Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Um Amor Crepuscular










Quando eu era jovem, o amor se apresentou a mim como uma fase de “puro fogo e ardor sem fronteiras”, colocando o meu coração em desalinho. Tudo era desvario, desassossego, excesso, vaidade... Xeque-mate! Passados os anos e somadas as experiências posso garantir que, hoje, eu sei amar mais e melhor que outrora. Já não doem em mim as letras mortas de um juramento que o tempo não ratificou. Tampouco me incomoda se sou trocada por alguém com mais atrativos que eu. Já não ardem em mim as firulas do ego, nem os arroubos da juventude com suas dores e seus dramas intermináveis. A essa altura dispensei as algemas e descobri que não sou metade da laranja de ninguém. Nasci inteira! Nessa fase crepuscular, tenho mãos de ternura e um desejo imensurável de ser e fazer feliz a quem está ao meu lado. Sou a adição do que aprendi ao longo dos anos e, isso, consequentemente, me torna uma pessoa melhor: mais paciente, solidária, tolerante e mais sábia.

Porém, o amor, nessa fase crepuscular, me credencia também a ser mais seletiva e a não desperdiçar os anos que me restam com coisas de somenos importância... Não gosto de quem, apesar da passagem dos anos, adora brincar no playground. Não gosto de gente que anda à procura de uma ninfeta para validá-lo. Não gosto de gente que usa o outro como muleta, para provar ao mundo aquilo que já não é mais capaz de fazer. Gosto de pessoas em paz com os números, com as suas rugas, com os seus cabelos brancos e com a sua pouca habilidade em trapacear mentiras de amor. Gosto de quem gosta de si, pois, em assim sendo, não necessita de mim, para provar quem não é. Gosto de quem antes de se habilitar a despir o meu corpo, procura desnudar a minha alma. Gosto de gente, para quem a vida, agora, é muito mais alma, muito mais calma. Gente, que saiba apreciar um lindo pôr-do-sol, um banho de chuva, de mar, de poesia, que ainda saiba andar de mãos dadas e não tenha desaprendido o sabor da pipoca, numa tarde de cinema. Gente, para quem fazer amor, vá muito mais além do que o instante, as palavras, a pressa, o desassossego, o desvario, o ardor e o fogo da juventude. Porque amor de verdade, de verdade mesmo, se faz e se sente é pelo olhar...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Um Breve Relato sobre Mim
















Hoje, não há memória! Tudo é silêncio! Olho para o teclado do computador e as letras se retraem advertindo-me que, nesse momento, eu não tenho autorização para brincar com as palavras. Parece que careço dessa ausência, para que o impulso verbal não me leve a escrever o que não devo. No entanto, é desse silêncio que emerge os primeiros passos em direção a geografia do meu viver e ao certificado da minha existência. Quem eu sou? Você quer saber! Então, para lhe responder, resolvo fazer um breve relato sobre mim.

Sou terra. Tenho raízes profundas... Não é qualquer ventania que me põe abaixo: sou como o bambu, envergo, mas não quebro. Na cartografia dos meus passos eu nunca pus a minha alma em risco, pois a medida da minha vontade e o do meu desejo passa, antes de tudo, pelo respeito ao outro. Sou movida a utopia e as asas da minha imaginação se estendem em direção ao bem-estar comum. Sonho com um mundo mais justo e igualitário, onde a “globalização da solidariedade” seja a meta de todos. Sonho com um lugar alforriado das ditaduras das leis e daquilo que segrega e discrimina. Sonho com um lugar que não hospede semideuses de plantão e suas certezas de pedra. Um lugar onde o avesso da palavra seja também reverência ao outro, e de onde nunca sejamos instigados a rasgar o véu da hipocrisia e da exacerbação do eu.

Gosto de relembrar acontecimentos que apontem os perigos do ego e que me deem a real dimensão da minha humanidade, pois a roda gigante da vida não para de girar... Sou avessa a deslumbramentos e à glória do poder. Preconceitos? Nenhum! Só com quem tem preconceito... Na minha travessia existencial, a ladainha da esperança é reza forte, porém, procuro mudar primeiro a mim, para depois mudar o mundo. Certezas? Tenho! Sou um aprendiz do caminho... E, do amor, tudo o que posso dizer é que sou leal, mas não admito cabresto. Quero liberdade para mostrar quem sou. Por isso, se você quer saber mais sobre mim, que se aproxime, mas antes tire o pó do caminho e entre descalço na minha alma, pois ela urge um tempo de sonhos e delicadezas.

domingo, 31 de julho de 2016

Me Conte um Conto















Escrevo na tentativa de distrair a minha timidez... Um diário tardio de quem ao longo da vida acorrentou um espírito de criança, num corpo de mulher e, assim, viu nascer as primeiras rugas, os primeiros fios de cabelos brancos, a flacidez da pele e as cicatrizes, mas deixou preservada a alma desse estranho capricho da natureza a que damos o nome de tempo. É que dentro da mim só a linguagem da emoção faz barulho e, quando isso acontece, as dores e alegrias desaguam nas pontas dos dedos, como se fora um pincel, incentivando-me a pintar palavras e escrever histórias.

