Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

outubro 26, 2008

A Fogueira







No exercício da minha vida eu escolho a alegria, o sorriso e o encantamento pela arte do viver. Não cultivo tristezas, só lembranças, e essas me são necessárias vez por outra, a fim de evitar que eu esqueça quem já fui, e o que sou.

Às vezes, me pego moendo lembranças e “segredos de liquidificador”, então, acendo a fogueira dos meus devaneios e me permito revisitar o passado. Nessas horas eu coleciono saudades, e desconstruo mitos. Faço um inventário do meu passado, páginas e páginas são amassadas, destruídas, jogadas na cesta de lixo, e com elas, esse amor mal resolvido vai se transformando em cinzas.


As chamas da fogueira já não aquecem mais. O amor consumiu-se... E eu penso: da próxima vez “seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito.”

outubro 19, 2008

Brincar com as Palavras



Brincar com as palavras me permitiu exercer a face oculta dos meus sentimentos inconfessáveis. Dei-lhes um nome: saudades, e a partir daí, pus em prática a atividade lúdica de manusear as letras do alfabeto do amor. Peguei-as, e com elas, criei as minhas contradições. Ora, somava-lhe um sinal – uma pausa – e lá estava o meu amor latente, entre vírgulas, disfarçado; ora, ele assumia a sua intrepidez e dava abrigo aos meus desejos mais secretos.

Hoje, em vôo livre sobre as asas dos ventos, estou em busca da minha liberdade perdida. Vou recolher as palavras soltas pelo ar, para tentar resgatar o quanto de mim que ficou perdido neste espaço feito da poeira dos meus sonhos. Palavras mágicas, doces e caramelizadas, produtos de uma safra, doados, e sempre em provisão: amor, carinho, ternura e paixão, não encontram mais ressonância. (...).

Estava em busca de um passaporte que me libertasse desses sentimentos, por isso, escancarei a saudade até o amor esgotar-se.

outubro 14, 2008

Esculpidos na Areia




Às vezes, passamos uma vida tentando parecer com os outros, copiando modelos que julgamos perfeitos, e nos perdemos. Perdemos a nossa essência, aquilo que nos torna único, singular, especial. Em outras, construímos idéias sobre o par perfeito; aquela pessoa pela qual esperamos uma existência inteira e que sem ela, nada mais faz sentido. Em um determinado momento, capturamos esse instante, esse encontro ideal, e cristalizamos essas lembranças produzindo um efeito devastador em nosso futuro. Esculpimos a imagem da felicidade e nela projetamos um rosto, uma voz e um cheiro. Está feito o estrago, criamos o mito! Fruto de nossas carências damo-lhe poderes sem limites. E a partir daí, passamos a esculpir os nossos sonhos na areia da praia.

Então, um belo dia, vem o mar em seu sorriso de espumas e apaga os vestígios desses amores impermanentes, riscando a folha corrida dos momentos felizes e trazendo-nos de volta à realidade.
Mitos esculpidos na areia se desfazem... E outros nascem confirmando os adágios: ninguém é insubstituível e nada dura para sempre.

outubro 13, 2008

Deixar ir!...




Abrir mão de um desejo, de lembranças, fatos e pessoas que fizeram a diferença em sua vida, é uma das decisões mais difíceis que o ser humano pode tomar.

Deixar ir!... Fazer-se poeira de estrada, de estrelas e de sonhos. Como é custoso trabalhar o desapego!

outubro 10, 2008

O Cotidiano e as suas Certezas



Gosto do cheirinho do café, do aroma que sai do forno quando os pães quentes e crocantes avisam que já estão prontos, e quando a cestinha cheia de biscoitos anuncia que o fim de tarde se aproxima. É o cotidiano e as suas certezas se fazendo presente nas coisas simples e prosaicas do dia-a-dia.

Assim é também o meu amor por você. Tem gosto de café com leite e pão com manteiga. Nada mais trivial!

Acredito que, em regra, isto é o que incomoda muita gente: saber-se amado e ponto. Nada mais! Nenhuma montanha russa a deslizar emoções violentas, nem picos de adrenalina circulando pelo seu mundo de fantasias. Somente a rotina, a doce rotina recolhendo as asas da sua liberdade em prol de uma canção de amor.

E recolher não é cortar! É juntar, reunir, receber e abrigar. É amor somado, vida e paixões compartilhadas, embora que, para muitas pessoas, as asas de sua liberdade sejam um preço muito alto a pagar pela conquista de um só amor.

Prolongar a vida em dias de flores e cantos de sabiás é a aspiração maior de todo ser humano, mas viver o cotidiano em seus dias iguais, talvez seja o grande desafio de quem sabe que: o “seja eterno enquanto dure” só faz sentido, para quem aprendeu a sobrepujar os seus desejos e a viver o amor em sua real plenitude.

O cotidiano e as suas certezas, eis o preço da felicidade!

outubro 04, 2008

Adrenalina, seu Nome é Amor!




