segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010




Resposta ao Tempo



Não conto a minha idade pela passagem dos anos numa linguagem matemática, onde um mais um é igual a dois. Ela é a soma perfeita da alegria, do assombro e do encantamento que esbarram em mim, a todo instante, quando dobro as esquinas da vida.

Não tenho medo das rugas nem da flacidez da pele, tampouco do luar de prata que se espalha sobre os meus cabelos. Tenho medo é de deixar de viver, de não espreitar o que se passa lá fora e de não aquecer o que guardo aqui dentro: meus sonhos!

Foram tantas as mudanças e tão grandes as transformações por mim presenciadas, nesses anos passados, que ouso perguntar ao tempo se “ele se rói com inveja de mim porque sabe passar e eu não sei.” Continuo a sonhar os meus sonhos de menina... Ele – o tempo – só conta do lado de fora.

Por isso, se ainda me destinam um lugar nesse trem que eu chamo de vida, deixem-me entrar no vagão da frente, porque a criança que adormece em mim, ainda está dando os seus primeiros passos e não pretendo acordá-la para contar números. Além do mais, fazer aniversário é apenas um compromisso com a possibilidade de fazer a vida diferente e ser feliz todos os dias, não importa a idade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010



Fora do Ar


Um relógio parado, uma roupa que não cabe mais, um voo perdido que tento inutilmente alcançar, é assim que eu me sinto: fora do tempo! Caminho, hoje, por entre as ruas dentro de mim e só encontro o passado... É um museu de imagens, palavras e sons cheio de significados. Promessas de vida!

(...)

Lá fora, em meio ao burburinho que agita a cidade, a vida fervilha... Procuro placas indicativas do caminho para felicidade e não encontro.
Que tempo é esse que despreza a gratuidade dos bens não perecíveis: amor, carinho, ternura, compreensão e respeito? Que tempo é esse tão diferente do meu, aqui dentro? Acho que perdi a bússola, o guia, o norte, o rumo, a direção! Estou fora do ar, nesse presente, onde tudo é muito confuso, atropelado, incerto... Oba, oba... Descartável!

(...)

Olho para a época em que o tom das folhas é amarelado e um hiato em minha memória é permeado por odores de naftalina, e me convenço: estou à deriva no tempo. E isso, se deve muitos mais aos valores cultuados nessa vida apressada, em que até as palavras se tornam obsoletas, do que a adaptação que me é exigida por esse mundo moderno.

Por isso, volto para o meu estoque de saudades - museu de carne e vida - e deixo que o meu sorriso se prolongue enquanto o tempo desfila as suas lembranças... Estou fora do ar!

sábado, 16 de janeiro de 2010



Horas de Saudades


Podemos nascer de várias maneiras e uma delas vem carregada de significação: partir; deixar a casa, cortar laços e ter no olhar um passado. Essa talvez seja a forma mais dolorida. Abrir mão do colo, do conforto e da certeza do caminho seguro... Mas, que outro jeito há? Quando crescemos o suficiente não cabemos mais nos braços e regaços e a vida nos cobra vida?!

Partir para nascer. Processo difícil e doloroso: requer tempo, coragem e uma paciência que não se encaixa nas horas de saudades... É que, de repente, tudo dói... E uma avalanche de recordações torna desejável até a rotina dos dias iguais. Tudo aquilo por que lutamos perde a importância e nosso projeto de vida sucumbe diante do poder das lembranças. Vivemos uma solidão abissal!

O que fazer então, quando o sorriso e a alegria abrem espaço para a tristeza e o desânimo ou quando alimentar-nos só é possível com o sal das nossas lágrimas?

- Nascer de novo! Desabitar medos, vencer a hesitação e deixar o porto seguro. Esquecer a pouca experiência em prol de um novo desafio. Ser livre para fazer escolhas... Tudo isso requer coragem e decisão, porque partir de algum lugar, ainda que titubeando, é a única maneira que temos de reinventar a vida e fazê-la valer a pena.

*Para Gilberto, meu filho!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010





Economizando a Vida



Viver e não ter a vergonha de ser feliz, dizia o mestre Gonzaguinha. Mas, onde encontrar a alegria se vivemos racionando até o próprio desejo de viver? Nunca a palavra contenção esteve tão em evidência como nos dias atuais. Restrita as preocupações que abalam o mercado financeiro e colocam em xeque a economia global, agora, ela também faz parte do cotidiano das pessoas, no que se refere à luta pela felicidade. Estamos economizando vida pelo medo de ser feliz.

