Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

março 16, 2017

Sou o que Penso









Passado e presente caminham de mãos dadas dentro de mim. Ambos conversam a respeito da passagem do tempo, suas limitações e consequências na vida das pessoas. Um diálogo amigável que eu ouço todos os dias, enquanto observo o desconserto das horas na minha própria vivência.

O pretérito foi um tempo de luz, de alegrias e descobrimentos. Quando quero acessá-lo basta uma volta em torno do cerco da memória e os ponteiros do relógio e o seu girar permanente, nada podem fazer contra a força das lembranças. Tudo volta ao tempo presente, outra vez. Nessa hora, pele ressecada, músculos fatigados, andar pausado, rugas e fios prateados nada disso conta. Sou o que penso, o que sonho. Os meus pensamentos têm asas. E, ... como voam! Na minha memória o arranjo das palavras passado e presente não impedem o meu sonho de sonhar. Continuo sentindo, no corpo e na alma, a força do desejo e da paixão. Eles pulsam com igual intensidade dentro de mim tornando vivo tudo o que é sonho. Passado e presente se confundem.

Por que será, então, que me tornei uma mulher invisível!?

- Ah, tempo presente! Por maior que seja o voo imaginário dos meus pensamentos, eles sempre esbarram no desconserto das horas. O desejo, a paixão e a alegria de viver parecem estar camuflados sob as asas da palavra passado. As pessoas agora olham para mim e só veem os fios de prata que banham a minha cabeça e fazem de mim uma pessoa invisível e assexuada. Ninguém me olha mais com admiração, com interesse, com desejo e tesão. Tornei-me uma mulher respeitável, uma senhorinha de cabelos brancos, a quem as pessoas dão o lugar na fila de bancos e supermercados, e a quem as crianças chamam de vovozinha, mesmo que ao meu lado estejam pessoas bem mais velhas, embora disfarçadas sobre camadas e camadas de maquiagem, tinturas, intervenções cirúrgicas e botox. A ninguém interessa investigar os meus pensamentos. O que é uma pena! Pois, se assim o fizesse, talvez lhe causasse espanto a força do meu querer.

Por isso, é triste constatar que tornei-me uma mulher invisível, apesar da força do desejo que ainda sinto, da paixão e do interesse pela vida, do espanto e curiosidade diante do inusitado e da eterna busca por conhecimento e aprendizado. Vivemos numa sociedade do espetáculo, onde só vale aquilo que prende e chama a atenção... "Tempos líquidos, descartáveis"! Aceitar que os meus cabelos brancos contem a importância do meu passado é uma mera circunstância. Poderia pintá-los e parecer mais jovem. Não o faço! Por convicção e por aceitar que eles por si só, nada dizem sobre mim. A minha juventude e o meu tesão pela vida estão dentro de mim. Sou o que penso!

novembro 13, 2016

A Insustentável Beleza do Amor











Meu Senhor e Meu Deus, tenho dois lobos habitando em mim! Um em pele de cordeiro e o outro em traje de guerra.

Quando dou alimento ao primeiro, coloco a máscara da hipocrisia... O cordeiro que eu sou veste a toga de juiz e, dedo em riste, se propõe a julgar com seriedade e justiça, àquele que está diante dos meus olhos. Ele faz-me sentir maior e melhor que o meu irmão. No cordeiro eu encontro abrigo para a impunidade dos meus erros. Sou uma cidadã acima de qualquer suspeita! Mas, a insustentável beleza do amor que em mim também habita e com quem eu travo uma luta diária, faz-me enxergar o outro, em mim. Nessa hora, viro-me pelo avesso e, em confissão, assumo as minhas culpas rogando a Deus que escute a minha prece e conceda-me o seu perdão.

- Meu Senhor e Meu Deus, carrego sobre os meus ombros os pecados do mundo. Sou a adúltera,  Judas e o fariseu. Sou a insustentável beleza do amor lutando, cotidianamente, com a face oculta dos meus pecados, das minhas mazelas e das minhas imperfeições.