Abdiquei de dar vida as minhas palavras, para não trair o amor que ainda sinto... O terreno escorregadio em que caminho, hoje, está cheio de papéis amassados e de letras de um alfabeto em desuso. É um amor fora do tempo jogado ao lixo para reciclagem. É o meu amor!

Ah, essas mulheres que amam demais, como se tornam cansativas e previsíveis!

A rotina cansa e o amor envelhece. (...).
A adrenalina – esse amor que está em voga - segue o seu percurso diário em busca de novas emoções: o sangue lateja e o desejo aparece no desvio, na curva ou no atalho, para se tornar igual lá na frente, e a vida se fazer rotina de novo.

Ah, essas mulheres que amam demais, como se tornam cansativas e previsíveis!

Preciso reciclar as minhas palavras, colocar os meus sentimentos no tabuleiro de xadrez e dar-lhes um xeque-mate em nome da modernidade, da adrenalina e... Ah, desculpe, o nome disso é amor!

Ah, essas mulheres que amam demais!... Reciclar é preciso!

outubro 01, 2008

Passaporte Perdido




Sou uma romântica incorrigível, dessas que embarcam na saudade e perdem o passaporte, tornando-se refém das lembranças e dos amores que o tempo levou. Numa época de relações descartáveis, ainda, não fiz do meu corpo a capela dos meus desejos. Na contramão do tempo eu estou à deriva! Mergulho fundo nas águas turvas do meu passado para ver se encontro racionalidade para as minhas escolhas – as saudades sentidas - e nelas, encontro a saída: quando o amor fez bonito em nossas vidas e nos deixou um legado de boas recordações, amar é jamais ter que despedir-se.

Na intimidade das minhas lembranças há buquê de rosas contando uma história de amor: há um pão quentinho recém saído do forno, um ouvido atento e uma cumplicidade amorosa; uma coca-cola resgatada numa noite escura e perigosa, uma intimidade de silêncios que as palavras não conseguem traduzir e um dar-se as mãos com ternura, que nenhuma relação, por mais íntima, é capaz de alcançar.

As minhas saudades carecem de muito espaço, elas se fazem presentes, ainda, no arrepio do meu corpo quando escuto a música, tema da nossa história de amor. Elas aparecem quando estupefata constato que a felicidade, de hoje, é uma eterna busca por segurança e não por intimidades... E aí, eu lembro você e o seu amor sem igual.

Ao me debruçar, neste momento, sobre as páginas viradas da nossa história, eu tomo emprestadas as asas de um querubim e com elas alço vôos em sua direção para dizer que: “começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor”, pois amar você valeu à pena... Demais!

(...).

E o passaporte? Ah, esse vai continuar perdido!

setembro 29, 2008

Bandeira Branca



Bandeira branca sinalizou, ela, e capitulou... Não mais haveria de esconder aquele amor guardado por tantos anos. Às favas com os escrúpulos, as meias verdades, as frases de duplo sentido e tudo o mais que o levasse a meio centímetro do calor dos seus braços e do seu beijo ardente. Não poderia esperar nem mais um segundo, pois, já tinha provado a eternidade longe do seu amor.
Foram longos os anos de espera e os projetos a dois, adiados em nome das convenções. Dessa vez, seria pra valer. E ela apostou todas as suas fichas nisso. Guerreira que era, foi à luta e emprestou-lhe também os cabelos, para que ele tivesse a força do Sansão de Dalila.
Pobre homem, quando viu sobejar tanta devoção, tanto carinho e tamanho desprendimento, avultou-lhe a culpa de não saber amar... E partiu para nunca mais voltar.

setembro 28, 2008

Habilite-se




Respondendo a sua pergunta, eu diria: meu compromisso é com a felicidade e esta, não está no prazer das horas nem na superficialidade dos encontros casuais. Não estou à procura da metade da minha laranja, nem tampouco da minha alma gêmea. Sou inteira, não necessito de complemento!

Acredito no amor que tenha como base o respeito e a admiração. Não saberia amar alguém que eu não admire e essa inclinação passa longe de um rosto bonito e um corpo sarado. Preciso de algo mais sólido! Desejo gente bem resolvida, que não necessite provar nada a ninguém. Gente satisfeita com as suas rugas, com os seus cabelos brancos, com a sua história de vida, e por que não, com a sua pouca habilidade para trapacear mentiras de amor. Ah, tem ainda um detalhe: na minha matemática um mais um, somam... E no meu corpo só cabe um abraço.
Portanto, se você se enquadra, habilite-se!

setembro 27, 2008

Não me Perguntem




Outro dia, tentei escutar a velha senhora que há tempos pede passagem para fazer morada em mim, e não a encontrei.