Nessa hora, pedaços do tempo, em seus tons sépia, desarrumam as gavetas da minha memória e tudo se transforma em saudades: a minha primeira boneca; o parque de diversões; o circo com seus trapezistas e palhaços malucos, (para aonde eu era levada pelas mãos do meu tio Francisco); os sabores dos picolés da Sorveteria Flórida; o algodão doce do seu João; o refresco de coco do seu Zé e o colégio Alfredo Dantas onde aprendi as primeiras letras com a professora Marly. Ando sentindo saudades de tantas coisas, principalmente do cheiro de terra molhada e do orvalho a salpicar lágrimas na horta da minha mãe; do balanço feito de tábua, travesseiro e corda a embalar os meus sonhos infantis; do pé de flamboaiã a ensinar-me como voar sem ter asas e dos fogos juninos a incendiar as noites do São João.

Nas minhas lembranças ainda estão hospedados os melhores lugares e momentos que vivi na infância: a ida à Livraria Pedrosa, depois de encerradas as aulas do colégio, e a rede de balanço onde eu lia todos os livros de histórias que caíssem em minhas mãos. Foi aí onde começou o meu hábito de leitura. Foi aí onde eu comecei a brincar com as palavras e foi aí onde eu deixei o meu coração de menina habitar para sempre a casa dos sonhos.

Por isso, quando chove saudades no terreno das minhas lembranças e o cheiro da grama molhada me faz criança outra vez eu caminho pelo calçadão da memória onde tempo é saudade e peço a minha mãe, que há muito partiu, encantada pelo brilho das estrelas:

- Minha mãe, me conte um conto! E, ela, ocupada, responde:

- Depois eu conto!



domingo, 26 de junho de 2016

O Preço da Solidão











A página em branco que se apresenta a minha frente é um deserto clamando pelo avesso das palavras, mas o avesso das palavras sou eu, nua, em autobiografia. Sou eu alforriando as letras para que elas me revelem, me desalojem de mim mesma. Sou eu quebrando o silêncio para negociar o preço da solidão. Porém, não é isso o que desejo!

Por isso, permaneço silente, desértica, despovoada até esgotar-se essa saudade de tudo o que não vivemos...



Crédito de Imagem: http://armindoalves.blogspot.com.br/

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Cenas do Cotidiano


Quando eu pensei que já havia me habituado a essa modernidade líquida e que nada mais me surpreenderia, eis um fato novo a remexer e a desalinhar as gavetas da minha memória, sacudindo e trazendo à tona as minhas saudades esquecidas. Nada de tão grave aconteceu, mas foi chocante o suficiente para mudar a minha atitude em relação ao mundo digital. Naquela hora eu percebi: sou antiga, saudosista, uma peça de museu... Sou uma imagem aprisionada nas pausas de fotografias, onde não cabe a liquidez das lembranças que trago hospedadas no peito.

As cenas do cotidiano que passo a descrever, agora, me constrangem. Provocam em mim, vergonha alheia. Fui ao velório de um familiar e na hora em que o padre começou a encomendar o corpo alguém, em alto e bom som, começou a falar ao celular. Na missa, na hora da homilia, aconteceu a mesma coisa. Em teatros, cinemas e reuniões as luzes dos celulares espocam e eu me pergunto: por que essas pessoas estão aqui, se não desfrutam do momento? Nos restaurantes, lugar de encontro e confraternização, agora só se veem pessoas, entre uma garfada e outra, de cabeça baixa, olhando as mensagens do WhatsApp. Tudo é silêncio e solidão. Enquanto isso, a comida esfria, mas está lá nas redes sociais, linda e colorida, para todo mundo ver e aplaudir. Tudo isso e mais algumas cenas absurdas do cotidiano têm me deixado aflita. Que futuro terá a humanidade, eu me perguntei, se aquele casal que já beira os 75 anos, se acomoda em um banco de praça, à distância de quase um metro um do outro, e sacam os seus celulares como se o tempo lhes fosse favorável e nada de mais importante houvesse para ser dito... Aquela foi a última cena que vi. De imediato, lembrei das frases suspensas que tanto nos incomodam no fim da vida: e, se... eu tivesse dito, feito, perdoado, amado...

