Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

setembro 03, 2013

Toda Tua











Passeio sem pudores pelos meus sonhos e toco com delicadeza na tua dor só para te dizer que ainda estou aqui... Uma parte de mim te pertence para sempre e a outra é uma reserva imaginária daquilo que penso que juntos poderíamos ser.

Sempre que escuto os sussurros da minha alma, um mergulho no tempo das boas recordações te traz de volta e eu digo baixinho: ainda te amo, mas não tenho respostas para tua ansiedade... Eu só sei que é muito bom te saber por perto, embora faltem palavras para definir o que somos, hoje, um para o outro. Eu só sei, também, que num canto escondido pelos cercados da memória guardei a lembrança do nosso último bolero... Uma dança de corpos nus e almas revestidas do mais puro amor.

Então, agora, nesse exato momento em que eu passeio sem pudores pelos meus sonhos e que tudo o que tenho é uma parte de mim que é inventada e a outra, que é só saudades, eu respondo a tua pergunta: ainda sou toda tua!



setembro 01, 2013

O Dono do Tempo












Ele passa por mim, às vezes, como um vento manso acariciando o meu rosto, trazendo do quintal da minha infância lembranças que me são caras; outras, como uma tempestade, colocando a minha alma em polvorosa por não saber como detê-lo...

Ah, o tempo! Hoje, ele passeia pelas minhas memórias como um rio caudaloso. Memória, um lugar onde eu recolho lembranças de quem fui e do que me tornei ao seguir em bandos por caminhos que não eram meus.

A princípio, tudo o que eu mais queria era amor, carinho e um cantinho para botar os meus livros, meus discos e nada mais. Mas aí veio o progresso e a vida passou a fazer exigências, que me colocaram cada vez mais distante dos meus sonhos de menino... No quintal da minha infância a vida era tão simples e os afetos tão verdadeiros. Nele, eu costumava ouvir as batidas do meu coração, que era a minha bússola quando a vida me convidava a navegar por outros mares. Porém, o tempo passou e a modernidade tangeu, pôs em fuga as minhas fantasias de menino e, hoje, tudo o que eu escuto é o som do teclado de um computador no silêncio da noite.

Do quintal, do amor, do carinho, dos livros e discos só restam lembranças que se perdem na azáfama diária. Hoje, eu tenho pressa, pois o tempo urge! Preciso colocar a minha vida na mídia para que ela faça sentido. O que eu como, o que visto, aonde vou e com quem me relaciono, tudo isso me resume... E a minha alma segue faminta, apartada das coisas que verdadeiramente importam. Olho e vejo que já não há vida ao meu redor. Tudo o que vivo, hoje, é "teclavel".

Entro na minha casa e a sala de jantar está vazia. O sorriso, a viagem e o prato estão expostos no facebook, no instagram ou no twitter, entretanto a comida esfria e os olhos e ouvidos que antes estavam atentos, agora, se escondem para não incomodar a quem vive com tanta pressa e a quem colocou tantas cercas ao seu redor.

Então, eu penso: ah, como eu queria ser o dono do tempo e voltar ao quintal da minha infância! Deixaria essa solidão viajante pelas teclas do computador e olharia mais nos olhos de quem amo, antes que seja tarde demais...

agosto 17, 2013

Quase Autobiografia











De tudo o que digo fica um pouco de mim, mas do que não falo – calo - sou eu inteira...  Autobiografando nas entrelinhas.

É interessante observar como as pessoas que você conhece e com quem conviveu por, apenas, um curto período, tomam posse da sua identidade e dizem de maneira enfática: conheço essa pessoa como a palma da minha mão! Em se tratando de mim, discordo! Ainda não entreguei a minha alma nem a ofereci como escambo. Portanto, ninguém conhece ninguém...

Carrego muitas pessoas dentro de mim, que não se encaixam na palma da mão de quem quer que seja. Fico brava quando vejo alguém dizer que me conhece muito bem. Não, ninguém me conhece tão bem quanto eu mesma! O que eu fiz ou quem eu fui no pretérito, passou... Eu me reinvento a cada instante! Aprendo com a dor, com o sofrimento, com os sonhos desfeitos, com as ilusões perdidas e, também, com a ventura, a alegria e a felicidade. Por isso, um aviso aos navegantes que viajaram comigo em um barco chamado passado: por excesso de carimbos o meu passaporte venceu. Tirei outro, renovei a fotografia, acrescentei dados e anos que contam um pouco mais sobre a minha história e quem eu sou.

