assim.

Muitas vezes me questiono por achar que a vida tem sido pródiga de graças para comigo e para com a minha família, quando há tanto sofrimento lá fora para ser visto, avaliado e reparado.

Nessas horas então, eu caio em campo, arregaço as mangas e tento fazer a minha parte. E dessa forma vou seguindo a minha vida, vivendo, amando e aprendendo que todos nós fazemos parte de uma mesma corrente e que um só elo que se parta fará toda a diferença. Daí a nossa obrigação e o nosso dever de fazer sempre o bem, sem olhar a quem.

fevereiro 25, 2008

Homenagem a Luiz Augusto Crispim.




Outro dia, ao ler o Jornal Correio da Paraíba, do qual sou assinante, deparei-me com o seu artigo “Memórias Baldias”. Causou-me estupefação alguém questioná-lo por escrever sobre o passado ou “coisas velhas”, como afirmou o seu leitor.

Como pode alguém relegar as suas lembranças e expatriá-las para longe de si, quando, na verdade, somos todos colcha de retalhos que vamos juntando dia a dia, tirando-os do baú das nossas recordações e agregando-os às nossas saudades esquecidas?

Entre perplexa e estupefata, indaguei: será que o leitor teve, em sua infância, o afago de uma mão amiga a guiar-lhe pelos caminhos que constroem o que seria o museu das nossas primeiras impressões e com as quais, mais tarde, vamos edificar o templo das nossas convicções?

De minha parte, devo dizer-lhe, caro jornalista, que todos os dias, durante todos esses anos, acompanhei os seus passos e fui peregrina de todas as suas emoções em “Caminhos de Mim”. Devo dizer-lhe ainda mais: que aprendi a cultivar as minhas saudades esquecidas, trazendo-as à tona quando delas necessito para tornar os meus dias mais leves, graças à poesia, à delicadeza e ao encantamento que os seus textos me proporcionam.

Durante todo esse tempo, mantive em silêncio a admiração e o respeito, que a sua alma de poeta desperta em mim. Não mais me calo! Ergo, hoje, um brinde àquele que torna os meus dias um eterno trinar de passarinhos e alimenta a minha alma, com a mais doce de todas as canções. Ah, se todos fossem iguais a você... Que maravilha viver!

fevereiro 21, 2008

Divagações


Por que será?



Por que será que nós mulheres estamos sempre à procura ou à espera do famoso ‘conto de fadas’, eternizado na fala da atriz Julia Roberts, no filme: Uma Linda Mulher? O que nos faz pensar e escolher como prioridade em nossas vidas, numa época de relações tão descartáveis, o amor romântico como símbolo do amor perfeito?
Por que não podemos ser tão pragmáticas quanto os homens? Em que manual foi escrito que um papel secundário e de submissão, cabia às mulheres nos seus relacionamentos? Herança materna, com certeza foi um dos modelos, mas já não se aplica à nova geração dos ficantes e das amizades coloridas, que por certo ainda perduram por esses tempos de amores também virtuais.


Esboço!

Às vezes penso que sei tudo sobre o amor e enumero em minha cabeça um elenco de motivos pelos quais acho que posso justificar o meu amor por alguém. Outras vezes, teorizo tanto que na prática me perco ao tentar entender o amor que sinto. Desisti de tentar explicar e justificar o amor. Ele não é para ser entendido e sim, para ser vivido pleno e intensamente, como disse Vinícius de Moraes: e que seja eterno enquanto dure.
Só peço que deixe na alma e no coração o sabor de ter valido a pena, de querer bis e que a dor da saudade não machuque tanto, não sufoque tanto que tire o sabor do desejo, da espera e da certeza, de que viemos ao mundo para amar alguém tão especial quanto nós, que ainda sabemos, em meio a tanto desamor, olhar nos olhos do outro com cumplicidade, lealdade, ternura, carinho, tesão e dizer: eu te amo.


Balanço!

Estive fazendo um balanço das minhas vivências e verifiquei que entre perdas e ganhos, o saldo foi positivo. Entrei virgem no mercado das ilusões e o superávit da balança comercial aumentou consideravelmente a minha experiência, tornando-me uma expert em detectar emoções fraudulentas. No balcão onde expus as minhas mercadorias, não sobrou, uma! No atacado ou no varejo, foram servidos todos os meus mais nobres e puros sentimentos. Não houve um ‘quem dá mais’, uma promoção nos preços ou coisa semelhante. Mantive-me fiel aos meus princípios éticos, morais e religiosos: Doei tudo, e a uma só instituição.
Zerei o caixa e no livro de registro deixei inventariado tudo o que passei que é para não ter motivo de pensar numa volta. Dei baixa na junta comercial. Fechei a casa e entreguei as chaves. Estou livre!

fevereiro 05, 2008

Eu, nua, e o Senhor, iceberg?


Eu, mulher, construtora de sentimentos que abrigam as emoções mais genuínas, quedo-me hoje a analisar o curso da nossa história.

“Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”, é o título de um livro que ainda não li, mas que ouso apropriar-me das distinções que parecem evocar o título acima, para entender essa eterna discussão sobre o amor, entre os gêneros masculino e feminino.

Eu, nua, portadora da identidade, dos afetos e dos carinhos recolhidos neste meu caminhar de longa estrada, perco-me em divagações a procurar um destino certo onde ancorar.

