Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

fevereiro 06, 2011

Na Pausa da Fotografia




Ah, esses nossos professores de redação! Sempre a nos exigir que economizemos a vida em poucas linhas. Pensando bem, ela parece caber, toda, na pausa daquela fotografia.

Olho para o quadro na parede e vejo que a imagem está ali, mas a vida, não! Essa corre lá fora... Ali está apenas uma cena em pausa melancólica pedindo providências, exigindo outro roteiro, outro rumo, uma nova direção...

Aquela foto desbotada era uma metáfora do que fora a sua vida até aquele momento: uma espera sem fim, por um amor, que ficara na pausa de uma fotografia.

Por um longo período ela deixou que a sua alma vivesse em desalinho. Respeitou lacunas e silêncios... Pensava: não tenho problemas com a solidão! Mas, é certo, que lhe doía aquele amor que não respeitava o tempo e, ainda hoje, batia à porta do seu coração dizendo: queria que ele estivesse aqui!

Vivia antecipando saudades para apaziguar a sua alma blindada, devastada, desabitada. Há anos que não cabia dentro de si. O amor por aquele homem ocupava tempo e espaço que eram seus. “Vivia como estrangeira de si mesma: sem alma, sem DNA, sem código genético.”

Vivia! Pois, a partir daquele momento, ao olhar o quadro na parede, resolveu fazer uma escolha: entre ele e eu, escolho a mim. Quero, hoje, um amor que me procure; que venha bater a minha porta e que tenha a coragem de dizer que precisa de mim. Porque é assim que eu sei amar. INTEIRA!

Então, olhou novamente para a vida estagnada na pausa daquela fotografia e concluiu: agora chega, acabou! E, aquela frase ecoou dentro dela, como um aceite de um tempo que chegara ao fim.





janeiro 28, 2011

Arquitetura do Tempo









A minha memória é uma sala de espera cheia de significados. Nela, os baús emocionais acumulam-se.

São lembranças de uma época em que muita gente habitava dentro e fora de mim: as famílias, suas casas, seus quintais e suas histórias que se confundiam com a minha. Tudo era matéria de troco: afeto, ternura, carinho e um pouco de açúcar para adoçar a vida nos momentos de dificuldades. Havia no ar palavras e ações que se somavam ao gesto de viver: amizade, solidariedade, fraternidade...

Na arquitetura do tempo, eu desembrulho as minhas lembranças alinhavando-as em retalhos de saudades, enquanto os meus pés andarilhos caminham devagar, sem pressa, arranhando silêncios na tentativa de entender mudanças... Retiro das pausas das fotografias a alegria genuína de uma época feliz, mas sinto-me como uma ladra das horas, tentando usurpar uma felicidade com prazo de validade vencida...

Ainda assim, em minha sala de espera, as imagens em sépia se sucedem lembrando o passado. Perco-me nessa paisagem de lembranças, recordando famílias, amigos, amores, sonhos e projetos.

Havia, sim, muita gente dentro e ao redor de mim, lembrando-me que a felicidade é um sopro, um vento manso, às vezes imperceptível e que é preciso saber valorizá-la nos pequenos gestos do cotidiano.
Diziam-me: “Não a deixe fugir, não a procure longe de si. É dentro de você que ela cochila. Desperte-a!”
Deixo a sala, troco de pele, de imagens, de paisagens e venho para o presente...

Questiono o tempo, provoco, mas não encontro o quê comemorar. Apenas, um mundo novo, moderno, cheio de conquistas que estampam páginas de jornais e revistas, mas que não é suficiente para preencher vazios existenciais e dá uma resignificação para essa vida, breve e louca.

A ciência e a tecnologia deram um passo incomensurável em relação ao passado, mas nunca tanta gente se sentiu tão só, sem esperança e infeliz. O moço da carrocinha que antes entregava, em casa, pão e leite fresquinhos, hoje, entrega drogas e outras substâncias, delivery.

