Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

agosto 22, 2010

Uma História Real









Os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos!


Por que eu ou por que comigo? É sempre a primeira pergunta que fazemos quando alguma coisa foge a nossa compreensão.


Passar ao largo do sofrimento, nessa vida, é o que todos almejamos... Mas, como isso é impossível, a pergunta é: o que fazer quando ele bate a nossa porta de maneira inesperada?


Aceitar! Ainda que doa, porque os clichês: “tudo tem uma razão de ser” e “nada acontece por acaso,” são explicações que na nossa razão – no momento da dor - não encontram entendimento, nem conforto. Foi o que aconteceu comigo!


Ao folhear as páginas do Jornal Correio da Paraíba, do dia 06 de maio de 1992, eu li a seguinte manchete: “Meninos de rua realizam campanha.” E, logo a seguir, a explicação: “A Comissão de Sapé do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua lançou uma campanha, ontem, para angariar recursos em favor do deficiente visual Carlos de Pontes Coutinho, que depende de um transplante de córneas para ter a visão.”


“A campanha é para adquirir o equivalente a Cr$ 7 milhões, já que o transplante de cada córnea (segundo o Dr. Tarcísio Dias) custa Cr$ 3.500.000,00. Carlos de Pontes Coutinho é voluntário no trabalho com crianças e adolescentes do município de Sapé, portanto pessoa muito querida.”


Os valores supracitados correspondem, hoje, a, mais ou menos, R$ 7.000,00 (sete mil Reais) e R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos Reais) respectivamente.


Quando li a notícia, fui tomada por uma forte emoção e pedi a Deus, em prece: “- Senhor! Permite-me ganhar, hoje, na loteria para eu financiar a cirurgia desse homem, pois uma pessoa como essa não pode continuar cega.”


“- Ajuda-me, Meu Deus, a fazer alguma coisa por ele!” Essa foi a última frase que pronunciei naquele longínquo 06 de maio.”


Infelizmente não ganhei na loteria. E, lamentei não poder ajudá-lo...


Pois bem, no dia 10 do mês em curso, já tinha esquecido o assunto, quando pedi ao meu marido uma parte do jornal para ler. Ele entregou-me apenas os classificados. E, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um pequeno anúncio, em que o Dr. Vanderlan Carvalho se oferecia para fazer a cirurgia do Senhor Carlos, gratuitamente. Fiquei feliz e, em silêncio, agradeci a Deus, mas não comentei com ninguém sobre o assunto.


Na quinta-feira, 14 de maio, à tarde, ao encontrar-me com o meu marido no seu local de trabalho para juntos voltarmos para casa; ele sentiu-se mal e teve morte instantânea provocada por um infarto agudo do miocárdio.


(...)


Horas depois, por sugestão de uma amiga, ofereci as córneas dele para doação. Dois médicos recusaram: um, porque não conseguiu localizar os pacientes que precisavam de transplante e o outro, por não possuir banco de olhos. Esse me pediu permissão para oferecer a uma terceira pessoa, ao que eu assenti.


Naquele dia 14, pela manhã, Carlos de Pontes Coutinho viera a João Pessoa para se submeter aos exames e fazer a cirurgia, gratuitamente, conforme prometera o Dr. Vanderlan Carvalho, mas como não havia nenhuma córnea para ser transplantada, voltou para sua cidade.


À noite, ele foi chamado pelo Dr. Tarcísio Dias, àquele que, “coincidentemente,” vinha a ser o oftalmologista que cobrara Cr$ 7 milhões para fazer o transplante, objeto da campanha no Jornal Correio da Paraíba e, que acabara de receber, por indicação de seu amigo, as córneas de meu marido. O inacreditável disso tudo é que ele, também, resolveu fazer o transplante, gratuitamente.


Depois disso, passei a não acreditar em coincidências, pois foi dessa maneira e não com a loteria, que o meu pedido a Deus, para ajudar àquele rapaz, foi atendido.


O que aconteceu me custou muita dor e sofrimento, mas nunca perguntei: por que eu, por que comigo? Pois os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos.


