Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 13 de novembro de 2016

A Insustentável Beleza do Amor











Meu Senhor e Meu Deus, tenho dois lobos habitando em mim! Um em pele de cordeiro e o outro em traje de guerra. Quando dou alimento ao primeiro, coloco a máscara da hipocrisia... O cordeiro que eu sou veste a toga de juiz e, dedo em riste, se propõe a julgar com seriedade e justiça, àquele que está diante dos meus olhos. Ele faz-me sentir maior e melhor que o meu irmão. No cordeiro eu encontro abrigo para a impunidade dos meus erros. Sou uma cidadã acima de qualquer suspeita! Mas, a insustentável beleza do amor que em mim também habita e com quem eu travo uma luta diária, faz-me enxergar o outro, em mim. Nessa hora, viro-me pelo avesso e, em confissão, assumo as minhas culpas rogando a Deus que escute a minha prece e conceda-me o seu perdão.

- Meu Senhor e Meu Deus, carrego sobre os meus ombros os pecados do mundo. Sou a adúltera, o judas e o fariseu. Sou a insustentável beleza do amor lutando, cotidianamente, com a face oculta dos meus pecados, das minhas mazelas e das minhas imperfeições. Confesso que, entre tantos pecados, tenho inveja do sucesso dos meus inimigos, da vida boa do meu vizinho, da riqueza que não conquistei, dos louros que me negaram, do amor que eu não recebi e dos filhos que não gerei. Por isso, a partir de agora, quero imolar o cordeiro de dedo em riste e aceitar as minhas imperfeições. Quero que a insustentável beleza do amor que em mim também habita, me aponte os passos trôpegos que eu dou no caminho da perfeição, e lembre-me da importância da misericórdia, da compaixão e da tolerância, principalmente, na hora em que eu finjo que não são meus os erros dos outros e sigo olhando para a humanidade com a máscara da hipocrisia, da seriedade e da justiça. Desejo, que Tu, Meu Senhor e Meu Deus, me faças lembrar todos os dias quem eu sou, para que eu não me arvore em juiz do meu semelhante. Por último, eu encerro essa confissão com uma pergunta e um pedido: afinal, Meu Senhor e Meu Deus, quantas pedras ainda hei atirar em meu irmão, só para me sentir mais e melhor que ele? A insustentável beleza do amor já expôs o meu avesso, a face oculta da minha humanidade. Por isso, eu te peço: tende piedade dos lobos que habitam em mim e conceda-me o teu perdão!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O Que nos Move?









Não tenho a pretensão de ser dona da verdade, nem de impor regras como fazem os semideuses de plantão, tampouco almejo os louros da academia. Sou iletrada! E, como tal, me encanta apenas distrair-me com as palavras, de maneira lúdica, para pôr ordem no caos dos meus pensamentos e, aos poucos, ir aprendendo a difícil arte de me fazer entender por meio da escrita. Antes dessa maneira, do que permanecer analfabeta.

Dito isto, começo a juntar as letras espalhadas pelo terreno das minhas ideias, para formar uma frase e, com as mãos, em prece, faço um pedido aos Mestres e Doutores em Letras e Linguística, para que não me julguem, nem condenem o meu português ruim, muito menos se atenham tão somente as pausas do meu respirar, por que nas vírgulas, ponto e vírgulas, exclamações e interrogações estão a minha dificuldade em escrever corretamente. Coerência e coesão, também nem se fala, sou um poço de contradição. Às vezes, o que deito nas pautas do caderno, mais parece um “samba do crioulo doido”. Li pouco, muito pouco! Quase nada. Daí a minha dificuldade em interpretação de textos! Porém, do que leio, hoje, procuro quedar-me nas entrelinhas, no não dito, explicitado.

Por isso, nesse momento em que se fala tanto em Prêmio Nobel de Literatura, eu me pergunto: qual o sentimento que nos move, quando um estranho ao ninho recebe distinção que julgamos sermos merecedores? Qual a diferença entre fazer literatura ou a letra de uma canção, que não seja a de fazer pensar, agir, atuar? Quem de nós pode dizer que pelas mãos de Chico Buarque e Caetano Veloso ou de tantos outros cantores-poetas, não saíram as mais belas e inteligentes canções de protesto, que tanto motivaram gerações e gerações a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária. Por que tanta celeuma em torno da premiação de Bob Dylan?

O que nos move?


