Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

maio 03, 2015

A Vida fora do Roteiro
















“Há realidades que só a ficção suporta”. (Eliane Brum)


Todos sabem que os escritores têm a imaginação fértil e que a "literatura é o território da liberdade". De suas mentes saem histórias incríveis capazes de confundir, arrepiar, emocionar ou encantar o mais experiente leitor. São cérebros privilegiados desafiando o pensamento alheio em sua capacidade de perceber a diferença entre a realidade e a fantasia. Eu não sou escritora, porém, gostaria de sê-lo. E não é falsa modéstia e, sim, a compreensão de que me faltam conhecimento e técnica. Na arte de escrever, eu me defino apenas como uma aprendiza, que tem a sorte de ser auxiliada por ferramentas – dicionários – que não permitem que eu resvale pelos erros mais elementares do idioma pátrio. Sou uma escrevinhadora que gosta de brincar com as palavras e, às vezes, passeia por entre as letras do alfabeto tentando colhê-las para ver se algo faz sentido. E, é isto o que vou fazer a partir de agora.

Nesse momento, enquanto escrevo, o mundo lá fora arde em chamas: cinzas do vulcão Cabulco, no Chile, se espalham e cobrem o ar que respiramos. No Nepal, um terremoto leva tudo o que construímos numa vida inteira mostrando-nos que nada é permanente. E a grande lição que fica dessas duas realidades é que o tempo devora certezas: tudo o que tínhamos e sabíamos não temos mais... Então, eu me pergunto: - se o tempo devora certezas, por que nos deixamos enredar pelas miudezas da vida e passamos tanto tempo diante do computador tentando provar ao mundo quem somos?

- Não tenho respostas prontas, no entanto, ouso dizer que somos passageiros da ilusão e habitamos um mundo de faz de conta porque temos medo do outro e do quanto a proximidade com ele pode revelar sobre nós mesmos, pois como bem disse a escritora Eliane Brum: - “Há realidades que só a ficção suporta”. E, por causa disso, nos escondemos nas palavras e damos vida a uma vida que não nos pertence.

É muito fácil criar um roteiro fantástico para os nossos dias, basta nos sentarmos em frente ao computador e acionarmos algumas teclas. De repente, como num passe de mágica, temos um milhão de amigos, somos todos lindos e maravilhosos, temos o melhor emprego do mundo, a melhor casa, o companheiro perfeito, fazemos e frequentamos as melhores festas, os restaurantes da moda, conhecemos os lugares mais badalados e, ainda por cima, temos livre trânsito entre “os bem nascidos” ... É pouco espaço para tanto ego! No país do Facebook ninguém sente tristeza, abandono, solidão... Todos são felizes para sempre. E, se algo sai fora da cartilha da felicidade e nos incomoda, uma simples tecla – delete – resolve o problema. Saltar desse mundo ideal, mas irreal, onde o presente é saqueado e o futuro uma incógnita é um trabalho hercúleo, porque como diz, Milton Nascimento, na canção, Maria, Maria: “é preciso ter força, é preciso ter raça”. E, Fé! Na vida e em si mesmo.

É bem verdade que a vida, fora do roteiro que digitamos, pode ser bem menos glamorosa, mas quem sabe seja plena de afetos e carinhos verdadeiros. É sempre bom lembrar o que disse o escritor Eduardo Galeano: - “somos um instantezinho, nada mais, na memória do tempo”, então se faz necessário que saibamos empregá-lo com inteligência e lucidez.