E, além do mais, ficou a lição: o que tem de acontecer tem força! Coincidências não existem!




agosto 10, 2010

Para Meu Filho, Gilberto







- E aí, coroinha, tu me amas?
- Sim, meu filho, eu te amo!
- Pouco, muito ou uma exorbitância?
- Uma exorbitância!
- Se eu morrer, tu choras?
- Choro.
- Pouco, muito ou uma exorbitância?

Era dessa maneira – com esse diálogo - que entravas em nosso lar e feito um furacão pedias casa, comida, roupa lavada e de quebra um amor incomensurável (sem cobranças, é claro!) capaz de abrigar os teus anseios e curar todas as tuas carências.

(...)

Mas, de repente, se fez silêncio. Um silêncio incômodo! Que fala de ausência e de saudades... Olho a mesa posta e ouço a canção: “Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele, tá doendo em mim”.

- Penso: será que exerci o amor de mãe em sua total plenitude? Será que falei que te amava o suficiente para te abastecer de certezas pelo resto de tua vida?

- Não sei! Amor por mais que se dê, ainda é pouco, dirão alguns.

Se pouco, se muito ou uma exorbitância, eu não sei. A verdade é que eu te amo o bastante para te ver crescer e ir embora; ainda que isso me doa, para te ver trilhar caminhos nunca antes percorridos; ainda que isso me incomode, para te imaginar nas fronteiras do perigo; e ainda assim, te incentivar a partir.

Amo-te tanto e tão intensamente, que ao te colocar no mundo deixei meu coração em aberto, só para abrigar todos os teus sonhos como se fossem meus.

Amo-te tanto e a tal ponto, que vivo brigando com as horas que se esvaem, que se esgotam e mal me dá oportunidade de falar de amor, de ajeitar carinhos e construir ternuras.

“O Tempo não Para” já dizia o poeta Cazuza. Por isso, quero aproveitar, hoje, da urgência do meu sentimento para eternizar nessas poucas linhas o amor, o respeito e a admiração que sinto, por ti, meu filho.

Amo-te tanto que, diante do silêncio da tua ausência, resolvi dizer que a saudade é tamanha, que o tempo resolveu zombar de mim porque ele sabe passar e eu não sei...

Sinto a tua falta!

agosto 01, 2010

Aprendiz do Caminho






Enquanto caminho, aprendo!

Não carrego manual de instrução, tampouco possuo uma tecla liga/desliga/deleta. Vou vivendo e aprendendo com a vida. Ela, e só ela, me dá o norte que preciso à medida que corrijo os erros do meu caminhar.


Não construo certezas, apesar de viver em um mundo cheio de regras e de tantos semideuses. O meu dia-a-dia se alimenta do inesperado e a cada instante revejo as minhas convicções. Olho para o outro e antes de apontar-lhe o indicador, penso: o que eu faria se estivesse em seu lugar? E, aprendo! Aprendo mais sobre o amor - fonte de toda sabedoria – e escolho viver em paz com a minha consciência.


Por não possuir manual, erro, e erro feio algumas vezes, mas utilizo as frases mal costuradas do meu orgulho para pedir perdão. O efêmero, o passageiro e o transitório, essa trindade que adjetiva as minhas horas e ensina sobre a passagem do tempo, também me dá a percepção de que administrar essa tríade com inteligência, respeito e humildade, é viver com sabedoria. Sabedoria necessária para me desviar das linhas retas, das respostas prontas e das soluções mágicas, que a todo instante estão sendo apresentadas pelos semideuses de plantão.


Tenho procurado conhecer mais sobre atalhos – caminhos diferentes - e confesso que isso, me faz sentir melhor. Eles me fornecem o aprendizado necessário, pois interrompem os meus passos, nas linhas retas, me obrigam a olhar em volta e me humanizam. Os meus pés, agora, são andarilhos de um caminhar sem pressa porque desenvolvi, no percurso, uma compreensão maior sobre quem sou e o que estou fazendo com aquilo que me tornei...


E, por que já não há tantas horas assim para serem desperdiçadas, entendo que: só se aprende, vivendo! De nada adianta as regras e os manuais de instruções, pois o que vale mesmo são as ranhuras que ela, a vida, nos faz, obrigando-nos a sermos mais brandos, mais compreensíveis e humanos no julgamento dos nossos semelhantes e nas nossas atitudes no meio em que vivemos.