Embriagamo-nos de modernidade até nas relações afetivas... O que antes era para sempre, hoje, será eterno enquanto dure... O amor deixou no passado o “nós” para ser conjugado na primeira pessoa. Só o “eu” importa. Pedimos amor, mas não sabemos dá-lo. Vivemos uma solidão a dois, em casamentos de fachada, de conveniência, de interesse, onde nome e sobrenome de família e suas fortunas, contam mais que uma relação de amor, carinho, respeito e tolerância.

Corremos atrás de uma felicidade que há muito cochila dentro de nós e não percebemos, pois estamos ocupados demais em mostrar aos outros, o quanto temos de dinheiro, sucesso e poder.

E, nessa arquitetura do tempo, onde o ter vale mais que o ser, vamos deixando a vida nos levar de roldão, atropelando sentimentos, fumando vazios e bebendo solidão.


janeiro 01, 2011

Afinal, a que se destina a vida?






Essa, é a pergunta mais frequente que fazemos quando as dores da perda e do luto batem a nossa porta. Em geral, todos respondem: - o destino do ser humano é a busca da felicidade. No entanto, por que é tão difícil ser feliz?

Há quem diga que a felicidade está no caminho, na eterna procura... Prefiro pensar que ela é tão simples e corriqueira, e ao mesmo tempo tão sutil, que ao andar ao nosso lado sem fazer rumor, ignoramos a sua presença. E, fazemos isso, porque somos inábeis nesse quesito.


Queremos entre outras coisas: sucesso no trabalho e realização no amor. Dois grandes pilares que sustentam a nossa idéia do que é ser feliz, mas que são insuficientes para garantir esse estado, quando nos colocamos no centro do mundo e ignoramos as necessidades do outro. O outro, esse parceiro que também tem sonhos e merece respeito, atenção e carinho.

Vivemos sempre no entorno, esquadrinhando caminhos que nos levem até essa tal felicidade. Mas, desejamos que ele, o caminho, seja feito de espelhos, onde possamos ver refletida apenas a nossa imagem...

Quando vamos entender que ela é um projeto a dois quando se trata de intimidade e, abrangente, quando inclui o nosso convívio em sociedade?

Não dá pra ser feliz ignorando que o outro, não sou eu!

Sou eu, sim! Com os mesmos direitos, deveres e prazo de validade. Não sou filho único da vida! Por que, se assim fosse, um dia iria me perguntar:

Quem é essa que, agora, me assombra e se esgueira pelos cantos, querendo usurpar a minha alma? E, responderia:

- É a solidão! Triste companheira... Ausência que me faz perguntar:

- Afinal, a que se destina a vida?

dezembro 05, 2010

Meu Primeiro Autógrafo







Minha filha, quando você teve a ideia de transformar o blog Reconstruindo Caminhos, editando-o como livro, para junto aos seus irmãos, presentear-me no meu aniversário, fui surpreendida pela sua capacidade de reinventar-se. Explico: é que nós, mães, temos a pretensão de achar que os nossos filhos são uma extensão dos nossos pensamentos e, em sendo assim, somos possuídos pela certeza de conhecê-los, tão profundamente, que nada de novo nos escapa... Ledo engano!

Você me surpreendeu, mais uma vez!

Um caminho feito de velas, um buquê de flores sobre a mesa, uma caneta e sessenta livros era a confirmação de que aquele dia 29 de abril, que se apresentava atípico, não fora esquecido, pois até aquele momento nenhum presente ou movimento indicava a lembrança de que aquela era uma data especial: o meu aniversário! Mas, ali estava a prova do carinho, da dedicação e do amor desmesurado: um blog transformado em livros!

Passada a surpresa e a emoção veio a pergunta inevitável: - o que eu farei com esses livros? Sim, porque no prefácio há um derramamento de palavras que, na realidade, só é justificado pelo amor filial! E, em conseqüência disso, pensei: como lidar com as críticas advindas de tamanha pretensão?! Como receber um título que não me cabe?

E, se de repente, alguém me cobra o primeiro autógrafo, o que direi: autografar, eu?

Não sou escritora, pois me faltam o conhecimento, as leituras e a tessitura das palavras. Sou apenas uma escrevinhadora das minhas emoções: quando contemplo o mar, as noites enluaradas, os dias de chuva, as flores, os verdes campos e, principalmente, à noite; minha filha, quando me debruço sobre a sua cama para velar o seu sono.