Confesso que, entre tantos pecados, tenho inveja do sucesso dos meus inimigos, da vida boa do meu vizinho, da riqueza que não conquistei, dos louros que me negaram, do amor que eu não recebi e dos filhos que não gerei.
Por isso, a partir de agora, quero imolar o cordeiro de dedo em riste e aceitar as minhas imperfeições. 
Quero que a insustentável beleza do amor que em mim também habita, me aponte os passos trôpegos que eu dou no caminho da perfeição, e lembre-me da importância da misericórdia, da compaixão e da tolerância, principalmente, na hora em que eu finjo que não são meus os erros dos outros e sigo olhando para a humanidade com a máscara da hipocrisia, da seriedade e da justiça.
Desejo, que Tu, Meu Senhor e Meu Deus, me faças lembrar todos os dias quem eu sou, para que eu não me arvore em juiz do meu semelhante. 

Por último, eu encerro essa confissão com uma pergunta e um pedido: afinal, Meu Senhor e Meu Deus, quantas pedras ainda irei atirar em meu irmão, só para me sentir mais e melhor que ele? A insustentável beleza do amor já expôs o meu avesso, a face oculta da minha humanidade. Por isso, eu te peço: tende piedade dos lobos que habitam em mim e conceda-me o teu perdão!

outubro 19, 2016

O Que nos Move?









Não tenho a pretensão de ser dona da verdade, nem de impor regras como fazem os semideuses de plantão, tampouco almejo os louros da academia. Sou iletrada! E, como tal, me encanta apenas distrair-me com as palavras, de maneira lúdica, para pôr ordem no caos dos meus pensamentos e, aos poucos, ir aprendendo a difícil arte de me fazer entender por meio da escrita. Antes dessa maneira, do que permanecer analfabeta.

Dito isto, começo a juntar as letras espalhadas pelo terreno das minhas ideias, para formar uma frase e, com as mãos, em prece, faço um pedido aos Mestres e Doutores em Letras e Linguística, para que não me julguem, nem condenem o meu português ruim, muito menos se atenham tão somente as pausas do meu respirar, por que nas vírgulas, ponto e vírgulas, exclamações e interrogações estão a minha dificuldade em escrever corretamente. Coerência e coesão, também nem se fala, sou um poço de contradição. Às vezes, o que deito nas pautas do caderno, mais parece um “samba do crioulo doido”. Li pouco, muito pouco! Quase nada. Daí a minha dificuldade em interpretação de textos! Porém, do que leio, hoje, procuro quedar-me nas entrelinhas, no não dito, explicitado.

Por isso, nesse momento em que se fala tanto em Prêmio Nobel de Literatura, eu me pergunto: qual o sentimento que nos move, quando um estranho ao ninho recebe distinção que julgamos sermos merecedores? Qual a diferença entre fazer literatura ou a letra de uma canção, que não seja a de fazer pensar, agir, atuar? Quem de nós pode dizer que pelas mãos de Chico Buarque e Caetano Veloso ou de tantos outros cantores-poetas, não saíram as mais belas e inteligentes canções de protesto, que tanto motivaram gerações e gerações a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária. Por que tanta celeuma em torno da premiação de Bob Dylan?

O que nos move?


setembro 16, 2016

Um Amor Crepuscular










Quando eu era jovem, o amor se apresentou a mim como uma fase de “puro fogo e ardor sem fronteiras”, colocando o meu coração em desalinho. Tudo era desvario, desassossego, excesso, vaidade... Xeque-mate! Passados os anos e somadas as experiências posso garantir que, hoje, eu sei amar mais e melhor que outrora. Já não doem em mim as letras mortas de um juramento que o tempo não ratificou. Tampouco me incomoda se sou trocada por alguém com mais atrativos que eu. Já não ardem em mim as firulas do ego, nem os arroubos da juventude com suas dores e seus dramas intermináveis. A essa altura dispensei as algemas e descobri que não sou metade da laranja de ninguém. Nasci inteira! Nessa fase crepuscular, tenho mãos de ternura e um desejo imensurável de ser e fazer feliz a quem está ao meu lado. Sou a adição do que aprendi ao longo dos anos e, isso, consequentemente, me torna uma pessoa melhor: mais paciente, solidária, tolerante e mais sábia.