Por isso, nesse momento, ao observar o cotidiano em suas pequenas e grandes tragédias, eu reflito sobre a necessidade de ressignificarmos os nossos hábitos para que possamos ter um novo olhar. Um olhar que nos permita sair da zona de conforto e da bolha de isolamento na qual nos escondemos através das teclas. Precisamos aprender que a vida não pode ser guardada para se viver depois. A impermanência nos ensina que nada é para sempre e que o roteiro da nossa existência deve ser tão real quanto um almoço de domingo em família: pleno de carinho, afeto e cumplicidade. Ao vivo e em cores. O resto é digitação!

abril 16, 2015

A Página em Branco













Apenas um toque e ela surge diante dos meus olhos desafiando-me para mais um confronto, entre o passado e um porvir risonho que nunca chega. No futuro, só existe a ilusão... Promessa de felicidade! Olho para a tela e, hesitante, penso se terei coragem de manchar a sua alvíssima brancura com o sangue derramado das minhas entranhas. Nessa hora, eu lembro: costurei tantas palavras ao longo dos anos que, tal e qual uma roupa ajustada, já não há espaço para nem mais um conserto. Tudo já foi dito e feito na alfaiataria dos meus sonhos. Será!?

Então, penso em nós dois e reinvento retalhos... Novos ajustes! Diante do computador, exponho-me em carne viva e as recordações pousam e se deixam alinhavar sobre a tela em branco. As letras em cor carmesim, devassam-me... Já não sou eu quem percorre, agora, o escaninho da memória e das saudades engavetadas. Quem caminha por entre as lembranças do passado é aquela que um dia foi objeto do seu amor. Olho novamente para as teclas: letras mortas, ávidas por desvendar segredos, e decido pela cor da neve. Nesse instante, você é apenas a página em branco, cheia de rasuras, que se deslocou do livro da minha história.

abril 05, 2015

Confidências














Tudo em mim é certeza, convicção desde sempre. Nunca fui escrava, tampouco Amélia. Desconheço a história da submissão das mulheres, pois o meu silêncio jamais foi alimentado pelo som dos gritos, nem pelas mordaças e arreios colocados pela vontade dos homens. Entre nós não há acertos de contas a fazer. Ergui a taça da minha liberdade faz muito tempo: nasci livre! Quando quero, vou lá e faço...

Por isso, se alguém quiser cruzar o meu caminho, que procure os atalhos da delicadeza, do respeito e da lealdade. Não preciso de proteção, nem do braço forte de ninguém. Sei caminhar com os meus próprios pés e, quando não puder mais, posso muito bem contratar um acompanhante. O que eu desejo na realidade é encontrar alguém que tenha fé em si próprio a ponto de não precisar usar o outro como um troféu, para ocultar os seus passos trôpegos...

março 10, 2015

De Frente para o Espelho















Ela olha para mim com atenção, porém eu percebo um indisfarçável ar de superioridade e de enfado. Tem pressa! Os passos longos e rápidos parecem me ordenar: vamos logo, a vida urge! Tem medo de que o tempo lhe roube algo, embora, não saiba exatamente o que é.

Altiva e vaidosa, tem o corpo como um troféu ambulante, cujo andar gracioso e ágil denuncia que as horas pontuadas pelo silêncio e contemplação estão longe, muito longe do percurso escolhido no presente. A sua alma, até este momento, não deu abrigo ao medo, à insegurança e as dificuldades do caminho, nem o corpo exibe as marcas dos dias que correm céleres e inclementes. Não há rugas, nem cicatrizes. Ainda não passou a vida a limpo e, por essa razão, em seus olhos não há tolerância, paciência, tampouco, compaixão.

Ela me confronta quando fala do passar dos anos, da beleza e da mocidade. Jardineira da esperança, diz que o seu tempo é outro e desdenha do meu. Fala-me de tecnologia e do avanço da ciência... Invoca para si o frescor de uma juventude plastificada e de um corpo esculpido nos corredores das academias da moda. Quando lhe pergunto sobre o amor e a amizade, uma tristeza líquida parece surgir em seus olhos, mas ela disfarça e tenta lidar com o desconforto das palavras, seduzindo-me com um discurso sobre a modernidade... Lembra de Vinícius e diz: "que seja eterno, enquanto dure".

Então, nessa hora de descuido, eu lhe pergunto: o que vê, quando se olha no espelho? Quais as suas lembranças de gaveta? Onde estão os seus afetos?

