Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

julho 01, 2020

Uma Carta para Meu Neto













Querido Gibinha

Vovó sempre gostou de escrever e receber cartas. 
Quando era jovem contava as horas e gastava os dias imaginando o momento em que o carteiro entregaria a tão desejada missiva. 
Vivia uma saudade antecipada de palavras que iria pôr fim ao sofrimento da espera.
Porém, hoje, o motivo desta carta é outro.

Nas asas do amanhã incerto repousam desejos, atitudes, canções de ninar e histórias que eu ainda gostaria de contar para você. 
Não sei se terei tempo! Então, escrevo. Antecipo a saudade e o sofrimento da sua espera, falando sobre o meu amor.

Um neto é um mundo com tempo marcado! Daí a urgência. 

Quando você nasceu eu tinha sessenta e nove anos, mas não contava os dias pelo calendário gregoriano. 
Quando perguntavam a minha idade, a resposta era imediata: não tenho idade, tenho sonhos! E agora Gibinha, que cheguei aos setenta, percebo que tenho mais idade do que sonhos.

- O que mudou em tão poucos meses, você deve estar se perguntando? Eu respondo:

- A percepção do tempo como fator de dias transcorridos. Uma realidade que eu não posso mais ignorar.

Não dá para enganar a ampulheta do tempo.
A areia fina passa indiferente à minha vontade e à quantidade dos meus sonhos.
Em vista disso, o meu coração desveste-se de imortalidade e capitula. 
A verdade é que a Covid-19 já roubou três meses e duas semanas de nossa convivência. 

Não posso mais lhe dar banho, nem a sua sopinha. O carrinho que comprei para passear com você, quedou-se esquecido, diante da proibição: - fique em casa! Os fins de semana que passávamos juntos fazendo piscina à beira-mar, não são mais permitidos.

O que dizer das canções de ninar e do balanço na rede? E dos nossos vídeos de Borboletinha? E das nossas brincadeiras com o cavalinho Pocotó? 
Tudo isso, agora, faz parte do nosso passado. O presente é feito de incertezas e o futuro tem data de validade.

Tenho setenta anos! Com muita sorte ainda poderei acompanhá-lo em seus primeiros dias de aula na escola e na natação.
Poderei também ensinar-lhe as primeiras letras do alfabeto e ajudá-lo a desenvolver o gosto pela leitura... 
Com fé em Deus e alguns cuidados teremos mais uns anos juntos pela frente. 
Todavia, não estarei aqui nos tempos difíceis da sua adolescência, nem poderei ajudá-lo com as suas dúvidas, tampouco nas escolhas inevitáveis que terá de fazer, na juventude: 

- Qual profissão escolher? Faço esse ou aquele curso? Como me manter sereno perante às tentações? Qual o melhor caminho a seguir? Como conviver com a emoção do primeiro amor e a insegurança da primeira vez? Como lidar com a dor e a saudade?

Pois é, Gibinha! Um neto é um mundo com tempo marcado. Não posso mudar isto.
É certo que não poderei acompanhar todos os seus passos, nem responder às suas inquietações.
Entretanto, o tempo, adverte-me: - a vida é aqui e agora! Por isso, esta carta.
Não quero que você gaste os seus dias esperando por palavras, atitudes e conselhos que, por força das circunstâncias, não virão.

Então, aproveito o momento e deixo registrado, nesta carta, todo o meu amor e a impossibilidade de vivê-lo plenamente...

Amar você, Gibinha, foi a melhor coisa que me aconteceu.

junho 25, 2020

Preconceito - Qual a Cor da sua Alma?





Qual a Cor da sua Alma?


Esta é a pergunta que eu sempre faço, quando o assunto é  Preconceito. Todavia, foram necessários anos de observação sobre o comportamento humano, para que eu mesma pudesse responder a esta indagação. E um dos motivos eu relato agora.

No dia 15 de junho deste ano, Patrick Hutchinson, um homem negro, participava de uma manifestação antirracista, em Londres, quando percebeu que um homem branco estava sendo esmagado e espancado. Logo, Patrick com a ajuda dos seus amigos negros, colocou o homem sobre os seus ombros e levou-o para um lugar seguro. Ao ser questionado sobre o porquê do seu comportamento, ele afirmou:

- “ Eu não pensava em nada, apenas que tinha um ser humano no chão”. E, acrescentou: - “ Não conseguia pensar em nada, naquele momento, a não ser salvá-lo”. “Estou salvando o homem que estava a ponto de ser esmagado e espancado. Também estou salvando esses jovens de serem condenados à prisão perpétua”.

Diante desta resposta, eu faço outra pergunta:

- Quantos de nós, “ brancos e bem-nascidos", teríamos nos comportado como Patrick Hutchinson?

Afinal, naquele momento, não havia evidência de que o homem branco estivesse lutando a favor dos negros. Pelo contrário! Segundo a reportagem do site: terra.com.br, algumas pessoas chegaram a afirmar que o homem que Patrick Hutchison carregava sobre os ombros, era membro da extrema direita. Ou seja, um inimigo em potencial naquela manifestação.

Depois do que foi exposto aqui, e tomando como base anos de observação sobre o comportamento humano, eu não teria outra resposta para a pergunta sobre a cor da minha alma, senão esta:

- Homens não têm pele. Eles se vestem pelas almas. 


Existem almas que tocam o nosso coração, por sua grandeza e sensibilidade; há outras que provocam a repulsa do nosso olhar perante à pequenez das suas atitudes e do seu caráter. 

E, você! Qual a cor da sua alma?

PS: O autor da foto é Dylan Martinez, da Reuters.

junho 17, 2020

Uma Carta para Deus - Um Pedido de Absolvição















Querido Deus,


Chove lá fora e aqui dentro também. Tenho uma consciência torturada e um coração que sangra em lágrimas pelos meus erros. Rezo para acalmar-me, mas as contas do Rosário já não são suficientes para redimir-me. Então, para expiar a minha culpa, coloco a multidão dos meus pecados diante de ti, e te peço a absolvição.