Porém, o amor, nessa fase crepuscular, me credencia também a ser mais seletiva e a não desperdiçar os anos que me restam com coisas de somenos importância... Não gosto de quem, apesar da passagem dos anos, adora brincar no playground. Não gosto de gente que anda à procura de uma ninfeta para validá-lo. Não gosto de gente que usa o outro como muleta, para provar ao mundo aquilo que já não é mais capaz de fazer. Gosto de pessoas em paz com os números, com as suas rugas, com os seus cabelos brancos e com a sua pouca habilidade em trapacear mentiras de amor. Gosto de quem gosta de si, pois, em assim sendo, não necessita de mim, para provar quem não é. Gosto de quem antes de se habilitar a despir o meu corpo, procura desnudar a minha alma. Gosto de gente, para quem a vida, agora, é muito mais alma, muito mais calma. Gente, que saiba apreciar um lindo pôr-do-sol, um banho de chuva, de mar, de poesia, que ainda saiba andar de mãos dadas e não tenha desaprendido o sabor da pipoca, numa tarde de cinema. Gente, para quem fazer amor, vá muito mais além do que o instante, as palavras, a pressa, o desassossego, o desvario, o ardor e o fogo da juventude. Porque amor de verdade, de verdade mesmo, se faz e se sente é pelo olhar...

agosto 25, 2016

Um Breve Relato sobre Mim


Hoje, não há memória! Tudo é silêncio! Olho para o teclado do computador e as letras se retraem advertindo-me que, nesse momento, eu não tenho autorização para brincar com as palavras. Parece que careço dessa ausência, para que o impulso verbal não me leve a escrever o que não devo. No entanto, é desse silêncio que emerge os primeiros passos em direção a geografia do meu viver e ao certificado da minha existência. Quem eu sou? Você quer saber! Então, para lhe responder, resolvo fazer um breve relato sobre mim.

Sou terra. Tenho raízes profundas... Não é qualquer ventania que me põe abaixo: sou como o bambu, envergo, mas não quebro. Na cartografia dos meus passos eu nunca pus a minha alma em risco, pois a medida da minha vontade e o do meu desejo passa, antes de tudo, pelo respeito ao outro. Sou movida a utopia e as asas da minha imaginação se estendem em direção ao bem-estar comum. Sonho com um mundo mais justo e igualitário, onde a “globalização da solidariedade” seja a meta de todos. Sonho com um lugar alforriado das ditaduras das leis e daquilo que segrega e discrimina. Sonho com um lugar que não hospede semideuses de plantão e suas certezas de pedra. Um lugar onde o avesso da palavra seja também reverência ao outro, e de onde nunca sejamos instigados a rasgar o véu da hipocrisia e da exacerbação do eu.

Gosto de relembrar acontecimentos que apontem os perigos do ego e que me deem a real dimensão da minha humanidade, pois a roda gigante da vida não para de girar... Sou avessa a deslumbramentos e à glória do poder. Preconceitos? Nenhum! Só com quem tem preconceito... Na minha travessia existencial, a ladainha da esperança é reza forte, porém, procuro mudar primeiro a mim, para depois mudar o mundo. Certezas? Tenho! Sou um aprendiz do caminho... E, do amor, tudo o que posso dizer é que sou leal, mas não admito cabresto. Quero liberdade para mostrar quem sou. Por isso, se você quer saber mais sobre mim, que se aproxime, mas antes tire o pó do caminho e entre descalço na minha alma, pois ela urge um tempo de sonhos e delicadezas.

julho 31, 2016

Me Conte um Conto















Escrevo na tentativa de distrair a minha timidez... Um diário tardio de quem ao longo da vida acorrentou um espírito de criança, num corpo de mulher e, assim, viu nascer as primeiras rugas, os primeiros fios de cabelos brancos, a flacidez da pele e as cicatrizes, mas deixou preservada a alma desse estranho capricho da natureza a que damos o nome de tempo. É que dentro da mim só a linguagem da emoção faz barulho e, quando isso acontece, as dores e alegrias desaguam nas pontas dos dedos, como se fora um pincel, incentivando-me a pintar palavras e escrever histórias.