Um silêncio pesado cai sobre nós agora e, com a alma em desalinho, ela me desafia:

- Quem é você!? Coleciona saudades, por acaso?

Nesse instante, tomo-lhe delicadamente o espelho das mãos e respondo: eu sou você, ontem. Porém, de mim, o tempo nada roubou. Coleciono lembranças que possuem valor pela sua raridade nos tempos modernos e marcas de expressão que contabilizam histórias vividas.

Ela me ouve sem interrupções e depois se afasta em passos ligeiros, tentando esvaziar as horas. Tem pressa para chegar, embora não saiba bem, aonde.

Então, eu caminho em passos lentos e me posto de frente para o espelho. Nele eu vejo refletida a imagem da menina que ainda sou. O tempo atropelou as horas, mas ela está ali, bem viva, dentro de mim. Em um lugar onde as rugas e cicatrizes não alcançam nem causam danos.


março 06, 2015

Final Feliz


 









Em 2014, estive próxima da "indesejada das gentes". O céu de novembro, apesar do verão, parecia uma xícara de porcelana a tingir de cinza os meus dias... Porém, quando o rufar dos tambores anunciou a chegada do ano de 2015, eu fui contemplada com algumas folhas a mais no calendário gregoriano e a natureza exibiu sua mais linda paleta de cores, como se estivesse a desejar-me as boas vindas. De repente, o passar das horas estava sendo oferecido em parcelas iguais para que eu usufruísse, novamente, tudo o que 2014 ameaçava retirar: a minha vida e os meus sonhos!

Naquela altura, eu consultei o acervo da memória e dei liberdade para que o pensamento corresse sem rédeas deixando, dessa forma, que o meu destino fosse selado nos bordados da imaginação. Pensei: - preciso olhar para o que foi vivido sem ter medo de reinventar a minha trajetória e/ou essa é a oportunidade de estrear uma nova vida?

Naquele momento, depois do susto, algo estava me tirando do lugar, da zona de conforto e pedia, com insistência, que eu revisitasse o porão da minha alma. Alguma coisa me dizia que ali havia percursos a serem corrigidos tanto em manhãs de silêncio e quietude, como em tardes de temporal. Ainda marcada pela dor, pelo assombro, diante do inesperado, com dúvidas, inquietações e, sem despertar para as possibilidades não cogitadas, eu continuei indagando:

- A minha vida sempre foi muito morna... E, os meus olhos pouco acostumados a novidades e a deslumbramentos... O que fazer agora com essa possibilidade de reconstruir o caminho? Ou será que daqui por diante tudo deverá ser diferente? Naquela hora, lembrei de quem eu era e de que maneira deveria me desconstruir, se quisesse ter a minha iniciação nas coisas nunca antes provadas...

O rufar dos tambores ainda ecoava em minha cabeça como uma saudação efusiva pela vitória contra a “indesejada das gentes”, no entanto, algo me dizia que eu precisava mudar e, com certa urgência. Nada mais seria como antes... Os passos sempre ausentes da agitação dos dias, da efervescência das noitadas, dos encontros e desencontros, dos amores passageiros e das muitas viagens e festas perdidas, reclamavam por uma nova postura: precisava me libertar do cotidiano e da vida morna para estrear outra forma de viver.

Com essa ideia martelando na cabeça deixei os dias fluírem sem dar muita importância aos apelos mundanos e, só tempos depois, fui consultar o meu coração: um lugar onde razão e sensibilidade se digladiavam. Havia revisitado o porão da minha alma e constatado que a soma de afetos recolhidos pelo tempo me autorizava a começar uma vida nova, pois nada nem ninguém era tão importante que não pudesse ser esquecido... Será? Perguntei-me.

