Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Homenagem a Tia Creuza















Nessa época de pandemia da Covid-19, quando o isolamento social se impõe e sobra tempo para as lembranças, faz-se necessário ouvir o apelo do nosso coração e deixar que o cotidiano seja a pauta a derramar-se pelas teclas do computador.

Era o ano de 1955/56 quando eu, menina, acompanhada por Mãe Julia, Laíce e meu Irmão Francisco nos dirigíamos para o curral, localizado nos fundos da casa grande de tia Creuza. Lá, ela ordenhava as suas vacas e nos servia um leite morninho, misturados com o açúcar e a canela, que havíamos colocado em nossos copos, antes de sairmos da nossa casa. Após apreciar a bebida, Mãe Júlia e os outros tinham pressa em voltar para os afazeres domésticos. Eu, não! Gostava de brincar com os animais, de montar nos cavalos mansos e de subir nos muros, para recolher as buchas vegetais que abundavam por cima dos telhados. Com elas, nós tomávamos banho de verdade, com direito a esfoliação de pele e retirada do grude, aquela sujeirinha que a preguiça não reconhecia. É, hoje, é dia de saudades! A Covid-19 recolheu as suas garras e, por enquanto, está passando longe de mim, pela Graça e Misericórdia de Deus! Por isso, aproprio-me das recordações, recém-saídas do berço da memória, e faço delas uma colcha de retalhos, para agasalhar-me, nesse momento, em que as horas passam lentas e arrastadas. Como é importante ter boas lembranças, quando a solidão é nossa única companhia! E, eu tenho. A minha tia Creuza é uma delas!

Lembro-me de nós duas nas matinês do Cine Capitólio, em Campina Grande, assistindo aos filmes: E o Vento Levou, Cleópatra, Dr. Jivago, entre tantos. E, de como chorávamos, disfarçadamente, quando a película era triste e romântica. Em compensação, saíamos do cinema felizes porque logo chegaríamos à sorveteria Flórida, para tomar sorvete de castanha e ameixa. Era uma festa! Ainda, hoje, é o meu sorvete preferido! 

Ah, tia Creuza, com você aprendi tantas coisas! Quando ia passar o fim de semana em sua casa, o fato que mais me chamava a atenção era vê-la sair do banho, linda e cheirosa, depois de um dia exaustivo de trabalho no curral e na cozinha, sem falar no desvelo para com os filhos. Ao perceber a minha admiração, você exclamava, toda faceira: “- preciso me cuidar, pois já já o meu velho chega do escritório! ” Lembro-me, da sua elegância, dos seus olhos verdes emoldurados por cabelos sempre bem penteados e da sua disposição, apesar da luta e do cansaço da lida, para acompanhar a mim e as suas filhas nas tertúlias do Campinense Clube. Como eu a admirava pelo amor e pela cumplicidade com as suas filhas. Certa vez, vi você com lágrimas nos olhos, porque o namoro de uma das suas filhas tinha acabado e lhe era impossível ficar indiferente ao sofrimento dela. Vi também, a sua euforia, quando uma delas venceu o concurso de garota do milho, no Colégio Alfredo Dantas. Naquela ocasião, nada me encantou mais do que ver o seu entusiasmo e a sua vibrante torcida. Parecia que a vencedora do concurso era você! Entre essas e outras memórias, também me vejo fazendo-lhe companhia quando foi dar à luz a um dos seus filhos, na Maternidade Elpídio de Almeida. Lembro-me, ainda, de tê-la acompanhado nas lojas de tecidos, sapatarias e na casa da costureira, que ficava nas proximidades da igreja de Santo Antônio. Certa ocasião, aconteceu uma coisa engraçada. Você comprou o mesmo tecido para confecção da roupa do Natal, para mim e suas filhas. E, no dia 24 de dezembro, entre risos e faces ruborizadas, saímos as três a desfilar pela movimentada rua Maciel Pinheiro, rezando para que nenhuma das nossas paqueras nos vissem vestidas como pares ou trios de jarros. Quantas lembranças! Quantas saudades!

Escrever sobre você, nesse momento, é tocar as teclas do computador e, nelas, deixar vir à tona as saudades que sinto da sua luz, da sua alegria, do seu carinho e da admiração que sinto, sobretudo, pela sua coragem de povoar o mundo com tantos rebentos. Não existem mais mulheres assim, com tanta valentia e disposição, nos tempos atuais. Você criou um tempo mágico e fez as suas horas se multiplicarem, de acordo com a necessidade do outro. E, não havia reclamações, nem cansaço, tampouco uma recusa, quando o outro era o filho que exigia mais atenção, cuidado ou que, ao fim de toda essa jornada diária, ainda lhe pedia para sentar-se ao piano e dedilhar o tango La Cumparsita, coisa que executava com paixão. Ah! Tia Creuza, escrever sobre você me trouxe de volta a um tempo feliz e renovou as minhas esperanças por dias melhores. Obrigada!

Um comentário:

chica disse...

Que coisa linda revirar o baú da memória ,nesses dias de quarentena, e lá encontrar recordações tão legais como essa cheia de saudades da Tia Creuza! Adorei! beijos, tudo de bom,TE CUIDA! chica