Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

julho 01, 2014

Quimeras








Há muitas mulheres dentro de mim e, entre tantas, hoje, uma delas vem me visitar... A dama da noite, atrevida e cheia de quereres, pede licença e arde em sonhos... Se despe de pudores !

Uma volta no salão das suas quimeras e o tango argentino de Astor Piazzolla lhe convida a dançar. Rodopiando, ela se deixa conduzir pelo fogo da paixão e sem reservas se entrega: sou tua!

junho 20, 2014

Eu Quero Ser Feliz!












Têm dias que a vida fica mais urgente... Uma saudade aqui, um poema atrevido ali e a dor sai da casa da palavra, para indicar mudança. É a nossa alma cavando todo o passado a unhas, para que uma nova semente possa germinar... O fluxo da vida se impõe!

De repente, nos damos conta de que já não precisamos de tantas marcas e de tanto sofrimento... Nessas horas, as feridas deixam de doer e os dias cinzas que sempre levavam embora os nossos sonhos, agora passam ao largo. É tempo de celebração! Os anos de porão se esvaem e escrevemos no rol das intenções mais sérias: eu quero ser feliz!


junho 15, 2014

Por isso, Eu Desisti do Amor












Tem dias que eu amordaço as palavras porque elas insistem em chamar teu nome. Nessa hora, eu vejo pelo espelho retrovisor e percebo que ainda tem muito sofrimento na nossa história, por isso eu desisti do amor.

Olho para a tela em branco do computador e penso em quantas vezes já escrevi, que tu eras uma página virada no livro da minha vida, para, logo em seguida, deixar que as letras do alfabeto me traiam e deixem explícito o que teimo tanto em esconder... Se a tela fosse uma folha de papel eu a rasgaria só para não ter de confessar, que as minhas frases se vestem de ternura toda vez que penso em ti e, que, nesse instante, a emoção me domina... É que o tempo atropela as horas e o que era dor vira saudade, pois não há como estornar as boas lembranças.

No entanto, um passeio discreto e silencioso pela galeria da memória traz de volta tudo o que passei e eu, enfim, redijo aqui a razão do fracasso do nosso amor de ontem.

Houve uma época em que eu fui cais... Sempre a tua espera. Cumpria a rotina das horas: vestia-me de chita durante o dia e guardava os melhores lingeries para usá-los à noite. Esmerava-me na escolha de bons vinhos, lia jornais e devorava livros. Queria ter assunto após o banquete do amor.

Durante anos, fui à luta e participei ativamente das manifestações populares do nosso país em busca de dias melhores. Lutei por cada centavo desviado dos cofres públicos e por melhores salários. Fiz boicote contra o preço do tomate e protestei, entre outras coisas, quando a conta de luz aumentou. Tudo isso, porque queria de ti o respeito e a admiração.

Dos velhos tempos dei um salto para a pós-modernidade e atualizei-me a respeito das mais novas tecnologias. Fui, também, a encontros literários, discuti sobre a política vigente, tomei ciência da economia do país e das recentes descobertas sobre os mecanismos da mente humana... Queria poder ajudar-te em teus conflitos existenciais.

Por meses a fio desvelei-me em cuidados e carinhos à beira da tua cama. Alimentei-te com a garra, o sangue e o suor da minha esperança para que tu não desistisses de viver... Reinventei-me! Fui tua mulher, tua amante e tua amiga. Fui teu colo e minha morte, pois me esqueci...

Quando, enfim, eu já havia feito de tudo um pouco para dar provas do meu sentimento, tu foste embora. Aí, eu pensei: - ninguém gosta de eternidade!

Por isso, eu desisti do amor.

junho 12, 2014

O Anúncio


Procura-se uma caneca pequena, branca e com um lindo rabisco de uma menina desenhada no verso, semelhante a esta que ilustra o texto. Quem a encontrar favor devolvê-la no endereço citado...

Este foi o anúncio que eu coloquei no jornal, quando dei por falta da minha caneca. Ela me foi dada de presente no dia do meu aniversário e, todos os dias, me fazia companhia no café da manhã. Ninguém soube explicar como desapareceu. Por isso, eu resolvi tornar público o seu sumiço.

Não, não é uma caneca qualquer! A que eu procuro tem asas estendidas, para me acolher nas noites frias e nos momentos de solidão. E, quase nunca está vazia, embora o líquido oferecido seja tão raro, que me obriga a sorvê-lo em pequenos goles para usufruir, lentamente, do conforto de vê-lo aquecendo-me por dentro.

Às vezes, ela se esvazia para se encher de flores só para alegrar os meus dias e têm dias que se enche de uma água tão pura só para saciar a minha sede. E, quando eu digo que não tenho sede, ela se recolhe, discretamente, deixando-se ficar ao alcance da minha mão... Tem momentos que ela fica assim: quieta, parada, silenciosa, mas sempre a postos. No entanto, agora, ela sumiu de verdade. A caneca que eu procuro perdeu-se em cacos e fugiu de mim. De mim e da minha incapacidade de apreciar a sua beleza.

