Domingo, 5 de Julho de 2009




Despedida


Era em lugar escuro e acolhedor que ela o escondia. Alimentava-o todos os dias de sua própria seiva e extraía da vida a alegria, a coragem e a garra, transformando tudo isso em um manto de proteção, para envolvê-lo nas noites frias e tempestuosas.

Gostava de saber que ele estava a salvo dentro dela! Concentrada em protegê-lo por dias e meses, numa eterna vigília, ela esqueceu de si e até mesmo do tempo! Lembrou-se, no entanto, do arqueiro... Sabia que ele a usara com um propósito e aceitou, com orgulho, a sua missão, embora soubesse que, no futuro, teria que pagar um preço alto por esse acordo.

(...)

Um belo dia, ele - o arqueiro - flecha em punho, arremessa-a para tão longe quanto dá a potência do seu arco. Ela então, substitui a alegria pela dor e chora, aliás, ambos choram: ele porque perdeu o acolhimento, o abrigo, o refúgio das dores do mundo e ela por saber que, a partir dali, nada mais pode fazer a não ser acompanhá-lo em sua luta titânica, para se transformar em um ser humano decente, num mundo de tantas adversidades...

E hoje, cerram-se as cortinas, o seu papel acaba ali. Devolve-o para o mundo. Esse era o pacto com o arqueiro.

A partir de agora, nasce você, meu filho, pra vida! Morro eu, mãe...

Terça-feira, 16 de Junho de 2009



Emoções Perfumadas


Um cheiro de terra molhada, aroma de comida caseira e um som nos leva ao passado e faz aflorar as nossas emoções. O tempo alterou o relógio das horas e aos nossos olhos a paisagem mudou, mas para o coração o arrepio da pele ainda é a linguagem das lembranças que não querem partir.

De onde vem o cheiro, o aroma e o som que revolvem memórias e plantam saudades no terreno das recordações? Vêm de lugares longínquos e das ruas que, até hoje, passeiam dentro de nós com seus odores reacendendo a velha chama das emoções perfumadas: é uma chuva miúda que molha a grama e desperta o perfume da terra trazendo um arco-íris em forma de jardim; é um fogão à lenha desenhando carinhos e cuidados em gestos cotidianos, que alimentam, afagam e vão deixando uma fragrância no ar capaz de refazer todo um caminho de volta, num momento como esse, em que as saudades esquecidas estão em repouso no baú dos tempos perdidos; é um som de acordes melancólicos que misturados ao crepitar da madeira abrasam o corpo frio, pois um inverno de saudades faz chover no coração. São as recordações que chegam e partem, redesenhando emoções.

O tempo que a tudo transforma alterou a paisagem, mas a fonte das nossas lembranças é inexaurível. Dentro de nós há um livro aberto repassando páginas, recontando histórias e trazendo à tona, fatos e personagens que resgatam um pouco da nossa vida e do passado... Gosto de olhar para essas folhas, em seu tom de sépia, e sentir o ar carregado de uma fragrância que envolve e encanta. São memórias cinzeladas em nosso coração perfumando o ambiente e o arrepio da pele, é a tradução da linguagem do corpo respondendo ao que ficou esculpido em nossa alma. Basta um cheiro, um aroma ou um som e nós viajamos para o mundo encantado das emoções atemporais...

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009




“Que lugar te faz sentir em casa?”


Quando me vem essa pergunta à mente, lembro das pessoas que dizem que o seu lugar no mundo é a porta do aeroporto e que não se sentem parte integrante de local nenhum. Nessa hora, penso em mim e nas tantas mudanças que fiz e me pergunto o porquê de tal afirmação.

Tem gente que percorre quilômetros e quilômetros por estrada afora, mas se recusa a fazer a maior de todas as viagens, a única capaz de libertá-la desse sentimento de inadequação: uma viagem ao interior de si mesma. E enquanto isso não acontece, vive sempre de mochila nas costas sem saber, ao certo, qual o seu endereço no mundo. Viaja e leva junto às coisas materiais a sua mudança interna de afetos e sentimentos mal resolvidos, numa eterna andança pra direção nenhuma. Por isso, quando lhe perguntam onde se sente em casa, não sabe o que responder. Mais um entre os nômades da solidão!

Pensando nisso, lembro das várias viagens que fiz e respondo sem pestanejar: o lugar que me faz sentir em casa é dentro de mim e isso independe do local e da situação. A minha casa interior levou muito tempo para ser construída, mas as suas paredes são sólidas o suficiente para abrigar todo e qualquer tipo de mudança. Aonde quer que eu vá levarei a história que construí em minhas andanças pelo mundo e um pouco de cada canto, por onde passei. É dentro de mim que estão fincadas as raízes dos meus afetos e o abrigo que eu chamo de lar.