Senhor, eu pecador, confesso: quando nasci me foram apresentadas páginas em branco, para que nelas eu escrevesse a história da minha vida. Não fui capaz! Maculei a brancura das pautas e incorri em desonra quando professei o meu credo. Não, não fui cristã! Não honrei a morte do teu filho! Ele, sim, cobriu os meus pecados com o sacrifício da cruz e, em troca, pediu-me apenas o amor e compaixão pelos meus semelhantes. No entanto, eu falhei, tropecei e caí naquele que considero o mais importante de todos os mandamentos: fazer ao outro aquilo que deseja para si mesmo. Não, eu não fiz! Nem sequer tentei com afinco. Ao primeiro sinal de invasão de privacidade, no terreno dos meus quereres: de poder; de honra, de glória; de ambição por riquezas e bens materiais, eu desisti. Renunciei à ideia de ser boa, de amar, ser compassiva e misericordiosa quando percebi, também, que os holofotes da fama não estariam mais sobre mim. E, em nome disso, cometi erros atrozes quando pratiquei o lado avesso da bondade, da compreensão, do perdão e da humanidade da qual eu estava imbuída. Fui inimiga feroz daqueles que não comungaram do mesmo ideal que eu e de quem se recusou a rezar por minha cartilha. Fechei a cortina dos meus olhos para quem era diferente de mim em cor, raça, credo e etnia. Investi-me no cargo de juíza e a partir daí, fui a mais cruel das inquisidoras. Dedo em riste, julguei e condenei a quem ousou discordar de mim, classificando-os de inimigos da Pátria. Exilei-os para não ouvir o clamor das suas vozes. Foram tantos: judeus; negros; LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais); portadores de necessidades especiais; quem estava acima do peso e tantos outros, excluídos porque professaram uma ideologia diferente da minha.

Por isso, agora, nesse intervalo de tempo e de isolamento social, em que eu sou obrigada a reconhecer o bulício da vaidade; da cobiça; da ganância; da sede de poder a qualquer preço e de tantas outras mazelas e injustiças que pratiquei ao longo da minha vida, eu venho, por meio desta carta, pedir à absolvição dos meus pecados, invocando o nome e a súplica do teu filho, Jesus:

- “Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem”.

Ainda que eu esteja arrependida, com a consciência torturada e um coração que sangra em lágrimas pelos meus erros, eu faço uma ressalva:

- Sim, nós sabemos Jesus! Nunca somos inocentes!

Ainda assim, eu te peço perdão. Meu Deus, pela multidão dos meus erros! Perdoa-me, setenta vezes sete! Quem sabe, um pouco mais!?

junho 02, 2020

A Sala do Piano


















Uma fatia do tempo traz-me de volta ao passado. Um mundo em silêncio dá lugar ao som de um instrumento musical que acorda as minhas lembranças. Uma saudade habita-me! Ela é a Rua Vila Nova da Rainha 389. Mais que um endereço, uma história da qual tornei-me guardiã.

Quando eu ouvi, pela primeira vez, Isabella Perazzo tocar a música “Tristesse” do compositor Frédéric Chopin, senti-me aquecida. Naquele dia, as teclas do piano despertaram memórias de um tempo sem luto, nem pandemia. Os primeiros acordes anunciaram que a saudade daria plantão. Então, percorri com delicadeza, em passos de feltro, todo o chão da minha casa, explorando cada lugar dessa pátria de intimidades. Lá, encontrei a sala do piano. Um recanto para o deleite, para ouvir Chopin, Mozart, Beethoven, Schubert, Debussy, entre outros. Eu era criança, naquela época, com a idade entre sete e oito anos. À noite, logo após o jantar, dirigia-me à sala do piano e ficava horas a fio ouvindo, embevecida, a minha tia Laíce dedilhar as suas canções preferidas. Às vezes, a música era tão triste e melancólica que o meu corpo doía de falta, de ausência. A inocência da infância não sabia atribuir um nome àquele sofrimento. Ainda assim, a sala do piano era o meu lugar preferido da casa. Gostava de percorrer as teclas daquele instrumento musical e delas tirar algum som. Mas, ao contrário de todas as minhas tias e de minha mãe, eu não nasci com o dom para a música. Na idade adulta até tentei, porém fui incapaz de ler uma partitura sequer. Quando os primeiros acordes eram tocados e a canção invadia a sala, chovia em meus olhos e a pele arrepiava. Nunca consegui dominar esta emoção! Talvez, pelo fato de meu pai, em um momento de crise financeira, ter se desfeito do piano e com este ter ido embora tanto o meu sonho de torna-me pianista, quanto a liturgia de um momento que para mim era sagrado.

Por isso, senti-me aquecida quando escutei Isabella Perazzo tocar a música “Tristesse”. Ouví-la, quebrou a rotina dos meus dias de quarentena e transportou-me para um lugar mágico, sem palavras, nem despedidas...A sala do piano.

abril 23, 2020

Homenagem a Tia Creuza















Nessa época de pandemia da Covid-19, quando o isolamento social se impõe e sobra tempo para as lembranças, faz-se necessário ouvir o apelo do nosso coração e deixar que o cotidiano seja a pauta a derramar-se pelas teclas do computador.

Era o ano de 1955/56 quando eu, menina, acompanhada por Mãe Julia, Laíce e meu Irmão Francisco nos dirigíamos para o curral, localizado nos fundos da casa grande de tia Creuza. Lá, ela ordenhava as suas vacas e nos servia um leite morninho, misturados com o açúcar e a canela, que havíamos colocado em nossos copos, antes de sairmos da nossa casa. Após apreciar a bebida, Mãe Júlia e os outros tinham pressa em voltar para os afazeres domésticos. Eu, não! Gostava de brincar com os animais, de montar nos cavalos mansos e de subir nos muros, para recolher as buchas vegetais que abundavam por cima dos telhados. Com elas, nós tomávamos banho de verdade, com direito a esfoliação de pele e retirada do grude, aquela sujeirinha que a preguiça não reconhecia. É, hoje, é dia de saudades! A Covid-19 recolheu as suas garras e, por enquanto, está passando longe de mim, pela Graça e Misericórdia de Deus! Por isso, aproprio-me das recordações, recém-saídas do berço da memória, e faço delas uma colcha de retalhos, para agasalhar-me, nesse momento, em que as horas passam lentas e arrastadas. Como é importante ter boas lembranças, quando a solidão é nossa única companhia! E, eu tenho. A minha tia Creuza é uma delas!