Não sou mais solteira, viúva ou divorciada. Não sou mais tanta coisa!  Casei comigo mesma. Assumi os meus erros, os acertos e revi os passos do meu caminho... Renasci. Aqui, nesse lugar onde estou hoje, tem um pouco do que já fui, sim, mas muito de mim ainda está em construção.  E, é aqui, que eu me reinvento todo dia... Sou um aprendiz do caminho!

Então, como pode alguém que me conheceu há dez, vinte, trinta ou quarenta anos dizer que me conhece muito bem? A minha biografia ainda não foi escrita. E, só eu posso escrevê-la, portanto não tentem me definir ou me encaixar nas palmas das suas mãos...

Eu sou muito mais que isso, que vocês sabem e falam a meu respeito.

agosto 03, 2013

A Epifania de Um Instante




Abro a página do Word e uma tela em branco me desafia. Lá fora, as notícias sobre a visita do papa; os jovens em marcha redescobrindo a força da sua juventude e a chama dos seus ideais; o grito desesperado dos excluídos de todos os credos e uma variedade de assuntos pode, sem dúvida, preencher as páginas em branco desta tela. Mas, lá fora, a canção da chuva também desperta a minha emoção e tira-me o foco das manchetes dos jornais e revistas. Nela, eu me reencontro vendo a vida passar em câmara lenta, enquanto no meu coração desfila uma coleção de saudades. Então, nessa hora, lembro-me de uma frase que li:

- “A vida vivida não passa de tempo perdido...”, que eu ouso recuperar através das minhas lembranças, na tentativa de estancar o fluxo das horas e acalmar o meu coração em desalinho.

Ah, tempo, como sabes ser cruel! Um dia, quando eu mais precisar de ti, para revolver o meu passado e ordenar as minhas ideias, as palavras irão me distrair deixando um silêncio constrangedor ao meu redor... Silêncio e solidão!  Mas, enquanto o futuro não vem, eu faço a festa desse instante em que a chuva, lá fora, traz reminiscências de um passado ainda tão recente. Nesse momento, eu abro a minha coleção de saudades e penso: - a vida é uma eterna despedida. Estamos sempre desembarcando em algum porto, deixando pelo caminho, passos, sonhos, amores, esperanças e saudades. Preciso aproveitar melhor o instante, pois como disse o mestre Rubem Alves: “O sol que se põe é triste, orgasmo final de luzes e cores que se vão”. E, com ele, acenando-me com o vazio, se vão, também, os meus sonhos desbotados...

Por isso, agora, quando a canção da chuva toca lá fora e a minha memória parece um tecido esgarçado, tentando resgatar o tempo, eu vou à procura de um momento que tenha valido à pena, recolho os fios um a um e, com eles, teço as minhas palavras fazendo das minhas recordações uma colcha de retalhos para cobrir-me nas noites de inverno. Neles, nos fios, eu encontro vida através das lembranças que chegam devagarzinho...

Uma casinha no interior, um pequeno jardim e um quintal cheio de rosas... Tu e eu... A cozinha... A rosa...  A epifania de um instante preservado na memória pela a vida inteira. Saudades!

julho 24, 2013

Chicote Verbal



A massificação do pensamento, geralmente, empobrece a alma... Vivemos em uma sociedade onde as pessoas perderam o costume de pensar por si próprias e as que se atrevem a fazê-lo são execradas em público. Liberdade virou figura de retórica. Defendemo-la com as nossas palavras, porém abominamos com as nossas ações.

Outro dia, li uma reportagem sobre Betty Faria. Nela, a atriz foi criticada, de maneira descortês, por usar biquíni aos 72 anos de idade... Cercearam-lhe o direito de usar, alegando que ela não se enquadrava nos padrões normais, ou seja, padrão mulher fruta: zero celulite, zero flacidez e muito silicone... Bem ao gosto do imaginário brasileiro. Fiquei estarrecida com a quantidade de opiniões maldosas e preconceituosas. Então, pensei: em que mundo real estamos vivendo? Há tanta liberdade lá fora e, aqui dentro, vivemos nas masmorras dos pensamentos da idade média.