Então, de súbito, no sítio da minha memória se redesenhou uma imagem e um desejo atemporal: viver um grande amor! Lembrei-me do passado, das coisas e pessoas que havia deixado para trás e dos sonhos abortados. Naquele instante, eu desisti das possibilidades não cogitadas e de estrear outra forma de viver. Pensei: - vou continuar reconstruindo caminhos. Quem sabe, um dia, ao brincar com as palavras eu possa escrever... Final Feliz!

fevereiro 09, 2015

Ilusão

















Ele sempre pedia: escreva! escreva! E eu, tonta, me despia em letras. Achava lindo aquele jeito de amar, até descobri que dentro dele havia um iceberg e que o dicionário do meu amor era labareda que não o aquecia. Ele tinha fome de palavras, mas o deserto da solidão que havia atravessado durante tanto tempo o incapacitara para os gestos longos e abraços demorados que as orações sugeriam.

Por isso, andei costurando as minhas palavras. Coloquei uma vírgula aqui, uma interrogação ali, as reticências pelo meio e, de súbito, uma interjeição que surgiu para clarear o caminho. Então, eu entendi, finalmente, que estava na hora de botar um ponto final naquela história de amor que nunca aconteceu... Ilusão!


fevereiro 01, 2015

Quando o Amor Salva















Sempre gostei de brincar com as palavras... Quando criança, um livro ou uma porção de letrinhas de plástico coloridas, nas mãos, fazia-me a festa. A imaginação fértil aliada a uma timidez cada vez maior levava-me, como um pássaro em voo rasante, a procurar abrigo nas páginas dos livros infantis e a manusear aquelas letrinhas de tal forma que o meu mundo pudesse ser composto só de amor, beleza e harmonia. Passava horas, encantada, pegando carona nas folhas de papel e transportando-me para um mundo de fantasias. Sem certezas geográficas me descobria um andarilho na terra dos sonhos... Mas, o tempo transcorreu rapidamente e os ponteiros do relógio arrancaram-me, sem dó nem piedade, do meu mundo ideal... Cresci!

Hoje, longe da altura fértil da minha imaginação, pergunto-me: - o que mudou de lá para cá? Onde está a menina tímida e sonhadora que eu fui e em que páginas do livro da vida se esconde? Respondendo com sinceridade posso dizer que ela continua aqui - dentro. Nada, em mim, mudou... Com as letras do alfabeto eu ainda crio um mundo possível, habitável, belo e harmonioso. Com elas construo palavras e derrubo muros e castelos de indiferença, fazendo aos outros aquilo que gostaria que fizessem a mim. Tudo o que desejo de bom me faz sair do casulo em que me escondo para ir ao encontro do outro e, juntos, diminuir a distância, a dor e a solidão do abandono... E isso, eu aprendi nos livros que li e na vivência com pessoas especiais que cruzaram o meu caminho... Ao longo dos anos, nenhuma coleção de dores nem de fracassos, mudou a minha essência... Não nasci para ser exceção, quero ser regra. Quero deixar marcas do bem por onde passar.

Por isso, agora, quando a vida me surpreende com uma dor mais funda e exige-me uma coragem e fé que eu não acreditava possuir, pergunto-me: o que é que essa dor está querendo me ensinar? Em que recantos de mim buscar essa força para não sucumbir?

Então, recorro a minha memória afetiva e lembro-me das letrinhas coloridas nas mãos, das histórias infantis que li e de pessoas especiais que cruzaram o meu caminho. Com elas eu construí um mundo: bom, ético, solidário e harmonioso. Com elas eu descobri que só o amor salva... Cura! Amor, essa energia amorosa, a única capaz de me tirar do casulo do medo e da angustia de não saber como será o dia seguinte (quando se está numa UTI) e agradecer a vida por mais essa oportunidade de aprender, mesmo através da dor, a me transformar numa pessoa melhor. Obrigada a todos pelo carinho, pela amizade, pelas orações e, principalmente, por me fazer acreditar que o melhor do ser humano ainda está dentro dele.

janeiro 01, 2015

Fraturas do Cotidiano











Hoje, quando os primeiros raios de sol despontarem no horizonte, eu desejo que o meu dia seja “escandalosamente perfeito”. É início de ano. Um tempo de renovação. Possibilidades em folha de escrever uma nova história e de restaurar as fraturas do cotidiano. Penso nisso e lembro-me da minha trajetória e, de que maneira, resolvi mudar o curso do meu destino.