- A quem dedicarei as minhas letras, esse alfabeto de amor que eu construí brincando com palavras que cheiram a naftalina?

Hoje, pensando nisso, lembrei que é o dia do seu aniversário! O primeiro que passa longe dos meus braços e do carinho da sua família. Ao acordar, num país distante, não há um café da manhã regado com carinho, não há bolo, velas, almoço especial, tampouco um efusivo “Feliz Aniversário,” comemorado por todo o dia, numa extensão da nossa alegria por você fazer parte das nossas vidas, durante esses trinta anos.

Pois bem, é para você que eu dedico, hoje, o meu primeiro autógrafo: a assinatura de um amor desmesurado, cheio de gratidão e carimbado com o selo da eternidade. É para você, Juliana, que vão todos os meus pensamentos de amor, de fé, de alegria e de admiração.

Se eu estivesse ao seu lado, agora, faria uma passarela de pétalas de rosas para tornar o seu caminhar mais suave e diria: o mundo seria melhor, se todos fossem iguais a você!

Gostaria de ser uma escritora, mas não sou! Falta-me, também, a intimidade com as palavras... Porém, nas minhas letras com cheiro de naftalina o alfabeto do amor será sempre seu, pois você foi, sem dúvida, o melhor livro que eu escrevi... Amando!

Feliz aniversário, minha filha!

novembro 01, 2010

O Silêncio da Alma





Os momentos pontuados pelo silêncio são inesquecíveis... Neles, o verbo cala e a alma, feito criança, espalha lembranças, saudades e brinca com o tempo. Passa a vida a limpo... Silenciosamente.

Há dias em que estou assim: silente! E, se me perguntam, por quê? Eu respondo: - a nudez das palavras ainda veste os meus lábios de poesia, mas me calo... Não quero mais pagar a fatura do abandono, da rejeição e do esquecimento com as minhas letras encharcadas de amor. Cansei!

E, por conta disso, vivo brigando com o tempo verbal da minha escrita. Valho-me da irregularidade do verbo ser para criar as minhas contradições. Ora conjugo-o no pretérito e peço abrigo ao passado, para não expor a nudez dos meus sentimentos; ora no presente, assumindo de vez a incoerência nas minhas palavras e reafirmando esse amor que nego tanto.

Alguns dirão que sou uma fraude! Mas, a quem interessa as minhas dores?

Escrever, nesse caso, é alinhavar palavras que doem, é expor a alma em doses homeopáticas, é lamber as feridas através do verbo, é tocar de leve na dor que lhe consome quando, na verdade, o fogo e o desespero lhe queimam por dentro, e o que você mais deseja é cobrar a fatura desse sofrimento que lhe rouba a paz e o sossego.

Por isso, me calo, distanciando-me do barulho e da nudez das palavras que denunciam a minha dor. Vivo apenas as lembranças e as saudades que cabem dentro de mim e, que não me comprometem, nem fazem sofrer.

Ao transitar, nesse momento, entre o passado e o presente, estabeleço um embate entre o desejo de falar sobre esse amor e as ranhuras que ele me fez, mas... Vence o silêncio da alma.

outubro 27, 2010

Um Tempo para Sentir


A escritora Martha Medeiros nos diz: “Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.” Pois bem! Neste tempo de tecnologia avançada, onde tudo vira passado num piscar de olhos, eu quero a minha vida de volta para sentir o que já não sinto e viver o que já não vivo... Vida!

Quero um tempo para saborear a fruta no pé
e algumas horas para descansar à sombra da goiabeira.
Quero um tempo para tardes de sol
e vento no rosto a desalinhar os meus cabelos.

Quero um tempo para sentir o cheiro da grama molhada
e para banhar-me nas lágrimas do céu.
Quero um tempo para observar o jardim cheio de flores
e as borboletas em seus volteios a sugerir-me o prazer da liberdade.

Quero um tempo para abraçar o flamboaiã amigo
e nele armar um balanço para retirar das nuvens
o algodão doce das minhas fantasias.

Quero um tempo de portas e janelas abertas,
para acolher o amigo que se aproxima.
E, de quebra, uma lareira acesa
para, em tardes mornas fazer carinhos e exercitar ternuras...

