Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

fevereiro 01, 2012

Nua! Sem Medo de Amar




Perguntaste-me outro dia: - Quem é você?
Respondi: - Se queres saber quem eu sou, despe-me e olha profundamente para o meu avesso. Essa sou eu. Nua! Sem medo de amar...
Não irás me encontrar na superfície ou borda, pois na aparência sou igual a todo mundo quando tento disfarçar o medo, a insegurança, o orgulho, a vaidade e, também, o meu amor. Procura-me ali, naquele cantinho escuro, porque perdida entre sombras e lembranças que se movem dentro de mim; encontrarás ternura, carinho, paixão, arrebatamento e paz. Essa sou eu. Nua! Sem medo de amar...
Perguntaste-me se eu ainda te amo. Respondi: - Voltarei a te amar quando me quiseres despida, transparente, diáfana, porque só assim posso ser tua... Sendo eu! Não me peças para querer-te quando me obrigas a esconder o meu avesso no labirinto das aparências, pois a única forma de me sentir viva e inteira é na liberdade de ser quem sou... Nua! Sem medo de amar...
Não satisfeito com as respostas, perguntaste-me o que realmente querias saber: - Ainda és minha?
Então, pensei, pensei e respondi: - Não, não sou... Tua!? Não! Pois quero-te também inteiro. Sem manhas nem artimanhas. Livre das aparências... Nu! Sem medo de amar...
Quero o teu avesso!

janeiro 20, 2012

Entre Números e Sonhos



Há um tempo que passa e, esse conta-se em números – é a juventude do corpo, que tem pressa porque vive aprisionado na ilusão dos dias... Há outro que também passa, mas esse conta-se em sonhos - é a maturidade da alma! É quando a bênção da idade madura põe fim à ansiedade, à urgência e nos liberta da censura e da escravidão dos números, fazendo-nos menos exigentes, mais reflexivos, pacientes, sábios e sonhadores.
Hoje, enquanto a passagem dos anos faz marcas em meu corpo e acrescenta-lhe um algarismo, desejo, razão e sensibilidade juntam-se harmoniosamente, para que a minha alma engatinhe no mundo livre dos sonhos. Nessa hora, eu faço um brinde à sua independência e vontade de ser feliz: sem amarras!
O meu olhar, a partir desse momento, passeia pelos dias absorvendo tudo ao redor. Nada escapa a minha retina... O brilho das estrelas não é apenas luminosidade, é festa para os meus olhos e o clic da máquina fotográfica não capta apenas o instante, ele registra a eternidade para a qual eu estou prestes a dar as minhas despedidas. Então, tudo passa a ter um sentido e um peso diferente. Aí, eu penso na minha juventude e relembro.
- No meu passado, tudo era motivo de frustração: fiquei infeliz porque perdi uma viagem, um emprego, um “grande amor”; fiquei triste porque rompi com o meu melhor amigo, mudei de endereço, de planos; e, entre outras coisas, fiquei depressivo porque não suportei o peso do adeus definitivo, o ser diferente e não saber partilhar a minha solidão. Orgulho, vaidade, soberba e poder foram heranças da minha juventude. E, agora, razão e sensibilidade são testemunhas da minha melhor idade.
Pouco importa, atualmente, se o vizinho tem uma casa, um carro ou um emprego melhor que o meu. Se a fibra do meu cabelo, a cor da minha pele ou a minha orientação sexual fizer a festa para os desocupados de plantão. Nem se deixo de sair nas colunas dos dez mais – ricos e famosos – tampouco se o meu português ruim impedir-me de sentar à mesa do chá das cinco...
Rótulos e etiquetas!? Estou dispensando, hoje, em nome da liberdade de ser feliz comigo mesma, pois tenho, dentro dessa alma que engatinha, – apesar dos anos - um manancial de amor, ternura e carinho que não envelhecem, nem se contam pelo uso.
Por isso, enquanto a minha alma caminha por entre números, eu festejo a sua maturidade brindando à vida, aos sonhos, ao fim das urgências e ao tempo que passa trazendo leveza, quietude, mansidão e sabedoria.

janeiro 15, 2012

O Outro e Você




“Somos todos filhos do tempo e ele está nos devorando diariamente, desde o momento em que nascemos”.