- Quando eu nasci era uma página em branco e, sem querer, assinei um termo de concordância onde as pessoas escreveriam o que quisessem sobre mim. Indefesa, fiquei a mercê do humor, da boa vontade e, principalmente, da sanidade de quem tinha caneta, lápis e papel em mãos. Durante anos, me submeti a tirania do você, é assim e para sempre será, marca indelével dos que ferram o gado para garantir-lhes a propriedade... Esquecia-me, constantemente, de que alguém já dissera: - "crise é tormenta, mas também possibilidade de reformulação interior". Porém, ao atingir a maturidade, encontrei uma porteira entreaberta - um vislumbre de libertação - que me permitiu abrir a consciência, dar o meu grito de liberdade e livrar a minha alma do cativeiro...

- A partir de agora, disse eu, ninguém me dirá quem sou, nem o que fazer com os dias que me restam. Estou livre! Sou absolutamente responsável pelas escolhas e pelos caminhos que trilho. E, em sendo assim, liberto também os meus algozes... Parto para a vida de peito aberto, esquecendo os grilhões da tirania alheia.

E, foi dessa forma, com o coração de aprendiz, que eu olhei para o que foi vivido e, sem ter medo de reinventar o meu próprio percurso, interrompi a história que os outros contavam sobre mim, criando assim o filme da minha vida e assumindo de vez o lugar de protagonista que me cabia em cena...

Por isso, hoje, quando os primeiros raios de sol levantarem-se na manhã deste ano que se inicia, eu lembrarei do compromisso que assumi comigo mesma de que a ninguém mais daria o poder sobre a minha vida e sobre as minhas escolhas. E, que, 2015 não ficará restrito a apenas um dia, mas a um ano escandalosamente perfeito, naquilo que depender de mim. Feliz Ano Novo, Juliêta Almeida!



Créditos de Imagem:
http://existeumolhar.blogs.sapo.pt/

dezembro 17, 2014

Uma Carta para Manuela










Querida Manu,


Ao olhar para as imagens “Folhas do Outono e Voo” captadas pela poesia do teu olhar, fico em dúvida sobre qual das duas escolher para ilustrar este texto que começa a se esboçar em minha mente. Então, começo a escrever na esperança de que as minhas palavras façam sentido e que não borrem a beleza da tua fotografia.

Nas folhas do outono espalhadas pelo chão do esquecimento eu vejo escritas as páginas da vida, o tempo passado e a beleza enrugada de uma época que não volta mais. A cor das folhas lembra-me que a ferrugem carcomeu a caixa do correio, enterrando de vez a alegria e a esperança e, que a poeira do abandono cobriu dias, meses e anos deixando para trás uma saudade doída de um período feliz que passou. Olho novamente para as folhas, como quem procura tinta para continuar desenhando os seus sonhos, mas percebo que parte de mim já não se encontra mais ali. Tudo o que me sobrou desta fase são lembranças de gaveta que já nem abrem mais.

Então, pego carona no voo da gaivota e peço a Deus, em oração, que em 2015 me dê uma tela em branco para que eu possa pintar as minhas fantasias com cores mais vibrantes. Não vou mais pedir, ao dicionário, palavras emprestadas que me levem aos recantos da memória e que me tragam de volta à vida que perdi... O que passou, passou! Quero tudo novo... De novo! Cansei de amores requentados e de palavras vazias.