Lembro-me de nós duas nas matinês do Cine Capitólio, em Campina Grande, assistindo aos filmes: E o Vento Levou, Cleópatra, Dr. Jivago, entre tantos. E, de como chorávamos, disfarçadamente, quando a película era triste e romântica. Em compensação, saíamos do cinema felizes porque logo chegaríamos à sorveteria Flórida, para tomar sorvete de castanha e ameixa. Era uma festa! Ainda, hoje, é o meu sorvete preferido! 

Ah, tia Creuza, com você aprendi tantas coisas! Quando ia passar o fim de semana em sua casa, o fato que mais me chamava a atenção era vê-la sair do banho, linda e cheirosa, depois de um dia exaustivo de trabalho no curral e na cozinha, sem falar no desvelo para com os filhos. Ao perceber a minha admiração, você exclamava, toda faceira: “- preciso me cuidar, pois já já o meu velho chega do escritório! ” Lembro-me, da sua elegância, dos seus olhos verdes emoldurados por cabelos sempre bem penteados e da sua disposição, apesar da luta e do cansaço da lida, para acompanhar a mim e as suas filhas nas tertúlias do Campinense Clube. Como eu a admirava pelo amor e pela cumplicidade com as suas filhas. Certa vez, vi você com lágrimas nos olhos, porque o namoro de uma das suas filhas tinha acabado e lhe era impossível ficar indiferente ao sofrimento dela. Vi também, a sua euforia, quando uma delas venceu o concurso de garota do milho, no Colégio Alfredo Dantas. Naquela ocasião, nada me encantou mais do que ver o seu entusiasmo e a sua vibrante torcida. Parecia que a vencedora do concurso era você! Entre essas e outras memórias, também me vejo fazendo-lhe companhia quando foi dar à luz a um dos seus filhos, na Maternidade Elpídio de Almeida. Lembro-me, ainda, de tê-la acompanhado nas lojas de tecidos, sapatarias e na casa da costureira, que ficava nas proximidades da igreja de Santo Antônio. Certa ocasião, aconteceu uma coisa engraçada. Você comprou o mesmo tecido para confecção da roupa do Natal, para mim e suas filhas. E, no dia 24 de dezembro, entre risos e faces ruborizadas, saímos as três a desfilar pela movimentada rua Maciel Pinheiro, rezando para que nenhuma das nossas paqueras nos vissem vestidas como pares ou trios de jarros. Quantas lembranças! Quantas saudades!

Escrever sobre você, nesse momento, é tocar as teclas do computador e, nelas, deixar vir à tona as saudades que sinto da sua luz, da sua alegria, do seu carinho e da admiração que sinto, sobretudo, pela sua coragem de povoar o mundo com tantos rebentos. Não existem mais mulheres assim, com tanta valentia e disposição, nos tempos atuais. Você criou um tempo mágico e fez as suas horas se multiplicarem, de acordo com a necessidade do outro. E, não havia reclamações, nem cansaço, tampouco uma recusa, quando o outro era o filho que exigia mais atenção, cuidado ou que, ao fim de toda essa jornada diária, ainda lhe pedia para sentar-se ao piano e dedilhar o tango La Cumparsita, coisa que executava com paixão. Ah! Tia Creuza, escrever sobre você me trouxe de volta a um tempo feliz e renovou as minhas esperanças por dias melhores. Obrigada!

março 18, 2020

O Que Aprender em Tempos Difíceis

















"É possível acariciar as pessoas com as palavras”.

A Covid-19 está transformando a nossa rotina, mas podemos lutar contra isso com pequenos gestos de amor e solidariedade. Em que pese o triste fato de que muitas pessoas estão morrendo e a economia mundial está em crise, podemos enfrentar este momento com cautela e reflexão. O cimento crítico do olhar em direção às pessoas, tem que ser substituído por uma conduta mais amorosa, solidária e permanente. 

Todos precisamos uns dos outros. Ninguém é uma ilha! E, além do mais, em dias difíceis, quando algo foge ao nosso controle, devemos nos perguntar: 

- o que isto está querendo nos ensinar?

Sempre há uma resposta e ela ressoa em nós de acordo com as atitudes que tomamos no dia a dia. A Covid-19 vem nos alertar sobre a nossa vulnerabilidade e impotência. Vem para escancarar o quanto desperdiçamos os dias, meses e anos com coisas de somenos importância. Vem para nos mostrar que não importa quão rico, sábio, poderoso ou inteligente possamos ser, ela nos alcançará e ao pó retornaremos. E, diante das cinzas, nada mais tem importância!

Sabe, aquele título de doutor que ostentamos com tanto orgulho e empáfia; aquela cobertura no edifício mais chique da cidade; aquela viagem à Europa feita tantas vezes, como quem vai ali e volta já; aquele dinheiro guardado em paraísos fiscais e fotos postadas nas redes sociais mostrando o quão bela é vida?
Pois bem, tudo isso se perde no fundo de uma gaveta que não se abre mais. Da última viagem, ninguém volta! 

Por isso, meus amigos, vamos encarar a Covid-19 como uma lição a ser aprendida. Que este momento em que vivemos um isolamento social forçado, nos faça refletir sobre os nossos afetos, sobre a maneira como temos conduzido a nossa vida e sobre o nosso silêncio e omissão diante da dor, do abandono e da solidão alheia. Se faz necessário também, formarmos uma corrente de solidariedade para que ninguém se sinta desamparado. 

Para isso, façamos uso das palavras! Elas têm poder. De vida ou de morte! Se não podemos visitar nem dar assistência ao outro, sem que isso coloque a nossa vida em risco, aprendamos então a acariciar as pessoas por meio das palavras.