De repente, o mundo, esse parque de diversões para uns e teatro de horrores para outros, parece desafiar os nossos limites, impondo-nos escolhas difíceis de se realizarem. Nesse momento surge a pergunta:
- E agora, como ficamos?
- Não ficamos, vivemos!
Vivemos para usufruir do doce sabor do inusitado que a vida nos propicia a cada instante, quando nos permitimos olhar para além dos nossos estreitos e limitados horizontes. Vivemos para entender que no espaço de tempo, entre o véu da noite e o raiar do dia, existem infinitas possibilidades e que, só vivendo, amando e aprendendo é que podemos extrair da vida a seiva que nos alimenta e faz crescer.

Existem pessoas para quem o mundo é um lugar inóspito e cheio de armadilhas. Não amam e não se deixam amar. Vivem trancafiadas dentro de si mesmas e se recusam a pedir ajuda pela impossibilidade de abrirem a mente e o coração. O medo da felicidade paralisa as suas atitudes. Vivem atormentadas, presas numa cadeira de rodas imaginária, em função da dificuldade de dizerem sim para o desejo de viver e ser feliz. São cadeirantes da alma. Não posso (dar, comprar, ir, fazer...) não tenho (tempo, dinheiro, coragem, saúde...) não quero (amar, gostar, visitar, compreender, ser solidário, compassivo...). Essas são defesas usadas por quem não admite que viver se tornou um fardo.

Em contrapartida, existem os atletas da alegria. São corredores de almas e corações livres. Vivem como se não houvesse amanhã, um dia de cada vez e com isso, usufruem o tempo de maneira intensa e verdadeira. Para esses, “viver e não ter a vergonha de ser feliz,” é um compromisso e uma atitude de quem descobriu que a nossa existência só vale a pena, quando dizemos sim. Sim para um convite inesperado, para o amor que chegou de repente, para aquela viagem não programada, para aquele trabalho desafiador e para todas as convocações que nos causam surpresa e nos tiram da rotina e da mesmice, devolvendo o brilho no olhar.
Dizer sim, é desafiador, é assumir responsabilidades, mas é o único caminho para a possibilidade de ser feliz. Fora disso, só existe uma vida mais ou menos... Triste, morna e previsível.

Em decorrência disso, precisamos abrir mão da nossa economia de vida estável, porém insípida, e largar as cadeiras de rodas imaginárias, que nos aprisionam e fazem sofrer.
Deixar a vida nos conduzir para além do limite dos nossos sonhos, é ter um passaporte para um destino ignorado, é correr riscos, mas é, também, a única maneira que temos de gastar o tempo que nos foi dado e ter a certeza de que ele valeu a pena.
Portanto, não economize vida. Viva! E não tenha vergonha de ser feliz!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009




O Mito da Felicidade



A fábrica das nossas ilusões, quando éramos crianças, nos credenciava a dar largas à imaginação e lá, vestíamos a fantasia dos nossos sonhos. Bons tempos aquele, que nos permitia o ingresso em um mundo cor-de-rosa... Desde então, enveredamos pelas ruas das quimeras e nos quedamos a sonhar, sonhar e sonhar.

Que mundo utópico foi esse que construímos? E para onde vamos nesse momento de desconstrução?

-Ah! O nosso universo de utopias teve o seu nascedouro nas histórias infantis. Lá, onde as reticências imperavam e o “se” governava soberano, criamos um reinado de possibilidades e fomos, aos poucos, eternizando ilusões. Dessa época herdamos características que nos acompanham até hoje: a inocência, a boa fé e o desejo de ser feliz para sempre.

Pobres meninas sonhadoras! Criamos o mito do príncipe encantado e lhe entregamos a direção de nossas vidas, com a exigência de que ele nos fizesse felizes para sempre. Mas, ao despertar, encontramos um mundo real em preto e branco, para administrar e fomos obrigadas a nos despedir dos nossos devaneios.

Pobres meninos sonhadores! Perdidos, também, em seu mundo faz-de-conta, assumiram poderes que não lhes competia. E, agora, reféns de um compromisso que lhes confere status de super-homens, perdem-se na curva do tempo e atabalhoados não sabem como lidar com a incompetência de gerenciar sonhos, numa sociedade tão moderna...

Recomeçar talvez seja a palavra desse momento em que nos apercebemos apenas mulheres e homens humanizados. Deixar para trás velhos sonhos e abrir-nos para o novo. Nem príncipe nem princesa, nem super-homem nem Cinderela. Desconstruir imagens, mitos e perder poderes em nome de uma felicidade possível, onde não haja vencidos nem vencedores, talvez seja o caminho que nos conduza a um novo modelo de realidade: homens e mulheres companheiros inseparáveis em busca de autoconhecimento. Quando, enfim, isto acontecer, a nossa fábrica de ilusões terá as suas portas cerradas e nós estaremos livres dos sonhos que nos distanciam da realidade.

sábado, 5 de dezembro de 2009




A Luta pela Cidadania Feminina


Muito se comenta sobre o avanço que a mulher tem conseguido, na luta pela sua emancipação, em nossa sociedade. Acompanhando a história, vemos que antigamente o seu papel ficava restrito às funções domésticas e a obediência ao marido. Hoje, em pleno século XXI, celebramos grandes conquistas que beneficiam não só a nossa vida, como também, a da humanidade.

