Ele gostava de fazer amor com as palavras... As letras formavam lindos arabescos nas folhas de papel em branco e iam desenhando, aos poucos, um castelo de ilusões. Era um excelente arquiteto na arte da fantasia e dos sonhos, pois bordava as frases com destreza e mestria, porém, não tinha o menor compromisso com a verdade. De longe, ela o imaginava uma joia rara, mas, de perto, constatou que ele era, apenas... Ouro de tolo!
Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...
novembro 04, 2014
O Arquiteto de Ilusões
Ele gostava de fazer amor com as palavras... As letras formavam lindos arabescos nas folhas de papel em branco e iam desenhando, aos poucos, um castelo de ilusões. Era um excelente arquiteto na arte da fantasia e dos sonhos, pois bordava as frases com destreza e mestria, porém, não tinha o menor compromisso com a verdade. De longe, ela o imaginava uma joia rara, mas, de perto, constatou que ele era, apenas... Ouro de tolo!
outubro 22, 2014
A Palavra, o Olhar e o Gesto
De todas as formas de comunicação a palavra talvez seja a mais traiçoeira, pois nem sempre expressa os verdadeiros anseios da nossa alma. Na linguagem oral, na escrita e na dos gestos ela tanto pode unir, seduzir e encantar, quanto dissimular, mentir e enganar provocando, assim, a quebra de confiança, acarretando a perda de amores e de outros afetos. Mas, quando bem articulada e usada com honestidade e transparência, ela também pode nos salvar de nós mesmos: dos nossos medos e das nossas inseguranças.
Às vezes, bem sei que não é fácil usá-la com clareza, por que isto significa que temos que depor as nossas armas e ficarmos nus e indefesos diante do outro, porém, quando abrimos mão das máscaras e das roupas do personagem que usamos no dia a dia, em benefício de uma relação em que há amor, carinho, respeito e cumplicidade nós só temos a ganhar, porque damos ao outro a oportunidade de nos conhecer verdadeiramente e, como conseqüência, nos amar mais e melhor.
Ontem, faltou a palavra honesta, límpida e transparente. Faltou confiança. Confissão... Verdade. Procurei nos seus olhos um pedido de socorro... Fica! E, só encontrei o deserto do seu silêncio, da sua solidão e do seu medo diante do inevitável. Estendi a mão e o gesto ficou suspenso no ar. Então, não me restou alternativa a não ser dizer: não me procure mais. Adeus!
Imagem retirada do Facebook de Lis Costa. Um amiga que tem poesia no olhar.
outubro 14, 2014
Carta de Confissão
Uma nova carta está se desenhando, hoje, na alfaiataria de papel. As letras parecem pular saltitantes e felizes por que, enfim, deixam de lado o terreno das metáforas e das entrelinhas e assumem o comando semântico do vocabulário do amor.
Sem pudores e sem firulas eu confesso que amar não redimiu os meus erros, mas colocou à prova a minha capacidade de ser resiliente. Continuo a mesma menina impulsiva, apaixonada, esperançosa e entregue. Nada em mim mudou! Sou como uma rocha: estou sempre no mesmo lugar. Sou cais que acolhe e porto seguro para quem deseja desembarcar em terra firme... Ainda, hoje, beirando os sessenta e cinco anos de idade, olho-me no espelho e sinto um orgulho danado da paixão e do ardor com que se movem os meus dias. Vivo em estado de alegria e de esperança. Sou forte e aguerrida... Inteira! A cada decepção junto os meus cacos e me reconstruo em mosaico. Pedaços de mim lembram-me onde fui ferida e por quem, mas a plasticidade me ensina a lição da resiliência.
Então, eu reedifico o meu altar e rezo missa em minha homenagem. Tenho pena de quem me perdeu! E, antes que alguém me acuse de narcisista, eu informo: trabalhei durante muitos anos na construção do meu eu e aprendi a gostar muito da pessoa que me tornei, no entanto, não sou parâmetro, nem sirvo de referência para ninguém. Sou demasiadamente humana!