Por que será, então, que vivemos ou projetamos a vida sempre no futuro?

A resposta, talvez esteja no fato de que ao levá-la para o porvir, nos sentimos confortáveis em retardar o exercício do amor e do cuidado. O olhar para o outro, seja ele pai, mãe, filho, irmão, parente, amigo ou amante, é de eternidade. Pensamos que todos estarão lá, ao alcance de nossas mãos, na hora e na data marcadas pelo relógio da nossa conveniência, ou seja, no nosso tempo! No tempo do nosso egoísmo e descaso, da nossa arrogância e desamor, do orgulho e da vaidade que sempre ditam as normas, quando o assunto é cuidar do bem-estar do próximo.

Betinho, irmão do Henfil, sabiamente nos advertiu: “quem tem fome - seja do que for - tem pressa”. Não existe amanhã para quem tem os olhos da memória voltados para o terreno infértil das ações e atitudes que nunca saem do papel ou do mundo das ideias.

Tempo! Palavra que, hoje, habita o terreno da escassez de afetos, de carinho, de respeito e de consideração. Estamos todos desaprendendo que “somos tão menos, um sem o outro” e, que, nada é permanente a não ser o passar das horas.

Precisamos desacelerar o passo em direção ao futuro para vivenciarmos a liturgia dos afetos e o exercício do amor; esse amor que pacifica os nossos dias e nos alerta que a eternidade é, tão somente, um jeito frio de prolongar o desamor, a fome, a miséria e, também, uma maneira simples de dizer: eu não me importo!

E, se no lugar do outro fosse você? O que faria?

janeiro 11, 2012

Carta a um Amor Desconhecido










A ti que habitas o imaginário das minhas fantasias...


Coloquei os meus sonhos na gaveta da memória, certa de que, em algum momento, eles teriam serventia, mas foi tudo em vão... Entardeci, enquanto esperava, pois a natureza efêmera dos teus desejos sequestrou as minhas ilusões deixando-me, somente, lembranças e um rasto de perfume que eu gastei e, ainda hoje gasto, colecionando saudades.
Em que caminho eu te perdi, ó meu amor desconhecido, fruto das minhas quimeras!? Procuro-te, agora, nas veredas dos meus sonhos e não te encontro mais. Então, como em um quadro feito de mosaico vou colocando peça por peça, reconstruindo a imagem que fiz de ti, até conseguir definir o contorno do teu rosto. Nesse instante, dou-te as feições do meu querer e, quero-te tanto, que me esqueço... Mas, logo penso: já cumpri o rito de passagem na estrada das ilusões quando saciei a minha fome de infinito e alimentei esse amor por tantos anos. Agora, quero viver um dia de cada vez, sem memórias e sem sonhos.
Quero embebedar-me de palavras vivas... Sentir o gosto da vida a descer pela minha garganta; provocando-me, inebriando-me e trazendo-me o sorriso aberto das coisas recém-descobertas.
Não te quero mais, ó meu amor desconhecido! Foste chama a queimar os melhores anos da minha vida... Houve dias em que deixei o meu coração vaguear por aí preenchendo as minhas horas com uma saudade doída de ti. Encharquei a minha alma de lembranças e de saudades, calei a minha fome de palavras e tudo o que me restou foi a tua ausência...
Não te quero mais, ó meu amor desconhecido!