Agora, sim, é hora de fazer bom uso das redes sociais! Façamos ligações de vídeo, usemos o celular para conversar, escrever palavras amorosas e de conforto. Enviemos mensagens de ânimo! Pois, dessa forma, ao final de toda essa pandemia sairemos melhores do que entramos, nesses tempos difíceis. E o amor e a solidariedade serão tochas que manteremos acesas por todo o resto de nossas vidas.

fevereiro 09, 2020

O Catador de Lixo e a Professora













Ele aparentava ser um homem feliz. Era uma dessas poucas pessoas em quem as marcas e os infortúnios da vida não conseguiram produzir ranhuras. A sua pele tinha o frescor da juventude e o seu coração batia com ardor, quando subia todos os degraus daquele prédio de luxo, à beira-mar, para o recolhimento do lixo. Morava no interior do sertão nordestino, mas viera à cidade grande em busca de dias melhores. Queria trabalhar e estudar. Ser Doutor! Tudo o que conseguiu foi uma vaga de catador de lixo. Cotidianamente teria que percorrer todos os andares daquele majestoso edifício, para recolher os detritos oriundos das mesas fartas e dos lautos banquetes, que vez ou outra, a esquina dos seus olhos conseguia enxergar. Tempos sofridos! Dia após dia o seu corpo doía de tanta falta. Falta, principalmente, da família e dos afetos abandonados naquela região longínqua, onde o seu jovem coração ficou sepultado para sempre. Todo o fim de mês tinha contas a pagar e escolhas a fazer. As poucas moedas que provocavam barulho no bolso da sua calça puída, pareciam lembrá-lo da sua triste condição: era mais um brasileiro, um nordestino a sonhar com esperanças vãs. Alguns meses se passaram, mas a realidade daquele jovem aprendiz não mudou. No entanto, ele continuou trabalhando com obstinação. Havia costurado no corpo uma vontade férrea de seguir adiante e uma resiliência de causar inveja a qualquer um. Nada o demovia do seu objetivo de ser Doutor.


Certa vez ao executar o seu trabalho encontrou entre os sacos de lixos recolhidos, uma pequena fortuna: livros! A partir daí a sua vida transformou-se. As horas de saudade e solidão foram sendo substituídas pela leitura e no brilho do seu olhar começou a chover arco-íris! Tudo era beleza e vida naquela sopa de letras que encantavam os seus olhos. Até a falta da família e dos afetos, deixados em terras distantes, ficaram como um borrão esquecido em sua memória. Com a passagem do tempo foi promovido a porteiro e as horas de leitura ficaram maiores, apesar da imensa responsabilidade de vigiar o entra e sai daquele prédio. Durante o dia o serviço exigia mais atenção, porém a noite, com as suas horas arrastadas, passou a ser curta diante da avidez e da fome de conhecimento daquele rapaz. Nos meses seguintes à promoção ele devorou livros, muitos livros. Todos os que lhe caiam em mãos. Tinha fome de palavras! Gastava as horas lendo, lendo. Até que um belo dia ele conheceu a professora. Uma jovem residente do edifício onde ele trabalhava e que tinha por hábito sentar-se à beira-mar para ler e contemplar o pôr do sol. Tímido, mal a cumprimentava, embora tivesse em seu coração o desejo de trocar algumas ideias com aquela que era considerada por ele a fada madrinha, o norte, a mão estendida, a ponte pela qual ele teria que atravessar para chegar ao lugar do seu sonho: ser Doutor! Flertava com a possibilidade de arrancar-se daquele silêncio de palavras. Queria conversar com a Doutora, contar-lhe sobre o seu desejo e pedir-lhe orientação. 

Por fim, essa hora chegara! Munido de coragem, com um largo sorriso e brilho nos olhos ele abordou a professora e falou-lhe dos livros que lera. Daí em diante o milagre da multiplicação das palavras ocorreu e uma bela amizade surgiu. Com ela mais livros, conversas, troca de ideias, sábias e serenas discussões. Então, o catador de detritos, agora promovido a porteiro, ensinou a professora que em um país onde cultura e educação estão sendo jogados em sacos de lixo, vale a máxima de que sonhar e resistir é preciso. Encarcerar esperanças, jamais! Pois, como ele sempre repete: tiram-me o direito à saúde, à cultura e à educação, mas o conhecimento é patrimônio meu. E é com ele que eu vou mudar o destino do meu país! Quem viver, verá!

janeiro 16, 2020

A Cadeira e o Olhar






Esta cadeira tem mais de 100 anos. Ela pertencia ao meu Pai/Avô, Chico Maria, e estava sob os cuidados de sua filha Marluce. Hoje, depois de um belo e minucioso trabalho de restauração, feito pelo artista plástico, Lairson Beserra, tive a grata surpresa de recebê-la, de presente, pelas mãos da minha sobrinha Rosário. Nela, vou ninar o trineto de Pai/Velho e contar a história a seguir. 


A Cadeira e o Olhar


O olhar de uma pessoa reflete a sua alma! Existem almas para todos os gostos! Há os que olham para esta cadeira e veem apenas uma cadeira, outros veem uma história... Uma vida! Vou contar-lhes sobre a minha visão, pois ao revisitar as gavetas da memória, “o tempo, este compositor de destinos,” costura a minha vida com doces lembranças, à medida em que viro páginas e páginas de um passado ainda tão recente. Pois bem, hoje, ao deparar-se com a imagem desta cadeira, o meu olhar transbordou de saudades e as lembranças foram se debulhando, uma a uma. A primeira delas foi a figura do meu pai/avô, Chico Maria, sentado sobre esta peça de mobília tão antiga, contando com mais de um século de existência. Então, lembrei-me de uma frase do escritor Ivan Martins: “o tempo pode ser adiado por fora, mas por dentro ele se instala”. É, o tempo se instala quando nos permitimos acessar recordações, que ficaram preservadas na memória como se fosse um relicário. Nesta hora, fatos, paisagens, lugares e pessoas costuradas dentro da gente contam a história a seguir.