Nessa hora, pedaços do tempo, em seus tons sépia, desarrumam as gavetas da minha memória e tudo se transforma em saudades: a minha primeira boneca; o parque de diversões; o circo com seus trapezistas e palhaços malucos, (para aonde eu era levada pelas mãos do meu tio Francisco); os sabores dos picolés da Sorveteria Flórida; o algodão doce do seu João; o refresco de coco do seu Zé e o colégio Alfredo Dantas onde aprendi as primeiras letras com a professora Marly. Ando sentindo saudades de tantas coisas, principalmente do cheiro de terra molhada e do orvalho a salpicar lágrimas na horta da minha mãe; do balanço feito de tábua, travesseiro e corda a embalar os meus sonhos infantis; do pé de flamboaiã a ensinar-me como voar sem ter asas e dos fogos juninos a incendiar as noites do São João.

Nas minhas lembranças ainda estão hospedados os melhores lugares e momentos que vivi na infância: a ida à Livraria Pedrosa, depois de encerradas as aulas do colégio, e a rede de balanço onde eu lia todos os livros de histórias que caíssem em minhas mãos. Foi aí onde começou o meu hábito de leitura. Foi aí onde eu comecei a brincar com as palavras e foi aí onde eu deixei o meu coração de menina habitar para sempre a casa dos sonhos.

Por isso, quando chove saudades no terreno das minhas lembranças e o cheiro da grama molhada me faz criança outra vez eu caminho pelo calçadão da memória onde tempo é saudade e peço a minha mãe, que há muito partiu, encantada pelo brilho das estrelas:

- Minha mãe, me conte um conto! E, ela, ocupada, responde:

- Depois eu conto!



junho 26, 2016

O Preço da Solidão











A página em branco que se apresenta a minha frente é um deserto clamando pelo avesso das palavras, mas o avesso das palavras sou eu, nua, em autobiografia. Sou eu alforriando as letras para que elas me revelem, me desalojem de mim mesma. Sou eu quebrando o silêncio para negociar o preço da solidão. Porém, não é isso o que desejo!

Por isso, permaneço silente, desértica, despovoada até esgotar-se essa saudade de tudo o que não vivemos...



Crédito de Imagem: http://armindoalves.blogspot.com.br/

maio 27, 2016

Cenas do Cotidiano


Quando eu pensei que já havia me habituado a essa "modernidade líquida" e que nada mais me surpreenderia, eis um fato novo a remexer e a desalinhar as gavetas da minha memória, sacudindo e trazendo à tona as minhas saudades esquecidas.
Nada de tão grave aconteceu, mas foi chocante o suficiente para mudar a minha atitude em relação ao mundo digital. Naquela hora eu percebi: sou antiga, saudosista, uma peça de museu... 
Sou uma imagem aprisionada nas pausas de fotografias, onde não cabe a liquidez das lembranças que trago hospedadas no peito.

As cenas do cotidiano que passo a descrever, agora, me constrangem. 
Provocam em mim, vergonha alheia.

Fui ao velório de um familiar e na hora em que o padre começou a encomendar o corpo alguém, em alto e bom som, começou a falar ao celular.
Na missa, na hora da homilia, aconteceu a mesma coisa.
Em teatros, cinemas e reuniões as luzes dos celulares espocam e eu me pergunto: por que essas pessoas estão aqui, se não desfrutam do momento? 
Nos restaurantes, lugar de encontro e confraternização, agora só se veem pessoas, entre uma garfada e outra, de cabeça baixa, olhando as mensagens do WhatsApp. 
Tudo é silêncio e solidão.

