Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...
maio 21, 2014
maio 20, 2014
O Bilhete
Meu caro amigo,
Com a rebeldia das palavras comprei a minha carta de alforria. Agora, sou uma casa desabitada. Quem quiser me visitar, daqui por diante, que tire o pó do caminho e entre com delicadeza na minha vida. Mas, não me venha com rótulos, nem com estereótipos de gênero, pois aprendi muito bem a me virar sozinha. Também, no meu novo lar, não aceito alguém que, apesar da passagem dos anos, ainda não desceu do playground. Dispenso gente que gosta de jogos de sedução e de subterfúgios. Só sei amar de cara limpa: entregue! Quem quiser mistério que procure a Agatha Christie. É isso aí... Ponto final!
maio 18, 2014
O Segredo dos seus Olhos
O título que dá nome a este texto ganhou o “Oscar” de melhor filme estrangeiro em 2009 e, salvo engano, baseou-se em fatos ocorridos há 25 anos, na Argentina.
Lembrei-me dele, hoje, ao constatar o quanto as pessoas se mostram felizes nas redes sociais e nas capas de revistas da atualidade. Felicidade, agora, é um sorriso permanente na máscara que usamos para mostrar ao mundo o quanto estamos bem. Um clique no celular e ela aparece como num passe de mágica nas fotos, nos eventos e nas colunas sociais. Depois disso, é só exibir, alardear e o mundo ficará sabendo o quanto estamos plenos e realizados mesmo que, por dentro, estejamos sangrando...
Mas, e os olhos? Ah! Estes falam demais e como diz acima, às vezes, é melhor não olhar, porque podemos trocar de casa, carro, telefone, emprego... Menos de paixão, pois quando ela nos envolve o nosso olhar denuncia e se torna real a felicidade que apresentamos.
Por isso, é triste ver a plasticidade dos sorrisos falsos e o bem-estar fraudulento que insistimos em levar adiante, só para divulgar ao mundo o quanto estamos bem. É lamentável, também, constatar que, apesar das evidências, ela, a felicidade, estará visível no instante desejado, bastando apenas um clique no celular para tirar a foto e outro para enviar, visto que, dessa forma, o mundo jamais conhecerá o segredo dos nossos olhos.
maio 09, 2014
Quero um Amor sem Fraude
Vem ao meu encontro e recolhe os beijos e abraços, que ficaram retidos na memória do teu desejo.
Vem desembrulhar segredos, antes que amanheça e se faça tarde...
Não quero mais a sombra do passado rondando os nossos dias. Toma a senha de acesso - do tempo presente - e, lê o avesso das palavras que eu escrevi. Quero um amor sem fraude!
Vem, antes que amanheça e se faça tarde... A noite nos espera! Vem, antes que eu te esqueça!
maio 07, 2014
Tempo de Acordar Lembranças
Uma cortina de chuva veste o instante de saudades e a tristeza põe-se de pé dentro de mim. Nessa hora, o “tempo é um rio que corre” e leva-me para algum lugar do passado. Começo a alinhavar as letras com cuidado, deixando que os meus dedos, em carne viva, escrevam a “poesia sem pele” do meu cotidiano.
Sobre a mesa repousam o lápis e o papel, objetos com os quais eu costuro os meus retalhos de saudades. Olho-os e penso: tenho nas mãos a festa, a alegria e no peito, a morte, a agonia. A folha de papel em branco convida-me a escrever, mas a cortina de chuva desvia a minha atenção e o parto da criação é interrompido pela sedução do olhar que serpenteia, agora, pelo rio da minha emoção. São tantas as lembranças! A chuva acordou saudades... Chove, também, nos meus olhos. Tenho no peito a morte, a agonia.
Um som plangente ecoa na solidão do meu silêncio... É o passado, essa saudade agridoce, fazendo-me viajar em pensamentos. Voo na contramão do tempo e perambulo pelos espaços dentro de mim. Procuro gavetas! Abro-as, reviro-as e, só então, começo a costurar os meus retalhos de saudades.
É tempo de acordar lembranças!