janeiro 08, 2012

Fidelidade em Novos Tempos




O amor que é tecido em fios de esperança, na maioria das vezes, debruça-se sobre as horas e perde-se no tempo, desarrumando afetos. Esmaecem-se as fotografias! Por isso, não quero mais gastar palavras, nem tintas, para acariciar egos... Cansei!
É fácil escrever sobre ti, meu amor! Basta lembrar as dores e os sofrimentos... Difícil mesmo é desenhar teus traços com o pincel da saudade. Sobra tinta! Pois, enquanto eu te esperava e vestia-me de sonhos, o tempo encarregava-se de delir a pintura do porta-retrato.
Ele, esse teu amigo frívolo e fugaz, cobrou de mim o que deverias ter, também, para oferecer-me: fidelidade! O “que seja eterno enquanto dure”, do Vinícius, colocou cercas ao meu redor, mas te libertou para o “posto que é chama” e, ficamos assim: para ti, os direitos do mundo machista; para mim, os deveres da lealdade...
Se somos feitos da mesma matéria, por que tu podes e eu, não!? Se tudo é temporário, eu também posso ser! Não há garantias de fidelidade em uma relação que não quer compromissos e espalha suas chamas, feito uma língua de fogo, destruindo a esperança de quem acreditou que o eterno seria para os dois...
Pois bem, se não queres cobranças, nem que te coloquem expectativas sobre os ombros, fazes o mesmo em relação a mim, porque, afinal de contas, vivemos uma nova época...
E, em sendo dessa maneira, ficamos assim: ninguém é de ninguém, posto que é chama, mas que seja eterno enquanto dure, para os dois! Pois, isto é uma questão de respeito e de direito.

janeiro 02, 2012

Uma Carta para Minha Filha




Outro dia, enquanto conversávamos, a minha filha quis saber sobre o valor das coisas. Não no seu sentido material, mas sobre o grau de importância que determinados fatos têm e como eles afetam o nosso processo de formação e influenciam na maneira como enxergamos à vida. Por isso, resolvi escrever-lhe esta carta.
Minha filha,
A minha infância transcorreu sem maiores problemas, porque tive a sorte de ser filha de pais que tinham excelentes condições financeiras. Porém, nela não havia espaço para brinquedos, festas de aniversário, nem contos de fadas. Para eles, apenas estudo e boa alimentação eram prioridades...
Morei numa rua em que todas as meninas da minha idade eram filhas únicas e mimadas. Nada lhes era negado... Os meus olhos de menina, daquela época, viam desfilar diante de si todas as bonecas e brinquedos que eram lançados no mercado e que depois iam enfeitar as prateleiras dos quartos cor-de-rosa que tanto encantaram a minha infância.
Festas de aniversário! Essas eram temáticas, cada uma mais bonita que as outras. E, para colorir e embelezar ainda mais esse mundo infantil, das minhas amigas, histórias de contos de fadas lhes antecipavam uma boa noite de sono e sonhos.
Eu, porém, cresci com poucos brinquedos e esses, comprei-os na feira: panelinhas de barro para brincar de cozido, bonecas de pano (que chamávamos de bruxas de pano) e outras que eu recortava das revistas de papelão. Lembro-me, também, de um bambolê que ganhei de uma tia.
Festa de aniversário!? - Nunca comemorei! E as histórias de contos de fadas eu mesma lia para mim, surgindo daí o meu gosto pela leitura, que teve seu início com as revistas Lulu e Bolinha.
Porém, numa certa noite de natal, quando a minha espera pelo brinquedo desejado, já cansara de esperar, eis que surge, junto aos meus sapatinhos, a boneca mais linda que alguém já pôde ganhar. Não tinha cabelos, nem roupas, apenas uma fraudinha, uma mamadeira e um urinol. Se eu fechar os olhos, agora, mesmo já tendo transcorrido tanto tempo, consigo reviver a cena com a mesma emoção e alegria... Inesquecível! Aquele presente ficou feito tatuagem em meu coração e na minha memória.
E, sabe por que eu lhe conto tudo isso nessa carta? - É para responder a sua pergunta sobre o valor das coisas.
- Quando você e seus irmãos nasceram eu proporcionei-lhes tudo o que o dinheiro podia comprar, entre brinquedos, festas e outros bens materiais. Queria dar a vocês o que nunca tive... Um dia, chamei cada um, em separado, e perguntei-lhe qual o brinquedo que mais o havia marcado ou que lhe trouxera maior alegria. Todos deram a mesma resposta: - mainha, foram tantos que eu nem lembro mais...
Então, nessa hora, a vida me ensinou o real valor das coisas... Quando nos faltam, valorizamos! Quando temos em abundância nem a memória nos ajuda. E, isso serve também, para medir a importância das pessoas em nossas vidas, pois muitas delas viram móveis e utensílios ou um adorno a mais a enfeitar as prateleiras da nossa existência.