Ao enveredarmos pelos séculos passados, vamos seguir a trajetória dessa personagem feminina, que durante muito tempo foi vista por uma sociedade patriarcal, apenas como um instrumento reprodutor e propriedade do marido. Na luta para adquirir o direito de instruir-se, votar, participar ativamente da vida socioeconômica e de ocupar postos governamentais, temos como referência pessoas como: Nísia Floresta, Bertha Lutz, Betty Friedan, Simone de Beauvoir, dentre outras, cujas ideias foram decisivas para fortalecer a luta pela cidadania da mulher.

Ao lembrarmos o fatídico oito de março de 1857, em Nova York – quando 129 operárias morreram queimadas por que ousaram reivindicar a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade - devemos celebrar tantas vitórias quantas sejam necessárias para que, hoje, possamos dizer com orgulho: sim, nós podemos!

Podemos, neste século XXI, continuar a luta – iniciada por essas mulheres – por uma sociedade mais justa, onde direitos e deveres se equivalham no que diz respeito à igualdade salarial, ao acesso a cargos públicos, a uma maior participação na vida política do nosso país e, principalmente, na questão do constrangimento físico ou moral. Que a Lei Maria da Penha, um marco na luta contra a violência doméstica – nesta década - seja uma conquista que possibilite a abertura de novos horizontes na tão sonhada equiparação entre os direitos do sexo masculino e feminino, pois só dessa forma, caminharemos lado a lado, com respeito e admiração, não mais homens nem mulheres e sim, cidadãos.

Sendo assim, a emancipação feminina, fruto de uma longa caminhada no curso da história e uma luta permanente em busca da igualdade, será uma celebração que virá para atender a uma justiça social que se faz premente, uma vez que, como cidadã, nós contribuímos para o progresso socioeconômico e político da nação.

sábado, 21 de novembro de 2009




Afeto à La Carte


Se alguém nos pedisse a definição do amor em uma palavra, no sentido de encontro, aconchego e encanto, nós o convidaríamos a conhecer o lugar onde cores, sabores e cheiros se misturam para produzir o afeto à la carte: a cozinha.

Cozinhar é a forma mais simples e genuína de dizer: eu te amo. É a maneira artesanal de se distribuir carinho por meio dos alimentos. E nada melhor que aproveitar as cores dos artefatos, ingredientes e temperos diversos – que fazem parte desse ambiente - para criar aquela comida especial e homenagear a pessoa que amamos. É o amor entregue com açúcar e com afeto.

A essa altura, quem não lembra da cozinha de sua casa em tempos de festas: carnaval, páscoa, são joão, natal..., com seus ruídos, sons e cheiros reacendendo lembranças? Palco de tantas histórias engraçadas, de reuniões familiares acompanhadas de uma xícara de café e de um saboroso bolo de milho, macaxeira ou fubá. A cozinha reflete o calor, a ternura e a simplicidade de quem sabe receber com arte e carinho. É o afeto à la carte posto à mesa em sistema de gratuidade.

Nesse momento, vamos ao encontro da nossa memória afetiva e revemos cenas do mais puro amor: uma toalha de xadrez, pratos brancos sobre a mesa, um jarro com flores do campo, uma cesta de pães quentinhos, ovos mexidos, queijos, presuntos, bolos, biscoitos, tapiocas, sucos, leite e café; compõem o cenário de uma linda manhã de verão. Mais tarde, uma bela feijoada de frutos do mar, um feijão tropeiro, uma carne assada com macaxeira e manteiga de garrafa, uma boa moqueca de peixe, um baião de dois, virado à paulista, frango com quiabo e tantas opções quanto seja o desejo de agradar e fazer feliz a quem se ama. À noite, dispensando o luar e as estrelas, podemos jantar a luz de velas, sentindo o cheiro do café moído na hora, a velha canja de galinha a fumegar no prato, um cuscuz quentinho servido com queijo de manteiga e rodelas de inhame com sobras da carne assada do almoço. Tudo servido ao ponto: carinho, ternura, tempo e disposição de ver, ouvir e sentir o outro, na intimidade de um espaço, onde o riso solto, a alegria e a descontração, têm a difícil missão de adoçar o sal e o fel de cada dia.

Por tudo isso, sempre que alguém nos pede para falar sobre esse sentimento, lembramos da cozinha, ponto de encontro e encanto, espaço onde o festival de cores brinca de fazer inveja à beleza do arco-íris... Lugar para servirmos o amor com açúcar e com afeto.