Era um dia de sábado. Dia de tensão! A cadeira de balanço não balançava! Nela, um senhor de aspecto severo e circunspecto contava as cédulas, enquanto o suor lhe escorria pelo rosto. Havia chegado da feira livre, há poucos minutos, e o balaieiro (homem que carregava em um balaio as compras dos fregueses) ainda esperava pelo seu pagamento, quando eu, menina, aos 4/5 anos de idade começava a cantilena:

- Painho, me dá minha mesada! Ao que ele respondia:

- Menina, não vê que eu estou ocupado?

E, eu, insolente, continuava com a minha ladainha, a cada cinco minutos:

- Painho, me dá dois mil reis; - Painho, aumenta a minha mesada, até ver a paciência dele esgotar-se e ouvir em alto e bom som: 


- Menina, tá pensando que dinheiro é hemorroida?

Na minha inocência eu não entendia a comparação, mas me calava, pois sabia que a insistência me levaria ao castigo. Horas depois, bem mais calmo e apaziguado com as suas contas, ele me botava no colo e me entregava as tão sonhadas moedas, junto com um cacho de pitombas que ele comprava para mim, e para o meu irmão, Chiquinho. Aí, lá se ia eu a correr atrás do sorveteiro; do homem que vendia algodão doce; do pirulito de chocolate, da venda de seu Nilo e das macaíbas e jatobás da feira livre. Em um instante, acabava-se o meu suado dinheirinho e eu voltava para casa satisfeita com as compras que adoçavam a minha vida e a minha boca. Mas, sim, estávamos falando de uma peça de mobília! À medida que o calendário dos dias ia passando, as palavras do meu pai/avô se faziam habitar em minhas lembranças, de maneira indelével. Sentado na sua indefectível cadeira de balanço ele espreitava o tempo e contava histórias. Como esquecer a sua viagem de João Pessoa à Campina Grande, a pé, enquanto a fome lhe dava um nó nas “tripas”, até encontrar a casa do compadre, no meio do caminho. Ali, lhe foi servido o melhor caldo de um feijão que restou na panela e, que a cozinheira colocou em prato usado e limpo, com um pano de prato tão sujo, que até o pano de chão parecia mais asseado. Como não lembrar das conversas, lições e valores passados como honestidade, honradez, dignidade e, mais que tudo, do cumprimento da palavra empenhada!? Da sua cadeira de balanço eu vi a vida passar em exemplos de solidariedade e de justiça, entre tantos. Vi também o seu ar de preocupação e perplexidade quando o seu filho Chico sofreu um acidente de carro; quando o padre da igreja trouxe notícias do outro filho, Tota, que se meteu em uma encrenca; quando lhe trouxeram a notícia de que seu genro Sebastião havia sido assassinado, ao apartar uma briga numa festa de São João e, quando lhe informaram que a sua neta Eliane havia fugido, para se casar com George, o namorado da juventude. Na mesma cadeira de balanço espreitei as suas negociações com Zé do Sedo, com dona Judite, a famosa doceira de Campina Grande, responsável pelo bolo, doces e salgados do casamento de sua filha Marluce. Ouvi as conversas e os ajustes dos empréstimos aos amigos e a confiança ilimitada de que o fio de bigode valeria mais que uma nota promissória assinada, mesmo contrariando o conselho de sua esposa, que o alertava para um possível calote. No entanto, nada o demovia de suas convicções. Um homem só tem uma palavra, dizia você: - sim ou não!

É, Pai Velho, foram tantas as lições aprendidas sem que uma única palavra fosse emitida, nesse sentido, que o eco das suas palavras ainda ressoa em mim. E, agora, quando olho para esta cadeira, me perco nas saudades e fico parodiando a letra da canção, “Naquela Mesa”, de Sergio Bittencourt: “ nesta cadeira `tá’ faltando ele e a saudade dele ’tá’ doendo em mim.” Ao tempo em que também agradeço por tê-lo por perto na época da minha formação como mulher e cidadã. Obrigada, Meu Pai!

outubro 20, 2019

Uma Carta para Mel


Querida Mel,

Há sete anos você chegou a minha casa com ares de ventania. 
Vinha da Região Centro-Oeste do País. A cidade de Rio Verde foi o seu primeiro lar. 
Ao vê-la pela primeira vez, na casa do meu filho Gilberto, senti pânico, medo e uma sensação de morte iminente. 
Diante de mim estava uma cadela da raça Pit-Bull. Raça que, durante uma certa época, foi notícia nos Jornais e TV´s, principalmente, em manchetes sangrentas. Tanto, que alguns desavisados, em sua sanha, já se alvoroçavam propondo a sua extinção. Quanta ignorância! 
Mas, o tempo, senhor da razão, desceu um manto de silêncio sobre o assunto, quando ficou provado que eram os criadores, os responsáveis pela ferocidade dos seus cães e, assim, você pode viver tranquila por quase onze anos. 
Pois bem, hoje, senti vontade de escrever só para lhe dizer que apesar de termos chegado ao século XXI acumulando conhecimento, experiências e descobertas, em vários campos de atividades, sabemos muito pouco sobre o amor e os afetos. 
Por isso, esta carta. Quero lhe falar de amor, de saudade e gratidão, mesmo que seja difícil, nesse instante, encontrar o caminho das palavras. 