Houve um tempo em que gostar causava-me profundo sofrimento. Tinha o corpo em carne viva e o coração lesionado por causa disso, pois amar era uma parte da minha alegria e a outra era contar os dias para encurtar distâncias, porque alguém estava sempre de partida! E, eu, menina em flor, desejava o renascimento no seu corpo... Levava horas desenhando as letras do alfabeto com confissões de um amor rasgado, assumido. Eram páginas e mais páginas encharcadas do mais puro sentimento. Sentia saudades e, por isso, usava e abusava da semântica. As palavras tinham força e significado. Amar era verbo conjugado no passado, no presente e no futuro. Eternamente! Mas, foi tudo em vão...
Porém, hoje, mesmo depois de uma longa espera e de vários cacos espalhados pelo caminho, as letras continuam pulando felizes e saltitantes, bordando esperanças na folha de papel em branco. É que eu ainda vivo como um pássaro em voo, procurando sempre por certezas geográficas, para pousar e entregar o meu imenso amor a quem fizer por merecê-lo... Sou resiliente! E, além do mais, confesso: continuo com pena de quem me perdeu!
setembro 28, 2014
Ao Poeta P.G
Ela, uma escrevinhadora que gostava de brincar com as palavras. Ele, um nordestino acostumado à seca e ao cabo da enxada... Um retirante, um exilado da sua terra natal, que durante certo tempo procurou arar o solo infértil do sertão, à custa de muito suor e lágrimas, mas sem desviar os olhos do céu e das estrelas.
Um encontro improvável era o que se desenhava entre os mundos das letras e dos cabos das enxadas, pois ela sabia da força, do caráter e da tenacidade daquele homem. Ele saíra do nordeste, mas o nordeste nunca sairia de dentro dele. Carregaria por toda a vida uma saudade moldada por perdas e tristezas. Uma carta de condenação da qual ele jamais desejaria a alforria... Tinha um orgulho danado de ser nordestino! E, de tudo o que essa expressão carregava de significados...
O que ela não sabia, entretanto, é que ao olhar, lá atrás, com os pés ainda plantados no solo infértil do sertão, para o telhado da noite, ele já vislumbrava um porvir risonho. Sua conversa era um solilóquio e, entre um arado e outro, catava letras, juntava palavras e tecia sonhos. Nascia, assim, um poeta de mãos calejadas, que ia aprender no correr dos anos a despir-se em prosa e em versos. Nascia, também, naquela hora, o desejo de ser amado... Um amor faminto, urgente, latejante que viesse resgatá-lo, no futuro, das madrugadas de tédio, solidão, insônia e saudades.
Então, eis que, um dia, eles se conheceram por meio das letras. Um encontro na fase crepuscular das suas vidas. Ela, brincando com as palavras e vestida de esperança. Ele, de poeta... Um menino. Puro. Entregue... Nordestino.
O que ela não sabia, entretanto, é que ao olhar, lá atrás, com os pés ainda plantados no solo infértil do sertão, para o telhado da noite, ele já vislumbrava um porvir risonho. Sua conversa era um solilóquio e, entre um arado e outro, catava letras, juntava palavras e tecia sonhos. Nascia, assim, um poeta de mãos calejadas, que ia aprender no correr dos anos a despir-se em prosa e em versos. Nascia, também, naquela hora, o desejo de ser amado... Um amor faminto, urgente, latejante que viesse resgatá-lo, no futuro, das madrugadas de tédio, solidão, insônia e saudades.
Então, eis que, um dia, eles se conheceram por meio das letras. Um encontro na fase crepuscular das suas vidas. Ela, brincando com as palavras e vestida de esperança. Ele, de poeta... Um menino. Puro. Entregue... Nordestino.
setembro 14, 2014
O Crepúsculo
- "No crepúsculo, tomamos consciência da rapidez do tempo". Diz, também: - "Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos".
Penso que além de olharmos para o futuro com olhos mais ternos, também pedimos emprestado à vida linha e agulha, para recriar o bordado da nossa existência e, assim, poder limar a alma para que os últimos anos não nos pese tanto.