dezembro 29, 2011

Carta para Rolando




Rolando,

A escritora Hilda Lucas nos diz, em uma de suas entrevistas, por ocasião do lançamento do livro, “Memórias Líquidas”, que: “a única maneira de alguém que perdeu um ente querido superar a dor é abraçar a vida com unhas e dentes, enfrentar a morte, olhá-la nos olhos, perder o medo de viver/morrer e ousar ser feliz de novo; senão, você reduz a morte daquela pessoa ao único acontecimento importante da vida dela. E quem viveu o suficiente para deixar dor, saudade e boas lembranças fez muito mais em vida do que apenas morrer”.

E, é por isso que, hoje, estamos reunidos aqui na Tertúlia Virtual. Vamos deixar de lado essa dor que não tem nome e sentarmo-nos à beira da fogueira, para juntos nos debruçar sobre as lembranças e, com elas, marcar a tua presença em nossas vidas, com alegria e saudade.

A morte é somente uma passagem para quem sabe semear afetos e construir ternuras, pois, daqui a algum tempo, poderemos até esquecer o teu rosto, mas ao tentar esculpi-lo, teremos no celeiro das recordações, a fonte perene que nos impede de esquecê-lo.

A fogueira que acendeste lá no “Entremares” é a mesma do Léo Buscaglia, do livro Vivendo, Amando e Aprendendo. Ali, ele nos diz que se não te importas com alguém, não perguntes como ele vai, mas se tens interesse, realmente, em saber como está essa pessoa, então senta-te e acende uma fogueira, pois na simbologia do teu gesto está a dimensão do teu amor e do teu cuidado para com o outro. E, foi isso que fizeste durante todo esse tempo, acendeste uma para nos aquecer, oferecendo-nos o melhor de ti...

Pois bem, meu amigo, embora sejamos, agora, tão menos sem ti, nos comprometemos a alimentá-la, para que nunca falte o calor da amizade, do carinho e da solidariedade, essa tríade tão necessária para que prossigamos com a nossa jornada nesse planeta Terra. Por ora, ainda dói muito a tua ausência, mas estamos pedindo ao tempo que passe célere, a fim de que essa dor se transforme numa saudade que, com toda certeza, vamos sempre gostar de ter.

Parte em paz! Pois daqui estaremos a brindar, sempre, e ao redor da fogueira, para lembrar de ti com alegria e saudades.
TIM, TIM.

PS: Esse texto foi publicado em Agosto de 2011 no blog Cartas de Julieta, por ocasião do falecimento de Rolando.

dezembro 28, 2011

A Resposta




Na quietude da varanda e, ainda, desembrulhando lembranças, ela esperava. Sabia que não devia, mas esperava... Longos dias se passaram. O relógio seguia arrastando os ponteiros, indiferente.

Havia prometido a si mesma não mais falar do passado, por isso não se atrevia a escrever sobre o sofrimento que lhe corroia a alma. A partir daquele momento em que escrevera a penúltima carta de amor, resolveu que traçaria a sua tristeza no silêncio e, em silêncio. Mas, esperava... O dicionário dos afetos que descobriram juntos, decerto, haveria de servir, também, para refrescar-lhe a mente, obrigando-o a remexer nas gavetas da sua memória.