Por isso, hoje, enquanto caminho, aprendo! Pois, um olhar diferenciado sobre a arte de viver me ensina a não gastar os meus dias e as minhas horas à toa! Sou um aprendiz do caminho dos meus próprios erros.

julho 03, 2010

Que país é esse, meu Deus!?





Não entendo de política tampouco de futebol. Talvez venha daí, desse desconhecimento, a ousadia do comentário: o Brasil está de chuteiras, enquanto os seus filhos chafurdam, literalmente, os pés na lama...
Não entendo, mas confesso que gostaria de entender. Como é possível uma nação, onde há tanta carência de investimentos em saúde, educação e moradia; onde há desvio de verbas públicas; uma política que beira o ridículo, com alguns dos seus representantes pegos com dinheiro em meias e cuecas, e outros fazendo manobras com o tempo verbal, para pôr em dúvida a lei da ficha limpa dos candidatos que pretendem representar, apesar de tudo, os nossos anseios nas eleições vindouras. Repito, gostaria de entender o porquê de ficarmos indiferentes, alienados, colocando a emoção ou o coração no lugar da razão.

Ah, como seria bom ver toda essa flama, essa energia e esse entusiasmo a serviço do bem-estar coletivo, num esforço conjunto para mudar os rumos da nossa pátria. Tanta desigualdade social, tanta miséria provocada pela má gestão do dinheiro público, e nós - os brasileiros - ali, atrás de onze homens e uma bola, seguimos firmes, fortes e animados – sem está nem aí – ostentando o orgulho nacional, no peito e na raça, por causa de uma “Jabulani”, quando há segredos a desvendar nos porões, por onde campeia a desonestidade e escoam as nossas riquezas.

“O Brasil não é um país sério.” - Frase atribuída ao general Charles de Gaulle, e assumida pelo embaixador Carlos Alves de Souza Filho, tempos depois, em um livro de memórias, - nunca fez tanto sentido quanto agora, pois, enquanto o país fecha as suas portas: repartições, bancos, comércio, indústria e escolas, para que o espetáculo do futebol tenha audiência e dê frutos a quem interessa; os nordestinos, estupefatos, veem as suas vidas serem arrastadas, literalmente, por um mar de lama, sem que haja um movimento efetivo – com a mesma dose de entusiasmo e patriotismo - tanto dos políticos quanto do povo em geral, para que catástrofes dessa natureza não mais ocorram.


Em nenhum momento da nossa história – à exceção das Diretas Já – vimos os brasileiros tão empenhados em mudar, de fato, os rumos da nação... Ninguém veste as cores da bandeira com tanto empenho e orgulho – como faz em época de Copa do Mundo - para defender o Brasil dos seus políticos corruptos que, eleição após eleição, deixa-o mais pobre e envergonhado.


Que país é esse, meu Deus!?

junho 21, 2010

O Contraponto









Somos nós que fazemos a nossa história, por isso não nos peçam para aceitar regras ou preceitos criados por uma sociedade machista, pois os tempos são outros e nós mulheres - ah! nós mulheres - há muito que fomos à luta.

Faz anos que deixamos de ser a menininha do papai e a bonequinha de luxo que o marido gostava de exibir. Já não temos mais casa, comida e roupa lavada à custa do “chefe da família.” Hoje, contribuímos com o suor do nosso rosto para o custeio familiar. Temos jornadas duplas, triplas e ainda nos cobram a beleza e a estética de um corpo bem cuidado, para não perdermos o posto de “rainha do lar.”

- Onde já se viu tamanho despautério? E o contraponto?

É interessante verificar que por onde os nossos olhos passeiam só encontram homens grisalhos, carecas, barrigudos, insuportavelmente arrogantes, vaidosos e cientes do seu poder, que, na maioria das vezes, resume-se apenas ao peso do seu bolso...

Pobres homens! Compram, hoje, em moeda vigente, pílulas azuis e a companhia de uma jovem que lhes tragam de volta a juventude e a virilidade perdida... E ainda chamam isso de amor!

Enquanto isso, nós, antigas menininhas e bonecas, que hoje também estudam, trabalham, pagam seus impostos e participam ativamente do progresso socioeconômico desta nação, temos que amargar a “solidão do único cálice de vinho,” porque viver e amar sem compromisso são prerrogativas dos homens.