A escritora e jornalista Eliane Brum disse, em uma de suas entrevistas, que as pessoas morrem por que a gente silencia. É verdade! Embora, no meu caso, eu tenha sobrevivido... Por isso, quero a tela em branco. Nela, vou desenhar a vida e usar o despudor das palavras para escancarar o meu desejo, numa linguagem clara e inequívoca. Vou pintar a minha felicidade e acabar de vez com esse passado bolorento que me manteve presa nos vãos do tempo e nas molduras das fotografias. Cansei das pausas e dos silêncios... E, de romantizar o amor!

Hoje, o que mais desejo é pegar carona no voo desta gaivota e em suas asas me perder pelo chão do infinito, pois durante anos não fiz outra coisa senão fixar morada em terreno pétreo, acalentando um amor do passado e dando colo a saudades oriundas de uma solidão escolhida.

Quero, a partir de agora, amar despudoradamente e desmontar essa autossuficiência que me deixou imune ao carinho e ao vendaval das paixões. Quero dissecar a anatomia desse sentimento blindado que eu guardei por tantos anos e oferecê-lo a quem tenha a coragem de assumir que ele será eterno, apenas, enquanto dure... Assim é o amor em tempos modernos. Estou livre!

Dessa forma, querida amiga, eu termino esta carta te agradecendo o motivo da inspiração. Que a doce poesia do teu olhar capte, sempre, o melhor da vida e da paisagem. Obrigada!



PS: Crédito de Imagem: http://existeumolhar.blogs.sapo.pt/



novembro 14, 2014

A Casa Rosada











"Querência", segundo o Houaiss, “é o lugar onde o animal foi criado ou onde se acostumou a pastar, e para o qual volta, por instinto, se dali for afastado”.

Quando dei por mim, lá estava eu em frente à casa rosada. Movida por uma grande emoção parei o carro, desci e fui saquear as minhas recordações, numa tentativa de resgatar o passado. Ledo engano! A minha memória estava se diluindo e tudo o que consegui lembrar foi: - perdi tanta coisa aqui, pois o tempo soube passar e eu, não. Parei numa rua chamada saudade e deixei a minha alma morrer de inanição.

Olhei em volta e segui caminhando pela calçada. Alguns passos adiante vi a praça e as copas das árvores, que tantas vezes nos abrigou das chuvas de verão. Sentei-me no banco e me deixei levar pelas lembranças, juntando os cacos da memória para, dessa forma, trazer para o presente, cenas congeladas em pausas de fotografias, que eu guardei no fundo de uma gaveta. No entanto, me dei conta de que já não conseguia mais lembrar do teu jeito de sorrir, dos teus olhos e da tua voz... Do teu rosto! Tantos anos haviam se passado. Tudo estava envolto nas brumas do esquecimento.

Então, eu comecei a te inventar a partir das imagens que tatuei na minha alma. Elas permaneceram ali desafiando o tempo e o desbotamento do nosso amor. Naquela hora, as reminiscências apropriaram-se dos anos sessenta e fizeram-me reviver, trazendo todo o passado à tona, provando que não adianta matá-lo com o silêncio do fundo de uma gaveta, pois qualquer ruído traz ele de volta... Sempre!

Naquele momento, como num jogo de encaixe eu fui esvaziando a minha memória e colocando as peças das minhas recordações uma a uma e, com elas, fiz a moldura da casa rosada, da praça, de nós dois e de um tempo feliz que passou... Depois disso, me perguntei: - a casa rosada, a praça e eu é uma história de amor com contornos de eternidade ou uma felicidade clandestina a desafiar o tempo e o verde esperança dos meus sonhos sem-teto? Sem respostas prontas e sem certezas terminei a caminhada, pensando: - "querência" é um cheiro de saudade a perfumar as ruas dentro de mim. Saudade! Nada mais que saudade.


novembro 04, 2014

O Arquiteto de Ilusões















Ele gostava de fazer amor com as palavras... As letras formavam lindos arabescos nas folhas de papel em branco e iam desenhando, aos poucos, um castelo de ilusões. Era um excelente arquiteto na arte da fantasia e dos sonhos, pois bordava as frases com destreza e mestria, porém, não tinha o menor compromisso com a verdade. De longe, ela o imaginava uma joia rara, mas, de perto, constatou que ele era, apenas... Ouro de tolo!


