Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

janeiro 16, 2020

A Cadeira e o Olhar






Esta cadeira tem mais de 100 anos. Ela pertencia ao meu Pai/Avô, Chico Maria, e estava sob os cuidados de sua filha Marluce. Hoje, depois de um belo e minucioso trabalho de restauração, feito pelo artista plástico, Lairson Beserra, tive a grata surpresa de recebê-la, de presente, pelas mãos da minha sobrinha Rosário. Nela, vou ninar o trineto de Pai/Velho e contar a história a seguir. 


A Cadeira e o Olhar


O olhar de uma pessoa reflete a sua alma! Existem almas para todos os gostos! Há os que olham para esta cadeira e veem apenas uma cadeira, outros veem uma história... Uma vida! Vou contar-lhes sobre a minha visão, pois ao revisitar as gavetas da memória, “o tempo, este compositor de destinos,” costura a minha vida com doces lembranças, à medida em que viro páginas e páginas de um passado ainda tão recente. Pois bem, hoje, ao deparar-se com a imagem desta cadeira, o meu olhar transbordou de saudades e as lembranças foram se debulhando, uma a uma. A primeira delas foi a figura do meu pai/avô, Chico Maria, sentado sobre esta peça de mobília tão antiga, contando com mais de um século de existência. Então, lembrei-me de uma frase do escritor Ivan Martins: “o tempo pode ser adiado por fora, mas por dentro ele se instala”. É, o tempo se instala quando nos permitimos acessar recordações, que ficaram preservadas na memória como se fosse um relicário. Nesta hora, fatos, paisagens, lugares e pessoas costuradas dentro da gente contam a história a seguir.

Era um dia de sábado. Dia de tensão! A cadeira de balanço não balançava! Nela, um senhor de aspecto severo e circunspecto contava as cédulas, enquanto o suor lhe escorria pelo rosto. Havia chegado da feira livre, há poucos minutos, e o balaieiro (homem que carregava em um balaio as compras dos fregueses) ainda esperava pelo seu pagamento, quando eu, menina, aos 4/5 anos de idade começava a cantilena:

- Painho, me dá minha mesada! Ao que ele respondia:

- Menina, não vê que eu estou ocupado?

E, eu, insolente, continuava com a minha ladainha, a cada cinco minutos:

- Painho, me dá dois mil reis; - Painho, aumenta a minha mesada, até ver a paciência dele esgotar-se e ouvir em alto e bom som: 


- Menina, tá pensando que dinheiro é hemorroida?

Na minha inocência eu não entendia a comparação, mas me calava, pois sabia que a insistência me levaria ao castigo. Horas depois, bem mais calmo e apaziguado com as suas contas, ele me botava no colo e me entregava as tão sonhadas moedas, junto com um cacho de pitombas que ele comprava para mim, e para o meu irmão, Chiquinho. Aí, lá se ia eu a correr atrás do sorveteiro; do homem que vendia algodão doce; do pirulito de chocolate, da venda de seu Nilo e das macaíbas e jatobás da feira livre. Em um instante, acabava-se o meu suado dinheirinho e eu voltava para casa satisfeita com as compras que adoçavam a minha vida e a minha boca. Mas, sim, estávamos falando de uma peça de mobília! À medida que o calendário dos dias ia passando, as palavras do meu pai/avô se faziam habitar em minhas lembranças, de maneira indelével. Sentado na sua indefectível cadeira de balanço ele espreitava o tempo e contava histórias. Como esquecer a sua viagem de João Pessoa à Campina Grande, a pé, enquanto a fome lhe dava um nó nas “tripas”, até encontrar a casa do compadre, no meio do caminho. Ali, lhe foi servido o melhor caldo de um feijão que restou na panela e, que a cozinheira colocou em prato usado e limpo, com um pano de prato tão sujo, que até o pano de chão parecia mais asseado. Como não lembrar das conversas, lições e valores passados como honestidade, honradez, dignidade e, mais que tudo, do cumprimento da palavra empenhada!? Da sua cadeira de balanço eu vi a vida passar em exemplos de solidariedade e de justiça, entre tantos. Vi também o seu ar de preocupação e perplexidade quando o seu filho Chico sofreu um acidente de carro; quando o padre da igreja trouxe notícias do outro filho, Tota, que se meteu em uma encrenca; quando lhe trouxeram a notícia de que seu genro Sebastião havia sido assassinado, ao apartar uma briga numa festa de São João e, quando lhe informaram que a sua neta Eliane havia fugido, para se casar com George, o namorado da juventude. Na mesma cadeira de balanço espreitei as suas negociações com Zé do Sedo, com dona Judite, a famosa doceira de Campina Grande, responsável pelo bolo, doces e salgados do casamento de sua filha Marluce. Ouvi as conversas e os ajustes dos empréstimos aos amigos e a confiança ilimitada de que o fio de bigode valeria mais que uma nota promissória assinada, mesmo contrariando o conselho de sua esposa, que o alertava para um possível calote. No entanto, nada o demovia de suas convicções. Um homem só tem uma palavra, dizia você: - sim ou não!