- Sinto muito, ousei dizer, mas a minha parada estacionou nos quinze anos. Tenho alma – ou espírito – de criança, e não me peçam para mudar! Não tenho medo do ridículo, e sim, de não poder criar, produzir, erguer castelos no ar e com eles abastecer de sonhos o meu viver. E a que se destina o viver se não for para transformar a matéria dos seus sonhos em realizações palpáveis? Há pessoas que morrem cedo quando abrem mão do desejo e da sua capacidade de transformar o mundo. São peregrinos de uma nação sem bandeira e estranhos de si mesmos. (...).

Não são os anos que me tornam mais sábia e circunspecta, porque se assim o fosse, todas as velhas seriam prudentes e felizes. A minha sabedoria está em permanecer alerta aos chamamentos da vida, a alegria de viver e a possibilidade de poder voltar e começar tudo outra vez.

Não quero a passagem e a seriedade dos anos determinando o meu comportamento e as minhas atitudes. Quero, agora e ainda, a iniciação dos meus verdes anos, para desfraldar as bandeiras que eu assumi na conquista da minha felicidade.
Portanto, não me perguntem! A ninguém é dado o direito de me lembrar a minha idade e o que fazer com ela, pois, tenho a idade dos meus sonhos e eles não acabam nunca.

setembro 26, 2008

Sonhos Sem-Teto



Sonhos Sem-Teto me levaram a manusear o alfabeto de brinquedo das minhas ilusões...
A arte de brincar com as palavras me proporcionou um gozo inenarrável. Embora não seja artista das letras, tomei posse do alfabeto da minha ignorância, e com ele reinventei o prazer de criar os meus sonhos sem-teto. Ah, que deliciosa essa vida de palavras! Como mentem quando eu preciso, e silenciam quando alguém se arvora no direito de possuir a legitimidade das palavras de amor.


As minhas palavras não têm vida! Elas são feitas de ausências... E validar a sua ausência é tudo que eu preciso para abrir mão dos meus sonhos sem-teto. Sonhos sem-teto, sempre eles, armazenando-se dentro de mim e ocupando espaços abertos pelo mito do verde-esperança.


Ah! Como eu queria ser artista das palavras, e com elas poder manipular essa dor que não passa, e que me vem de não sei onde, e sem eu saber por quê...

setembro 25, 2008

Quem terá a posse da eternidade?



A vida é o que está acontecendo aqui e agora...
A diferença que há entre nós é que no côncavo das suas mãos você segura a eternidade como se ela fosse presente dos deuses, apenas, para a sua vida. Para mim o tempo urge e a vida é breve. Preciso dele para viver a felicidade escorregadia, que ora transita pelos meus dias, lembrando-me que nada dura para sempre, pois até os meus sonhos têm se tornado efêmeros nesse vaivém de emoções contraditórias.

Mantenho o amor que ainda sinto embalado na certeza de que o tempo e a ausência matam o amor, mas nada podem contra a saudade. E é dela, que ainda hoje, eu me alimento. Mas, o meu desejo de ser feliz procura por espaços, e na alternância entre suas dúvidas e ausências, um motivo a mais, para tentar atravessar a ponte que me leva onde a felicidade está disponível, pois, no silêncio das suas palavras, eu vi uma escolha.
Agora estou à deriva, mais uma vez essa tal felicidade se fez sorriso e se desmanchou nas ondas do mar. Navegar agora é preciso! O tempo e a sua ausência farão mais por mim do que eu e esse meu amor igual...

agosto 31, 2008

Palavras ao Vento



Palavras ao vento escritas, sem destinatário certo, foram parar em suas mãos e com elas, você erigiu um castelo de ilusões, fazendo-se posseiro do alfabeto das minhas dores e senhor das frases mal elaboradas do verbo amar, do meu amor.

Não se ufane, são apenas bobagens, devaneios de uma mulher sonhadora. As palavras não têm peso, os sentimentos, sim. Com eles construímos castelos de ternura e delas temos que sobraçar o sentimento libertário, para que não saiam, por aí, contando mentiras de amor.

agosto 30, 2008

Amor Solitário




O anonimato, que deu guarida a minha história de amor e me protegeu por anos, encontrou uma janela entreaberta e expôs os meus segredos.
O meu coração ousou pedir clemência, mas o seu murmúrio não se fez ouvir. Fiquei desnuda! E me avultou a dor, ainda mais, pela revelação, do que amar sozinha durante todos esses anos.


As palavras, coitadas, já não sabem como me aconselharem. Enchem-me os ouvidos de letras soletradas em silêncio: a-r-r-e-g-o! E eu dissimulo, finjo que não é comigo. Em surdina consulto o Aurélio e lá, ele diz: “arrego: ato de render-se, entregar-se”. E, novamente, eu disfarço, mas dessa vez eu digo baixinho: nunca! E sigo amando as letras, a capacidade de brincar com as palavras e continuar... Sozinha.

Inventário de Amor













Na cesta de lixo eu fui encontrar o esboço do inventário do nosso amor de ontem. Pobre amor! Nada cresceu, acrescentou. (...) Morreu!