outubro 22, 2014

A Palavra, o Olhar e o Gesto











De todas as formas de comunicação a palavra talvez seja a mais traiçoeira, pois nem sempre expressa os verdadeiros anseios da nossa alma. Na linguagem oral, na escrita e na dos gestos ela tanto pode unir, seduzir e encantar, quanto dissimular, mentir e enganar provocando, assim, a quebra de confiança,  acarretando a perda de amores e de outros afetos. Mas, quando bem articulada e usada com honestidade e transparência, ela também pode nos salvar de nós mesmos: dos nossos medos e das nossas inseguranças.

Às vezes, bem sei que não é fácil usá-la com clareza, por que isto significa que temos que depor as nossas armas e ficarmos nus e indefesos diante do outro, porém, quando abrimos mão das máscaras e das roupas do personagem que usamos no dia a dia, em benefício de uma relação em que há amor, carinho, respeito e cumplicidade nós só temos a ganhar, porque damos ao outro a oportunidade de nos conhecer verdadeiramente e, como conseqüência, nos amar mais e melhor.

Ontem, faltou a palavra honesta, límpida e transparente. Faltou confiança. Confissão... Verdade. Procurei nos seus olhos um pedido de socorro... Fica! E, só encontrei o deserto do seu silêncio, da sua solidão e do seu medo diante do inevitável. Estendi a mão e o gesto ficou suspenso no ar. Então, não me restou alternativa a não ser dizer: não me procure mais. Adeus!



Imagem retirada do Facebook de Lis Costa. Um amiga que tem poesia no olhar.

outubro 14, 2014

Carta de Confissão












Uma nova carta está se desenhando, hoje, na alfaiataria de papel. As letras parecem pular saltitantes e felizes por que, enfim, deixam de lado o terreno das metáforas e das entrelinhas e assumem o comando semântico do vocabulário do amor.

Sem pudores e sem firulas eu confesso que amar não redimiu os meus erros, mas colocou à prova a minha capacidade de ser resiliente. Continuo a mesma menina impulsiva, apaixonada, esperançosa e entregue. Nada em mim mudou! Sou como uma rocha: estou sempre no mesmo lugar. Sou cais que acolhe e porto seguro para quem deseja desembarcar em terra firme... Ainda, hoje, beirando os sessenta e cinco anos de idade, olho-me no espelho e sinto um orgulho danado da paixão e do ardor com que se movem os meus dias. Vivo em estado de alegria e de esperança. Sou forte e aguerrida... Inteira! A cada decepção junto os meus cacos e me reconstruo em mosaico. Pedaços de mim lembram-me onde fui ferida e por quem, mas a plasticidade me ensina a lição da resiliência.

Então, eu reedifico o meu altar e rezo missa em minha homenagem. Tenho pena de quem me perdeu! E, antes que alguém me acuse de narcisista, eu informo: trabalhei durante muitos anos na construção do meu eu e aprendi a gostar muito da pessoa que me tornei, no entanto, não sou parâmetro, nem sirvo de referência para ninguém. Sou demasiadamente humana!

Houve um tempo em que gostar causava-me profundo sofrimento. Tinha o corpo em carne viva e o coração lesionado por causa disso, pois amar era uma parte da minha alegria e a outra era contar os dias para encurtar distâncias, porque alguém estava sempre de partida! E, eu, menina em flor, desejava o renascimento no seu corpo... Levava horas desenhando as letras do alfabeto com confissões de um amor rasgado, assumido. Eram páginas e mais páginas encharcadas do mais puro sentimento. Sentia saudades e, por isso, usava e abusava da semântica. As palavras tinham força e significado. Amar era verbo conjugado no passado, no presente e no futuro. Eternamente! Mas, foi tudo em vão...