No crepúsculo, aprendemos a costurar as palavras com a linha do amor e as cores da tolerância, da paciência, da compaixão e da solidariedade. Alargamos o mundo de dentro e, dessa forma, damos abrigo a imensa tapeçaria de afetos, que vamos tecendo no decorrer dos dias que passam com rapidez, mas, agora, suavemente.
É só no ocaso da vida que deixamos de lado as certezas de pedra e o olhar cimentado construídos a respeito das pessoas. Nessa época, nos damos conta de que pequenas mágoas e velhos rancores só contribuíram para deixar os nossos dias mais pobres, esquecidos e sem afeto. São tempos de amargar tristezas e solidão.
Por isso, seguindo o conselho do grande mestre e escritor Rubem Alves, eu digo: - Vamos tomar consciência da finitude do tempo, pois esse é o melhor caminho para uma vida mais saudável e feliz. Não nos esqueçamos que orgulho, vaidade, mágoas e rancores descansam na mesma lápide que dá abrigo, também, aos nossos desafetos. Somos todos pó.
setembro 06, 2014
Sem Mapa... Sem GPS
O silêncio da folha de papel em branco é um terreno vasto pedindo que eu me descubra em letras. Inútil querer povoá-lo com a rapidez das palavras que chegam, pois dentro de mim há desertos... Zonas de silêncio que se comunicam e desenham a arquitetura das frases que eu não escrevo. E, que me definem.
As palavras amordaçadas sou eu... Eu, sempre em trânsito! Longe de mim.
agosto 22, 2014
E Por Falar em Saudade...
Olho para trás e vejo o passado se esvaindo. É um olhar para um tempo suspenso, que ficou gravado apenas na pausa de uma fotografia. Uma imagem congelada de uma época que nunca foi saudade, pois não havia alguém a quem esperar. É que eu guardei dentro de mim, durante muitos anos, um amor que sempre me foi alheio.
E, agora, eu olho para as horas que passam e me pergunto: e por falar em saudade, onde anda você? Você que, hoje, é presente e presença viva de um tempo que urge e aperta o cerco dos dias que me restam, lembrando-me que a felicidade desce a ladeira da memória, quando a deixamos suspensa no varal dos devaneios.
Por isso, preciso registrar a mudança. Então, escrevo. Escrevo, nesse momento, a primeira página de uma história sem passado. É vida que segue. É tempo presente... É urgência em ser feliz! Agora, vivo pastoreando as horas e contando os minutos que faltam, para eu criar raízes aéreas e desembarcar na geografia do teu corpo.
E, por falar em saudade, onde anda você?
julho 28, 2014
Mil Dúvidas
Motivada pelas tentações da vida mundana, eu coloquei a menina sonhadora que sempre fui para dormir. Acomodei os sonhos românticos na gaveta da minha alma e tentei me adaptar aos tempos modernos. Hoje, uma nova mulher aflora dentro de mim... Ela, apesar de decidida e capaz de ir à busca dos seus desejos, ao se deparar com tantas tentações percebe, entretanto, que a vida segue sem muita graça e nenhum encanto... É que, em meio a toda essa sedução, algumas perguntas surgem em sua cabeça:
- O que fazer se o amor me pegar de assalto? E se o desejo se apossar do meu corpo como se fosse a minha primeira vez? E, continua se perguntando:
- Como conciliar o contraditório se, dentro mim, ainda hoje, caminham juntas a mulher moderna e a menina sonhadora? A qual das duas devo dar asas? Como dizer ao homem amado que aqui, no peito, tem um coração de menina ansioso por cartas, ternuras e declarações de amor, mas há, também, um corpo de mulher que arde, sedento e faminto, pelo toque das suas mãos? Como fazê-lo entender que nos meus sonhos o amor vai bordando delicadezas, que não se encaixam nesses tempos voláteis e de tão poucos sentimentos?