É, Pai Velho, foram tantas as lições aprendidas sem que uma única palavra fosse emitida, nesse sentido, que o eco das suas palavras ainda ressoa em mim. E, agora, quando olho para esta cadeira, me perco nas saudades e fico parodiando a letra da canção, “Naquela Mesa”, de Sergio Bittencourt: “ nesta cadeira `tá’ faltando ele e a saudade dele ’tá’ doendo em mim.” Ao tempo em que também agradeço por tê-lo por perto na época da minha formação como mulher e cidadã. Obrigada, Meu Pai!

outubro 20, 2019

Uma Carta para Mel


Querida Mel,

Há sete anos você chegou a minha casa com ares de ventania. 
Vinha da Região Centro-Oeste do País. A cidade de Rio Verde foi o seu primeiro lar. 
Ao vê-la pela primeira vez, na casa do meu filho Gilberto, senti pânico, medo e uma sensação de morte iminente. 
Diante de mim estava uma cadela da raça Pit-Bull. Raça que, durante uma certa época, foi notícia nos Jornais e TV´s, principalmente, em manchetes sangrentas. Tanto, que alguns desavisados, em sua sanha, já se alvoroçavam propondo a sua extinção. Quanta ignorância! 
Mas, o tempo, senhor da razão, desceu um manto de silêncio sobre o assunto, quando ficou provado que eram os criadores, os responsáveis pela ferocidade dos seus cães e, assim, você pode viver tranquila por quase onze anos. 
Pois bem, hoje, senti vontade de escrever só para lhe dizer que apesar de termos chegado ao século XXI acumulando conhecimento, experiências e descobertas, em vários campos de atividades, sabemos muito pouco sobre o amor e os afetos. 
Por isso, esta carta. Quero lhe falar de amor, de saudade e gratidão, mesmo que seja difícil, nesse instante, encontrar o caminho das palavras. 

Faz oito dias que você foi sacrificada. O câncer atingiu os seus órgãos vitais e a morte tornou-se urgência diante dos uivos de tristeza e dor que emitia.
Naquelas horas, eu rezava e pedia a Deus que não a deixasse sofrer. 
Mal começava o dia e eu administrava os remédios, em horários regulares, para minimizar as dores e adiar a sua partida.
Foram três semanas de intenso sofrimento: meu e seu. 
Transferi as minhas roupas e a TV para o quarto de hóspede e fiz vigília por todo o tempo em que durou a sua agonia. 
Deitei no chão para ficar mais próxima de você e rezei, enquanto alisava a sua cabecinha. 
Falei da minha gratidão por ter sido escolhida, entre tantos, para ser sua companhia constante, relembrei nossos melhores momentos e cantei para embalar o seu sono. Naquele momento, ouvi pela última vez algo que sempre me surpreendeu: você suspirar ao som de sua música preferida: “Nessa Rua tem um Bosque”, tocada por Heitor Villa-Lobos. 
Mas, aos poucos, você foi dando sinais de que ia me deixar.
Os uivos de tristeza e dor, antes esporádicos, tornaram-se mais frequentes. 
A cena do café da manhã que antes tomávamos juntas - você sempre arranjava um jeito de deitar a cabeça em minha perna, enquanto eu tomava a primeira refeição do dia – foi substituída por uma distância de poucos metros, o suficiente para que eu visse o seu olhar carregado de promessas, dizendo-me: - sossegue, eu ainda estou aqui! 
As subidas aos degraus da escada que levam ao meu quarto, tornaram-se um tormento para mim. Eu subia e ao olhar para trás, via os seus olhos tristes, sem vida, querendo me acompanhar, em um esforço vão. 
Foram duas tentativas e você rolou escada abaixo a partir do quarto degrau. 
As suas patas, antes tão ágeis, ficaram inertes. 
Os dias foram passando e os seus uivos de dor feriam mais e mais os meus ouvidos e o meu coração.
Quando me pediram para autorizar a sua partida e acabar com o seu sofrimento, eu relutei. Não por egoísmo, mas por alimentar, ainda, a esperança que habitava em seus olhos e nos meus. 
Afinal, a sua saúde oscilava. Senti-me devastada! Queria a lâmpada de Aladim, o único pedido. Mas, isso me foi negado! 

Então, quanto o dia quatro de outubro acordou e se fez poente, eu me dei por vencida e chamei o veterinário, que colocou você para dormir sob a sombra da roseira do nosso jardim. 
Ah, Mel, no mergulho final no sono do esquecimento eu fui covarde! 
Fugi! Fugi para bem longe! Deixei você na companhia de Gilberto, de Alana e dos amigos que iam chegando.
Não queria dizer adeus, embora desejasse com todas as minhas forças embalar o seu último suspiro, como fiz tantas vezes, ao som da música “nessa rua tem um bosque”. 
Não tive coragem e, agora, estou aqui, escrevendo sobre o amor, a saudade e a gratidão, em um exercício de despedida. 
Escrevo, enquanto escuto o murmúrio das ondas do mar, longe do jardim e de você. Compartilho as nossas memórias, para que a vida não me doa tanto. Você foi o amor mais puro e incondicional que eu conheci. Obrigada, Mel!