PS: As frases em itálico são títulos de livros dos autores: Lya Luft e Lau Siqueira, respectivamente.
abril 17, 2014
Roubando Cartas de Amor
Ontem, ao ver surgir na esquina da minha rua, o carteiro e a sua mochila cheia de sonhos, lembrei-me da menina que roubava livros. ( Markus Zusak - A Menina que Roubava Livros - (2011). O entardecer já começava a tingir o dia com as cores do crepúsculo e eu, ali, parada e sonhando com cartas de amor de um tempo em que as palavras eram como um terço de contas bonitas e perfumadas... Cada letra se parecia com uma Ave Maria rezada ou um Pai e Nosso cantado com devoção, tamanha a sinceridade e a fidelidade ao exercício da escrita. Hoje, elas - as palavras - vestem-se de purpurina e saem, sem pudores, contando mentiras de amor nas ruas, esquinas e bares por onde trafegam os perdidos da noite e suas tristezas ambulantes.
Pensando nisso, resolvi seguir a ideia da menina que roubava livros e pensei: por que não roubar cartas de amor, para alegrar os meus dias?
Cartas de amor são palavras escritas pelo avesso... Não há enfeites, não há purpurina! Somos nós inteiros, expostos em carne viva, escrevendo de um lugar geograficamente nosso. Neste local, onde as palavras saem sem censura, mora o nosso coração e ele bate mais forte à medida que desembrulhamos segredos. Aqui, tomamos posse de uma terra que ao longo dos anos fomos abandonando por medo de sofrer e deixamos a emoção correr solta... Neste pedaço de chão, não há espaço para mentiras, nem meias-verdades. No santuário desta solidão, estamos sozinhos, escutando apenas os sussurros da alma...
Por isso, resolvi roubar cartas de amor. Elas são um banquete para os meus olhos e uma culinária refinada para o meu viver. Estou cansada de ouvir mentiras, na calada da noite.
Pensando nisso, resolvi seguir a ideia da menina que roubava livros e pensei: por que não roubar cartas de amor, para alegrar os meus dias?
Cartas de amor são palavras escritas pelo avesso... Não há enfeites, não há purpurina! Somos nós inteiros, expostos em carne viva, escrevendo de um lugar geograficamente nosso. Neste local, onde as palavras saem sem censura, mora o nosso coração e ele bate mais forte à medida que desembrulhamos segredos. Aqui, tomamos posse de uma terra que ao longo dos anos fomos abandonando por medo de sofrer e deixamos a emoção correr solta... Neste pedaço de chão, não há espaço para mentiras, nem meias-verdades. No santuário desta solidão, estamos sozinhos, escutando apenas os sussurros da alma...
Por isso, resolvi roubar cartas de amor. Elas são um banquete para os meus olhos e uma culinária refinada para o meu viver. Estou cansada de ouvir mentiras, na calada da noite.
abril 08, 2014
abril 01, 2014
O Porão e Eu
“Cultivo memórias como quem coleciona objetos raros”.
O outono chegou e com ele um convite para visitar o antigo porão, uma testemunha de segredos guardados a perder de vista. Basta um primeiro olhar perscrutando a escuridão daquele espaço, para encontrar baús com recordações de tempos imemoriais. São retalhos de saudades esgarçados pela poeira dos anos e um festival de folhas caídas, passarela de lembranças espalhadas pelo chão do esquecimento. Porém, uma conjugação irregular de verbos, sonhos e palavras tenta ignorar o avanço dos dias afirmando que a saudade não conhece os mecanismos do relógio...
Ah, o tempo! Ele sempre atropela as horas quando o assunto é saudade, pois no momento em que ela chega e toma assento nos vãos da memória, tudo se faz presente outra vez. Nessa hora, um show de fogos de artifícios ilumina o palco da minha vida e eu me posto de joelhos; vencida, pela dor das ausências, mas vitoriosa; porque a morte solitária dos dias passados me fez construir um memorial, para que eu mantivesse aquecido o projeto de imortalidade das minhas lembranças. E, ali, num recanto qualquer daquele lugar, escondidas, estão todas elas... Esquecidas? Não, apenas colocadas numa caixinha de veludo, dentro do baú, que é para não doer tanto...