Por favor, quem souber por onde anda a minha caneca, peça para ela voltar.


junho 08, 2014

Engarrafando o Vento


        



Numa manhã de segunda-feira, do mês de maio, eu caminhava pela beira-mar quando encontrei uma garrafa plástica, entre os sargaços. De imediato, coloquei-a na mão direita e saí engarrafando o vento, embora o meu desejo fosse guardar sonhos para vê-los florescer no futuro.

O marulho das águas, o som do vento engarrafado e a solidão do caminho atraíram o meu olhar para o horizonte e eu quis saber, naquela hora, o que me esperava no além-mar: fios de esperança ou farrapos da minha ilusão?

No silêncio do verbo esperei a resposta e segui, pensativa, rasgando o manto d'água que cobria os meus pés... Ao longe, um barco seguia o seu curso, tão solitário quanto o meu. Então, comecei a costurar as minhas lembranças e escrevi na areia da praia: viver será sempre sentir fome da tua presença. Ainda, pensando sobre isto, lembrei de uma frase que li: - a história não tem freio... Não, não tem! Mas, a minha não terá outra versão. Ela será contada, eternamente, enquanto eu folhear o meu dossiê interno e perceber que a dor do abandono, ainda me assombra e dói como da primeira vez.

Por isso, naquele momento em que eu caminhava pela beira-mar, engarrafando o vento, os meus olhos acordaram sonhos e esperançosos, quiseram saber: - o que me espera no além-mar: fios de esperança ou farrapos da minha ilusão?


maio 26, 2014

Um Ponto de Interrogação

Que queres mais de mim?
Se na hora que eu preciso de ti,
tu és tão somente... Um homem?

Quando vou à igreja eu sou a santa;
quando dobro a esquina, a pecadora.
No lar sou dona de casa;
na rua, se me procuras, sou a outra.
De dia sou a mãe de família;
quando entardece, sou a dama da noite.

Se me falas de política, sou eleitora.
De economia, teu banco.
Se chove, sou guarda-chuva.
Se estais sem abrigo, teu teto.
Quando sofres, sou tua amiga.
Se queres colo, sou tua mãe.
Quando adoeces, sou teu remédio.
E se choras, sou teu perdão.

Que queres mais de mim?
Se na hora que eu preciso de ti,
tu és apenas isto... Uma interrogação.

maio 24, 2014

Silêncio


Não leia as minhas palavras. 
Elas só contam mentiras.
Observe o meu silêncio,
pois ele está cheio de intenções e
de desejos postergados.
E, tem pressa!

maio 22, 2014

Palavras













Não se dê tanta importância,
nem me leve tão a sério.
O que escrevo só tem valor,
se estiver em contrato.
Gosto de brincar com as palavras.

maio 21, 2014

Surto de Memória











Selei o meu destino nos bordados da imaginação,
por isso alinhavo palavras, 
enquanto percorro os verdes campos das minhas lembranças.

Hoje, sou sarça ardente...
Tenho olhos de pedinte e um corpo,
esse vulcão em brasa, faminto!
Nesse momento, o meu nome é saudade.

maio 20, 2014

O Bilhete


Meu caro amigo,

Com a rebeldia das palavras comprei a minha carta de alforria. Agora, sou uma casa desabitada. Quem quiser me visitar, daqui por diante, que tire o pó do caminho e entre com delicadeza na minha vida. Mas, não me venha com rótulos, nem com estereótipos de gênero, pois aprendi muito bem a me virar sozinha. Também, no meu novo lar, não aceito alguém que, apesar da passagem dos anos, ainda não desceu do playground. Dispenso gente que gosta de jogos de sedução e de subterfúgios. Só sei amar de cara limpa: entregue! Quem quiser mistério que procure a Agatha Christie. É isso aí... Ponto final!

maio 18, 2014

O Segredo dos seus Olhos



“Os olhos falam demais. Às vezes, é melhor não olhar”.


O título que dá nome a este texto ganhou o “Oscar” de melhor filme estrangeiro em 2009 e, salvo engano, baseou-se em fatos ocorridos há 25 anos, na Argentina.

Lembrei-me dele, hoje, ao constatar o quanto as pessoas se mostram felizes nas redes sociais e nas capas de revistas da atualidade. Felicidade, agora, é um sorriso permanente na máscara que usamos para mostrar ao mundo o quanto estamos bem. Um clique no celular e ela aparece como num passe de mágica nas fotos, nos eventos e nas colunas sociais. Depois disso, é só exibir, alardear e o mundo ficará sabendo o quanto estamos plenos e realizados mesmo que, por dentro, estejamos sangrando...