Em virtude disso, posso afirmar que estou sempre em um lugar confortável e seguro, pois não viajo para me encontrar... Estou sempre dentro de mim e é aqui que me sinto em casa.

Imagem autorizada por:http://www.floresdopantano.blogspot.com/

Domingo, 7 de Junho de 2009


Sem Título


A nossa passividade ante a miséria humana nos torna cúmplices de um crime: a omissão. Até quando o silêncio da nossa indignação abafará o grito da nossa consciência?


Obs:Veja"MeninosdeDarfur" http://entremares.blogs.sapo.pt/

Sábado, 6 de Junho de 2009




Coleção de Saudades


Num entardecer feito de sonhos, onde o outono – ante-sala das lágrimas do céu – executa no ar o balé das folhas secas e nos remete de volta ao passado, eu aquieto as minhas dores visitando o antigo porão. Lá, adormecida em um velho baú e distante das garras do efêmero, guardei a minha coleção de saudades: são cartas, fotos e pequenas lembranças, miudezas de um tempo que um dia sonhou com a eternidade.

O vento frio que açoita a minha alma, neste momento, abre a janela do meu coração e eu me rendo diante da evidência de uma saudade tão teimosa: é você outra vez, povoando os meus sonhos juvenis. Tenho em mãos o velho baú e dentro dele reminiscências de nós dois que, uma a uma, vão assumindo o controle do meu pensamento, abastecendo de alegria, de emoção e de sorriso - o mesmo sorriso fácil que naquela época espelhava a nossa felicidade – os meus dias atuais.

Vivo assim, imersa em saudades e, por isso, quando a solidão me visita não me encontra despovoada. Em terreno fecundo plantei boas recordações e no meu sítio de memórias a colheita é sempre abundante. Aqui, nos espaços interiores onde caminho silenciosamente e as ausências são mais sentidas, faço-me peregrina das boas lembranças e transformo o meu cotidiano em um novo celeiro de felicidades.

Sábado, 30 de Maio de 2009




Quebrando Espelhos



Ela estava ali, novamente, diante dele. Já havia feito as pazes com a menina que fora, mas alguma coisa restara para apaziguar dentro dela. O que seria, perguntou-se, e olhou outra vez para o espelho. Foi então que se deu conta: uma chuva de prata banhara os seus cabelos e ante a exigüidade temporal que lhe rondava os dias, fez a si mesma mais uma pergunta: qual é o tempo do amor, ou seja, até que idade lhe é permitido amar?

O espelho que mostrava a imagem de uma garota feliz que amava os Beatles e os Rolling Stones e cuja vida era feita de sonhos refletia, também, uma mulher cujo ideal de felicidade não arrefecera. Ela continuava igual, os fios prateados e as auroras não dormidas - que lhe marcavam o rosto-, não a impediam de ver e sentir a vida como se a juventude ainda lhe fosse presente. Precisava, pois, reconciliar aquelas duas pessoas que habitavam dentro dela porque sabia, por certo, que uma delas teria que partir. A sociedade que lhe impunha vetos, que determinava o limite dos seus sonhos e da sua capacidade de amar, que lhe ditava regras e lhe colocava mordaças; não haveria de perdoar-lhe a ousadia de manter-se jovem, antenada e feliz, num mundo onde o império do efêmero transformava tudo e todos, em peças de museu, em um curto espaço de tempo.

(...)

Pensando nisso tomou uma resolução: a partir de agora irei celebrar o cotidiano sempre, amar de novo e com maior intensidade ‘como se não houvesse amanhã’, pegar as rédeas da minha felicidade e, com ela, sair por aí, tomando banho de chuva, de rio, de mar, escrevendo em suas areias um poema de amor à vida. Irei possuir o desejo pelo insaciável e com ele vivificar a minha existência até o fim dos meus dias.

E sendo assim, quebrou o espelho e fez em pedaços a sua carteira de identidade. A partir daquele momento, ambas, menina e mulher teriam a idade dos seus sonhos... E saiu, “caminhando contra o vento sem lenço e sem documento.” Feliz!

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009



Tema da Tertúlia Virtual



"Você irá passar 10 anos numa pequena ilha deserta no Pacífico, e só poderá levar cinco coisas ou pessoas.Quais seriam?".

Eu levo:

Os políticos corruptos,
Os traficantes de drogas,
Os pedófilos,
Quem promove o trabalho escravo nos dias atuais e
A prostituição infantil.

Depois disso é só rezar para que o lema da nossa bandeira, “Ordem e Progresso”, faça jus a nossa cidadania, e que eu encontre um barco para voltar porque ninguém merece uma vizinhança tão incômoda.