Por que nos incomoda tanto o fato de alguém usar biquíni aos setenta e dois anos de idade, ou optar por fugir às regras e às convenções? Por que damos tanta importância ao fato do outro usar a sua liberdade como bem lhe convir? O que acrescenta a nossa vida, a vida e o jeito de viver do outro? Nada, absolutamente nada!

Entretanto, vivemos como se fôssemos os donos da verdade. Aplaudimos aos que nos seguem como bandos e usamos o chicote verbal para criticar aos que ousam ser diferentes e assumem os seus quereres.

Acompanhamos, ao longo dos anos, a um avanço significativo no mundo das ideias. Todos nos orgulhamos das conquistas adquiridas, no entanto, quando partimos para a prática, agimos como pessoas presas a conceitos inúteis e descabidos. Perdemos o tempo em meio a fofocas e a discussões estéreis. Falta do que fazer!

Penso que a polêmica sobre Betty Faria é apenas a ponta do iceberg, pois o que se esconde por trás disso tudo é um sentimento de inadequação, por parte de quem nos critica... Ser feliz dá trabalho, requer coragem e ousadia! Muitas vezes, por trás desse sentimento de rejeição, pela atitude do outro, está uma vida profundamente infeliz, cheia de sonhos postergados por medo, solidão e incompetência. Só os repetentes de uma vida medíocre agem assim, pois como já disse: ser feliz dá trabalho... Requer uma mente aberta, um temperamento generoso, um coração voltado para o bem e, principalmente, um desejo de fazer ao outro aquilo que se deseja para si.

Na verdade, muitos dos que nos criticam desejam estar em nosso lugar. São pessoas infelizes com os seus espelhos e com as suas vidas marcadas por ausências. A essas pessoas só interessam o seu chicote verbal, a sua língua ferina a destilar veneno. São as sanguessugas da vida alheia. Alimentam-se da felicidade dos outros por que vivem em estado de inanição permanente. Não percebem que, como já disse alguém: ”A vida é um banquete e a maior parte dos idiotas está morrendo de fome”.

Quem sabe, um dia, elas recolham o seu chicote verbal e tenham a coragem de ir à praia com o seu “biquíni de bolinha amarelinha, tão pequenininho...” E, sejam felizes!

julho 22, 2013

O Último Encontro






O silêncio da casa vazia lhe trouxe uma certeza: “não se pode deixar o amor para depois...”. Pensando nisso, lembrou-se do que ela lhe dissera naquele último encontro:

- Também já estive a me perder na ausência de ruídos, escutando apenas os próprios passos na solidão e quietude das noites enluaradas. Tempos difíceis, sem respostas aos meus anseios e as minhas inquietações...

Tua partida sem explicação motivou um desassossego interior, que transformou as minhas noites de sono, em noites de vigília... Não era a perda que doía, era a ausência de palavras. O descaso para com a minha dor...

Porém, o tempo, que leva tudo de arrasto, decidiu trabalhar a meu favor. Memórias, lembranças e miudezas do cotidiano, tudo o que foi importante subsiste, apesar dos anos... As boas recordações se avivam, enquanto vivo as “intermitências do coração”. É certo que, às vezes, a “memória involuntária” traz lixos emocionais oriundos das páginas viradas da minha história, mas nada que impeça a minha caminhada rumo à felicidade.

Por isso, resolvi: não quero que me fales mais sobre o teu amor com estes olhos de despedida... Estou cansada de sentir saudades! E, essa saudade não cabe mais no meu silêncio... Eu quero mais é invadir tua vida como um tsunami e espraiar a minha dor pelas margens do teu cotidiano, pois essa dor abissal não foi criação minha. Foi consequência de um mergulho profundo e consensual nas águas de um amor que tu dizias sem limite de tempo... Inamovível!

Não sei se te lembras, mas não te cobrei promessas inviáveis!?... Eternidade foi uma escolha tua, a senha para conquistar o meu coração e que o tempo provou ser uma falácia.

Então, não me venhas dizer que sentes saudades – ao olhar para a fotografia desbotada de um porta-retratos – e nem me peças outra oportunidade para provar a veracidade dos teus sentimentos, pois a minha resposta será sempre não.