setembro 22, 2019

Uma Carta para Águeda Magalhães













Querida Águeda,

Quando eu recebi o livro “Alquimia do Voo”, pelas mãos de sua filha Aline, estava de partida para uma breve viagem. Pés no mundo, todos os dias, procurava um espaço de tempo para iniciar a leitura, mas só encontrava o desconforto do barulho, essa ausência de silêncio tão necessário, para quem tinha em mãos o seu primeiro livro de poesia. Comecei, então, a ler sem pressa, com respeito e admiração como se estivesse diante de uma relíquia. Amo livros! Gosto do cheiro e de manuseá-lo com cuidado e atenção. Voltei às páginas por várias vezes, algumas, porque as lágrimas toldaram-me a visão, outras, quando o arrepio em minha pele pedia um pouco mais de calma... de alma. Queria garimpar/guardar suas letras e signos em uma caixinha de veludo vermelho, daquelas que nos enchiam os olhos de alegria e contentamento porque, dentro, havia um presente inesquecível! Iniciei a leitura, pouco a pouco, queria reter na memória a beleza que habita os seus versos, a sua alma. Pois bem, hoje, eu fui consultar o Aurélio. Um desejo imenso de encontrar palavras caramelos que pudessem falar da admiração e respeito que eu tenho pela sua obra, mas nada cabia na janela do meu olhar: você ultrapassa o dicionário em beleza, doçura e sensibilidade. Você é rara, minha querida! Gostaria de ter a competência e o conhecimento para escrever sobre Alquimia do Voo, como fizeram Ivy Menon e Lia Sena, mas não os tenho. No entanto, posso afirmar que os seus versos acordaram a minha alma, antes tão desértica e blindada. Parabéns, Águeda! Por ter os dedos cheios de poesia, mesmo quando a vida sangra. Desejo ressaltar que o prazer da leitura abafou qualquer ruído, pois, lendo você, eu escutei o silêncio das suas dores, o seu grito por vida, liberdade e amor. Obrigada, por você existir. O mundo sem você seria mais triste!



fevereiro 26, 2019

O Voo de Gibinha












Quando eu era criança ouvi a minha mãe dizer: “ filha, quando você receber um regalo não desfaça o embrulho de imediato. Primeiro, contenha a sua ansiedade, observe o cartão que vem junto, abra-o, só após ler o conteúdo, agradeça. É feio desfazer a fita antes de ler o que está escrito, pois as palavras têm significados maiores que o próprio mimo.” E eu ficava a matutar sobre aquilo que ouvira. Hoje, constato que tantas décadas se passaram, mas as palavras da minha mãe continuam provocando-me o mesmo estranhamento. Faltam poucas semanas para eu receber o maior e mais importante de todos os presentes: o seu pouso em minha vida. Então, pergunto-me: como posso agradecer por algo que os meus olhos não viram? Como ler um cartão que ainda não me foi entregue? Por enquanto, apesar da estranheza, procuro nas palavras a justificativa para o meu espanto. Daí em diante, sou só gratidão!

Gibinha, há quase 37 semanas recebi o anúncio do seu voo. Confesso que fui surpreendida pela notícia. Não esperava por ela tão cedo e os motivos pelos quais eu reafirmei a minha surpresa, não pareceram tão óbvios... Nada a ver com a passagem do tempo, a idade, o envelhecimento, tampouco com a carga de significação, que a notícia sempre trouxe para boa parte das mulheres. Não estava preparada para ser avó. Como assim, eu avó? Ninguém me perguntou se eu queria! Passei dias, semanas, meses para me acostumar à ideia de que você iria entrar em minha vida e sem permissão invadiria as minhas horas tornando as minhas noites insones. Acabou-se o meu sossego, pensei. Logo agora, com a vida estabilizada, os filhos criados, independentes e os dias livres para organizar o tempo como bem me prover. Recorri às lembranças do passado. Uma lista de motivos intermináveis justificou os meus pensamentos... Vai começar tudo, de novo!? Longas noites de vigília a espantar preocupações quanto ao seu futuro, ao seu caráter e a sua maneira de viver. Nenhuma certeza de que o investimento em horas de amor, carinho, renúncia, dedicação fariam de você um homem íntegro, ético, valoroso. Um ser humano melhor, comprometido com as causas sociais, lutando por um mundo mais justo e igualitário. Não há garantia sobre isso. Nenhuma certeza de que as longas horas a olhar para o relógio - depois de você ganhar às ruas, o trariam de volta ileso para os meus braços. Nenhuma certeza, aviso ou premonição de que novos tempos serão sem injustiças, nem violências para minimizar as minhas dores e angustias!? Apenas, inquietações acelerando o ritmo cardíaco, quando um filme em retrocesso passa diante dos meus olhos em momentos de incertezas. Eu já vivi isso, penso. Por isso, passado o espanto inicial e ainda sem ter desfeito a fita que amarra o novo presente, como minha mãe recomendou-, debruço-me nesse momento sobre as teclas do computador a catar letras que retirem as impurezas dos meus pensamentos e abro as minhas asas para dar-lhe proteção e boas-vindas. Faltam poucos dias para eu ganhar o presente, mas quem vai ler o cartão dessa vez é você. Que nas asas do seu voo lhe acompanhem a saúde, a generosidade, a compreensão e a alegria de viver no amor. E, também, o compromisso de fazer aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você. Seja bem-vindo, Gibinha!​