Aceito o convite e visito o porão. Um olhar imaginativo aguça o apetite da minha curiosidade. Deslizo por entre baús, caixas e mais caixas cheias de recordações e esqueço-me das horas. Num segundo, tenho em mãos todo o meu passado... Vejo um álbum de fotografias e leio cartas de amor com perguntas que jamais serão respondidas. Encontro bugigangas e quinquilharias de alto teor afetivo. Olho ao redor e apanho o que restou de um espelho. Nele, a imagem de uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones... Mais adiante, papéis de bombons, folhas de outono e juras de amor eterno, guardadas dentro de um antigo diário, indicam que o passado quis ser lembrado no futuro...
As tempestades da alma se aproximam e um mundo de significados escondidos sai direto da memória do tempo para as pontas dos meus dedos. Então, eu aproveito a visita ao porão e começo a rabiscar poemas de amor e de saudades nas paredes cobertas de pó.
Olho, novamente, para o espelho e mapeio as rugas do meu rosto. Um filme de longa duração passa pela janela dos meus olhos. Depois de algumas horas, vasculhando cada pedacinho daquele chão, percebo que as lembranças são maiores que a poeira do esquecimento derramada sobre a superfície daqueles objetos.
Nesse instante, tal qual Falabella, eu “cultivo memórias como quem coleciona objetos raros”. ( Miguel Falabella – Vivendo em Voz Alta (2011). Por isso, saio do porão, realizada! Ele e eu temos algo em comum: somos guardiões de tempos e afetos memoráveis.
março 30, 2014
Ao Meu Amigo “C”
1964/1985. Houve um golpe. Havia armas. Mas, dentro delas, tremulava a bandeira da paixão e do amor. Tempos difíceis. Tempos de gaveta: de acordar e guardar sonhos...
O país estava em guerra. Uma guerra surda onde só se ouviam as vozes da ditadura. Ela, ainda menina, também travava consigo outra luta, onde se fazia escutar, apenas, o som descompassado do seu coração. Era um tum-tum-tum louco, desembestado, descendo a ladeira das suas veias, num vaivém sem fim, que só acabava quando o objeto do seu amor lhe consumia as carnes e acalmava o seu desejo. Era outro país dentro dela, uma pátria de intimidades que se sobrepunha a guerra lá fora... Ela acordara em si as vozes do amor e da paixão. Tudo ficava menor diante dessa descoberta, embora lhe consumisse, em chamas, a consciência do sangue derramado pela Pátria Mãe Gentil.
E, agora, 50 anos depois, ela continua sem entender nada dessa guerra que, entre mortos e feridos, restaram as chagas de uma dor que não passa e a solidão de um luto permanente.
O Brasil, meu amigo, continua de luto pelos filhos que não voltaram. E, eu, refém de um passado que anda sempre pelos vãos da memória, digo-lhe isto: “ só pra dizer que não falei das flores”. Flores mortas como as do outono, mas flores, também, da primavera que nos faz sempre voltar inteiros e continuar na luta pela paz e pela justiça social.
março 16, 2014
Um Inverno de Saudades
Às vezes, ela chega de mansinho, suavemente, provocando a melancolia que favorece o devaneio e a meditação. Outras, feito um trovão, com os seus ecos tocando uma melodia em tom maior. São gotas em abundância: arrebentação e espraiamento nas margens das minhas saudades esquecidas... Quando ela chega assim, sou toda mulherzinha. Ponho à mesa e forro a cama. Faz-se inverno dentro de mim!
A chuva traz de volta a escuridão de algumas noites... Acariciada pelo olhar, ela reclama
(...)
Sou um inverno de saudades!
março 11, 2014
Olhos de Saudade
O telefone toca e o silêncio é invadido pela música "As Time Goes By", trilha sonora do filme "Casablanca." Do outro lado da linha, um terrorista emocional desafia as horas que passam e nada diz, nada fala encastelado em seu silêncio.