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Um Amor Crepuscular










Quando eu era jovem, o amor se apresentou a mim como uma fase de “puro fogo e ardor sem fronteiras”, colocando o meu coração em desalinho. Tudo era desvario, desassossego, excesso, vaidade... Xeque-mate! Passados os anos e somadas as experiências posso garantir que, hoje, eu sei amar mais e melhor que outrora. Já não doem em mim as letras mortas de um juramento que o tempo não ratificou. Tampouco me incomoda se sou trocada por alguém com mais atrativos que eu. Já não ardem em mim as firulas do ego, nem os arroubos da juventude com suas dores e seus dramas intermináveis. A essa altura dispensei as algemas e descobri que não sou metade da laranja de ninguém. Nasci inteira! Nessa fase crepuscular, tenho mãos de ternura e um desejo imensurável de ser e fazer feliz a quem está ao meu lado. Sou a adição do que aprendi ao longo dos anos e, isso, consequentemente, me torna uma pessoa melhor: mais paciente, solidária, tolerante e mais sábia.

Porém, o amor, nessa fase crepuscular, me credencia também a ser mais seletiva e a não desperdiçar os anos que me restam com coisas de somenos importância... Não gosto de quem, apesar da passagem dos anos, adora brincar no playground. Não gosto de gente que anda à procura de uma ninfeta para validá-lo. Não gosto de gente que usa o outro como muleta, para provar ao mundo aquilo que já não é mais capaz de fazer. Gosto de pessoas em paz com os números, com as suas rugas, com os seus cabelos brancos e com a sua pouca habilidade em trapacear mentiras de amor. Gosto de quem gosta de si, pois, em assim sendo, não necessita de mim, para provar quem não é. Gosto de quem antes de se habilitar a despir o meu corpo, procura desnudar a minha alma. Gosto de gente, para quem a vida, agora, é muito mais alma, muito mais calma. Gente, que saiba apreciar um lindo pôr-do-sol, um banho de chuva, de mar, de poesia, que ainda saiba andar de mãos dadas e não tenha desaprendido o sabor da pipoca, numa tarde de cinema. Gente, para quem fazer amor, vá muito mais além do que o instante, as palavras, a pressa, o desassossego, o desvario, o ardor e o fogo da juventude. Porque amor de verdade, de verdade mesmo, se faz e se sente é pelo olhar...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Um Breve Relato sobre Mim
















Hoje, não há memória! Tudo é silêncio! Olho para o teclado do computador e as letras se retraem advertindo-me que, nesse momento, eu não tenho autorização para brincar com as palavras. Parece que careço dessa ausência, para que o impulso verbal não me leve a escrever o que não devo. No entanto, é desse silêncio que emerge os primeiros passos em direção a geografia do meu viver e ao certificado da minha existência. Quem eu sou? Você quer saber! Então, para lhe responder, resolvo fazer um breve relato sobre mim.

Sou terra. Tenho raízes profundas... Não é qualquer ventania que me põe abaixo: sou como o bambu, envergo, mas não quebro. Na cartografia dos meus passos eu nunca pus a minha alma em risco, pois a medida da minha vontade e o do meu desejo passa, antes de tudo, pelo respeito ao outro. Sou movida a utopia e as asas da minha imaginação se estendem em direção ao bem-estar comum. Sonho com um mundo mais justo e igualitário, onde a “globalização da solidariedade” seja a meta de todos. Sonho com um lugar alforriado das ditaduras das leis e daquilo que segrega e discrimina. Sonho com um lugar que não hospede semideuses de plantão e suas certezas de pedra. Um lugar onde o avesso da palavra seja também reverência ao outro, e de onde nunca sejamos instigados a rasgar o véu da hipocrisia e da exacerbação do eu.

Gosto de relembrar acontecimentos que apontem os perigos do ego e que me deem a real dimensão da minha humanidade, pois a roda gigante da vida não para de girar... Sou avessa a deslumbramentos e à glória do poder. Preconceitos? Nenhum! Só com quem tem preconceito... Na minha travessia existencial, a ladainha da esperança é reza forte, porém, procuro mudar primeiro a mim, para depois mudar o mundo. Certezas? Tenho! Sou um aprendiz do caminho... E, do amor, tudo o que posso dizer é que sou leal, mas não admito cabresto. Quero liberdade para mostrar quem sou. Por isso, se você quer saber mais sobre mim, que se aproxime, mas antes tire o pó do caminho e entre descalço na minha alma, pois ela urge um tempo de sonhos e delicadezas.

domingo, 31 de julho de 2016

Me Conte um Conto















Escrevo na tentativa de distrair a minha timidez... Um diário tardio de quem ao longo da vida acorrentou um espírito de criança, num corpo de mulher e, assim, viu nascer as primeiras rugas, os primeiros fios de cabelos brancos, a flacidez da pele e as cicatrizes, mas deixou preservada a alma desse estranho capricho da natureza a que damos o nome de tempo. É que dentro da mim só a linguagem da emoção faz barulho e, quando isso acontece, as dores e alegrias desaguam nas pontas dos dedos, como se fora um pincel, incentivando-me a pintar palavras e escrever histórias.