Pobres homens! Esquecem que a vaidade, o orgulho e o poder estão no contraponto que nos dá o direito e a possibilidade de fazer tudo igual e ainda assim, escolhemos ser diferentes por respeito e compromisso apenas a nós mesmas...

junho 17, 2010

Desabafo






“-A marca da minha digital está aí. Essa sou eu! Portanto, não falem por mim, nem assumam o que não sou tampouco o que não sinto mais. Ainda conservo a voz, a lucidez e a minha capacidade de locomoção. Também conheço o meu papel e sei a hora certa de me retirar de cena!”

Esse foi o desabafo que ela fez, quando alguém lhe roubou a identidade, tomou posse de suas palavras e apresentou-se em seu lugar...

Que estranha mania têm as pessoas de pensar e falar em nome das outras. Não lembrava de ter feito qualquer confidência ou declaração de amor, mas aquela criatura propagava aos quatro ventos que sabia quem tinha a posse do seu coração e era o dono do seu amor. Coitada! Não soube ler nas entrelinhas a diferença entre o real e a fantasia... Não compreendeu que ela alinhavou retalhos de saudades, na época em que a sua alma espreitava a vida lá fora, apenas porque gostava de inventar histórias...

junho 15, 2010

Aprendendo a Amar







Matriculei-me em tua vida para juntos aprendermos o exercício do amor, do companheirismo e da cumplicidade. Frequentei um curso sobre fidelidade e com mãos de ternura aprendi a exercer o carinho que adormecia a tua alma... Fiz pós-graduação em paciência, tolerância, respeito e um pacto com a eternidade. Fiz tuas as minhas asas para que a alegria de voar não me distanciasse de ti... E foi aí, que eu me perdi: o sonho era só meu!

Hoje, desalada e sujeita às tentações, não sobrevoo mais nem os desertos da minha alma... Recolho-me, porque do amor só conheço a fantasia.

junho 14, 2010

Cicatrizes






Tenho todas as mulheres dentro de mim e sou apenas uma... Carrego na alma, velhas e novas cicatrizes. Por isso, vivo sempre em carne viva!

Vou fundo no amor e na dor, porque gosto de intensidades e de envolvimentos. Não gosto do morno! Exercito a minha capacidade de sofrer até a última consequência e depois me despeço do sofrimento como se ele nunca houvesse feito parte de mim. Aprendi a conviver com as intempéries da vida e a respeitar todas as suas estações. Nesse momento, estou aprendendo a dizer adeus. Adeus de palavras e de sentimentos... Não os quero mais guardados nas gavetas da minha alma.

Fui outono... Passarela de folhas caídas. Fui inverno... Lareiras acesas. Sou museu... Sou do dentro... Sou saudades... Mas, sou acima de tudo primavera: " deixo-me cortar pra voltar sempre inteira."




junho 12, 2010

Faxina na Alma






Ontem, fez um lindo dia de sol. Animada, resolvi que amanhã carimbaria o meu coração com os dizeres: fechado pra balanço, faxina na alma! Mas, hoje... Ah, essa chuva que não passa e derrama lembranças fazendo-me vestir às mãos de poesia para abrigar, de novo, essa saudade que põe a minha alma em desalinho e faz festa, apenas, para o teu coração.

Penso: existem histórias de amor que não passam de um rascunho e outras que, décadas depois, ainda reclamam de nossos lábios a verdade dos nossos desejos... Isso é fato! Mas, o que fazer quando o desenho do voo não sinaliza o cansaço das tuas asas e as minhas pegadas na areia indicam que estive apenas de passagem por tua vida?

Concluo: tu és ar e eu, terra... E eu "só sei voar com os pés no chão", apesar de minha mente sempre vaguear preguiçosa, em desacordo com a urgência do meu desejo de ser feliz.

O tempo, esse capricho da natureza, não congela sentimentos nem respeita as estações. Ora chove, ora faz sol... Por isso, preciso apagar as tuas marcas na minha alma e começar uma vida nova. Quero ser feliz outra vez...

Portanto, a partir de hoje, ainda que essa chuva coloque o meu coração em desalinho, vou escolher lembranças que façam festa apenas dentro de mim.