- Não sei! Mil e uma dúvidas. E, por isso essas perguntas.
julho 19, 2014
Direção Oposta
Ando na contramão do tempo, pedindo aos céus um pouco mais de dias e de insensatez, para desfazer as amarras que me prendem ao passado. Quero dar carta de alforria à louca que habita em mim e para qual eu nunca dei ouvidos, nem importância. Talvez ela seja, hoje, a minha versão mais completa, por isso quero beber toda a liberdade que eu sufoquei no corpo e na garganta, por anos a fio. Quero estrear na vida uma vida que eu nunca vivi... Cansei de encarcerar desejos e adiar sonhos. “Liberdade, liberdade abre as asas sobre mim.” Não quero mais pontuar as minhas palavras, com a hesitação dos meus medos. Cansei! Quero ver nascer outra pessoa em mim, enquanto há tempo... Às favas, com a escassez dos dias que me restam!
Ando na contramão do tempo, querendo aposentar essa senhorinha circunspecta a quem eu sempre dei abrigo, desde a mais tenra idade. Quero, agora, acordar livre, leve e solta para sair por aí empunhando a bandeira da liberdade e, para isso, desde já, vou tornar manifesto a cartilha dos meus desejos mais secretos:
- Vou fechar o meu coração para balanço e embriagar-me de vida, deixando que o prazer entre por todos os meus poros, inundando-me dessa coisa boa a que as pessoas dão o nome de paixão, embora que efêmera... Afinal de contas, amar é só um verbo... E, conjuga-se melhor no passado. Quero, sim, daqui por diante, sorver os dias que me restam em um só gole e deixar para trás aquela que sempre fui e não quero ser... Nunca mais!
Imagem: Neli Araújo (Facebook)
julho 18, 2014
Um Tempo de Delicadeza
Hoje, amanheci querendo um tempo de delicadeza para minha alma cansada de tanto olhar indiferente e de tantas "certezas de pedra"... A morte, essa visita indesejável, a quem todos nós, um dia, vamos ter que abrir as portas, está fazendo cerca ao meu redor...
De repente, tudo perdeu o sentido: a pressa, a ansiedade, o orgulho, a vaidade, a mágoa e todos os sentimentos mesquinhos que carregamos, inutilmente, pela vida afora. Um olhar para trás e quanta tristeza! Quanto arrependimento! Quanta dor poderia ter sido evitada!? Mas, não! Nós, homo-sapiens, achamos que temos poder e controle sobre a vida e a morte. Pobres mortais! Quando nos damos conta lá se vão os dias, os bens, a fortuna e tudo o mais com que preenchemos o vazio das nossas vidas, achando que isso é felicidade.
Hoje, amanheci querendo um tempo de delicadeza. Quero olhar nos olhos dos meus filhos, do meu marido, do meu companheiro, dos meus irmãos, dos meus amigos, dos meus parentes, dos meus vizinhos e até daqueles que não gostam de mim e pedir-lhes um pouco mais de alma... Há tanta solidão ambulante precisando de ternura, de um sorriso e de uma mão amiga. Quantas vidas poderiam ser salvas se, ao invés de recolhermos, nós estendêssemos às mãos e emprestássemos os nossos ouvidos, para a escuta silenciosa das dores do outro. Quantas pessoas não estão, nesse momento, sozinhas nos leitos dos hospitais, nos asilos ou em suas próprias casas, precisando de um olhar compassivo e de um pouco de atenção. Amanhã, poderá ser tarde demais!
Por isso, é que hoje e, só por hoje, eu peço a vocês esse tempo de delicadeza. É que andei desarrumando as gavetas da minha memória e vi a inutilidade dos dias que desperdicei... Pois, como disse ILSE, um dia: “quando enfim, eu tive tempo, descobri que o meu tempo tinha acabado".
PS: Este texto é uma homenagem a Eugênio Pacelli, para quem todos os dias: é tempo de delicadeza.
julho 06, 2014
Tempos de Gaveta
Ando desarrumando gavetas e navegando por memórias antigas... Quero ter um encontro comigo, no passado, para ver o que mudou em mim. Alguém me disse: - você não tem mais vinte anos! E eu retruquei: - a minha pele e o meu corpo, não! Mas a minha alma desconhece os números e, sendo assim, não sente o girar dos ponteiros do relógio, tampouco o passar dos anos. Quando fecho os olhos e acesso o passado, tenho plena consciência de que parte de mim não mora mais ali, pois está preso a essa cadeira, enquanto escrevo, mas os sonhos, os desejos, as fantasias e os devaneios, estes, estão sendo tecidos pelas asas da minha imaginação e podem navegar em qualquer tempo. Por isso, não tenho idade... Tenho sonhos!