Mas, e os olhos? Ah! Estes falam demais e como diz acima, às vezes, é melhor não olhar, porque podemos trocar de casa, carro, telefone, emprego... Menos de paixão, pois quando ela nos envolve o nosso olhar denuncia e se torna real a felicidade que apresentamos.

Por isso, é triste ver a plasticidade dos sorrisos falsos e o bem-estar fraudulento que insistimos em levar adiante, só para divulgar ao mundo o quanto estamos bem. É lamentável, também, constatar que, apesar das evidências, ela, a felicidade, estará visível no instante desejado, bastando apenas um clique no celular para tirar a foto e outro para enviar, visto que, dessa forma, o mundo jamais conhecerá o segredo dos nossos olhos.

maio 09, 2014

Quero um Amor sem Fraude






Vem ao meu encontro e recolhe os beijos e abraços, que ficaram retidos na memória do teu desejo. 
Vem desembrulhar segredos, antes que amanheça e se faça tarde...

Não quero mais a sombra do passado rondando os nossos dias. Toma a senha de acesso - do tempo presente - e, lê o avesso das palavras que eu escrevi. Quero um amor sem fraude!

Vem, antes que amanheça e se faça tarde... A noite nos espera! Vem, antes que eu te esqueça!

maio 07, 2014

Tempo de Acordar Lembranças










Uma cortina de chuva veste o instante de saudades e a tristeza põe-se de pé dentro de mim. Nessa hora, o tempo é um rio que corre e leva-me para algum lugar do passado. Começo a alinhavar as letras com cuidado, deixando que os meus dedos, em carne viva, escrevam apoesia sem pele do meu cotidiano.

Sobre a mesa repousam o lápis e o papel, objetos com os quais eu costuro os meus retalhos de saudades. Olho-os e penso: tenho nas mãos a festa, a alegria e no peito, a morte, a agonia. A folha de papel em branco convida-me a escrever, mas a cortina de chuva desvia a minha atenção e o parto da criação é interrompido pela sedução do olhar que serpenteia, agora, pelo rio da minha emoção. São tantas as lembranças! A chuva acordou saudades... Chove, também, nos meus olhos. Tenho no peito a morte, a agonia.

Um som plangente ecoa na solidão do meu silêncio... É o passado, essa saudade agridoce, fazendo-me viajar em pensamentos. Voo na contramão do tempo e perambulo pelos espaços dentro de mim. Procuro gavetas! Abro-as, reviro-as e, só então, começo a costurar os meus retalhos de saudades.

É tempo de acordar lembranças!

PS: As frases em itálico são títulos de livros dos autores: Lya Luft e Lau Siqueira, respectivamente.

abril 17, 2014

Roubando Cartas de Amor






Ontem, ao ver surgir na esquina da minha rua, o carteiro e a sua mochila cheia de sonhos, lembrei-me da menina que roubava livros. ( Markus Zusak - A Menina que Roubava Livros - (2011). O entardecer já começava a tingir o dia com as cores do crepúsculo e eu, ali, parada e sonhando com cartas de amor de um tempo em que as palavras eram como um terço de contas bonitas e perfumadas... Cada letra se parecia com uma Ave Maria rezada ou um Pai e Nosso cantado com devoção, tamanha a sinceridade e a fidelidade ao exercício da escrita. Hoje, elas - as palavras - vestem-se de purpurina e saem, sem pudores, contando mentiras de amor nas ruas, esquinas e bares por onde trafegam os perdidos da noite e suas tristezas ambulantes.

Pensando nisso, resolvi seguir a ideia da menina que roubava livros e pensei: por que não roubar cartas de amor, para alegrar os meus dias?

Cartas de amor são palavras escritas pelo avesso... Não há enfeites, não há purpurina! Somos nós inteiros, expostos em carne viva, escrevendo de um lugar geograficamente nosso. Neste local, onde as palavras saem sem censura, mora o nosso coração e ele bate mais forte à medida que desembrulhamos segredos. Aqui, tomamos posse de uma terra que ao longo dos anos fomos abandonando por medo de sofrer e deixamos a emoção correr solta... Neste pedaço de chão, não há espaço para mentiras, nem meias-verdades. No santuário desta solidão, estamos sozinhos, escutando apenas os sussurros da alma...

Por isso, resolvi roubar cartas de amor. Elas são um banquete para os meus olhos e uma culinária refinada para o meu viver. Estou cansada de ouvir mentiras, na calada da noite.

abril 08, 2014

Ecos da Solidão




A minha alma itinerante se desnuda em palavras, mas ninguém escuta. Abro-me em livro e as páginas correm soltas ao vento... Ninguém me toca.

Sou passageira da utopia.