Crédito de Imagem: Armindo Alves. Um amigo com poesia no olhar. Um cronista visual.

janeiro 26, 2019

Consciência - Uma Sentinela para a Paz

Bombeiros carregam corpo resgatado em Brumadinho — Foto: Douglas Magno / AFP


















Mal o dia nasceu e lá fora a chuva cai intermitente trazendo 
desconforto a minha alma. Dentro de casa, a televisão ligada põe em desalinho os meus olhos diante das notícias de Brumadinho-MG, sobre a queda da barragem. Muitos mortos, desaparecidos, famílias inteiras perplexas, sem-teto, sem notícias, sem rumo, sem esperança. Tento resgatar a paz de espírito, no entanto, mergulho cada vez mais no avesso dos pensamentos e, estupefata, constato que a imobilidade, a inércia, o egoísmo, a omissão fizeram morada no meu espírito desviando a atenção para uma zona de conforto, há muito desejada: existe um culpado e, este, não sou eu! Pronto, já posso fechar a cortina dos olhos, dormir o sono dos justos. Não! O ruído das horas, os holofotes da memória, a consciência – essa sentinela para a paz - vigilantes, anunciam o resgate da minha alma que, em confissão, reconhece a sua parcela de culpa e pede perdão! Perdão pelas palavras de indignação abortadas em praça pública, pelo silêncio obsequioso quando o clamor das minorias pedia aderência, pela embriaguez do conforto e da sedução do poder. Perdão pela covardia, pela subserviência. Por ter me omitido, quando se fazia necessário subir ao palanque, pegar as armas do pensamento, das ideias, das palavras e discursar sobre cidadania, direitos humanos. Perdão por ter ficado em cima do muro, pelo conforto das contas pagas, do emprego garantido nas coxias do poder, das viagens, do caviar e do espocar do champanhe, quando o reles chão da Pátria Amada é a morada da maioria dos sem-teto, sem destino e sem esperança. Perdão pela omissão e covardia que colocaram os meus irmãos de Brumadinho-MG, no exílio, para uma pátria  de onde não tem volta. 



Crédito de Imagem: Douglas Magno/AFP - G1

janeiro 22, 2019

Um Amor para Poucos







Sou assumidamente romântica e sonhadora. Olho para estas cadeiras vazias e elas me reportam a emoções do passado, quando amar era um olhar sem pressa para outro, um desejo imensurável de que aquele encontro durasse para sempre. Naquela época, ouvir Vinícius de Moraes declamar em seu Poema Soneto de Fidelidade: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, era um desafio e uma agressão àquele sentimento urdido na alma, com os fios do encantamento e da esperança. Era um balde de água fria nos sonhos de quem esperava por um porvir risonho, ao lado de um amor que fosse travessia para felicidade. E, a felicidade era sinônimo de morar nos olhos do outro, sem despedidas. 


Hoje, aos sessenta e oito anos de idade, sou a mesma garota romântica e sonhadora, que se debruça sobre uma imagem e, no território livre da imaginação, faz a leitura de momentos felizes e do amor eterno. Os meus olhos, apesar dos anos e dessa “modernidade líquida”, passeiam pelas folhas do calendário e se desconcertam com qualquer tentativa de mudar a narrativa dos meus sonhos. Quem habitou em mim, me fez conhecer tempos de absoluta leveza, cantou o seu amor em versos e em prosas, me apresentou a ele de maneira doce, terna e ao mesmo tempo arrebatadora, vai ficar em meu corpo feito tatuagem, mesmo que, na dança discreta das horas, nem sempre tenhamos vivido a coreografia perfeita das nossas fantasias e, que o relógio das horas já tenha saqueado o nosso futuro. Quem me encantou, vai continuar me encantando sempre. É um amor que não acaba nunca. Porém, alguma coisa mudou com a soma dos meus dias. Agora, olho para estas cadeiras vazias e compreendo que o amor eterno é para poucos, só sobrevive quando rasgamos o véu da ilusão, lembrando-nos de que, na dança festiva dos dias, nem tudo é um mar de rosas... E ainda assim, permanecemos! Mas, entendo da mesma forma, que o sentimento cantado em versos e em prosas, pelo Vinícius de Moraes, em seu “Soneto de Fidelidade”, também é amor, porque amar é um exercício cotidiano de resistência, mesmo quando não dura.