Diante disso, antes que essa modernidade líquida me sufoque e me faça mergulhar na mais profunda solidão, eu resolvi sair do Facebook, esquecer um pouco o WhatsApp e me desligar de vez em quando da Internet... Vou procurar os olhos e a companhia de quem me ama. Quem sabe ainda dê tempo de reconstruir afetos e espalhar ternuras. Quem sabe os ponteiros do relógio não atropelem o tempo e me deem a oportunidade de acender uma fogueira para ouvir o outro: pai, mãe, filho, amigo ou amante até o apagar da última chama. Quem sabe?


Imagem: Sarah Mesquita

sábado, 30 de abril de 2016

Memórias em Carne Viva















Hoje é o meu aniversário e eu pergunto ao tempo: - tempo, tempo, tempo... Que queres tu de mim? Palavra, discurso... Verbo?

Olho-me no espelho e vejo a poeira dos anos assentada sobre os meus cabelos. Disfarço! Depois, faço-me uma indagação: - o que revelam esses fios de prata que, contra a minha vontade, banham a minha cabeça em noites de lua cheia? Não os renego, afirmo, porém eles não me definem!

Volto-me novamente para o espelho e procuro enxergar uma senhora circunspecta e ensimesmada, mas só encontro a menina moça, alegre e faceira, que um dia habitou em mim. Nela, havia uma rebeldia latente que os ponteiros do relógio não conseguiram deter... Sou, ainda, essa menina em flor, desabrochando. E, no meu corpo, feito tatuagem, ardem memórias em carne viva. Sou verbo sem tempo.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Destino versus Escolhas










A vida é um tecido fino, bordado de tantos e tantos fios que se entrelaçam para tecer o nosso destino. Destino: acaso, acerto, fatalidade, sorte ou responsabilidade por nossas escolhas? Você decide! E, paga o preço...

Todo dia é um recomeço. Somos convidados para olhar o que foi vivido e, sem medo, reinventar a nossa trajetória. Alguém já disse que crise é tormenta, mas também possibilidade de reformulação interior. As fraturas do cotidiano estão sempre ali, no porão da nossa alma, marcadas pela dor, mas não devem nos desestabilizar, nem tirar do lugar de onde nos reconhecemos imperfeitos. Permitir que “diálogos costurados por outras vozes” nos definam e tracem o caminho que devemos seguir, é fugir da responsabilidade, é pôr no outro a culpa da nossa insegurança, do nosso medo e da nossa incapacidade de virar o jogo e transformar o dia a dia.

Estamos presos à zona de conforto. Vamos costurando o tecido da nossa vida, sem virar a página. Há sempre alguém a quem culparmos pelo nosso desassossego: é o pai, a mãe, a sogra, o namorado/marido que não nos respeita nem compreende, o patrão que não reconhece o nosso valor, o amigo que nos trai, a concorrência desleal, a falta de oportunidade, de dinheiro, de emprego. É o estado e o governo federal que não funcionam e por aí vai. Como disse Sartre: “o inferno são os outros”. Os outros e não, nós! Nós, que somos responsáveis por nossas escolhas e que, em determinados momentos, somos arrogantes e presunçosos o suficiente para não ouvirmos as ponderações de quem já viveu e tem mais experiência. Nós, a quem a vaidade fala mais alto e o egoísmo impede de enxergarmos quem está a nossa frente. Nós que, na maioria das vezes, nos vestimos de bons samaritanos, para escondermos a face oculta do ódio, do desprezo e repulsa que sentimos pelos nossos semelhantes. Nós que, no disse- me- disse propagamos a infâmia, a calúnia e destruímos a reputação de alguém a quem, muitas vezes, mal conhecemos. Nós que, em inúmeras ocasiões, tivemos a chance de fazer algo diferente, porém optamos por seguir em bando, em sermos massa de manobra para fins escusos. Nós, que vivemos de dedos em riste e a todo instante nos vestimos de árbitros, de juízes da humanidade, olhando por cima, mas incapazes, sem coragem e envergadura suficiente para subir no palanque e fazer a diferença...

Por isso, quando o desassossego bater à nossa porta e quisermos encontrar um bode expiatório para os nossos erros, não devemos nos abrigar em um lugar seguro, confortável. E que nos exima de culpa. Devemos sim, hastear a bandeira da liberdade e dizermos: nós somos as nossas escolhas... E, pagarmos o preço justo por elas!