Enquanto isso, a comida esfria, mas está lá nas redes sociais, linda e colorida, para todo mundo ver e aplaudir. 
Tudo isso e mais algumas cenas absurdas do cotidiano têm me deixado aflita. 
Que futuro terá a humanidade, eu me perguntei, se aquele casal que já beira os 75 anos, se acomoda em um banco de praça, à distância de quase um metro um do outro, e sacam os seus celulares como se o tempo lhes fosse favorável e nada de mais importante houvesse para ser dito... 
Aquela foi a última cena que vi. 
De imediato, lembrei das frases suspensas que tanto nos incomodam no fim da vida: e, se... eu tivesse dito, feito, perdoado, amado...

Diante disso, antes que essa "modernidade líquida" me sufoque e me faça mergulhar na mais profunda solidão, eu resolvi sair do Facebook, esquecer um pouco o WhatsApp e me desligar de vez em quando da Internet...
Vou procurar os olhos e a companhia de quem me ama. 
Quem sabe ainda dê tempo de reconstruir afetos e espalhar ternuras. 
Quem sabe os ponteiros do relógio não atropelem o tempo e me deem a oportunidade de acender uma fogueira para ouvir o outro: pai, mãe, filho, amigo ou amante até o apagar da última chama. Quem sabe?


Imagem: Sarah Mesquita

abril 30, 2016

Memórias em Carne Viva















Hoje é o meu aniversário e eu pergunto ao tempo: - tempo, tempo, tempo... Que queres tu de mim? Palavra, discurso... Verbo?

Olho-me no espelho e vejo a poeira dos anos assentada sobre os meus cabelos. Disfarço! Depois, faço-me uma indagação: - o que revelam esses fios de prata que, contra a minha vontade, banham a minha cabeça em noites de lua cheia? Não os renego, afirmo, porém eles não me definem!

Volto-me novamente para o espelho e procuro enxergar uma senhora circunspecta e ensimesmada, mas só encontro a menina moça, alegre e faceira, que um dia habitou em mim. Nela, havia uma rebeldia latente que os ponteiros do relógio não conseguiram deter... Sou, ainda, essa menina em flor, desabrochando. E, no meu corpo, feito tatuagem, ardem memórias em carne viva. Sou verbo sem tempo.

março 30, 2016

Destino versus Escolhas










A vida é um tecido fino, bordado de tantos e tantos fios que se entrelaçam para tecer o nosso destino. Destino: acaso, acerto, fatalidade, sorte ou responsabilidade por nossas escolhas? Você decide! E, paga o preço...

Todo dia é um recomeço. Somos convidados para olhar o que foi vivido e, sem medo, reinventar a nossa trajetória. Alguém já disse que crise é tormenta, mas também possibilidade de reformulação interior. As fraturas do cotidiano estão sempre ali, no porão da nossa alma, marcadas pela dor, mas não devem nos desestabilizar, nem tirar do lugar de onde nos reconhecemos imperfeitos. Permitir que “diálogos costurados por outras vozes” nos definam e tracem o caminho que devemos seguir, é fugir da responsabilidade, é pôr no outro a culpa da nossa insegurança, do nosso medo e da nossa incapacidade de virar o jogo e transformar o dia a dia.

Estamos presos à zona de conforto. Vamos costurando o tecido da nossa vida, sem virar a página. Há sempre alguém a quem culparmos pelo nosso desassossego: é o pai, a mãe, a sogra, o namorado/marido que não nos respeita nem compreende, o patrão que não reconhece o nosso valor, o amigo que nos trai, a concorrência desleal, a falta de oportunidade, de dinheiro, de emprego. É o estado e o governo federal que não funcionam e por aí vai. Como disse Sartre: “o inferno são os outros”. Os outros e não, nós! Nós, que somos responsáveis por nossas escolhas e que, em determinados momentos, somos arrogantes e presunçosos o suficiente para não ouvirmos as ponderações de quem já viveu e tem mais experiência. Nós, a quem a vaidade fala mais alto e o egoísmo impede de enxergarmos quem está a nossa frente. Nós que, na maioria das vezes, nos vestimos de bons samaritanos, para escondermos a face oculta do ódio, do desprezo e repulsa que sentimos pelos nossos semelhantes. Nós que, no disse- me- disse propagamos a infâmia, a calúnia e destruímos a reputação de alguém a quem, muitas vezes, mal conhecemos. Nós que, em inúmeras ocasiões, tivemos a chance de fazer algo diferente, porém optamos por seguir em bando, em sermos massa de manobra para fins escusos. Nós, que vivemos de dedos em riste e a todo instante nos vestimos de árbitros, de juízes da humanidade, olhando por cima, mas incapazes, sem coragem e envergadura suficiente para subir no palanque e fazer a diferença...