O meu corpo físico se ressente da passagem dos números, sim, senhor! Já não há agilidade para tantas estripulias, entretanto, se já não posso subir em árvores, nem escalar o Monte do Everest, posso sim, expandir a minha alma e resignificar a minha vida. E, para isso, eu preciso apenas de uma consciência ativa e uma mente aberta, porque, até onde eu sei, pele, carne e ossos não pensam...
Ando navegando por memórias antigas. Quero retirar desse tempo de gavetas, o que me resta de sonhos e torná-los reais, antes que a velocidade da banda larga me convença de que eu já fui... Não sou mais! Estou farta dessa época que desconhece delicadezas, imprime rótulos e engessa pessoas tirando-lhes o bem mais precioso que é o sonho, só porque convencionou-se que a juventude é detentora de um lugar no pódio da vida, a que os velhos não têm direitos. Estou farta, também, de ver a petulância dos jovens diante das pessoas de mais idade, como se elas fossem inaptas, assexuadas e descartáveis...
- Quem disse que só porque eu não tenho mais vinte anos devo escrever o capítulo final da minha história e abrir mão dos prazeres da vida, se a lucidez ainda me acompanha e a minha alma é um repositório de sonhos e desejos?
“Pensar é transgredir”, disse Lya Luft. Por isso, hoje, ao navegar pelas minhas memórias eu penso: tenho vinte anos sim, senhor, senão no corpo, mas na alma. E, segundo eu sei, é ela quem ama, deseja e faz a vida acontecer.
julho 01, 2014
Quimeras
Há muitas mulheres dentro de mim e, entre tantas, hoje, uma delas vem me visitar... A dama da noite, atrevida e cheia de quereres, pede licença e arde em sonhos... Se despe de pudores !
Uma volta no salão das suas quimeras e o tango argentino de Astor Piazzolla lhe convida a dançar. Rodopiando, ela se deixa conduzir pelo fogo da paixão e sem reservas se entrega: sou tua!
junho 20, 2014
Eu Quero Ser Feliz!
Têm dias que a vida fica mais urgente... Uma saudade aqui, um poema atrevido ali e a dor sai da casa da palavra, para indicar mudança. É a nossa alma cavando todo o passado a unhas, para que uma nova semente possa germinar... O fluxo da vida se impõe!
De repente, nos damos conta de que já não precisamos de tantas marcas e de tanto sofrimento... Nessas horas, as feridas deixam de doer e os dias cinzas que sempre levavam embora os nossos sonhos, agora passam ao largo. É tempo de celebração! Os anos de porão se esvaem e escrevemos no rol das intenções mais sérias: eu quero ser feliz!
junho 15, 2014
Por isso, Eu Desisti do Amor
Tem dias que eu amordaço as palavras porque elas insistem em chamar teu nome. Nessa hora, eu vejo pelo espelho retrovisor e percebo que ainda tem muito sofrimento na nossa história, por isso eu desisti do amor.
Olho para a tela em branco do computador e penso em quantas vezes já escrevi, que tu eras uma página virada no livro da minha vida, para, logo em seguida, deixar que as letras do alfabeto me traiam e deixem explícito o que teimo tanto em esconder... Se a tela fosse uma folha de papel eu a rasgaria só para não ter de confessar, que as minhas frases se vestem de ternura toda vez que penso em ti e, que, nesse instante, a emoção me domina... É que o tempo atropela as horas e o que era dor vira saudade, pois não há como estornar as boas lembranças.
No entanto, um passeio discreto e silencioso pela galeria da memória traz de volta tudo o que passei e eu, enfim, redijo aqui a razão do fracasso do nosso amor de ontem.
Houve uma época em que eu fui cais... Sempre a tua espera. Cumpria a rotina das horas: vestia-me de chita durante o dia e guardava os melhores lingeries para usá-los à noite. Esmerava-me na escolha de bons vinhos, lia jornais e devorava livros. Queria ter assunto após o banquete do amor.