Crédito de Imagem: Giovanna RMD L Avelar

abril 24, 2018

O Pé de Cajá da Minha Infância
















Encontrei o amigo Fred Arruda na Farmácia Pague Menos, do Bessa, e ele me desafiou a escrever um texto sobre o pé de cajá que tínhamos na casa da Vila Nova da Rainha, em Campina Grande. De imediato, expliquei-lhe que não escrevia há mais de um ano e que escrever para mim era e continua sendo um exercício de aprendizado. Não sou, nem tenho competência, nem pretensão de ser escritora. Escrevo, porque sinto saudades! Quando tento alinhavar as palavras, o lápis ou o teclado do computador não obedecem às minhas ordens. É a minha pele quem comanda, fala, arrepia, vibra e se emociona. Sou movida a emoção! Quando ela se manifesta, os meus dedos deslizam sobre as teclas do computador e uma dança festiva de letras, comemoram o assunto em pauta. Hoje, o Pé de Cajá da minha infância!

Lá fora, chove! Ela, a chuva, traz lembranças que desfilam no meu sítio de memórias. Logo cedo, quando o galo ainda cantava anunciando que o dia amanhecia, eu era convidada por Mãe Júlia a apanhar todos os cajás que as minhas mãos infantis pudessem recolher daquele chão amarelado de pequenos frutos. Logo, aqueles frutos se transformariam em um delicioso suco, para acompanhar o café da manhã. Às vezes, uma chuva fina caia como lágrimas do céu, abençoando aquele momento. Quantas saudades sinto daquele instante, quando o cheiro da terra se misturava ao perfume da fruta e trazia tantas alegrias e descobertas aos meus dias. Logo, logo, a casa se enchia de amigos e de outras crianças, como você Fred, encantadas pelo pé de cajá e ansiosas por disputarem espaço na colheita daquele fruto tão saboroso. Quantas disputas para ver quem pegava mais cajás... Ao redor dele, brincávamos de bola de gude, contávamos histórias, fazíamos planos para o futuro e descansávamos o pensamento. Na época do São João, acendíamos a nossa fogueira, sempre com cuidado e distância necessária, para não danificar as suas raízes. Depois, soltávamos fogos de artifício, que iluminavam a noite e davam brilho e um colorido intenso aos nossos dias, ressaltando também a majestade daquele gigante pé de cajá, que parecia desafiar o céu. Desafio que o relógio do tempo não perdoou.

Hoje, o pé de cajá da minha infância sobrevive apenas nas minhas lembranças, nas suas Fred e, quiçá, de algum desavisado que ainda não aprendeu a substituir o cheiro da fruta, o perfume da terra e toda a gama de sensações provocadas pela evocação de um nome, por coisas de somenos importância. Ele foi transformado e engolido pela ação do homem. O progresso, a vaidade humana, o relógio inclemente, cruel e impiedoso do tempo ignorou os meus planos para o futuro e as saudades de uma infância feliz, erguendo no lugar do nosso pé de cajá, a poesia concreta dos arranha-céus. Obrigada, Fred, pelo nosso encontro, bate-papo e pelo desafio. Por causa dele eu pude sentir de novo o sabor da fruta e das recordações, quando deixei os meus dedos e as palavras serpentearem pelas teclas do computador.

março 16, 2017

Sou o que Penso









Passado e presente caminham de mãos dadas dentro de mim. Ambos conversam a respeito da passagem do tempo, suas limitações e consequências na vida das pessoas. Um diálogo amigável que eu ouço todos os dias, enquanto observo o desconserto das horas na minha própria vivência.

O pretérito foi um tempo de luz, de alegrias e descobrimentos. Quando quero acessá-lo basta uma volta em torno do cerco da memória e os ponteiros do relógio e o seu girar permanente, nada podem fazer contra a força das lembranças. Tudo volta ao tempo presente, outra vez. Nessa hora, pele ressecada, músculos fatigados, andar pausado, rugas e fios prateados nada disso conta. Sou o que penso, o que sonho. Os meus pensamentos têm asas. E, ... como voam! Na minha memória o arranjo das palavras passado e presente não impedem o meu sonho de sonhar. Continuo sentindo, no corpo e na alma, a força do desejo e da paixão. Eles pulsam com igual intensidade dentro de mim tornando vivo tudo o que é sonho. Passado e presente se confundem.

Por que será, então, que me tornei uma mulher invisível!?

- Ah, tempo presente! Por maior que seja o voo imaginário dos meus pensamentos, eles sempre esbarram no desconserto das horas. O desejo, a paixão e a alegria de viver parecem estar camuflados sob as asas da palavra passado. As pessoas agora olham para mim e só veem os fios de prata que banham a minha cabeça e fazem de mim uma pessoa invisível e assexuada. Ninguém me olha mais com admiração, com interesse, com desejo e tesão. Tornei-me uma mulher respeitável, uma senhorinha de cabelos brancos, a quem as pessoas dão o lugar na fila de bancos e supermercados, e a quem as crianças chamam de vovozinha, mesmo que ao meu lado estejam pessoas bem mais velhas, embora disfarçadas sobre camadas e camadas de maquiagem, tinturas, intervenções cirúrgicas e botox. A ninguém interessa investigar os meus pensamentos. O que é uma pena! Pois, se assim o fizesse, talvez lhe causasse espanto a força do meu querer.