Quero um tempo para amar...
Voltar a sorrir sem medo de ser feliz!
Quero, enfim, um tempo para sentir!

Quero um tempo para sentir, pois estamos vivendo num frenesi, cujo único objetivo é conjugar o verbo fazer, em todos os seus tempos. Parece que isso é a única coisa relevante a fazer em nossas vidas.
Em virtude disso, olhamos para o nosso semelhante com distanciamento; e como diz Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros.” E a partir daí, nos afastamos dos nossos afetos, das nossas lembranças do que era ser feliz e, principalmente, do SENTIR, dom singular, incomparável, que é o que nos torna verdadeiramente humanos.


PS: Esse texto é uma homenagem ao blog: “Flor de Lis,” que faz da arte de viver um eterno SENTIR.

outubro 16, 2010

Enquadrar-se






Escreva em 20 ou até 25 linhas sobre o tema: enquadrar-se. Essa é a proposta do professor de redação em sala de aula.

De imediato, reflito: não consigo, pois o que penso e o que sou é a antítese do que ele me pede. Não me enquadro nem nas linhas, nem no tema. Pra falar a verdade, eu me desenquadro no geral...

Vivo à margem de qualquer conceituação do que seja moderno, principalmente, se isso faz referência ao amor. Este sentimento que hoje é colocado nos balcões da vida como mercadoria e que compra quem tem mais dinheiro, status ou poder.

Para enquadrar-me nos moldes atuais, eu teria que abrir mão da minha individualidade... Desconstruir-me. Negar a matéria dos meus sonhos e esse amor tão antigo, que aprendi a amar, amando.

Tudo o que sei sobre esse sentimento é inegociável, sobretudo, porque a moeda pelo qual ele foi adquirido saiu de circulação. Paguei por ele o preço da admiração, do respeito, da compreensão, da tolerância e do perdão. Sentimentos e palavras em desuso, mas que humanizam e que na realidade estamos sempre a cobrar do outro como se fôssemos perfeitos.

Para enquadrar-me eu teria que abrir mão ainda de detalhes que enriquecem as minhas histórias de amor e que guardo nas gavetas da memória como jóias raras... Para alguns são miudezas, bugigangas e quinquilharias que nada acrescentam, mas para mim são como brilhantes que reluzem e dos quais eu não abro mão, nem os trocaria por todo dinheiro do mundo.

São bens e atitudes de valores inestimáveis, entre outros: uma pequena flor colhida no mato, um conjunto de ferramentas para cuidar do jardim, uma tesoura para cortar o frango e uma pequena caneca para tomar café. Presentes que me foram dados por pessoas que cumpriram à risca o manual do bom amor: aquele que se importa com o outro, que sente a necessidade e se antecipa e, principalmente, aquele que se dispõe a gastar o seu tempo, para acender uma fogueira e ouvir a pessoa amada até a queima do último carvão.

Alguns dirão: - Que simplório! Quanto romantismo fora de época!

Ao que eu respondo: - é por isso que eu não me enquadro! Nem nas linhas, nem no tema. Sou adepta dos valores, das atitudes e dos amores antigos... Anacrônicos. E, além disso, já deixei por escrito que ao morrer, quero ser cremada e que as minhas cinzas sejam espalhadas por todos os lugares: calçadas, ruas e praças por onde andei de mãos dadas com os amores da minha vida. Lugares que contam um pouco da minha história. Uma história que venceu o tempo e que tem um sentimento com gosto de eternidade.

Por tudo isso, decididamente, eu não me enquadro nesse pós-modernismo que a tudo comercializa até mesmo o amor, transformando sentimentos, valores e pessoas em marionetes a serviço da propaganda, do consumo e da vaidade exacerbadas.

Sou uma moldura antiga... Uma peça que se desenquadra em 61 linhas e que está fora de uso... Démodé!

setembro 18, 2010

A Verdadeira Beleza que Importa






O poeta Vinícius de Moraes eternizou o culto à beleza na seguinte frase: “as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.”
Desde então, as mulheres vivem numa crescente busca pela imagem perfeita. Estamos na era das bonecas de plástico...