Durante anos, fui à luta e participei ativamente das manifestações populares do nosso país em busca de dias melhores. Lutei por cada centavo desviado dos cofres públicos e por melhores salários. Fiz boicote contra o preço do tomate e protestei, entre outras coisas, quando a conta de luz aumentou. Tudo isso, porque queria de ti o respeito e a admiração.
Dos velhos tempos dei um salto para a pós-modernidade e atualizei-me a respeito das mais novas tecnologias. Fui, também, a encontros literários, discuti sobre a política vigente, tomei ciência da economia do país e das recentes descobertas sobre os mecanismos da mente humana... Queria poder ajudar-te em teus conflitos existenciais.
Por meses a fio desvelei-me em cuidados e carinhos à beira da tua cama. Alimentei-te com a garra, o sangue e o suor da minha esperança para que tu não desistisses de viver... Reinventei-me! Fui tua mulher, tua amante e tua amiga. Fui teu colo e minha morte, pois me esqueci...
Quando, enfim, eu já havia feito de tudo um pouco para dar provas do meu sentimento, tu foste embora. Aí, eu pensei: - ninguém gosta de eternidade!
Por isso, eu desisti do amor.
junho 12, 2014
O Anúncio
Procura-se uma caneca pequena, branca e com um lindo rabisco de uma menina desenhada no verso, semelhante a esta que ilustra o texto. Quem a encontrar favor devolvê-la no endereço citado...
Este foi o anúncio que eu coloquei no jornal, quando dei por falta da minha caneca. Ela me foi dada de presente no dia do meu aniversário e, todos os dias, me fazia companhia no café da manhã. Ninguém soube explicar como desapareceu. Por isso, eu resolvi tornar público o seu sumiço.
Não, não é uma caneca qualquer! A que eu procuro tem asas estendidas, para me acolher nas noites frias e nos momentos de solidão. E, quase nunca está vazia, embora o líquido oferecido seja tão raro, que me obriga a sorvê-lo em pequenos goles para usufruir, lentamente, do conforto de vê-lo aquecendo-me por dentro.
Às vezes, ela se esvazia para se encher de flores só para alegrar os meus dias e têm dias que se enche de uma água tão pura só para saciar a minha sede. E, quando eu digo que não tenho sede, ela se recolhe, discretamente, deixando-se ficar ao alcance da minha mão... Tem momentos que ela fica assim: quieta, parada, silenciosa, mas sempre a postos. No entanto, agora, ela sumiu de verdade. A caneca que eu procuro perdeu-se em cacos e fugiu de mim. De mim e da minha incapacidade de apreciar a sua beleza.
Por favor, quem souber por onde anda a minha caneca, peça para ela voltar.
Este foi o anúncio que eu coloquei no jornal, quando dei por falta da minha caneca. Ela me foi dada de presente no dia do meu aniversário e, todos os dias, me fazia companhia no café da manhã. Ninguém soube explicar como desapareceu. Por isso, eu resolvi tornar público o seu sumiço.
Não, não é uma caneca qualquer! A que eu procuro tem asas estendidas, para me acolher nas noites frias e nos momentos de solidão. E, quase nunca está vazia, embora o líquido oferecido seja tão raro, que me obriga a sorvê-lo em pequenos goles para usufruir, lentamente, do conforto de vê-lo aquecendo-me por dentro.
Às vezes, ela se esvazia para se encher de flores só para alegrar os meus dias e têm dias que se enche de uma água tão pura só para saciar a minha sede. E, quando eu digo que não tenho sede, ela se recolhe, discretamente, deixando-se ficar ao alcance da minha mão... Tem momentos que ela fica assim: quieta, parada, silenciosa, mas sempre a postos. No entanto, agora, ela sumiu de verdade. A caneca que eu procuro perdeu-se em cacos e fugiu de mim. De mim e da minha incapacidade de apreciar a sua beleza.
Por favor, quem souber por onde anda a minha caneca, peça para ela voltar.
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