Pensando nisso, não viu o tempo correndo lá fora. Ele contava ali dentro, no terreno da esperança e, sempre, devagar, quase parando, em conta-gotas que era para não destruir tão cedo as suas ilusões.

Trinta e sete anos se passaram, desde então e, só agora ela tomou coragem para perguntar-lhe: por quê?

- Por que ressuscitou da sua laje fria e remexeu no cadáver insepulto de um amor esquecido no tempo? Que prazer haveria de obter, ainda, para sua vaidade, saber-se amado apesar de...

É, meu amigo, você não respondeu e jamais responderá nem a penúltima, tampouco a última carta de amor. Faz parte do seu show! É o pedaço desse latifúndio a que você dá o nome de vida... Improdutiva, com certeza! Pois de afetos não cultivados pelo respeito e pela gratidão de se saber amado apesar de...

Um silêncio que fala foi a sua resposta. A última pá de cal sobre um amor que venceu o tempo, mas foi vencido pela insensibilidade de quem, da vida, só deseja o farfalhar dos ventos nas saias rodadas dos amores vãos.

Em todo caso, eu peço emprestada, novamente, as palavras de Carpinejar e termino dizendo: Não irei me vingar com as cinzas, arrancar as folhas que não combinam comigo, ou que me provocaram decepções. Não serei visto queimando fotografias, cartas e paixões numa lata de lixo, apenas porque não me servem mais. O que namorei vai me enamorar a vida inteira. Estará lá numa página definida, permanente, com a letra segurando as linhas”.

Todos os meus erros são esperançosos pela releitura”.

junho 07, 2011

A Última Carta de Amor



O meu amor é feito de silêncios, engolindo as palavras e longe dos olhos que lendo não veem...
Ainda há tanto de ti dentro de mim que, embora eu corte as palavras, encerre os parágrafos e não deixe transparecer o fingir, continuo com esse sentimento doído e em carne viva. Foi dessa forma que comecei a te escrever, porém, num átimo de segundo, recuperei a lucidez e iniciei a minha última carta de amor, assim:

- Houve uma época em que eu não cabia dentro de mim. A tua ausência ocupava todo o meu espaço... Foram dias difíceis, de olhares líquidos e avarandados à espera de uma resposta... Pelos meus olhos derramavam-se as lembranças de nós dois. Saudade deixou de ser um sentimento abstrato e transformou-se em carne viva; tudo doía, o corpo e a alma. Em meu cérebro martelavam perguntas para as quais não tinha respostas: onde foi que eu errei? O que fiz ou deixei de fazer, no passado, de mais ou de menos? Como reconstruir esse caminho – depois de tanto tempo - e reescrever essa história, para ela dá certo, se os sentimentos e os personagens são os mesmos? Foram anos de silêncio, engolindo as palavras e a minha fome da tua presença...

Nesse entremeio, pessoas certas, na hora errada, cruzaram o meu caminho e desejaram esse amor de tanta entrega... Tão honesto e tão teu! Mas o meu coração de menina ainda habitava a casa da esperança. É verdade que o amor doía, pela tua ausência, porém, as boas lembranças e a possibilidade de conviver contigo – novamente - transformavam aquela dor num tempo de confiança onde a lucidez era esquecida.

Passaram-se tantos anos de olhares líquidos e avarandados a tua espera e de uma resposta, para aquela penúltima carta de amor que, hoje, pergunto-me: por que não percebi que a questão não era o que eu fiz ou deixei de fazer e, sim, a tua total incapacidade de dar e receber amor e, também, de traduzi-lo.
Ainda recordo-me da tua indagação, quando lendo um texto meu, perguntaste: quem é o destinatário? E, eu, estupefata, respondi:

- “No meu olhar estava escrito, só tu não leste.
Em minhas mãos paradas, inertes, estavam acorrentados o desejo e a vontade de ser tua. Só tu não viste.
No meu coração palpitante, pulsava um velho e um jovem amor... Só tu não notaste.
E agora buscas nas minhas palavras o destinatário desse amor. Que tolo amor esse meu, que até hoje, tu não entendeste!”