Não, meu caro! Mil vezes não! Pois não sou usuária do sofrimento, tampouco da dor! Descobri-me inapta para a tristeza... Continuo me vestindo de felicidade todos os dias, mas, para que isso continue, preciso fechar essa porta que insistes em abrir a cada instante em que a solidão e o silêncio te incomodam e lembram-te de como era grande o meu amor, por ti.

Hoje, não há mais portas abertas! Não há mais sentimentos! Torno a dizer: o tempo, que leva tudo de arrasto, decidiu trabalhar a meu favor.

Deixei a porta entreaberta, sim, por um bom período e, esse tempo, foi importante para mim. Fui à luta, cuidei de mim, fiz uma faxina interna e verifiquei que as horas trabalharam a meu favor, pois, enquanto te esperava, descobri que a vida poderia ser bem melhor sem a presença desse teu amor aos pedaços. Amor de estações!

Por isso, agora, quando decido fechar a porta e tu vens, novamente, pedir outra chance... Eu te peço:

- Por favor, vê se me esquece!


julho 17, 2013

Tempos de Silêncio, Saudade e Solidão






Silêncio! Era só silêncio o que ele desejava... Interno! Perder-se na multidão, abrigando-se sob o teto das sombrinhas alheias. Quem sabe, assim, agasalhado pela imensidão de rostos anônimos, a dor e a saudade que sentia lhe dessem uma trégua...

Deixara a terra natal havia pouco tempo. As recordações ainda estavam frescas, reacendendo o perfume do seu chão tão batido de sonhos, que nunca se concretizavam.

O solo infértil, ressecado pela ausência de chuvas, lhe convidara a partir. Não eram tempos de safra e, sim, de silêncio e solidão. As lembranças, naquele momento, tinham o nome de saudade.

Saudades dos campos floridos e das boas colheitas a derramar-se num verde- esperança que cobria toda a planície do lugar onde morava. Saudades das chuvas que molhavam até a sua alma, quando ia em direção ao rio, num contentamento que se refletia no brilho dos seus olhos... Mas, agora, o tempo era outro: tempo de silêncio, saudade e solidão.

Gastara a juventude plantando confiança naquele chão que lhe fora deixado por herança paterna. Sabia ler, como poucos, as nuvens dos céus em seus dias de tempestades, como também as noites em seus bordados de estrelas. Na solidão das madrugadas preparava a terra e lançava as sementes, plantando esperanças de que no futuro próximo se transformassem em alimentos para a sua família. Mas, agora, tudo estava perdido e distante... A lavoura, a família e os sonhos. Justo, agora, no entardecer dos seus dias.

Por isso, resolveu partir, deixando para trás, a terra natal, a mulher, os filhos e os sonhos verdejantes. Ia em busca de um lugar, de respostas e de trabalho na terra dos arranha-céus, onde mostraria a sua face envergonhada por ter perdido a luta contra a seca.

Quem sabe, ali, naquele lugar, onde se planta concreto e chovem manifestações, lhe devolvessem a fé e a esperança de um dia poder voltar para a sua terra e para sua gente... Quem sabe ali, naquele lugar, os homens de boa vontade não soterrassem o lixo da corrupção e tomassem as providências cabíveis para que, em sua vida, não soprassem mais os ventos nem os tempos de silêncio, saudade e solidão.



PS: Essa é uma imagem premiada do repórter fotográfico Antônio David.

julho 05, 2013

Um Cacho de Rolete


Por esses dias, uma saudade gostosa andou pedindo hospedagem ao meu coração e, em troca, passou a nutri-lo de boas lembranças. Porém, as horas inclementes correram apressadas e dispensaram as minhas súplicas seguindo o seu caminho na aposta contra o tempo.

Um cacho de rolete, simples na sua materialidade e capturado pelas lentes sensíveis do repórter fotográfico Antônio David, trouxe à tona, em cascatas, memórias involuntárias de um passado ainda tão recente...

Poxa, que saudades! Dos sabores da minha infância e da alegria que corria solta pelos vales dos meus sonhos de menina... Uma escada para o céu era o limite das minhas fantasias. O resto era possibilidades a ganhar terreno no decorrer dos dias.

Na geografia da minha vida o tempo fez história, pois as vozes da memória ainda ecoam dentro de mim, negociando prazos para que o esquecimento não troque a paisagem dos meus sonhos.

Sou um ser ambulante, que vive um ritual de adeus parcelado...