A estética é algo agradável aos nossos olhos, nisso todos concordamos, mas a medida que serve de parâmetro para avaliar o grau das nossas escolhas e de felicidade, assume nova forma, e aí a coisa toma outro rumo, uma vez que priorizamos o descartável, o transitório e o imponderável.

Vivemos uma época em que o culto ao belo aliado a uma tecnologia avançada virou à tônica do presente e o filão que engorda as contas bancárias de clínicas e academias. Estamos sempre em luta contra os ponteiros do relógio, numa busca desenfreada por algum procedimento que melhore a nossa imagem. Por conseguinte, nos perdemos atrás de algo que não nos define, nem qualifica.

Quando alguém, ou mesmo tu me olhas ou desejas, avaliando apenas os meus atributos físicos, penso: se esse é o preço da tua admiração e do teu amor, não estou disposta a pagar, pois gosto das marcas que o tempo desenhou em meu corpo. São sinais que me individualizam. Não pretendo abrir mão deles para saciar o teu olhar de lobo.

Gosto do que vejo! Não costumo brigar com o espelho. Nele, estão refletidas as minhas rugas e cicatrizes, e na flacidez da minha pele os vestígios das horas que passam. Mas, para além do espelho estou eu. O eu que importa: olhos, ouvidos e mãos. Esses, de fundamental importância para se mensurar a beleza que realmente importa, pois são os meus olhos que se dirigem em tua direção e veem o vazio da tua existência, ainda que nada me contes; são os meus ouvidos que silenciam as vozes do mundo para te ouvir e são as minhas mãos – ainda que enrugadas - que se estendem para te abrigar em noites de frio e tormenta.

Portanto, não me olhes como uma boneca de plástico, valorizando apenas a estética, pois é a minha alma que te salva. É ela que se esvazia de mim para te preencher... E, além do mais, Vinícius que me perdoe, mas essa é a beleza fundamental.

agosto 22, 2010

Uma História Real









Os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos!


Por que eu ou por que comigo? É sempre a primeira pergunta que fazemos quando alguma coisa foge a nossa compreensão.


Passar ao largo do sofrimento, nessa vida, é o que todos almejamos... Mas, como isso é impossível, a pergunta é: o que fazer quando ele bate a nossa porta de maneira inesperada?


Aceitar! Ainda que doa, porque os clichês: “tudo tem uma razão de ser” e “nada acontece por acaso,” são explicações que na nossa razão – no momento da dor - não encontram entendimento, nem conforto. Foi o que aconteceu comigo!


Ao folhear as páginas do Jornal Correio da Paraíba, do dia 06 de maio de 1992, eu li a seguinte manchete: “Meninos de rua realizam campanha.” E, logo a seguir, a explicação: “A Comissão de Sapé do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua lançou uma campanha, ontem, para angariar recursos em favor do deficiente visual Carlos de Pontes Coutinho, que depende de um transplante de córneas para ter a visão.”


“A campanha é para adquirir o equivalente a Cr$ 7 milhões, já que o transplante de cada córnea (segundo o Dr. Tarcísio Dias) custa Cr$ 3.500.000,00. Carlos de Pontes Coutinho é voluntário no trabalho com crianças e adolescentes do município de Sapé, portanto pessoa muito querida.”


Os valores supracitados correspondem, hoje, a, mais ou menos, R$ 7.000,00 (sete mil Reais) e R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos Reais) respectivamente.


Quando li a notícia, fui tomada por uma forte emoção e pedi a Deus, em prece: “- Senhor! Permite-me ganhar, hoje, na loteria para eu financiar a cirurgia desse homem, pois uma pessoa como essa não pode continuar cega.”


“- Ajuda-me, Meu Deus, a fazer alguma coisa por ele!” Essa foi a última frase que pronunciei naquele longínquo 06 de maio.”


Infelizmente não ganhei na loteria. E, lamentei não poder ajudá-lo...