Nessa hora, pedaços do tempo, em seus tons sépia, desarrumam as gavetas da minha memória e tudo se transforma em saudades: a minha primeira boneca; o parque de diversões; o circo com seus trapezistas e palhaços malucos, (para aonde eu era levada pelas mãos do meu tio Francisco); os sabores dos picolés da Sorveteria Flórida; o algodão doce do seu João; o refresco de coco do seu Zé e o colégio Alfredo Dantas onde aprendi as primeiras letras com a professora Marly. Ando sentindo saudades de tantas coisas, principalmente do cheiro de terra molhada e do orvalho a salpicar lágrimas na horta da minha mãe; do balanço feito de tábua, travesseiro e corda a embalar os meus sonhos infantis; do pé de flamboaiã a ensinar-me como voar sem ter asas e dos fogos juninos a incendiar as noites do São João.

Nas minhas lembranças ainda estão hospedados os melhores lugares e momentos que vivi na infância: a ida à Livraria Pedrosa, depois de encerradas as aulas do colégio, e a rede de balanço onde eu lia todos os livros de histórias que caíssem em minhas mãos. Foi aí onde começou o meu hábito de leitura. Foi aí onde eu comecei a brincar com as palavras e foi aí onde eu deixei o meu coração de menina habitar para sempre a casa dos sonhos.

Por isso, quando chove saudades no terreno das minhas lembranças e o cheiro da grama molhada me faz criança outra vez eu caminho pelo calçadão da memória onde tempo é saudade e peço a minha mãe, que há muito partiu, encantada pelo brilho das estrelas:

- Minha mãe, me conte um conto! E, ela, ocupada, responde:

- Depois eu conto!



domingo, 26 de junho de 2016

O Preço da Solidão











A página em branco que se apresenta a minha frente é um deserto clamando pelo avesso das palavras, mas o avesso das palavras sou eu, nua, em autobiografia. Sou eu alforriando as letras para que elas me revelem, me desalojem de mim mesma. Sou eu quebrando o silêncio para negociar o preço da solidão. Porém, não é isso o que desejo!

Por isso, permaneço silente, desértica, despovoada até esgotar-se essa saudade de tudo o que não vivemos...



Crédito de Imagem: http://armindoalves.blogspot.com.br/

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Cenas do Cotidiano


Quando eu pensei que já havia me habituado a essa modernidade líquida e que nada mais me surpreenderia, eis um fato novo a remexer e a desalinhar as gavetas da minha memória, sacudindo e trazendo à tona as minhas saudades esquecidas. Nada de tão grave aconteceu, mas foi chocante o suficiente para mudar a minha atitude em relação ao mundo digital. Naquela hora eu percebi: sou antiga, saudosista, uma peça de museu... Sou uma imagem aprisionada nas pausas de fotografias, onde não cabe a liquidez das lembranças que trago hospedadas no peito.

As cenas do cotidiano que passo a descrever, agora, me constrangem. Provocam em mim, vergonha alheia. Fui ao velório de um familiar e na hora em que o padre começou a encomendar o corpo alguém, em alto e bom som, começou a falar ao celular. Na missa, na hora da homilia, aconteceu a mesma coisa. Em teatros, cinemas e reuniões as luzes dos celulares espocam e eu me pergunto: por que essas pessoas estão aqui, se não desfrutam do momento? Nos restaurantes, lugar de encontro e confraternização, agora só se veem pessoas, entre uma garfada e outra, de cabeça baixa, olhando as mensagens do WhatsApp. Tudo é silêncio e solidão. Enquanto isso, a comida esfria, mas está lá nas redes sociais, linda e colorida, para todo mundo ver e aplaudir. Tudo isso e mais algumas cenas absurdas do cotidiano têm me deixado aflita. Que futuro terá a humanidade, eu me perguntei, se aquele casal que já beira os 75 anos, se acomoda em um banco de praça, à distância de quase um metro um do outro, e sacam os seus celulares como se o tempo lhes fosse favorável e nada de mais importante houvesse para ser dito... Aquela foi a última cena que vi. De imediato, lembrei das frases suspensas que tanto nos incomodam no fim da vida: e, se... eu tivesse dito, feito, perdoado, amado...

Diante disso, antes que essa modernidade líquida me sufoque e me faça mergulhar na mais profunda solidão, eu resolvi sair do Facebook, esquecer um pouco o WhatsApp e me desligar de vez em quando da Internet... Vou procurar os olhos e a companhia de quem me ama. Quem sabe ainda dê tempo de reconstruir afetos e espalhar ternuras. Quem sabe os ponteiros do relógio não atropelem o tempo e me deem a oportunidade de acender uma fogueira para ouvir o outro: pai, mãe, filho, amigo ou amante até o apagar da última chama. Quem sabe?


Imagem: Sarah Mesquita