Ah, essa chuva, essa saudade! Elas inventam tantas histórias. Quem sabe amanhã eu tenha um lindo dia de sol...






maio 17, 2010

Um Destinatário para o Verbo Amar





Pelas janelas quebradas da minha alma eu vejo as horas passarem inclementes, desbotando saudades, enquanto eu insisto em tecer a vida com os fios da esperança...

O tempo desenha em meu corpo as marcas do tempo, mas preserva-me a alma nas pontas dos dedos para que o verbo caiba no universo dos meus sonhos e a saudade brinque de rabiscar o teu nome...

Sigo brincando com as palavras... Basta uma vírgula mal colocada, uma interrogação tardia, uma exclamação fora de hora ou três pontinhos e lá se vão as minhas letras pontuadas pela hesitação do meu amor não assumido... Alguém dirá: é ele! Eu respondo apenas que a posse das palavras não é minha, mas de quem as ler. Em minhas mãos eu tenho apenas o alfabeto e, quando escrevo, dou-lhes vida, mas quem as ler dá-lhes um universo de sentidos.

Procuro na escrita um destinatário para o verbo amar do meu amor, enquanto atravesso desertos de dor e solidão tentando resgatar a minha identidade. Gasto as palavras na tentativa de gastar também esse amor mal resolvido. E me pergunto: se elas me faltarem, esse amor, que está escondido entre pausas e vírgulas, também será esquecido?

Preciso tentar... Pois não quero mais um sentimento que me faz perder o rumo, o prumo, o chão e me leva pra longe de mim... Há tanta ausência entre a minha vida e a tua que, hoje, eu só sei contar o amor em saudades... E o tempo, em solidão!

maio 12, 2010

Um Homem Singular






Aquele embrulho lhe pareceu estranho... Mas, ao lembrar do temperamento romântico e da delicadeza do seu amor, ficou em silêncio. Decidiu esperar! Conhecia bem a linguagem daquele olhar e, naquele dia, havia uma alegria incontida que contrastava com a serenidade dos gestos e com o tom suave da sua voz. Alguma travessura eles guardavam...

Não precisou esperar muito! Enquanto ela tirava fotos e feliz, comemorava o dia do seu aniversário, ele tirou um borrifador daquela sacola e começou a espargir água sobre o embrulho. E, ante o seu espanto, a revelação: ele havia trazido da sua cidade, um buquê de rosas vermelhas e durante todo o percurso, molhava as flores, para que elas não murchassem e perdessem a beleza. Cuidava delas com o mesmo amor, carinho e atenção que dedicou àquela mulher, por anos a fio.

Foi só então que ela se deu conta de quantos anos havia se passado desde a última vez que eles se encontraram e quão precioso era ser amada, assim, por aquele homem tão especial...

Um homem inteligente! Que tem respeito pelo tempo que passa velozmente e nos reduz a pó. Que sabe que as suas cinzas vão se espalhar pelos ventos e transformar vaidade, soberba, orgulho e poder em matéria para o caminhar dos que ficam... E por ter a noção exata de sua finitude e a emoção à flor da pele, vive o amor com a delicadeza e a sensibilidade que o sentimento exige...

Um homem singular! Que assume o seu querer, mas guarda-o no silêncio do olhar e na beleza das rosas...

maio 01, 2010

O Avesso da Mentira








Se é para viver, que eu esteja sempre inteira e se é para escrever, que a verdade seja a minha conduta.
Eu, pecadora, confesso: revisitar o passado, dói!

Pois ainda é tão presente a dor da minha saudade que durmo e acordo desejando a monotonia dos dias iguais, onde tudo é igualmente familiar, mas não causa tanto sofrimento.

É que, no momento, estou em fase de despedidas e cicatrizações e escrever me expõe em carne viva! Por isso, garimpo palavras que escondem o que sinto e brinco de enganar a dor. Troco de pele. Minto! Porque a mentira é a minha fortaleza e o avesso dela é a realidade desse amor que eu nego tanto.

abril 16, 2010

Licença Para Sentir Saudades








Pelas frestas da memória visito o meu estoque de recordações, faço um inventário das minhas saudades e penso: construir-me é um processo difícil e doloroso, pois a vida e as suas urgências tentam me ensinar a abrir mão de pessoas, coisas e lugares e eu não consigo.

