Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

fevereiro 03, 2009

O Encontro



Havia se passado tantos anos e ele, agora, ali parado, trazendo em suas mãos, as nossas cartas de amor.
Gotas de chuva misturavam-se às lágrimas de alegria. Eu chorava por dentro!
A poeira do tempo levara consigo o marcador das horas.
Naquela noite, o meu amor tinha a idade dos meus 15 anos.
O relógio parado desistira de contar o tempo, diante da resistência daquele amor, que não se rendera ao passar dos anos.
Ali estavam ele, ela e um amor guardado por quase meio século dentro de uma caixinha de veludo.
(...)
Que pena! Fui ao seu encontro nas asas dos meus sonhos, mas você não se vestiu de amor...

janeiro 29, 2009

Pausas





Não dê pausas à vida! Esse foi o conselho que eu dei a alguém que estava a interpretar os sinais que andara recebendo por esses dias.

Por que será que estamos, na maioria das vezes, adiando decisões e empacotando felicidades para serem usufruídas mais tarde?
Há sempre um amanhã... Um depois... Um quando eu estiver pronto... E a vida feita de pausas vai passando em desacordo com o relógio do tempo. Quando nos damos conta, o que temos é um corpo gasto, cansado, arrastando-se por aí, atrás de uma juventude perdida, de um ideal não concretizado, de uns minutos a mais para viver na UTI da felicidade. O que temos é uma alma vestida de palavras suspensas: quase, talvez, quem sabe um dia e, depois, um coração atormentado pelo “se”: se eu tivesse dito, feito, ido, amado.
E o tempo escorrendo por entre os dedos, feito areia da praia, nos diz: agora é tarde!


Decididamente, eu não gosto de pausas. Eu tenho fome de viver!

janeiro 24, 2009

Perdidos e Achados



Ao entardecer saí para caminhar na praia. O mar em movimento de fluxo e refluxo esvaziava as suas águas em baixa maré.
Olhando a distância vi um pequeno grupo de pescadores com o olhar atento ao que as ondas depositavam na areia. Andavam de um lado a outro, sempre em linha reta, disputando espaços.
Aproximando-me, perguntei a um deles:
“-Moço, posso entrar no mar ou tem algo estranho acontecendo?” Respondeu-me:
“-Pode tomar seu banho tranqüila. Nós estamos aqui esperando os perdidos.”
“-Perdidos?” Indaguei-lhe curiosa.
“-Sim, os perdidos que o mar sempre devolve”. Disse-me ele.
Olhei-o mais uma vez, e pensativa entrei em águas profundas desejando me perder para que algum pescador solitário me encontre e, em noite de lua cheia, arme sua rede para comigo pescar estrelas.

janeiro 21, 2009

Seguindo os teus Passos





Sigo os teus passos porque eles me dizem que o infinito é logo ali. Arrisco, e na areia deixo registrada as pegadas dos meus sonhos. Cato conchas e colho estrelas para bordar em meu vestido. À noite me visto de amor e te espero. Ainda sou tua.

janeiro 20, 2009

Asas da Esperança






Nas asas da esperança eu me abasteço de sonhos. Lanço um novo olhar em direção ao amanhã, que sempre se anuncia como oportunidade de reescrevermos a nossa história e reflito no quanto desperdiçamos as horas, que podem ser usadas de uma maneira bem mais proveitosa e feliz.
Alço vôos inimagináveis em meu mundo de fantasias e sonho. O meu momento é de desconstrução: penso em rever o arquivo de minhas memórias para deletar o que passou, afinal de contas, não se volta ao passado com o presente batendo insistentemente à nossa porta.
Mas aí, o silêncio traz você em forma de saudades e viajamos juntos outra vez, em meu mundo de faz-de-conta. Sonho! E o meu momento é de construção: pego um barco chamado desejo e atravesso um mar de possibilidades. Lembro a nossa história de amor e embarco de vez para a terra da felicidade onde você e eu debutamos o primeiro amor.
Relembro!
(...)
De volta ao mundo real o presente me solicita! O tic-tac do relógio me lembra o passar das horas.
Desperdício do tempo?
Carpinejar me desperta do sonho, dizendo que sim.
“Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu.”

Recolho as asas da esperança!

janeiro 18, 2009

Declaração de Amor



Olho através da janela e rasgo o véu da noite. Colho estrelas e estendo-as uma a uma no varal dos meus sonhos.
Rezo e peço a Deus que qualquer dia desses, tu sejas uma delas e eu o tenha por toda a vida.