Por isso, é triste constatar que tornei-me uma mulher invisível, apesar da força do desejo que ainda sinto, da paixão e do interesse pela vida, do espanto e curiosidade diante do inusitado e da eterna busca por conhecimento e aprendizado. Vivemos numa sociedade do espetáculo, onde só vale aquilo que prende e chama a atenção... "Tempos líquidos, descartáveis"! Aceitar que os meus cabelos brancos contem a importância do meu passado é uma mera circunstância. Poderia pintá-los e parecer mais jovem. Não o faço! Por convicção e por aceitar que eles por si só, nada dizem sobre mim. A minha juventude e o meu tesão pela vida estão dentro de mim. Sou o que penso!

novembro 13, 2016

A Insustentável Beleza do Amor











Meu Senhor e Meu Deus, tenho dois lobos habitando em mim! Um em pele de cordeiro e o outro em traje de guerra.

Quando dou alimento ao primeiro, coloco a máscara da hipocrisia... O cordeiro que eu sou veste a toga de juiz e, dedo em riste, se propõe a julgar com seriedade e justiça, àquele que está diante dos meus olhos. Ele faz-me sentir maior e melhor que o meu irmão. No cordeiro eu encontro abrigo para a impunidade dos meus erros. Sou uma cidadã acima de qualquer suspeita! Mas, a insustentável beleza do amor que em mim também habita e com quem eu travo uma luta diária, faz-me enxergar o outro, em mim. Nessa hora, viro-me pelo avesso e, em confissão, assumo as minhas culpas rogando a Deus que escute a minha prece e conceda-me o seu perdão.

- Meu Senhor e Meu Deus, carrego sobre os meus ombros os pecados do mundo. Sou a adúltera,  Judas e o fariseu. Sou a insustentável beleza do amor lutando, cotidianamente, com a face oculta dos meus pecados, das minhas mazelas e das minhas imperfeições.

Confesso que, entre tantos pecados, tenho inveja do sucesso dos meus inimigos, da vida boa do meu vizinho, da riqueza que não conquistei, dos louros que me negaram, do amor que eu não recebi e dos filhos que não gerei.
Por isso, a partir de agora, quero imolar o cordeiro de dedo em riste e aceitar as minhas imperfeições. 
Quero que a insustentável beleza do amor que em mim também habita, me aponte os passos trôpegos que eu dou no caminho da perfeição, e lembre-me da importância da misericórdia, da compaixão e da tolerância, principalmente, na hora em que eu finjo que não são meus os erros dos outros e sigo olhando para a humanidade com a máscara da hipocrisia, da seriedade e da justiça.
Desejo, que Tu, Meu Senhor e Meu Deus, me faças lembrar todos os dias quem eu sou, para que eu não me arvore em juiz do meu semelhante. 

Por último, eu encerro essa confissão com uma pergunta e um pedido: afinal, Meu Senhor e Meu Deus, quantas pedras ainda irei atirar em meu irmão, só para me sentir mais e melhor que ele? A insustentável beleza do amor já expôs o meu avesso, a face oculta da minha humanidade. Por isso, eu te peço: tende piedade dos lobos que habitam em mim e conceda-me o teu perdão!

outubro 19, 2016

O Que nos Move?









Não tenho a pretensão de ser dona da verdade, nem de impor regras como fazem os semideuses de plantão, tampouco almejo os louros da academia. Sou iletrada! E, como tal, me encanta apenas distrair-me com as palavras, de maneira lúdica, para pôr ordem no caos dos meus pensamentos e, aos poucos, ir aprendendo a difícil arte de me fazer entender por meio da escrita. Antes dessa maneira, do que permanecer analfabeta.

Dito isto, começo a juntar as letras espalhadas pelo terreno das minhas ideias, para formar uma frase e, com as mãos, em prece, faço um pedido aos Mestres e Doutores em Letras e Linguística, para que não me julguem, nem condenem o meu português ruim, muito menos se atenham tão somente as pausas do meu respirar, por que nas vírgulas, ponto e vírgulas, exclamações e interrogações estão a minha dificuldade em escrever corretamente. Coerência e coesão, também nem se fala, sou um poço de contradição. Às vezes, o que deito nas pautas do caderno, mais parece um “samba do crioulo doido”. Li pouco, muito pouco! Quase nada. Daí a minha dificuldade em interpretação de textos! Porém, do que leio, hoje, procuro quedar-me nas entrelinhas, no não dito, explicitado.

Por isso, nesse momento em que se fala tanto em Prêmio Nobel de Literatura, eu me pergunto: qual o sentimento que nos move, quando um estranho ao ninho recebe distinção que julgamos sermos merecedores? Qual a diferença entre fazer literatura ou a letra de uma canção, que não seja a de fazer pensar, agir, atuar? Quem de nós pode dizer que pelas mãos de Chico Buarque e Caetano Veloso ou de tantos outros cantores-poetas, não saíram as mais belas e inteligentes canções de protesto, que tanto motivaram gerações e gerações a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária. Por que tanta celeuma em torno da premiação de Bob Dylan?