Por que existem tantas diferenças entre os homens e as mulheres quando o assunto é o amor? Eu, mulher, assumindo a minha impressão digital, diria: sou romântica, às vezes doce e terna, às vezes tempestuosa, como um mar bravio. Posso ser múltiplas... Alegre, tagarela, alvoroçada e abrigar dentro de mim, a quietude do silêncio e a paz de uma criança dormindo. Posso até às vezes, parecer louca e um tanto rouca, de tanto falar e amar com paixão, mas assim sou eu nua, assumidamente desnuda, a extravasar e compartir as minhas emoções. Amando despudoradamente, o amor!

E você, homem de marte, que ostenta com tanto orgulho, a identidade: senhor iceberg! Quando estará pronto para se deixar consumir? Ainda insiste em que no amor, assim como na guerra, algumas estratégias se fazem necessárias? Ainda brinca, apesar da idade e da suposta maturidade, fazendo da arte da sedução, jogos de manipulação? Que pena! A sua fortaleza está em se manter frio e distante, imune aos ventos e as tempestades, que vez ou outra mudam de direção. Qualquer dia desses, o senhor acorda num lindo dia de verão, aí então, eu estarei nua... E o senhor iceberg, caminhando só e sem direção.

janeiro 20, 2008

Ainda sobre o Amor




Senhoras e Senhores, a partir de hoje, eu, ré confessa, de memórias de um tempo onde o romantismo aportou com ares de eternidade e o amor embalsamou versos e prosas, para encantar e colorir os nossos dias, retiro-me de cena, cerro as cortinas e tomo destino ignorado. Vou cantar noutra freguesia, já não há mais nada para se falar sobre o amor. Ele tornou-se um tema cansativo, monotemático. Vou construir um personagem e com ele vou ganhar vida batendo pernas no mundo, e quando alguém me perguntar sobre o amor, eu farei como a ave de arribação, lançarei vôos e farei morada em algum lugar, onde o passado, assim como a saudade, só exista na língua portuguesa, aliviando dessa forma, o peso das minhas lembranças.

Há tanta coisa mais importante para se falar! Tantos temas palpitantes para se discutir, e eu, aqui, a falar de amor. E a fome, a miséria, a falta de solidariedade, a corrupção na política, os planos do governo, suas metas, o seu superávit, as crianças na rua e a violência? Por que não se falar sobre isto?

Olavo Bilac, em seus versos, dizia: "Ora (direis) ouvir estrelas!". E eu vos digo: ora, não sabeis que a fome, a falta de solidariedade, a corrupção na política, os desvios de dinheiro para paraísos fiscais, etc, etc, etc, tudo isto também se resume em amor...

É o amor pelo avesso, é o amor bandido, egoísta e mesquinho, que se apossa da cidadania de cada um e lhes rouba o direito à decência e à dignidade, transformando cidadãos de bem em massa de manobra para fins políticos e condenando outros a viverem em guetos e submundos, onde a miséria é o pão nosso de cada dia.

E tudo isto, por quê? Porque não há amor! O amor nasce e se manifesta primeiro no aconchego do lar, nos exemplos passados de pais para filhos, de respeito, caráter e dignidade, e na construção de ternuras, na cumplicidade do olhar e no silêncio, quando ele fala a linguagem da paz.

Li em algum lugar a frase: “Dai-me os primeiros cinco anos da vida de uma criança e eu me responsabilizarei pelo homem de amanhã”.

Pois bem, meus amigos, busquem em si mesmos, lembranças que falem de amor e aplique-as na realidade de seu país, cada qual fazendo a sua parte, como o beija-flor que tentava apagar um incêndio apenas com a água que trazia no seu bico, enquanto outros cruzavam os braços dizendo que era em vão, ao que ele respondeu: “Se cada um fizer a sua parte, a gente pode, sim”.

É o que eu lhes digo agora: Falem mais de amor, pratiquem mais o amor. E esse amor, que parece tão piegas, tão cansativo, tão fora do tempo e da realidade, será a mola propulsora que alavancará o progresso desta nação. Pois onde se manifestar o amor, aí também fará morada o direito, o respeito à coisa pública e à dignidade do cidadão.

janeiro 12, 2008

Cartas de Amor













Gente, alguém aí da geração anos sessenta, pode me dizer o que aconteceu com as cartas de amor, escritas em papéis perfumados, com uma caligrafia - era assim que se chamava naquela época - pra lá de caprichada e colocadas em envelopes brancos, com bordas em verde e amarelo?

Quem dessa geração não provou o gostinho de ficar horas a fio no portão, muitas vezes ao sol a pino, só para receber do carteiro a missiva tão esperada?

Por onde andará, hoje, as cartas de amor e o próprio amor? Para aonde foram os carteiros - de um tempo tão distante - mensageiros de tantas alegrias e portadores de carinhos enrolados em papéis acetinados, falando de saudades e de bem-quereres?

Em que esquinas se perderam os sentimentos e os afetos de outrora, que falavam a linguagem da emoção e do amor puro e ingênuo? Para onde irão hoje os casais de namorados, quando a noite de lua cheia iluminar o céu e salpicar de estrelas as nossas noites de verão?

O mar, outrora cúmplice do luar, já não atrai para si os casais de namorados. O amor mudou de cara e de endereço! Tem as feições do anonimato e o seu endereço agora é eletrônico: beija-flor@dizescomquemficas.com Não se conjuga mais o verbo amar, a onda agora, é ficar! Os carteiros perderam a serventia como emissários de cartas de amor, foram substituídos por máquinas, pelo avanço tecnológico, pelo tal progresso. Progresso de quê, diga lá, meu senhor? A linguagem ficou mais pobre, você virou vc, não virou naum, também virou tb e as cartas agora, chamam-se e-mails. E o amor, esse não teve alternativas: Para não mudar de nome e de endereço, bateu asas e voou.