Por isso, quando o desassossego bater à nossa porta e quisermos encontrar um bode expiatório para os nossos erros, não devemos nos abrigar em um lugar seguro, confortável. E que nos exima de culpa. Devemos sim, hastear a bandeira da liberdade e dizermos: nós somos as nossas escolhas... E, pagarmos o preço justo por elas!

fevereiro 29, 2016

Uma Carta para Meu Amor




Meu querido,

Há bastante tempo eu desejo ter uma conversa franca com você, mas discutir a relação é um termo que põe em fuga a maioria dos casais. Por isso, resolvi escrever esta carta. Quem sabe assim, longe do debate acirrado sobre quem tem ou não razão, a terra sedenta das nossas emoções possa ser arada e uma nova sementeira de palavras, gestos e ações se transforme em poesia a se derramar pelo resto dos nossos dias... Como antigamente!

Quando você foi embora fez-se solidão em minha vida, porém a mão do tempo deixou impresso, nos meus dias, uma doce sensação de liberdade. Tive pressa em ser feliz e a partir de então, passei a conjugar os verbos na primeira pessoa do singular: eu quero, eu posso e eu faço. E, fiz! No singular editei a pior parte de mim. Fui Narciso de muitos espelhos! Vivi intensamente a minha alforria. Contudo, agora, quero firmar um contrato na primeira pessoa do plural, esse plural que atende por nós e que é solidário, agregador, companheiro e cúmplice. E, em sendo assim, eu lhe proponho que a partir desse momento sejamos dois em um. Vamos acabar com esse silêncio que nada preenche, com essa dor que vive catalogando más lembranças, para apagar dos arquivos da nossa memória o tempo feliz que vivemos...

No passado, tudo nos caía bem: sonhos, desejos, projetos e passos. Vivíamos carregados de urgências e expectativas. “O meu pedaço no universo era no seu corpo”, e vice-versa. A nossa alegria era ruidosa! Depois, tudo o que restou foi divisão. Foi tecido esgarçado pela troca de farpas. Nada mais era nosso: nem casa, nem sonhos, nem desejos, nem projetos, tampouco os nossos filhos que passaram a serem objetos de alienação parental. O nosso futuro foi saqueado e a nossa felicidade sequestrada em troca de uma liberdade provisória, que só o tempo poderia confirmar... Quem for mais fraco que se renda! Esse era o tom das nossas últimas conversas.

Não, eu não quero mais discutir sobre quem estava com a razão: quem errou mais, quem amou de menos ou quem se deu demais. No amor não há troca, tudo é doação. E doação é o amor em estado puro. Quero apenas lembrar que um dia fomos um casal jovem, bonito e idealista e por livre e espontânea vontade nos escolhemos. Quero lembrar também que a moça encantadora e sexy que agora, por ventura, povoa os seus sonhos, amanhã será uma peça de museu. Que as noites de farras, bebidas e carteados um dia chegam ao fim. Que o dinheiro, o sucesso e o poder que você amealhou ao longo do tempo, a qualquer momento pode trocar de mãos e, quanto ao sexo, nem sempre é possível o milagre da pílula azul, nem outras providências... Nada é permanente, exceto a mudança! E tudo o que posso dizer – de mim - enquanto escrevo, é que eu não quero mais amar você assim com tanta pressa. Eu gosto mesmo é da eternidade, das coisas sólidas e profundas o suficiente para encher os meus dias de alegria, contentamento e esperança.