É, meu amigo, continuas a não entender, mas agora eu rompo o silêncio e digo-te, realmente: o nosso tempo passou... A casa da esperança não faz mais sentido, pois, quem ama, cuida! Não abre espaços, nem deixa a porta entreaberta...
Adeus!

maio 28, 2011

Pelas Janelas da Alma



Os olhos da minha memória estão sempre voltados para o passado. Confesso! Mas, eu caminho em direção ao futuro. A questão é que eles procuram por terra firme e a única opção que lhes acenam é o terreno escorregadio da efemeridade.
O transitório causa-me assombro, pois, atualmente, já não é possível perceber a diferença entre o certo e o errado, entre o bem e o mal nessa avalanche de mudanças e incertezas que nos deixam atônitos a todo o momento.
Hoje, ao pescar o tempo no baú das minhas lembranças, lembro-me de uma frase importante: “sofrer sem aprender com isso é uma estupidez total”. Então, viajo pelas janelas do meu olhar tentando captar o sentido da época em que vivemos.
A eternidade parece ameaçar-nos! Sofremos sem aprender com isso porque duvidamos dela e, nessa hora, tudo passa a ser descartável, desfrutável, sem importância; passageiro. E, além disso, ainda subjugamos as nossas vidas ao mundo material; só tem valor aquilo que podemos pagar em moeda corrente: casas, carros, hotéis de luxo, viagens, roupas de grife e as festas que oferecemos para preencher o vazio existencial.
Penso, agora, que colocamos um mundo novo dentro de nós, mas nada aprendemos sobre amor, generosidade, gratidão, tolerância, compaixão e sabedoria... Vida! Por isso, enquanto as janelas do meu olhar observam os meus passos ainda lentos no caminho da modernidade, procuro estar atenta para abraçar o novo, mas sem perder de vista a lucidez que me mantém afastada da visão materialista e da linguagem dos sentimentos sem profundidade que imperam nos dias atuais.


abril 24, 2011

Tempo de Despedidas




É tempo de deixar ir! De esquecer cores, cheiros, sons, passos e lembranças. Tempo de despedidas, de encerrar ciclos e de fechar portas. Literalmente! Ouço o som dos meus gemidos, mas aumento o volume da canção dos meus sonhos. Então, decidida, bato a porta e vou. Levo um coração sem amarras que é para abrigar as delicadezas da nova vida que vão chegar...

Despeço-me do passado!?

- Não sei! Uma palavra em suspenso, “ontem”, ainda mexe comigo: é o meu foco de resistência. Isso que me faz tecer palavras para não apagar memórias.

Quero resgatar uma época feliz para depois, deixar ir!... Fazer-se poeira de estrada, de estrelas e de sonhos.

Esse é o meu desafio! E por isso escrevo.

- Estou de mudança. A antiga casa com suas cores, cheiros, sons, passos e lembranças, vai ficando para trás. Então, eu me pergunto:
- Será que vai mesmo? Ou ela caminhará para sempre por minhas lembranças feito um viajante sem pouso?
- E, se isso acontecer? Estarei sendo paradoxal, com o meu saudosismo sempre em pauta, em contraposição com o desejo ir, de mudar?
- Como conciliar o passado e o presente se o tempo, esse “compositor de destinos”, trabalhou nas minhas lembranças com delicadeza, deixando-me um inventário de bens intangíveis?

O fato é que, agora, ao olhar cada cômodo da casa, eu revisito as saudades. E penso: o que é que eu tenho do futuro?