Faz oito dias que você foi sacrificada. O câncer atingiu os seus órgãos vitais e a morte tornou-se urgência diante dos uivos de tristeza e dor que emitia.
Naquelas horas, eu rezava e pedia a Deus que não a deixasse sofrer. 
Mal começava o dia e eu administrava os remédios, em horários regulares, para minimizar as dores e adiar a sua partida.
Foram três semanas de intenso sofrimento: meu e seu. 
Transferi as minhas roupas e a TV para o quarto de hóspede e fiz vigília por todo o tempo em que durou a sua agonia. 
Deitei no chão para ficar mais próxima de você e rezei, enquanto alisava a sua cabecinha. 
Falei da minha gratidão por ter sido escolhida, entre tantos, para ser sua companhia constante, relembrei nossos melhores momentos e cantei para embalar o seu sono. Naquele momento, ouvi pela última vez algo que sempre me surpreendeu: você suspirar ao som de sua música preferida: “Nessa Rua tem um Bosque”, tocada por Heitor Villa-Lobos. 
Mas, aos poucos, você foi dando sinais de que ia me deixar.
Os uivos de tristeza e dor, antes esporádicos, tornaram-se mais frequentes. 
A cena do café da manhã que antes tomávamos juntas - você sempre arranjava um jeito de deitar a cabeça em minha perna, enquanto eu tomava a primeira refeição do dia – foi substituída por uma distância de poucos metros, o suficiente para que eu visse o seu olhar carregado de promessas, dizendo-me: - sossegue, eu ainda estou aqui! 
As subidas aos degraus da escada que levam ao meu quarto, tornaram-se um tormento para mim. Eu subia e ao olhar para trás, via os seus olhos tristes, sem vida, querendo me acompanhar, em um esforço vão. 
Foram duas tentativas e você rolou escada abaixo a partir do quarto degrau. 
As suas patas, antes tão ágeis, ficaram inertes. 
Os dias foram passando e os seus uivos de dor feriam mais e mais os meus ouvidos e o meu coração.
Quando me pediram para autorizar a sua partida e acabar com o seu sofrimento, eu relutei. Não por egoísmo, mas por alimentar, ainda, a esperança que habitava em seus olhos e nos meus. 
Afinal, a sua saúde oscilava. Senti-me devastada! Queria a lâmpada de Aladim, o único pedido. Mas, isso me foi negado! 

Então, quanto o dia quatro de outubro acordou e se fez poente, eu me dei por vencida e chamei o veterinário, que colocou você para dormir sob a sombra da roseira do nosso jardim. 
Ah, Mel, no mergulho final no sono do esquecimento eu fui covarde! 
Fugi! Fugi para bem longe! Deixei você na companhia de Gilberto, de Alana e dos amigos que iam chegando.
Não queria dizer adeus, embora desejasse com todas as minhas forças embalar o seu último suspiro, como fiz tantas vezes, ao som da música “nessa rua tem um bosque”. 
Não tive coragem e, agora, estou aqui, escrevendo sobre o amor, a saudade e a gratidão, em um exercício de despedida. 
Escrevo, enquanto escuto o murmúrio das ondas do mar, longe do jardim e de você. Compartilho as nossas memórias, para que a vida não me doa tanto. Você foi o amor mais puro e incondicional que eu conheci. Obrigada, Mel!

setembro 22, 2019

Uma Carta para Águeda Magalhães













Querida Águeda,

Quando eu recebi o livro “Alquimia do Voo”, pelas mãos de sua filha Aline, estava de partida para uma breve viagem. Pés no mundo, todos os dias, procurava um espaço de tempo para iniciar a leitura, mas só encontrava o desconforto do barulho, essa ausência de silêncio tão necessário, para quem tinha em mãos o seu primeiro livro de poesia. Comecei, então, a ler sem pressa, com respeito e admiração como se estivesse diante de uma relíquia. Amo livros! Gosto do cheiro e de manuseá-lo com cuidado e atenção. Voltei às páginas por várias vezes, algumas, porque as lágrimas toldaram-me a visão, outras, quando o arrepio em minha pele pedia um pouco mais de calma... de alma. Queria garimpar/guardar suas letras e signos em uma caixinha de veludo vermelho, daquelas que nos enchiam os olhos de alegria e contentamento porque, dentro, havia um presente inesquecível! Iniciei a leitura, pouco a pouco, queria reter na memória a beleza que habita os seus versos, a sua alma. Pois bem, hoje, eu fui consultar o Aurélio. Um desejo imenso de encontrar palavras caramelos que pudessem falar da admiração e respeito que eu tenho pela sua obra, mas nada cabia na janela do meu olhar: você ultrapassa o dicionário em beleza, doçura e sensibilidade. Você é rara, minha querida! Gostaria de ter a competência e o conhecimento para escrever sobre Alquimia do Voo, como fizeram Ivy Menon e Lia Sena, mas não os tenho. No entanto, posso afirmar que os seus versos acordaram a minha alma, antes tão desértica e blindada. Parabéns, Águeda! Por ter os dedos cheios de poesia, mesmo quando a vida sangra. Desejo ressaltar que o prazer da leitura abafou qualquer ruído, pois, lendo você, eu escutei o silêncio das suas dores, o seu grito por vida, liberdade e amor. Obrigada, por você existir. O mundo sem você seria mais triste!



fevereiro 26, 2019

O Voo de Gibinha












Quando eu era criança ouvi a minha mãe dizer: “ filha, quando você receber um regalo não desfaça o embrulho de imediato. Primeiro, contenha a sua ansiedade, observe o cartão que vem junto, abra-o, só após ler o conteúdo, agradeça. É feio desfazer a fita antes de ler o que está escrito, pois as palavras têm significados maiores que o próprio mimo.” E eu ficava a matutar sobre aquilo que ouvira. Hoje, constato que tantas décadas se passaram, mas as palavras da minha mãe continuam provocando-me o mesmo estranhamento. Faltam poucas semanas para eu receber o maior e mais importante de todos os presentes: o seu pouso em minha vida. Então, pergunto-me: como posso agradecer por algo que os meus olhos não viram? Como ler um cartão que ainda não me foi entregue? Por enquanto, apesar da estranheza, procuro nas palavras a justificativa para o meu espanto. Daí em diante, sou só gratidão!