Nas folhas já escritas da minha história não cabem novas palavras. Tudo está completo: cores, sabores, cheiros e amores. E, basta a imagem de um cacho de rolete para ativar os meus sentidos...

Então, nessa hora, a nudez da minha alma fica exposta e, sem querer, digo quem eu sou:

- Sou antiga, sou museu. Fora do dentro, não há vida... Não, para mim! Não há esperança para o novo!

O novo me é estranho. Nele a vida se esvai, acanhada por silêncios, omissões, ausências e solidão. Nele os verbos não cabem no instante em que o meu olhar encontra o teu, as palavras fogem em ritmo de trem bala e os sentimentos e sentidos são faturados de acordo com o ponteiro do relógio. Não há tempo para contemplações! Tudo é veloz, prático, fugaz, passageiro...

No novo, um cacho de rolete é só um cacho de rolete, assim como a maquiagem descartada no algodão, que eu jogo no fundo da lixeira. Nele - no algodão - não existe nada de mim.

O que eu sou permanece na face que oculto, pois no dentro, no meu museu cheio de lembranças, um cacho de rolete tem cor, sabor e cheiro de infância. Tem cheiro de mim... Quando ainda não era poluída pelas máscaras do cotidiano.

junho 23, 2013

No Entorno da Caverna








Tem dias que eu acordo assim: olho ao redor e vejo tudo igual, então, me dá um cansaço! O relógio do tempo sinaliza a contagem dos séculos, mas o homem, ignorando a fresta de luz que entrou na caverna, recusa-se a sair do estado de cegueira em que se encontra e, dessa forma, segue perdido no labirinto de suas próprias escolhas.

Tentando compreender as distorções que levam o gênero masculino a se comportar como se o mundo lhe fora oferecido numa bandeja e a pensar que a mulher é apenas mero coadjuvante a lhe servir nesse banquete chamado vida, eu me pergunto: - até que ponto nós somos responsáveis por isso!?

Criamos o mito e seguimos reverenciando-o geração após geração numa sucessão de erros que não têm fim. Afinal de contas, por que lhe damos tanto poder? Por que não quebramos o elo desta corrente que nos aprisiona há tantos séculos?

Pensando nisso, no dia das mães, fui surpreendida por um caminho de flores que ia desde a porta do meu quarto até a cozinha, onde um café da manhã, preparado pelo meu filho Gilberto, me aguardava. Nessa hora, eu pensei na responsabilidade que temos como formadoras do caráter do homem do futuro...

Podemos repetir o velho padrão e educar “homens machos e provedores” ou fazermos a nossa revolução particular e prepará-los para as gerações futuras, tornando-os doces e sensíveis às necessidades femininas e do mundo em que habitamos. Nem mais servas nem senhores, apenas companheiros de viagem dessa vida breve que, a cada dia, tende a ficar mais e mais solitária.

Esse é o caminho que se apresenta nessa pós- modernidade, onde já se provou de tudo um pouco, mas que nada foi suficiente para aplacar a nossa sede de amor, de afeto e de paz.

E, quando eu falo de amor, não me refiro a encontros passageiros nem a relações descartáveis... Isso, todo mundo está cansado de saber: não tem nada a ver com companheirismo e cumplicidade.

Aqui, eu falo é do amor genuíno. Aquele que é olhos e ouvidos atentos às necessidades do outro. Aquele que não conjuga o verbo na primeira pessoa e que sabe a hora certa de silenciar as suas dores, para curar as feridas do parceiro. É isso aí! Parceiros, cúmplices, companheiros e mais um dicionário inteiro de sinônimos, que nos levem à compreensão e ao entendimento de que amar é muito mais do que sexo e prazer.

Amar é aprender que na matemática da vida um mais um somam-se e dessa soma, resulta a felicidade. E, essa felicidade, não é garantia de vida, mas um exercício intenso e diário em busca de uma coisa chamada: paz! Paz que todos almejamos, entretanto, poucos estão dispostos a estender à mão ou dar o primeiro passo para consegui-la.

E, por causa disso, apesar de tanta luz e de tanto conhecimento adquiridos com o passar dos séculos, muitos continuam caminhando, ainda hoje, no entorno da caverna... Cegos e infelizes!



maio 29, 2013

Vendedora de Palavras





Em um momento de abstração, desalinho as palavras que surgem em meu pensamento e dou asas à imaginação... Em seguida, recolho as letras, ponho-as em um cesto e anuncio:

- Vendo palavras! Quem quer comprar?