O que nos move?


setembro 16, 2016

Um Amor Crepuscular










Quando eu era jovem, o amor se apresentou a mim como uma fase de “puro fogo e ardor sem fronteiras”, colocando o meu coração em desalinho. Tudo era desvario, desassossego, excesso, vaidade... Xeque-mate! Passados os anos e somadas as experiências posso garantir que, hoje, eu sei amar mais e melhor que outrora. Já não doem em mim as letras mortas de um juramento que o tempo não ratificou. Tampouco me incomoda se sou trocada por alguém com mais atrativos que eu. Já não ardem em mim as firulas do ego, nem os arroubos da juventude com suas dores e seus dramas intermináveis. A essa altura dispensei as algemas e descobri que não sou metade da laranja de ninguém. Nasci inteira! Nessa fase crepuscular, tenho mãos de ternura e um desejo imensurável de ser e fazer feliz a quem está ao meu lado. Sou a adição do que aprendi ao longo dos anos e, isso, consequentemente, me torna uma pessoa melhor: mais paciente, solidária, tolerante e mais sábia.

Porém, o amor, nessa fase crepuscular, me credencia também a ser mais seletiva e a não desperdiçar os anos que me restam com coisas de somenos importância... Não gosto de quem, apesar da passagem dos anos, adora brincar no playground. Não gosto de gente que anda à procura de uma ninfeta para validá-lo. Não gosto de gente que usa o outro como muleta, para provar ao mundo aquilo que já não é mais capaz de fazer. Gosto de pessoas em paz com os números, com as suas rugas, com os seus cabelos brancos e com a sua pouca habilidade em trapacear mentiras de amor. Gosto de quem gosta de si, pois, em assim sendo, não necessita de mim, para provar quem não é. Gosto de quem antes de se habilitar a despir o meu corpo, procura desnudar a minha alma. Gosto de gente, para quem a vida, agora, é muito mais alma, muito mais calma. Gente, que saiba apreciar um lindo pôr-do-sol, um banho de chuva, de mar, de poesia, que ainda saiba andar de mãos dadas e não tenha desaprendido o sabor da pipoca, numa tarde de cinema. Gente, para quem fazer amor, vá muito mais além do que o instante, as palavras, a pressa, o desassossego, o desvario, o ardor e o fogo da juventude. Porque amor de verdade, de verdade mesmo, se faz e se sente é pelo olhar...

agosto 25, 2016

Um Breve Relato sobre Mim


Hoje, não há memória! Tudo é silêncio! Olho para o teclado do computador e as letras se retraem advertindo-me que, nesse momento, eu não tenho autorização para brincar com as palavras. Parece que careço dessa ausência, para que o impulso verbal não me leve a escrever o que não devo. No entanto, é desse silêncio que emerge os primeiros passos em direção a geografia do meu viver e ao certificado da minha existência. Quem eu sou? Você quer saber! Então, para lhe responder, resolvo fazer um breve relato sobre mim.

Sou terra. Tenho raízes profundas... Não é qualquer ventania que me põe abaixo: sou como o bambu, envergo, mas não quebro. Na cartografia dos meus passos eu nunca pus a minha alma em risco, pois a medida da minha vontade e o do meu desejo passa, antes de tudo, pelo respeito ao outro. Sou movida a utopia e as asas da minha imaginação se estendem em direção ao bem-estar comum. Sonho com um mundo mais justo e igualitário, onde a “globalização da solidariedade” seja a meta de todos. Sonho com um lugar alforriado das ditaduras das leis e daquilo que segrega e discrimina. Sonho com um lugar que não hospede semideuses de plantão e suas certezas de pedra. Um lugar onde o avesso da palavra seja também reverência ao outro, e de onde nunca sejamos instigados a rasgar o véu da hipocrisia e da exacerbação do eu.

Gosto de relembrar acontecimentos que apontem os perigos do ego e que me deem a real dimensão da minha humanidade, pois a roda gigante da vida não para de girar... Sou avessa a deslumbramentos e à glória do poder. Preconceitos? Nenhum! Só com quem tem preconceito... Na minha travessia existencial, a ladainha da esperança é reza forte, porém, procuro mudar primeiro a mim, para depois mudar o mundo. Certezas? Tenho! Sou um aprendiz do caminho... E, do amor, tudo o que posso dizer é que sou leal, mas não admito cabresto. Quero liberdade para mostrar quem sou. Por isso, se você quer saber mais sobre mim, que se aproxime, mas antes tire o pó do caminho e entre descalço na minha alma, pois ela urge um tempo de sonhos e delicadezas.

julho 31, 2016

Me Conte um Conto















Escrevo na tentativa de distrair a minha timidez... Um diário tardio de quem ao longo da vida acorrentou um espírito de criança, num corpo de mulher e, assim, viu nascer as primeiras rugas, os primeiros fios de cabelos brancos, a flacidez da pele e as cicatrizes, mas deixou preservada a alma desse estranho capricho da natureza a que damos o nome de tempo. É que dentro da mim só a linguagem da emoção faz barulho e, quando isso acontece, as dores e alegrias desaguam nas pontas dos dedos, como se fora um pincel, incentivando-me a pintar palavras e escrever histórias.