Chove lá fora. Da janela do meu apartamento vejo o mar recebendo as lágrimas do céu. Aqui dentro, também chove: lágrimas de saudades! Mas, de onde elas vêm? Procuro no arquivo das minhas lembranças e não encontro nada, nem ninguém que as mereça. Tenho olhos de saudade e uma dor agônica quando percebo o entardecer dos meus dias e vejo o quanto me entristece esses amores vãos e esse vaivém que não arrepia a pele da alma. Tenho olhos de saudade, duas páginas em branco sobre algo que nunca vivi: a plenitude do amor... Não sei lidar com um afeto que não se expõe e que silencia quando a minha fome é de palavras e de carinho.
Quero alguém que diga a que veio, pois como um andarilho profissional já caminhei por países e cidades distantes à procura deste sentimento e não o encontrei, a não ser no mar profundo do meu querer. E é dele que emerge o desejo de viver com essa pessoa que eu tanto espero e que fica silente, enquanto eu roubo dos dias a fantasia de um possível encontro e deixo guardada na janela dos meus olhos a imagem desse amor crepuscular.
O telefone toca, novamente, e eu, que habito o mundo dos sonhos sem teto ouso dizer:
- Meu amor, por onde quer que você ande, venha, a porta está aberta. Mas, venha sem medo e sem receio dessa entrega que só os corajosos e bem- resolvidos são capazes. O pó do tempo já deve ter-lhe ensinado que a vaidade e o orgulho com que exibe os seus troféus e as suas conquistas amorosas de nada mais lhe servem nessa época em que a solidão cobre o mundo...
Sei que somos todos vítimas da vontade de roçar nos amores vãos e suas bocas carmesins, contudo, para além da embriaguez do momento existe o êxtase de saber-se amado por inteiro... E, é em nome desse sentimento que eu confesso: ando com os olhos cansados de sentir saudades. Eles saem por aí percorrendo ruas, esquinas e avenidas à medida que o meu corpo suado e exausto pede arrego a essa busca frenética para recuperar o tempo perdido...
Não me deixe esperar mais! Por favor, fale! Minha alma, minha primeira pele, aquela que arrepia por dentro, espera por você desde sempre. Venha!
março 08, 2014
A Dama da Noite
Há dias assim, como hoje, em que eu me sinto sufocada...
São dias escarlates onde tudo em mim é desejo e provocação. O tinteiro sobre a mesa se deixa derramar sobre a folha de papel em branco e o vermelho rubro das minhas letras vai deixando entrever o tango argentino da minha paixão.
Dentro de mim, negociando prazos e me consumindo lentamente, alguém pede passagem... Liberdade! Reprimo porque sei dos danos e das convenções, mas diante da insistência solto-a e ela ganha às ruas num misto de prazer, alegria e gozo. A fera está solta! Sou outra mulher...
Um par de sapatos vermelho e uma taça de vinho na mão ensinam-me a engolir a noite. Quero beber a tua ausência, saciar o meu desejo e depois... Ah! Depois eu canto ao teu ouvido: “ se acaso me quiseres, sou dessas mulheres, que só dizem sim”...
março 04, 2014
O Bloco da Saudade
É carnaval! De longe, de muito longe, ouço alguns acordes de marchinhas antigas: “Quanto riso! Oh, quanta alegria!" Somos mais de mil palhaços a chorar a morte dos nossos sonhos na avenida.
A fome, o desemprego, o abandono e a dor vestem as suas fantasias e seguem pelas ruas cantando o samba enredo de um povo, enquanto, nas alas palacianas, o bloco da saudade providencia pão e circo, para que o rei momo continue a brilhar.
São três dias de entorpecimento... Pobre nação! Arlequins e Pierrôs tristes e sem esperança desfilam pelas vias com a máscara negra da desilusão, ao som de “mamãe eu quero mamar”, música executada pelos rufiões do povo... Mas, de repente, eis que chega a “quarta-feira ingrata, tão depressa, só pra contrariar”. Já não há leite para tantos! É hora de colocar o bloco da saudade nas ruas. O período eleitoral está chegando. Que venham às urnas!