Gibinha, há quase 37 semanas recebi o anúncio do seu voo. Confesso que fui surpreendida pela notícia. Não esperava por ela tão cedo e os motivos pelos quais eu reafirmei a minha surpresa, não pareceram tão óbvios... Nada a ver com a passagem do tempo, a idade, o envelhecimento, tampouco com a carga de significação, que a notícia sempre trouxe para boa parte das mulheres. Não estava preparada para ser avó. Como assim, eu avó? Ninguém me perguntou se eu queria! Passei dias, semanas, meses para me acostumar à ideia de que você iria entrar em minha vida e sem permissão invadiria as minhas horas tornando as minhas noites insones. Acabou-se o meu sossego, pensei. Logo agora, com a vida estabilizada, os filhos criados, independentes e os dias livres para organizar o tempo como bem me prover. Recorri às lembranças do passado. Uma lista de motivos intermináveis justificou os meus pensamentos... Vai começar tudo, de novo!? Longas noites de vigília a espantar preocupações quanto ao seu futuro, ao seu caráter e a sua maneira de viver. Nenhuma certeza de que o investimento em horas de amor, carinho, renúncia, dedicação fariam de você um homem íntegro, ético, valoroso. Um ser humano melhor, comprometido com as causas sociais, lutando por um mundo mais justo e igualitário. Não há garantia sobre isso. Nenhuma certeza de que as longas horas a olhar para o relógio - depois de você ganhar às ruas, o trariam de volta ileso para os meus braços. Nenhuma certeza, aviso ou premonição de que novos tempos serão sem injustiças, nem violências para minimizar as minhas dores e angustias!? Apenas, inquietações acelerando o ritmo cardíaco, quando um filme em retrocesso passa diante dos meus olhos em momentos de incertezas. Eu já vivi isso, penso. Por isso, passado o espanto inicial e ainda sem ter desfeito a fita que amarra o novo presente, como minha mãe recomendou-, debruço-me nesse momento sobre as teclas do computador a catar letras que retirem as impurezas dos meus pensamentos e abro as minhas asas para dar-lhe proteção e boas-vindas. Faltam poucos dias para eu ganhar o presente, mas quem vai ler o cartão dessa vez é você. Que nas asas do seu voo lhe acompanhem a saúde, a generosidade, a compreensão e a alegria de viver no amor. E, também, o compromisso de fazer aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você. Seja bem-vindo, Gibinha!​


Crédito de Imagem: Armindo Alves. Um amigo com poesia no olhar. Um cronista visual.

janeiro 26, 2019

Consciência - Uma Sentinela para a Paz

Bombeiros carregam corpo resgatado em Brumadinho — Foto: Douglas Magno / AFP


















Mal o dia nasceu e lá fora a chuva cai intermitente trazendo 
desconforto a minha alma. Dentro de casa, a televisão ligada põe em desalinho os meus olhos diante das notícias de Brumadinho-MG, sobre a queda da barragem. Muitos mortos, desaparecidos, famílias inteiras perplexas, sem-teto, sem notícias, sem rumo, sem esperança. Tento resgatar a paz de espírito, no entanto, mergulho cada vez mais no avesso dos pensamentos e, estupefata, constato que a imobilidade, a inércia, o egoísmo, a omissão fizeram morada no meu espírito desviando a atenção para uma zona de conforto, há muito desejada: existe um culpado e, este, não sou eu! Pronto, já posso fechar a cortina dos olhos, dormir o sono dos justos. Não! O ruído das horas, os holofotes da memória, a consciência – essa sentinela para a paz - vigilantes, anunciam o resgate da minha alma que, em confissão, reconhece a sua parcela de culpa e pede perdão! Perdão pelas palavras de indignação abortadas em praça pública, pelo silêncio obsequioso quando o clamor das minorias pedia aderência, pela embriaguez do conforto e da sedução do poder. Perdão pela covardia, pela subserviência. Por ter me omitido, quando se fazia necessário subir ao palanque, pegar as armas do pensamento, das ideias, das palavras e discursar sobre cidadania, direitos humanos. Perdão por ter ficado em cima do muro, pelo conforto das contas pagas, do emprego garantido nas coxias do poder, das viagens, do caviar e do espocar do champanhe, quando o reles chão da Pátria Amada é a morada da maioria dos sem-teto, sem destino e sem esperança. Perdão pela omissão e covardia que colocaram os meus irmãos de Brumadinho-MG, no exílio, para uma pátria  de onde não tem volta. 



Crédito de Imagem: Douglas Magno/AFP - G1

janeiro 22, 2019

Um Amor para Poucos







Sou assumidamente romântica e sonhadora. Olho para estas cadeiras vazias e elas me reportam a emoções do passado, quando amar era um olhar sem pressa para outro, um desejo imensurável de que aquele encontro durasse para sempre. Naquela época, ouvir Vinícius de Moraes declamar em seu Poema Soneto de Fidelidade: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, era um desafio e uma agressão àquele sentimento urdido na alma, com os fios do encantamento e da esperança. Era um balde de água fria nos sonhos de quem esperava por um porvir risonho, ao lado de um amor que fosse travessia para felicidade. E, a felicidade era sinônimo de morar nos olhos do outro, sem despedidas. 


Hoje, aos sessenta e oito anos de idade, sou a mesma garota romântica e sonhadora, que se debruça sobre uma imagem e, no território livre da imaginação, faz a leitura de momentos felizes e do amor eterno. Os meus olhos, apesar dos anos e dessa “modernidade líquida”, passeiam pelas folhas do calendário e se desconcertam com qualquer tentativa de mudar a narrativa dos meus sonhos. Quem habitou em mim, me fez conhecer tempos de absoluta leveza, cantou o seu amor em versos e em prosas, me apresentou a ele de maneira doce, terna e ao mesmo tempo arrebatadora, vai ficar em meu corpo feito tatuagem, mesmo que, na dança discreta das horas, nem sempre tenhamos vivido a coreografia perfeita das nossas fantasias e, que o relógio das horas já tenha saqueado o nosso futuro. Quem me encantou, vai continuar me encantando sempre. É um amor que não acaba nunca. Porém, alguma coisa mudou com a soma dos meus dias. Agora, olho para estas cadeiras vazias e compreendo que o amor eterno é para poucos, só sobrevive quando rasgamos o véu da ilusão, lembrando-nos de que, na dança festiva dos dias, nem tudo é um mar de rosas... E ainda assim, permanecemos! Mas, entendo da mesma forma, que o sentimento cantado em versos e em prosas, pelo Vinícius de Moraes, em seu “Soneto de Fidelidade”, também é amor, porque amar é um exercício cotidiano de resistência, mesmo quando não dura.