Nesse momento, a minha memória afetiva passeia por lugares onde o futuro não alcança e uma dança festiva de olhares em movimento percorre caminhos, paisagens, sons, cheiros e lembranças de nós dois... Coleciono saudades! E, você? Por onde andam os seus pensamentos, sonhos, projetos e desejos? Já se deu conta de que sozinho somos bem menos?

Por ora, tudo o que posso resumir neste espaço final de linhas, intercalado por vírgulas e interrogações, é que a “solidão do único cálice de vinho” ainda me queima o corpo e a alma. Não quero mais saber de brigas, nem discussões. Quero amar como antigamente... Pois, todo o resto que em nós excede é orgulho, vaidade e poder. É dominação!



janeiro 30, 2016

Uma Carta para Juliana



















Minha filha,


Os ponteiros do relógio avançam vertiginosamente, provocando mudanças e saudades na paisagem dos meus dias. Tudo corre célere, indicando que a hora da despedida se aproxima. Tu vais partir! Na mala roupas, sapatos, livros e quinquilharias... No baú da memória, cantinho interno de tuas emoções perfumadas, imagens, recordações e falas se desenrolam, lembrando-te o meu conselho: - “embala coisas, fecha malas e tranca portas, mas, como um viajante sem pouso, leva as tuas raízes, essa semente germinada pelo amor e pela promessa de que sempre terás para onde voltar”... Porém, agora, é hora de te ver partir! Bem sei como é difícil esse momento. Dentro em pouco, a cor do tempo vai desbotar as tuas lembranças e me restará apenas a certeza de que nada será como antes, por isso, essa carta e a minha súplica: escuta o som dos meus gemidos, mas antes que eles te enfraqueçam, aumenta o volume da canção dos teus sonhos e segue. O meu amor te dá asas.



Crédito de Imagem: Armindo Alves

dezembro 19, 2015

Confissão de Amor












Na oficina do tempo ela guardou um olhar de saudade e durante anos a sua vida foi só isso: esperançar. Nos papéis em branco acordou memórias, costurou letras, teceu sonhos e vesti-os de amor, para que ele percebesse nas entrelinhas a colcha de retalhos que ela cerzia com saudade e esperança, enquanto aguardava por uma resposta ou explicação que nunca veio... Distraia-se relendo velhas cartas e revendo fotografias que, vez ou outra, tirava do fundo de uma gaveta só para editar as lembranças dos dias felizes que passaram juntos, pois naquelas páginas amareladas ainda dormiam as frases de um amor rubro e, nas pausas das fotografias, a doce esperança de um reencontro. Mas, agora que estava prestes a fazer a viagem final, decidiu não mais esconder a chama daquele amor que a consumiu por tantos anos. Chega de entrelinhas, de parágrafos suspensos e de evasivas! Chega de guardar saudades! Amava aquele homem desde os seus 15 anos de idade e por mais que a atitude dele tenha desarrumado a paisagem dos seus sonhos, nada do que ele fizera tinha importância naquele momento em que as recordações contavam a história de um amor para além do tempo. Amava-o e isto lhe bastava.

Pensando nisso, enviou-lhe esta confissão de amor: - “não procure mais descobrir o destinatário das minhas palavras de amor. Elas foram e, sempre, serão para você. Adeus!”


Crédito de Imagem: Existe um Olhar (o blog da minha doce amiga Manu)

novembro 10, 2015

O Real Valor das Letras












Ah, as palavras! Como elas se exibem! Chegam saltitantes, vaidosas e orgulhosas em seus vestidos de cetim desejando o brilho das estrelas. Vaidade. Tudo é vaidade!

(...)

Então, eu lhes falo do tempo, do passado, das coisas idas e findas. Nada mudou, apenas a arte de dizer a mesma coisa com outra linguagem. Tudo se repete, gerando cansaço, frustração e apatia.

Somos todos iguais nessa busca pelo celeiro dos signos linguísticos, ansiosos em dar vida às letras. Palavras são gastas, frases e orações desperdiçadas esperando por ações que nunca chegam.