“Quanto riso! Oh, quanta alegria!”
fevereiro 21, 2014
Meus Filhos
Quando, um dia, eu não estiver mais entre vocês, por favor, não me rendam homenagens. Quero-as, em vida! Não esperem pela última pá de terra, para falar sobre seus amores.
A vocês, hoje, eu peço um pouco do que lhes dei a vida inteira: paciência, tolerância, perdão, compaixão e renúncia. Amor, carinho e ternura também fazem parte do pacote. Afinal de contas, ninguém vive só de leite materno... Não, por favor, não me digam, novamente, que não pediram para nascer. Eu, também não! Mas estou aqui, firme e forte, fazendo aos outros aquilo que gostaria que fizessem a mim.
Peço-lhes, ainda, encarecidamente, que não me chamem de perversa, cruel e mesquinha quando, na tentativa de formar cidadãos decentes, eu negar-lhes algo; nem sintam repulsa por mim quando me virem estendida no leito, doente e solitária, pois, um dia, eu já os vi assim, doentes e solitários, e, na ocasião, me doei inteira...
Quando a última pá de terra descer sobre o meu caixão, não sintam por mim – eu não estarei mais aqui – e, sim, por vocês... O tempo, esse juiz magnânimo para uns e padrasto para outros, irá desenhar o caminho que vocês irão percorrer e, a mãe vida, essa senhora do destino de todos nós, trará de volta todos os gestos e palavras de amor que, ao longo dos anos, vocês me negaram. Aí, vai doer não mais em mim...
Finalmente, quando um dia, eu não estiver mais aqui, não chorem por mim. Apenas, leiam o que escrevi... E, se nada disso fizer sentido, não se preocupem. A vida se encarregará de ensinar-lhes o que precisam aprender, pois o tempo é, e sempre será, o senhor da razão.
fevereiro 14, 2014
O Relógio e Eu
Olho para o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto os sonhos...
Em meu voo, pelos dias da maturidade, penso no tempo, essa areia que escorre por entre os dedos e nos rouba as mais belas horas de nossas vidas... Solto a imaginação e vou à procura da "natureza recém-lavada" dos meus sonhos juvenis. Vejo que nada mudou, apenas acrescentou-se mais um número no calendário da minha vida. Um "relâmpago de fulgor extraordinário" continua a iluminar o adiantado das horas, como se o ponteiro do relógio fosse pródigo em retardar o meu destino de ser feliz, apesar da passagem do tempo. Então, eu me pergunto:
- De que me vale um relógio na parede, com seus ponteiros austeros indicando que a vida está passando e que a terra dos meus sonhos vem sendo calcinada pelos dias que correm? Ah, certamente ele, o relógio, em seu movimento solitário tic... tac, tic... tac, não compreende a linguagem dos sonhos... Sonhos, não têm idade! Em um minuto vêm e vão sem fazer perguntas, sem saber de cronologias. Mas, o tempo impiedoso, em sua pressa de chegar, só quer saber de rituais de despedidas, com os seus pores do sol anunciando, diariamente, a morte do dia. Ele nem sabe como é bom viver apaziguada com os mistérios da vida e suas inesperadas reviravoltas, que independem da matemática dos números e da tirania das horas, que seguem indiferentes e alheias a nossa vontade.
Olho o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto sonhos... Um poder estranho e arrebatador me invade e me faz reconciliada com os meses que passam. Tudo está em seu lugar: o marcador das horas e eu. Ele segue ensimesmado em seu controle sobre o tempo e eu, perdulária perpétua, esbanjo a vitalidade das minhas fantasias e, asas estendidas, alço voo em direção ao futuro que me espera com um largo sorriso de felicidade.
Ah, o tempo! Ele sabe passar e eu não sei... Impiedoso, triunfa sobre as minhas carnes acentuando as minhas rugas, mas a minha alma se rebela e eu sigo... Vitoriosa! Contando os sonhos e aproveitando o dia.
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