Já faz algum tempo que, intimada pelo carinho dos meus filhos, resolvi fazer uma faxina em meus porões. Lá, encontrei um baú repleto de lembranças que me expôs o que chamo de minha pátria de intimidades. Nessa ocasião, remexendo em velhas fotografias, cartas de amor e pedaços de carinhos, pensei: na minha vida ninguém está de passagem e, por isso, em meus afetos também não há prazos de validade.

Como posso esquecer as pessoas que partiram encantadas pelo brilho das estrelas? E as outras que, acreditando nas promessas do porvir, permaneceram ao meu lado desafiando o tempo da esperança?

Como deixar de ouvir palavras alinhavadas em ternuras - antecipando carinhos - e sentir cheiros que ficaram guardados no sítio da memória?

Como não revisitar lugares que remetem a uma alegria escancarada, se em todas as minhas lembranças há sempre um rastro de felicidade?

Por tudo isso, parece que o meu destino é não aprender a dizer adeus, pois no enredo da minha vida não há um alvará de soltura para a saudade.

abril 06, 2010

Sessenta Anos







Preciso de tempo para desenrolar o novelo da vida, pois, no passado, gastei-o com coisas de somenos importância e agora ele me foge feito areia entre os dedos. É a ampulheta passando velozmente a cobrar as horas que me restam.

Este mês eu completo sessenta anos. Fisicamente, não coloquei silicone nem fiz retoques. Só na alma! Aqui onde as coisas realmente acontecem, eu fiz uma plástica. A minha está uma criança! Ávida por mudanças e com sede de conhecimento, ela passeia por caminhos onde a juventude, a pressa e o anseio por liberdade não pisaram. Os meus olhos outrora inquietos e o meu desejo febril, hoje, repousam na imensidão do mar, nas noites enluaradas e nas folhas de outono que caem lembrando que é tempo de renovação.

Sessenta anos e há pouco o que comemorar, pois a vida, de verdade, começa agora. Antes, era só um trailer! Pena que as horas sejam tão escassas para a criança, a jovem e a mulher que acordaram em mim. Uma trindade cheia de desejos e conquistas a realizar... Um trio cheio de boas intenções para se lançar ao desafio de viver sem mágoas, rancores e preconceitos de toda e qualquer natureza.

Preciso de um pouco mais de tempo para ousar o que ainda não fiz, mas ele se nega, zomba das minhas vontades, brinca com as minhas certezas e quando me dou conta, está partindo sem que eu possa lhe dizer o tanto que aprendi. Digo-lhe apenas que, hoje, é a época certa para fazer uma nova semeadura, mas ele desdenha e diz: - agora é tarde! E eu penso: Ah! Se soubesse do meu desejo por mudanças e quanto entusiasmo eu ainda tenho, talvez concedesse em atrasar os ponteiros do relógio só para me dar uma nova chance! Outra oportunidade para mudar as regras e virar o jogo da vida, que sempre começa quando está terminando...

Este mês eu completo sessenta anos, mas aqui dentro, onde as coisas realmente acontecem, estou nascendo agora. Plena de maturidade e querendo pôr em prática todas as lições que aprendi.

março 16, 2010

Por que escrevo?







Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora...

Gosto de ter as mãos cheias de letras e com elas, uma a uma, construir matéria de sonhos. Encanta-me o fato de poder manusear o alfabeto e com ele fazer escolhas de maneira lúdica. Não tenho, porém, a menor intimidade com as palavras, pois quando ouso falar elas me atropelam com a sua velocidade, distanciando-me das pausas e dos silêncios. Por isso, escrevo! Quem sabe, um recurso para disfarçar a minha timidez?!

Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco.

Há quem me acuse de saudosista e de viver no passado. Cobram-me até por vocábulos que se tornaram obsoletos e que eu os pronuncio. Dizem ser por absoluta incapacidade de abrir mão do que ficou pra trás. Não sei se isso é fato, o que sei é que ando sentindo falta de tanta coisa, que só brincando com as palavras consigo trazer para perto de mim, um pouco do muito que perdi para esse admirável mundo novo...