Nessa hora, pedaços do tempo, em seus tons sépia, desarrumam as gavetas da minha memória e tudo se transforma em saudades: a minha primeira boneca; o parque de diversões; o circo com seus trapezistas e palhaços malucos, (para aonde eu era levada pelas mãos do meu tio Francisco); os sabores dos picolés da Sorveteria Flórida; o algodão doce do seu João; o refresco de coco do seu Zé e o colégio Alfredo Dantas onde aprendi as primeiras letras com a professora Marly. Ando sentindo saudades de tantas coisas, principalmente do cheiro de terra molhada e do orvalho a salpicar lágrimas na horta da minha mãe; do balanço feito de tábua, travesseiro e corda a embalar os meus sonhos infantis; do pé de flamboaiã a ensinar-me como voar sem ter asas e dos fogos juninos a incendiar as noites do São João.

Nas minhas lembranças ainda estão hospedados os melhores lugares e momentos que vivi na infância: a ida à Livraria Pedrosa, depois de encerradas as aulas do colégio, e a rede de balanço onde eu lia todos os livros de histórias que caíssem em minhas mãos. Foi aí onde começou o meu hábito de leitura. Foi aí onde eu comecei a brincar com as palavras e foi aí onde eu deixei o meu coração de menina habitar para sempre a casa dos sonhos.

Por isso, quando chove saudades no terreno das minhas lembranças e o cheiro da grama molhada me faz criança outra vez eu caminho pelo calçadão da memória onde tempo é saudade e peço a minha mãe, que há muito partiu, encantada pelo brilho das estrelas:

- Minha mãe, me conte um conto! E, ela, ocupada, responde:

- Depois eu conto!



junho 26, 2016

O Preço da Solidão











A página em branco que se apresenta a minha frente é um deserto clamando pelo avesso das palavras, mas o avesso das palavras sou eu, nua, em autobiografia. Sou eu alforriando as letras para que elas me revelem, me desalojem de mim mesma. Sou eu quebrando o silêncio para negociar o preço da solidão. Porém, não é isso o que desejo!

Por isso, permaneço silente, desértica, despovoada até esgotar-se essa saudade de tudo o que não vivemos...



Crédito de Imagem: http://armindoalves.blogspot.com.br/

maio 27, 2016

Cenas do Cotidiano


Quando eu pensei que já havia me habituado a essa "modernidade líquida" e que nada mais me surpreenderia, eis um fato novo a remexer e a desalinhar as gavetas da minha memória, sacudindo e trazendo à tona as minhas saudades esquecidas.
Nada de tão grave aconteceu, mas foi chocante o suficiente para mudar a minha atitude em relação ao mundo digital. Naquela hora eu percebi: sou antiga, saudosista, uma peça de museu... 
Sou uma imagem aprisionada nas pausas de fotografias, onde não cabe a liquidez das lembranças que trago hospedadas no peito.

As cenas do cotidiano que passo a descrever, agora, me constrangem. 
Provocam em mim, vergonha alheia.

Fui ao velório de um familiar e na hora em que o padre começou a encomendar o corpo alguém, em alto e bom som, começou a falar ao celular.
Na missa, na hora da homilia, aconteceu a mesma coisa.
Em teatros, cinemas e reuniões as luzes dos celulares espocam e eu me pergunto: por que essas pessoas estão aqui, se não desfrutam do momento? 
Nos restaurantes, lugar de encontro e confraternização, agora só se veem pessoas, entre uma garfada e outra, de cabeça baixa, olhando as mensagens do WhatsApp. 
Tudo é silêncio e solidão.

Enquanto isso, a comida esfria, mas está lá nas redes sociais, linda e colorida, para todo mundo ver e aplaudir. 
Tudo isso e mais algumas cenas absurdas do cotidiano têm me deixado aflita. 
Que futuro terá a humanidade, eu me perguntei, se aquele casal que já beira os 75 anos, se acomoda em um banco de praça, à distância de quase um metro um do outro, e sacam os seus celulares como se o tempo lhes fosse favorável e nada de mais importante houvesse para ser dito... 
Aquela foi a última cena que vi. 
De imediato, lembrei das frases suspensas que tanto nos incomodam no fim da vida: e, se... eu tivesse dito, feito, perdoado, amado...

Diante disso, antes que essa "modernidade líquida" me sufoque e me faça mergulhar na mais profunda solidão, eu resolvi sair do Facebook, esquecer um pouco o WhatsApp e me desligar de vez em quando da Internet...
Vou procurar os olhos e a companhia de quem me ama. 
Quem sabe ainda dê tempo de reconstruir afetos e espalhar ternuras. 
Quem sabe os ponteiros do relógio não atropelem o tempo e me deem a oportunidade de acender uma fogueira para ouvir o outro: pai, mãe, filho, amigo ou amante até o apagar da última chama. Quem sabe?


Imagem: Sarah Mesquita