Pois bem, no dia 10 do mês em curso, já tinha esquecido o assunto, quando pedi ao meu marido uma parte do jornal para ler. Ele entregou-me apenas os classificados. E, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um pequeno anúncio, em que o Dr. Vanderlan Carvalho se oferecia para fazer a cirurgia do Senhor Carlos, gratuitamente. Fiquei feliz e, em silêncio, agradeci a Deus, mas não comentei com ninguém sobre o assunto.


Na quinta-feira, 14 de maio, à tarde, ao encontrar-me com o meu marido no seu local de trabalho para juntos voltarmos para casa; ele sentiu-se mal e teve morte instantânea provocada por um infarto agudo do miocárdio.


(...)


Horas depois, por sugestão de uma amiga, ofereci as córneas dele para doação. Dois médicos recusaram: um, porque não conseguiu localizar os pacientes que precisavam de transplante e o outro, por não possuir banco de olhos. Esse me pediu permissão para oferecer a uma terceira pessoa, ao que eu assenti.


Naquele dia 14, pela manhã, Carlos de Pontes Coutinho viera a João Pessoa para se submeter aos exames e fazer a cirurgia, gratuitamente, conforme prometera o Dr. Vanderlan Carvalho, mas como não havia nenhuma córnea para ser transplantada, voltou para sua cidade.


À noite, ele foi chamado pelo Dr. Tarcísio Dias, àquele que, “coincidentemente,” vinha a ser o oftalmologista que cobrara Cr$ 7 milhões para fazer o transplante, objeto da campanha no Jornal Correio da Paraíba e, que acabara de receber, por indicação de seu amigo, as córneas de meu marido. O inacreditável disso tudo é que ele, também, resolveu fazer o transplante, gratuitamente.


Depois disso, passei a não acreditar em coincidências, pois foi dessa maneira e não com a loteria, que o meu pedido a Deus, para ajudar àquele rapaz, foi atendido.


O que aconteceu me custou muita dor e sofrimento, mas nunca perguntei: por que eu, por que comigo? Pois os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos.


E, além do mais, ficou a lição: o que tem de acontecer tem força! Coincidências não existem!




agosto 10, 2010

Para Meu Filho, Gilberto







- E aí, coroinha, tu me amas?
- Sim, meu filho, eu te amo!
- Pouco, muito ou uma exorbitância?
- Uma exorbitância!
- Se eu morrer, tu choras?
- Choro.
- Pouco, muito ou uma exorbitância?

Era dessa maneira – com esse diálogo - que entravas em nosso lar e feito um furacão pedias casa, comida, roupa lavada e de quebra um amor incomensurável (sem cobranças, é claro!) capaz de abrigar os teus anseios e curar todas as tuas carências.

(...)

Mas, de repente, se fez silêncio. Um silêncio incômodo! Que fala de ausência e de saudades... Olho a mesa posta e ouço a canção: “Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele, tá doendo em mim”.

- Penso: será que exerci o amor de mãe em sua total plenitude? Será que falei que te amava o suficiente para te abastecer de certezas pelo resto de tua vida?

- Não sei! Amor por mais que se dê, ainda é pouco, dirão alguns.

Se pouco, se muito ou uma exorbitância, eu não sei. A verdade é que eu te amo o bastante para te ver crescer e ir embora; ainda que isso me doa, para te ver trilhar caminhos nunca antes percorridos; ainda que isso me incomode, para te imaginar nas fronteiras do perigo; e ainda assim, te incentivar a partir.

Amo-te tanto e tão intensamente, que ao te colocar no mundo deixei meu coração em aberto, só para abrigar todos os teus sonhos como se fossem meus.

Amo-te tanto e a tal ponto, que vivo brigando com as horas que se esvaem, que se esgotam e mal me dá oportunidade de falar de amor, de ajeitar carinhos e construir ternuras.

“O Tempo não Para” já dizia o poeta Cazuza. Por isso, quero aproveitar, hoje, da urgência do meu sentimento para eternizar nessas poucas linhas o amor, o respeito e a admiração que sinto, por ti, meu filho.

Amo-te tanto que, diante do silêncio da tua ausência, resolvi dizer que a saudade é tamanha, que o tempo resolveu zombar de mim porque ele sabe passar e eu não sei...

Sinto a tua falta!

agosto 01, 2010

Aprendiz do Caminho






Enquanto caminho, aprendo!