Crédito de Imagem: Giovanna RMD L Avelar

abril 24, 2018

O Pé de Cajá da Minha Infância
















Encontrei o amigo Fred Arruda na Farmácia Pague Menos, do Bessa, e ele me desafiou a escrever um texto sobre o pé de cajá que tínhamos na casa da Vila Nova da Rainha, em Campina Grande. De imediato, expliquei-lhe que não escrevia há mais de um ano e que escrever para mim era e continua sendo um exercício de aprendizado. Não sou, nem tenho competência, nem pretensão de ser escritora. Escrevo, porque sinto saudades! Quando tento alinhavar as palavras, o lápis ou o teclado do computador não obedecem às minhas ordens. É a minha pele quem comanda, fala, arrepia, vibra e se emociona. Sou movida a emoção! Quando ela se manifesta, os meus dedos deslizam sobre as teclas do computador e uma dança festiva de letras, comemoram o assunto em pauta. Hoje, o Pé de Cajá da minha infância!

Lá fora, chove! Ela, a chuva, traz lembranças que desfilam no meu sítio de memórias. Logo cedo, quando o galo ainda cantava anunciando que o dia amanhecia, eu era convidada por Mãe Júlia a apanhar todos os cajás que as minhas mãos infantis pudessem recolher daquele chão amarelado de pequenos frutos. Logo, aqueles frutos se transformariam em um delicioso suco, para acompanhar o café da manhã. Às vezes, uma chuva fina caia como lágrimas do céu, abençoando aquele momento. Quantas saudades sinto daquele instante, quando o cheiro da terra se misturava ao perfume da fruta e trazia tantas alegrias e descobertas aos meus dias. Logo, logo, a casa se enchia de amigos e de outras crianças, como você Fred, encantadas pelo pé de cajá e ansiosas por disputarem espaço na colheita daquele fruto tão saboroso. Quantas disputas para ver quem pegava mais cajás... Ao redor dele, brincávamos de bola de gude, contávamos histórias, fazíamos planos para o futuro e descansávamos o pensamento. Na época do São João, acendíamos a nossa fogueira, sempre com cuidado e distância necessária, para não danificar as suas raízes. Depois, soltávamos fogos de artifício, que iluminavam a noite e davam brilho e um colorido intenso aos nossos dias, ressaltando também a majestade daquele gigante pé de cajá, que parecia desafiar o céu. Desafio que o relógio do tempo não perdoou.

Hoje, o pé de cajá da minha infância sobrevive apenas nas minhas lembranças, nas suas Fred e, quiçá, de algum desavisado que ainda não aprendeu a substituir o cheiro da fruta, o perfume da terra e toda a gama de sensações provocadas pela evocação de um nome, por coisas de somenos importância. Ele foi transformado e engolido pela ação do homem. O progresso, a vaidade humana, o relógio inclemente, cruel e impiedoso do tempo ignorou os meus planos para o futuro e as saudades de uma infância feliz, erguendo no lugar do nosso pé de cajá, a poesia concreta dos arranha-céus. Obrigada, Fred, pelo nosso encontro, bate-papo e pelo desafio. Por causa dele eu pude sentir de novo o sabor da fruta e das recordações, quando deixei os meus dedos e as palavras serpentearem pelas teclas do computador.

março 16, 2017

Sou o que Penso









Passado e presente caminham de mãos dadas dentro de mim. Ambos conversam a respeito da passagem do tempo, suas limitações e consequências na vida das pessoas. Um diálogo amigável que eu ouço todos os dias, enquanto observo o desconserto das horas na minha própria vivência.

O pretérito foi um tempo de luz, de alegrias e descobrimentos. Quando quero acessá-lo basta uma volta em torno do cerco da memória e os ponteiros do relógio e o seu girar permanente, nada podem fazer contra a força das lembranças. Tudo volta ao tempo presente, outra vez. Nessa hora, pele ressecada, músculos fatigados, andar pausado, rugas e fios prateados nada disso conta. Sou o que penso, o que sonho. Os meus pensamentos têm asas. E, ... como voam! Na minha memória o arranjo das palavras passado e presente não impedem o meu sonho de sonhar. Continuo sentindo, no corpo e na alma, a força do desejo e da paixão. Eles pulsam com igual intensidade dentro de mim tornando vivo tudo o que é sonho. Passado e presente se confundem.

Por que será, então, que me tornei uma mulher invisível!?

- Ah, tempo presente! Por maior que seja o voo imaginário dos meus pensamentos, eles sempre esbarram no desconserto das horas. O desejo, a paixão e a alegria de viver parecem estar camuflados sob as asas da palavra passado. As pessoas agora olham para mim e só veem os fios de prata que banham a minha cabeça e fazem de mim uma pessoa invisível e assexuada. Ninguém me olha mais com admiração, com interesse, com desejo e tesão. Tornei-me uma mulher respeitável, uma senhorinha de cabelos brancos, a quem as pessoas dão o lugar na fila de bancos e supermercados, e a quem as crianças chamam de vovozinha, mesmo que ao meu lado estejam pessoas bem mais velhas, embora disfarçadas sobre camadas e camadas de maquiagem, tinturas, intervenções cirúrgicas e botox. A ninguém interessa investigar os meus pensamentos. O que é uma pena! Pois, se assim o fizesse, talvez lhe causasse espanto a força do meu querer.

Por isso, é triste constatar que tornei-me uma mulher invisível, apesar da força do desejo que ainda sinto, da paixão e do interesse pela vida, do espanto e curiosidade diante do inusitado e da eterna busca por conhecimento e aprendizado. Vivemos numa sociedade do espetáculo, onde só vale aquilo que prende e chama a atenção... "Tempos líquidos, descartáveis"! Aceitar que os meus cabelos brancos contem a importância do meu passado é uma mera circunstância. Poderia pintá-los e parecer mais jovem. Não o faço! Por convicção e por aceitar que eles por si só, nada dizem sobre mim. A minha juventude e o meu tesão pela vida estão dentro de mim. Sou o que penso!