Não as tenho em quantidade, mas lhes asseguro de que todas que aqui se encontram, representam a vida em sua simplicidade.

Vendo palavras! Quem quer comprar?

Não procure por aquelas que apenas arranham a superfície das coisas. Pesquise. Vá mais fundo! Se permita sentir e encontrará um mundo de palavras ansiosas por um abraço. Escolha as que lhe trazem paz e felicidade, pois não existe nada mais falso do que um dicionário, desfilando no céu da nossa boca, obrigando-nos a postergar sonhos em nome de convenções sociais...

Vendo palavras! Quem quer comprar?

As minhas letras são bem nascidas. Elas provêm de uma ultrassonografia que eu fiz da minha alma e as escolhi porque, ao longo do tempo, percebi o quão libertador é viver daquelas que realmente importam. Tenho-as nas pontas dos dedos. Todas ávidas por aquecer o seu coração: amor, amor e amor. O som mais bonito, síntese de uma vida bem vivida.

Vendo palavras! Quem quer comprar?

No sentido avesso, sou uma mercenária das letras. Trabalho para que elas toquem, emocionem e provoquem mudanças. Não as quero superficiais, vendendo ilusões, tampouco derrotistas, espantando a esperança. Quero-as, de fé! Em pé, estendendo a mão. Quero passear pelas frases com o meu traje de felicidade... Dispenso modismo! Sou atemporal! Desejo, apenas, que você assuma a responsabilidade sobre as suas escolhas e, que, letra por letra, as suas palavras ajudem a tecer o seu destino para que, assim, você possa concluir o bordado da sua existência. E, nela, que o seu endereço seja a felicidade.

Não almejo os louros da academia. Não sou movida a vaidades e sei bem das minhas limitações linguísticas, mas tenho esperança de que o uso das palavras me leve a convencer o maior número de pessoas de que o amor é a razão da vida... Amor, fonte de mistério e de paz. Única palavra capaz de salvar o mundo e a nós mesmos.

Vendo amor! Quem quer comprar?


abril 02, 2013

Uma Carta de Despedida






Há quem diga que escrever cartas de amor é brega, mas quem se importa? Hoje, tudo o que eu quero é apagar esse adeus do olhar, dar rédeas à saudade e a essa mania de falar de amor quando a canção da chuva toca, de leve, na janela do meu quarto anunciando que a próxima estação está chegando. Porém, essa é uma carta de despedida.

Uma carta de amor escrita, agora, é para te dizer que o meu corpo reclamou a tua ausência e que a lingerie macia cansou de esperar pelo toque das tuas mãos. É o amor se despedindo por falta de esperança! Por isso, nesse momento, os meus dedos deslizam sobre o teclado falando das coisas que eu não vivi e dos amores tardios.

Na memória do tempo eu escrevi a anatomia do meu amor, as delicadezas do coração e as inesperadas doçuras que me assaltavam quando eu esperava, ansiosamente, tu surgires na esquina da minha rua. Tudo parece dormir, ainda, para prolongar a juventude dos meus sonhos, entretanto, perplexa, vejo que envelhecemos: tu e eu.

Envelhecemos: tu e eu, mas ainda é amor o que eu sinto.

A menina-mulher para quem, um dia, tu te enfeitaste, permanece aqui do lado esquerdo do peito. Coração não fica velho. Adoece! E a menina em flor, que desenhava o teu nome, nos muros, a giz, ainda está aqui: lembra-te de mim?

Envelhecemos tu e eu, mas ainda é doce e terno o que eu sinto, embora o tempo de lavrar a terra dos meus sonhos tenha acabado e o amor, hoje, seja só fonte de murmúrios, de cicatrizes e de poucas saudades...

Há uma dor plangente em cada palavra que escrevo por todos os momentos de ternura, de carinho e de desejo, que foram abortados na varanda da casa solidão, onde tu me deixaste. Mas, ainda é amor o que eu sinto. Amor de saudades! Saudades não vividas... E, agora? Onde encaixo o meu desejo e a minha ternura? Está tudo aqui, ainda, esperando pelo toque das tuas mãos e pelo encontro do teu olhar.