Não carrego manual de instrução, tampouco possuo uma tecla liga/desliga/deleta. Vou vivendo e aprendendo com a vida. Ela, e só ela, me dá o norte que preciso à medida que corrijo os erros do meu caminhar.


Não construo certezas, apesar de viver em um mundo cheio de regras e de tantos semideuses. O meu dia-a-dia se alimenta do inesperado e a cada instante revejo as minhas convicções. Olho para o outro e antes de apontar-lhe o indicador, penso: o que eu faria se estivesse em seu lugar? E, aprendo! Aprendo mais sobre o amor - fonte de toda sabedoria – e escolho viver em paz com a minha consciência.


Por não possuir manual, erro, e erro feio algumas vezes, mas utilizo as frases mal costuradas do meu orgulho para pedir perdão. O efêmero, o passageiro e o transitório, essa trindade que adjetiva as minhas horas e ensina sobre a passagem do tempo, também me dá a percepção de que administrar essa tríade com inteligência, respeito e humildade, é viver com sabedoria. Sabedoria necessária para me desviar das linhas retas, das respostas prontas e das soluções mágicas, que a todo instante estão sendo apresentadas pelos semideuses de plantão.


Tenho procurado conhecer mais sobre atalhos – caminhos diferentes - e confesso que isso, me faz sentir melhor. Eles me fornecem o aprendizado necessário, pois interrompem os meus passos, nas linhas retas, me obrigam a olhar em volta e me humanizam. Os meus pés, agora, são andarilhos de um caminhar sem pressa porque desenvolvi, no percurso, uma compreensão maior sobre quem sou e o que estou fazendo com aquilo que me tornei...


E, por que já não há tantas horas assim para serem desperdiçadas, entendo que: só se aprende, vivendo! De nada adianta as regras e os manuais de instruções, pois o que vale mesmo são as ranhuras que ela, a vida, nos faz, obrigando-nos a sermos mais brandos, mais compreensíveis e humanos no julgamento dos nossos semelhantes e nas nossas atitudes no meio em que vivemos.


Por isso, hoje, enquanto caminho, aprendo! Pois, um olhar diferenciado sobre a arte de viver me ensina a não gastar os meus dias e as minhas horas à toa! Sou um aprendiz do caminho dos meus próprios erros.

julho 03, 2010

Que país é esse, meu Deus!?





Não entendo de política tampouco de futebol. Talvez venha daí, desse desconhecimento, a ousadia do comentário: o Brasil está de chuteiras, enquanto os seus filhos chafurdam, literalmente, os pés na lama...
Não entendo, mas confesso que gostaria de entender. Como é possível uma nação, onde há tanta carência de investimentos em saúde, educação e moradia; onde há desvio de verbas públicas; uma política que beira o ridículo, com alguns dos seus representantes pegos com dinheiro em meias e cuecas, e outros fazendo manobras com o tempo verbal, para pôr em dúvida a lei da ficha limpa dos candidatos que pretendem representar, apesar de tudo, os nossos anseios nas eleições vindouras. Repito, gostaria de entender o porquê de ficarmos indiferentes, alienados, colocando a emoção ou o coração no lugar da razão.

Ah, como seria bom ver toda essa flama, essa energia e esse entusiasmo a serviço do bem-estar coletivo, num esforço conjunto para mudar os rumos da nossa pátria. Tanta desigualdade social, tanta miséria provocada pela má gestão do dinheiro público, e nós - os brasileiros - ali, atrás de onze homens e uma bola, seguimos firmes, fortes e animados – sem está nem aí – ostentando o orgulho nacional, no peito e na raça, por causa de uma “Jabulani”, quando há segredos a desvendar nos porões, por onde campeia a desonestidade e escoam as nossas riquezas.

“O Brasil não é um país sério.” - Frase atribuída ao general Charles de Gaulle, e assumida pelo embaixador Carlos Alves de Souza Filho, tempos depois, em um livro de memórias, - nunca fez tanto sentido quanto agora, pois, enquanto o país fecha as suas portas: repartições, bancos, comércio, indústria e escolas, para que o espetáculo do futebol tenha audiência e dê frutos a quem interessa; os nordestinos, estupefatos, veem as suas vidas serem arrastadas, literalmente, por um mar de lama, sem que haja um movimento efetivo – com a mesma dose de entusiasmo e patriotismo - tanto dos políticos quanto do povo em geral, para que catástrofes dessa natureza não mais ocorram.