- Nada! Apenas um presente que vai virar passado, quando outras paisagens, histórias e personagens tecerem os fios dessa nova tessitura. Porém, a vida nunca mais será a mesma... Não, a vida das minhas emoções, aquele quartinho cheio de lembranças, ainda quente, do perfume dos dias felizes.

Olho em volta, tudo é saudades! O riso das crianças, a mesa posta, com mãos de ternura, a música, tantas coisas e, ainda, a marca da tua ausência que nunca passa...

Fomos construtores de um sonho que deu certo... A nossa casa, hoje, tem história. Uma história que a modernidade está querendo demolir, mas, que ao apagar das luzes e bater da última porta, não será esquecida, pois eu embalo coisas, fecho malas e tranco portas, mas, como um viajante sem pouso, levo as minhas raízes.

abril 17, 2011

Quero ser Clone de Mim






Passando os olhos por uma revista, na banca de jornal, cuja capa trazia a imagem da bela atriz Elizabeth Taylor, deparei-me com esse comentário: “ela foi a mulher que toda mulher queria ser, a mulher que todo homem queria ter”.


De imediato, pensei: não, eu não quero ser a Liz Taylor! Nem ela nem ninguém! Nunca quis. Sempre estive ocupada em ser apenas eu.


Não desejo me transformar em clone de ninguém, pois, venho ao longo do tempo, me construindo para ser quem sou, e, confesso: gosto muito do resultado. Não quero, agora, abrir mão dessa conquista para ser outra pessoa.


Felicidade, para mim, não tem receita, mas ela está refletida em meu rosto, quando olho para o espelho e vejo o tanto que aprendi no exercício de ser quem sou.


Nas minhas noites de vigília, lembrei-me de quem tinha fome, sede e frio, e ofereci alimento, aplaquei a sede e dei abrigo. Os meus braços, hoje, flácidos, já serviram de agasalho e proteção contra as dores do mundo, e o meu colo, de refúgio, para esconder o pranto.


Cada ruga, em meu rosto, conta uma história de amor, que fala de perdão, tolerância, compreensão e solidariedade. Não vou, agora, fazer cirurgia - nem aplicar botox - para apagar o melhor em mim e ser quem não sou.


Por isso, a essa altura da vida, continuo querendo ter a minha cara: ser clone de mim! E, se algum homem não me escolher por eu não ter a beleza da Elizabeth Taylor ou de outra pessoa, terei muita pena, pois ele não sabe o que está perdendo...

abril 09, 2011

Casamento Homoafetivo




Entre o discurso e a realidade existe uma questão de dignidade e de respeito às diferenças...


Dentre os temas polêmicos, talvez o casamento homoafetivo seja o que mais cause estranheza, tendo em vista que não há legislação pertinente sobre tal matéria nem, tampouco, fundamentos que justifiquem – sob o ponto de vista cristão - a união entre pessoas do mesmo sexo.


Em que pese às razões alegadas de que as normas que regem o casamento só foram previstas em função da união entre um homem e uma mulher, é mister se reconhecer que a homossexualidade existe desde os primórdios da história da humanidade e que negar isso é resvalar pela hipocrisia e ignorância.


Diante de tal fato, se faz necessário a regulamentação em lei, que dê amparo e proteja o direito do cidadão, que opta em assumir o seu desejo, como um manifesto da sua liberdade de escolha. Escolha essa assegurada pela nossa Constituição, quando escreve em suas páginas a consagração dos princípios da liberdade e da igualdade de direitos.


Partindo da idéia do respeito à dignidade humana, podemos invocar por mudanças que tire dos guetos da vida quem exerce o mais elementar dos direitos que é o da liberdade.


Embora exista, por parte das religiões, resistência e certo prurido quando o assunto casamento entre iguais é ventilado, não podemos aceitar - sob pena de sermos levianos - o argumento de que a união entre as pessoas só se justifica por meio da procriação. É contraditória tal afirmação, uma vez que vai de encontro às celebrações que vemos, diariamente, entre casais de meia idade ou de jovens, onde a gravidez não é possível nem desejada.