Envelhecemos: tu e eu. Mas, o amor, não! Ele não quer se despedir. Vive rodopiando em fantasias tentando garimpar alguma lembrança de nós dois que valha à pena, mas só encontra o desconforto do teu silêncio. Um lugar para aonde tu te evadiste por medo de sofrer... Envelhecemos, nesse espaço entre a tua indecisão e o teu desejo de ser feliz.

Por isso, hoje, essa carta. Só para te lembrar que envelhecemos: tu e eu. O tempo não esperou por nós, não carimbou os nossos sonhos com o selo da eternidade e, agora, estou aqui só para me despedir. O amor permanece, mas eu vou embora. Já falei demais das minhas dores e dos meus sangramentos. Algo me diz: Vá! É hora de partir. E, eu vou. Adeus!


OBS: Imagem - http://www.facebook.com/sanatvar

março 05, 2013

Um Retrato Fiel – A Outra



 


Um dia, estávamos em sala de aula à espera do professor de redação, quando chegou alguém da diretoria avisando-nos que ele faltara. Em seguida, apresentou-nos Auxiliadora, professora de português que ia substituí-lo a partir daquele dia. Bastou-nos um simples olhar para aquela doce criatura e soubemos que, dali por diante, estaríamos em boas mãos.

Passados os momentos iniciais ela, como forma de nos conhecer melhor, pediu-nos que fizéssemos uma redação, ou melhor, que pintássemos com as palavras um retrato fiel de quem éramos. Então, comecei a desenhar a mulher que eu nunca fui, mas que mora em mim desde sempre...

Sou tantas. Sou plural! Dentro de mim moram muitas mulheres... Duas, habitam em silêncio, aviltadas por aquela que escolhi não ser, mas essa - que escolhi não ser - vaga por aí – sempre presente - passando ao largo das convenções de uma sociedade machista e hipócrita, que ao substantivo masculino tudo aceita e justifica e, a ela cobra, ao final de cada mês, impostos e obrigações oriundos de sua cidadania, mas não lhe reconhece o direito de ser plural. Torpe contradição, como essa e tantas outras, fere-lhe os olhos e os ouvidos, diariamente.

Essa outra, dentro de mim, produtiva e insatisfeita, anseia por liberdade... Há uma “Madame Bovary” nas minhas noites insones, na sutileza dos passos que eu não dei e nas saudades - páginas em branco - do que eu nunca vivi... Um par de sapatos vermelhos ainda espera para sair do armário...

A base sobre a qual foi construído o alicerce de quem sou, hoje, não se sustenta, nem alimenta expectativa de que posso ser a mesma, amanhã. Sou plural, já disse e, em mim, moram muitas mulheres insatisfeitas, corroídas por regras e convenções, preceitos que mal se sustentam em pé e, que, na realidade, só fazem aprofundar a distância entre os gêneros e disseminar injustiças.

Já fui a santa, a mãe e tantas que se encaixam na verdade comezinha que escolhi para mim, nesse cotidiano sem grandes opções, mas a outra é quem sempre aponta na direção oposta e faz-me um convite irresistível para quebrar padrões destrutivos e amorais dessa sociedade hipócrita.

Por isso, Auxiliadora, se quer me conhecer melhor, eis aí o meu retrato fiel... Um compromisso escrito e pintado com as cores do meu desejo de ser quem sou... Plural! Pois, posso acordar santa e mãe, diariamente, mas é ela, a outra, quem dorme e acorda comigo todos os dias, pedindo espaço para ser quem é, e respeito para continuar sendo... Simples, assim... Plural!




março 01, 2013

Os Sapatos Vermelhos






Quando se dispôs a calçar aqueles sapatos vermelhos ela sabia que nunca mais seria a mesma. Eles eram o seu passaporte para uma vida nova e para um novo amor, por isso, escreveu:

- Visito a minha memória e páginas e mais páginas de um livro – fruto das minhas fantasias que eu ainda quero editar - pedem para serem escritas, mas o tempo atropela as horas trazendo o passado para brincar de “aqui e agora” e, assim, outras palavras vão se desenhando pelas pautas do meu caderno.