É a cupidez do homem enterrando as palavras, que nada mais anseiam senão a própria vida: prática, ação e exercício contínuos. Nunca, letra morta, vazia, inútil e sempre em busca dos louros das academias.

Validá-las! Esta, talvez, seja a maior honraria que elas desejem. Sair do papel e alcançar às ruas, ruelas, becos e avenidas... Fazer-se luz na escuridão e o pão de cada dia na boca do analfabeto, dando-lhe a consciência de cidadão para que ele possa escrever a história e reinventar a vida desse país.

outubro 25, 2015

O Outro - Um Reflexo de Mim
















O silêncio da página em branco me toma de assalto novamente. De repente, falta-me assunto para costurar as palavras e as horas correm céleres lembrando-me do compromisso que assumi comigo mesma de escrever pelo menos um texto por mês, para alimentar o meu blog, “Reconstruindo Caminhos”. Na verdade, não é que faltem temas palpitantes, o que ocorre é que vivemos uma época em que nada do que é dito é mais novidade. Tudo já foi escrito a respeito de tudo. Nas páginas dos jornais, revistas, livros e em outros meios de comunicação abundam sangue, suor, lágrimas e indignação pelas injustiças e despautérios. São poucas as alegrias! E são tantos os absurdos, que não me parece desatino dizer que a humanidade está no limiar da irracionalidade, pois a lâmina do verbo corta a nossa carne todos os dias com as suas manchetes sangrentas e lacrimosas, enquanto seguimos lépidos e fagueiros ignorando as palavras, como se nada daquilo pudesse nos atingir. Imaginamos que é sempre na casa do outro que a dor bate primeiro. O outro, esse corpo ausente, mesmo que passeie todos os dias diante dos nossos olhos e de quem nós só escutamos falar, porque estamos sempre muito envolvidos com os nossos pequenos dramas e espelhos. O outro, esse ser invisível a quem chamamos muitas vezes de amigo, de irmão, porque habitamos o mesmo planeta, mas para quem não voltamos o nosso olhar compassivo, nem a nossa condescendência. E, quando falo aqui de compaixão e compreensão, não me refiro ao acolhimento das diferenças de gênero, raça ou etnia, pois isso é coisa natural em quem é emocionalmente equilibrado. Falo, principalmente, de fazer ao outro aquilo que gostaríamos que fizessem a nós mesmos, porque em algum momento da nossa vida a fatura dessa conta vai chegar, lembrando-nos que somos responsáveis uns pelos outros e que a verdadeira justiça é receber de volta todo o bem que fizemos em forma de amor, carinho, compreensão... Não é à toa que temos conforto nas palavras da Bíblia: “porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo”.

Por isso, quando olho para o relógio e vejo o tempo presente sendo desembrulhado e os instantes se desalinhando numa corrida veloz, permito-me reescrever o que já foi dito, para desembotar a razão. Dessa forma, mais uma vez pergunto-me: que tempo é esse que nos faz cegos, surdos e mudos ao sofrimento alheio? Por que agimos como Narciso, achando feio o que não é espelho? Para onde vamos nessa maratona sem fim, de vaidades e orgulhos descabidos? E quais serão os efeitos dessa competição, quando chegar o ocaso de nossa vida? Estaremos sozinhos ou cercados de afeto e carinho? Se sozinhos, de que nos valerá títulos, posses e dinheiro? Para onde irmos? E que mão nos guiará, quando os nossos passos estiverem trôpegos? Essas são interrogações que precisam de respostas rápidas e honestas, pois chegará o momento em que nos lembraremos de nós e do outro, duas faces da mesma moeda. E, ao ser medido, teremos de volta o bem que fizemos ou mal que causamos. Não se trata de olho por olho e dente por dente. Essa é a justiça em que acredito: recebo de volta tudo aquilo que ofereço ao outro... Diante disso, sinto-me responsável pelas escolhas, comentários e atitudes que tenho a favor ou contra o meu amigo-irmão. Essa é a lei mais justa, porque me tira da zona de conforto, onde sempre me coloco como vítima, e me faz refletir na responsabilidade que eu também tenho de manter o diálogo, a concórdia... A paz!