Por outro lado, o que é o casamento senão a união de duas pessoas empenhadas em construir uma vida de respeito, amor, carinho?


Filhos! Sim, conseqüência desse afeto e desse querer só assim serão bem-vindos, amados e respeitados, mas não como imposição para realização do matrimonio, pois, se fosse dessa maneira, não teríamos clínicas psiquiátricas ou psicológicas para dar vazão a tanta demanda (...).


É indiscutível que esse assunto merece ser debatido a exaustão para que não reste a sociedade nenhum ranço que a impeça de sentir que os ventos da evolução, que nos fazem bem em outras áreas, também sejam bem-vindos no que concerne a união entre iguais.


Negar isso às pessoas que lutam por um ideal de justiça, que prime pelo respeito e pela igualdade para todos, é ignorar que a liberdade é o maior patrimônio de uma sociedade que se diz civilizada. Desconhecer o direito do cidadão de ser, sentir e vivenciar outra realidade que não a manifesta pelos padrões, ditos normais, é tirá-lo do seio da sociedade e transferi-lo para os guetos da vida, marginalizando-o. É retroceder no tempo, ignorar as mudanças e os novos códigos de conduta que exige de nós o respeito pelas diferenças.


Ainda que a relação entre pessoas do mesmo sexo nos cause estranhamento, precisamos buscar nas raízes desse comportamento o preconceito que nos leva ao discurso homofóbico e que tanto contribui para a segregação e a infelicidade dos nossos semelhantes. Pois, repito, entre o discurso e a realidade existe uma questão de dignidade e de respeito às diferenças...

abril 01, 2011

Convite





Há dias que eu acordo assim: garimpando letras para brincar com as palavras. É que dentro de mim há uma saudade doída procurando esconder-se nas entrelinhas. Sinto falta do amor!

Sei dos meus limites, mas sei também desse afeto que transborda das frases não ditas... O que eu sinto não se esgota  na ausência nem no silêncio. Ainda procuro. Insisto!


Sonho com a revolução desse sentimento: amor versus orgulho, vaidade, negação... Solidão!


Às vezes, sinto ímpetos de dizer: para! Para esse planeta que eu quero descer! Esse não é um lugar de gente bem resolvida onde o amor pode quebrar todas as regras e as pessoas sentirem-se felizes!


Por isso, do que sinto - e que está mais perto do riso do que do pranto - me dá vontade de falar, pois tenho sede, muita sede de saber a medida certa das coisas.


Por que amar dói? Qual a medida exata do amor?


(...)


E, por não saber, faço-te um convite:


Tu que habitas esse planeta e, solitário, desejas companhia, vem ao meu encontro.


Também estou deserta, despovoada. Sinto-me só, mas não sozinha!


Não te quero herói, somente homem... Humano! Dispenso adjetivos desnecessários...


Quero-te inteiro, sem manhas nem artimanhas.


Há espaço para nós dois se o teu propósito for igual ao meu: somar!


Vem!

março 01, 2011

Autorretrato




Não nasci pronto, nem com manual de instrução. Pelo contrário, amanheço todos os dias quando observo os meus erros, as minhas imperfeições e tento corrigi-los. Mas, uma coisa é certa: convivo muito bem com aquilo que estou me tornando.

Já fui belo e feio; moço e velho; inteligente e sem memória... Esquecido. Tive poder, fama e dinheiro e tudo o que me sobrou foi: a solidão, o vazio e sete palmos de terra.

Vaidades? Tenho poucas, talvez a única da qual me orgulhe seja gostar demais de mim: daquilo que não sou e do que não tenho, pois, do que sou e do que tenho, nada é meu.

Então, quem eu sou e o que tenho?

- Sou o tempo... Senhor da razão! E, tudo o que tenho é o amor incondicional, irrestrito e atemporal.

Sirvam-se!