Histórias antigas margeiam as avenidas dos meus sonhos e preenchem as páginas em branco trazendo à tona, um cardápio de sentimentos que não alimenta de ternura nem de saudades as minhas lembranças. Então, eu penso: na galeria das minhas recordações você é o amor que não desejo reeditar. Nesse instante, uma música que se faz ouvir na voz melodiosa de Maria Bethânia, parece confirmar o meu pensamento: - “desinflama meu amor, do seu jeito é muita dor, vive”...

Em seguida, leio um texto de Carpinejar que diz: - “a imaginação tem censura livre”. Continuo a escrever... Doces palavras, egressas de um passado recente, povoam as páginas do meu caderno, mas não me convencem: “eu poesia, você dicionário”.
Resoluta, encerro o parágrafo e coloco ponto final na nossa história de amor... Desligo-me do passado e de nós dois: eu e você, nunca mais!

Depois disso, calço os sapatos vermelhos e sigo sem olhar para trás... No caminho, outro capítulo será escrito, pois uma nova mulher toma forma dentro de mim... Quem sabe, esteja se desenhando, no universo, um livro com final feliz.

fevereiro 25, 2013

O Poder do Sim e do Não





Caminhava pelos corredores de um hospital, em plena semana carnavalesca, quando lembrei-me do velho e querido professor de redação. Certamente, pensei, se eu o encontrasse agora, ele iria fazer-me passar por mais uma de suas famosas "pegadinhas".
Diria: - Fale-me sobre o poder do Sim e do Não.

Nessa hora, os meus olhos percorriam todas as alas daquele lugar e, tristes, viam como o poder de uma simples palavra pode causar tanta dor e destruição...

Ah, professor, quantos anos desperdiçados pelo poder de um som, monossilábico: Não! E, todos os projetos de vida que um dia ousamos sonhar estarão perdidos para sempre.

Quantos sonhos e esperanças abortados! Quantas veias, ressequidas pela amargura, angústia e aflição, dormem em cada leito daquele hospital. Ali, só habitam a tristeza e a solidão.

Entretanto, basta um passo, uma palavra amiga, uma mão estendida, um sorriso aberto, um abraço ou qualquer pequeno gesto de carinho e, de repente, não mais que de repente, explode em luz o poder do Sim a iluminar o nosso caminho.

O Sim, essa porta aberta para a paz, harmonia, saúde e felicidade. O Sim, e o "Muro de Berlim", da indiferença, do egoísmo e da omissão derrubados. O Sim: abraço dado, perdão concedido e saúde física e mental restituídos.

Por isso, professor, nesse momento em que caminho por entre as alas desse hospital e só escuto choros, gemidos e arrependimentos, enquanto lá de fora, o riso, a alegria e a esperança chegam aos meus ouvidos, eu decido: daqui por diante, escolho o poder do Sim... O Sim, esse sangue bom correndo nas veias e uma certeza: morrer!?... Só se for de amor.

fevereiro 07, 2013

Sem Pouso e Sem Raízes



Como um pássaro de asas partidas eu procuro pouso. Um abrigo. Longe do deserto, do silêncio e da solidão...

Às vezes, como hoje, eu tenho uma vontade imensa de fazer uma declaração de amor rasgada, mas desisto na hora, quando percebo em seus olhos que já não me sinto em casa, com você. Estranho, lhe parece!?.  É que amar, para mim, é isso: esse desejo de me ver em seus olhos, de me sentir em casa e de deixar fluir a intensidade do meu querer... Uma viagem a dois!

Porém, sinto-me uma estrangeira, sem pouso e sem raízes e, por isso, não lhe falo mais sobre o meu amor que, agora, é feito de silêncios e de lembranças. Você continua vivo, em mim, sim, feito uma tatuagem que eu não consigo apagar, mas esse distanciamento entre nós diminuiu o ritmo dos meus passos e aquietou o som dos meus gemidos. E, como um pássaro de asas partidas, eu procurei abrigo.

No abrigo, transformações: quis ser águia, perder as minhas penas, me renovar.  Quis ser fênix, ressurgir das cinzas. Quis, nesse intervalo, aceitar o convite de amor de alguém e, nele encontrar um olhar carregado de promessas. Um porto seguro de onde eu jamais tivesse necessidade de partir... Porque partir foi tudo o que eu fiz desde que encontrei você.

Por isso, hoje, o pouso, o abrigo. Quero dar descanso para as minhas asas. Nunca mais deserto... Nunca mais solidão.