Em nenhum momento da nossa história – à exceção das Diretas Já – vimos os brasileiros tão empenhados em mudar, de fato, os rumos da nação... Ninguém veste as cores da bandeira com tanto empenho e orgulho – como faz em época de Copa do Mundo - para defender o Brasil dos seus políticos corruptos que, eleição após eleição, deixa-o mais pobre e envergonhado.


Que país é esse, meu Deus!?

junho 21, 2010

O Contraponto









Somos nós que fazemos a nossa história, por isso não nos peçam para aceitar regras ou preceitos criados por uma sociedade machista, pois os tempos são outros e nós mulheres - ah! nós mulheres - há muito que fomos à luta.

Faz anos que deixamos de ser a menininha do papai e a bonequinha de luxo que o marido gostava de exibir. Já não temos mais casa, comida e roupa lavada à custa do “chefe da família.” Hoje, contribuímos com o suor do nosso rosto para o custeio familiar. Temos jornadas duplas, triplas e ainda nos cobram a beleza e a estética de um corpo bem cuidado, para não perdermos o posto de “rainha do lar.”

- Onde já se viu tamanho despautério? E o contraponto?

É interessante verificar que por onde os nossos olhos passeiam só encontram homens grisalhos, carecas, barrigudos, insuportavelmente arrogantes, vaidosos e cientes do seu poder, que, na maioria das vezes, resume-se apenas ao peso do seu bolso...

Pobres homens! Compram, hoje, em moeda vigente, pílulas azuis e a companhia de uma jovem que lhes tragam de volta a juventude e a virilidade perdida... E ainda chamam isso de amor!

Enquanto isso, nós, antigas menininhas e bonecas, que hoje também estudam, trabalham, pagam seus impostos e participam ativamente do progresso socioeconômico desta nação, temos que amargar a “solidão do único cálice de vinho,” porque viver e amar sem compromisso são prerrogativas dos homens.

Pobres homens! Esquecem que a vaidade, o orgulho e o poder estão no contraponto que nos dá o direito e a possibilidade de fazer tudo igual e ainda assim, escolhemos ser diferentes por respeito e compromisso apenas a nós mesmas...

junho 17, 2010

Desabafo






“-A marca da minha digital está aí. Essa sou eu! Portanto, não falem por mim, nem assumam o que não sou tampouco o que não sinto mais. Ainda conservo a voz, a lucidez e a minha capacidade de locomoção. Também conheço o meu papel e sei a hora certa de me retirar de cena!”

Esse foi o desabafo que ela fez, quando alguém lhe roubou a identidade, tomou posse de suas palavras e apresentou-se em seu lugar...

Que estranha mania têm as pessoas de pensar e falar em nome das outras. Não lembrava de ter feito qualquer confidência ou declaração de amor, mas aquela criatura propagava aos quatro ventos que sabia quem tinha a posse do seu coração e era o dono do seu amor. Coitada! Não soube ler nas entrelinhas a diferença entre o real e a fantasia... Não compreendeu que ela alinhavou retalhos de saudades, na época em que a sua alma espreitava a vida lá fora, apenas porque gostava de inventar histórias...

junho 15, 2010

Aprendendo a Amar







Matriculei-me em tua vida para juntos aprendermos o exercício do amor, do companheirismo e da cumplicidade. Frequentei um curso sobre fidelidade e com mãos de ternura aprendi a exercer o carinho que adormecia a tua alma... Fiz pós-graduação em paciência, tolerância, respeito e um pacto com a eternidade. Fiz tuas as minhas asas para que a alegria de voar não me distanciasse de ti... E foi aí, que eu me perdi: o sonho era só meu!

Hoje, desalada e sujeita às tentações, não sobrevoo mais nem os desertos da minha alma... Recolho-me, porque do amor só conheço a fantasia.