Porém, hoje, mesmo depois de uma longa espera e de vários cacos espalhados pelo caminho, as letras continuam pulando felizes e saltitantes, bordando esperanças na folha de papel em branco. É que eu ainda vivo como um pássaro em voo, procurando sempre por certezas geográficas, para pousar e entregar o meu imenso amor a quem fizer por merecê-lo... Sou resiliente! E, além do mais, confesso: continuo com pena de quem me perdeu!

setembro 28, 2014

Ao Poeta P.G

A princípio, no terreno das possibilidades, tudo o que eles buscavam era o amor, a poesia e uma cabana. Uma metáfora perfeita para justificar a felicidade e o desejo de caminharem juntos pelas sendas da vida.

Ela, uma escrevinhadora que gostava de brincar com as palavras. Ele, um nordestino acostumado à seca e ao cabo da enxada... Um retirante, um exilado da sua terra natal, que durante certo tempo procurou arar o solo infértil do sertão, à custa de muito suor e lágrimas, mas sem desviar os olhos do céu e das estrelas.

Um encontro improvável era o que se desenhava entre os mundos das letras e dos cabos das enxadas, pois ela sabia da força, do caráter e da tenacidade daquele homem. Ele saíra do nordeste, mas o nordeste nunca sairia de dentro dele. Carregaria por toda a vida uma saudade moldada por perdas e tristezas. Uma carta de condenação da qual ele jamais desejaria a alforria... Tinha um orgulho danado de ser nordestino! E, de tudo o que essa expressão carregava de significados...

O que ela não sabia, entretanto, é que ao olhar, lá atrás, com os pés ainda plantados no solo infértil do sertão, para o telhado da noite, ele já vislumbrava um porvir risonho. Sua conversa era um solilóquio e, entre um arado e outro, catava letras, juntava palavras e tecia sonhos. Nascia, assim, um poeta de mãos calejadas, que ia aprender no correr dos anos a despir-se em prosa e em versos. Nascia, também, naquela hora, o desejo de ser amado... Um amor faminto, urgente, latejante que viesse resgatá-lo, no futuro, das madrugadas de tédio, solidão, insônia e saudades.

Então, eis que, um dia, eles se conheceram por meio das letras. Um encontro na fase crepuscular das suas vidas. Ela, brincando com as palavras e vestida de esperança. Ele, de poeta... Um menino. Puro. Entregue... Nordestino.

setembro 14, 2014

O Crepúsculo




Rubem Alves, em seu livro "Ostra Feliz Não Faz Pérola", nos ensina:

- "No crepúsculo, tomamos consciência da rapidez do tempo". Diz, também: - "Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos".

Penso que além de olharmos para o futuro com olhos mais ternos, também pedimos emprestado à vida linha e agulha, para recriar o bordado da nossa existência e, assim, poder limar a alma para que os últimos anos não nos pese tanto.

No crepúsculo, aprendemos a costurar as palavras com a linha do amor e as cores da tolerância, da paciência, da compaixão e da solidariedade. Alargamos o mundo de dentro e, dessa forma, damos abrigo a imensa tapeçaria de afetos, que vamos tecendo no decorrer dos dias que passam com rapidez, mas, agora, suavemente.

É só no ocaso da vida que deixamos de lado as certezas de pedra e o olhar cimentado construídos a respeito das pessoas. Nessa época, nos damos conta de que pequenas mágoas e velhos rancores só contribuíram para deixar os nossos dias mais pobres, esquecidos e sem afeto. São tempos de amargar tristezas e solidão.

Por isso, seguindo o conselho do grande mestre e escritor Rubem Alves, eu digo: - Vamos tomar consciência da finitude do tempo, pois esse é o melhor caminho para uma vida mais saudável e feliz. Não nos esqueçamos que orgulho, vaidade, mágoas e rancores descansam na mesma lápide que dá abrigo, também, aos nossos desafetos. Somos todos pó.