Pela manhã o sol invade o meu quarto e em sorrisos aquece o meu corpo com o seu abraço, convidando-me a fazer amor em sua cama. Sigo-o dócil e obediente, ainda que, o meu desejo em chamas já tenha denunciado toda a ansiedade da espera.
Sou tua por mais um verão embora deseje sê-lo por toda a vida.
Abraço-te e em tuas águas ouço a canção do teu silêncio. O balançar suave de tuas ondas me enche de alegria e eu me dôo inteira ao teu amor.

Sou a tua amante mais fiel e a minha pele morena é a marca registrada da tua posse. Me tens, sempre que quiseres, sou a tua escrava branca ansiando a negritude da tua senzala.

Amo-te!

janeiro 17, 2009

Feliz 2009




São 15 horas de uma sexta-feira do dia 02 de janeiro de 2009 e eu acabo de chegar ao apartamento que aluguei na praia de Ponta de Campina.

Uma solidão gostosa se instala de repente, fruto do prazer que tenho em minha própria companhia. O resto da tarde e a noite serão minhas.
Lá fora, ele – o mar - me espera e, aqui dentro, uma taça de vinho para aquecer a minha alma. Em minhas mãos está um lápis ávido por destravar palavras presas na garganta e preencher espaços em branco nesta folha de papel. Saudades do teclado!

Uma quietude e um silêncio me transportam ligeirinho, para o meu mundo de fantasias. Penso: Como estará a minha vida daqui a alguns anos? E começo a tecer os fios dessa trama criando um bordado feito das escolhas que fiz. Não há tristezas nem arrependimentos! Começaria tudo outra vez, não mudaria uma vírgula do que já passou. O que aconteceu me transformou na pessoa que eu sou e ninguém é mais feliz que eu com a própria imagem. Gosto do que me tornei. Sem narcisismo! Conheço cada parte do meu corpo e sei como ele reage quando se multiplica em pedacinhos procurando colo e cola para viver inteiro.

Aprendi a compor uma cocha de retalhos feita dos pedaços de felicidade que a vida me deu. E ela me foi generosa: realizei sonhos, amei e fui amada, e de quebra, nesse ano que se inicia, ainda recebi esse mar que em suas águas, minhas lágrimas se confundem com saudades de você.
Feliz 2009!

janeiro 11, 2009

Despedindo-se das Saudades




Através da janela daquele ônibus que a levava, agora, a um destino certo, ela viu passar uma a uma as suas lembranças. A lágrima furtiva que teimava em cair denunciava que uma dor estava prestes a partir. Simbolicamente, aquela última parada, de uma viagem de muitos dias, significava um ponto final tantas vezes ensaiado em sua antiga história de amor.

Com o olhar perdido em um mar de lembranças, ela tentava conter aquela torrente de saudades que desfilavam na mesma velocidade com que trafegava o ônibus. Como ela desejava que o motorista fosse solidário com a sua dor e acelerasse a 380 km por hora a fim de acabar todo aquele tormento.
Anos a fio viajando com uma mala velha cheia de recordações dolorosas e, só agora, lhe parecia um peso insuportável de se levar.

Uma dor lancinante lhe indicava que estava na hora de enterrar os seus mortos. Pausadamente, ela colocou a mala no chão e foi tirando peça por peça, numa tentativa de esvaziar também aquela dor que lhe oprimia o peito. Um oceano de lágrimas jorrou em sua face e ela prometeu a si mesma nunca mais amar igual.

(...)

E o deixou, finalmente, abandonando ali as suas saudades.

janeiro 01, 2009

Página Virada





Fui espiar o tempo e vi que precisava me aquecer. No varal encontrei tuas cartas lavadas.
Eram tantas as mentiras e tão falso o teu amor que respingou na fogueira da minha paixão e apagou o fogo do meu desejo. És uma página virada de um amor que nunca aconteceu...

dezembro 03, 2008

A Praça



Um silêncio de palavras e de gestos era tudo que lhe sobrara agora, que ela se via diante da paisagem que outrora lhe fizera a festa aos olhos e ao coração.

Lá estava ela, a praça - imponente - em suas copas, com o verde de suas árvores oferecendo sombra a algum caminhante cansado.O banco solitário à espera de confissões de amor parecia espreitar a dor que lhe pungia a alma.

Quanto tempo se passara desde então, e ela ainda, teimosamente, esperava por ele que se atrasara para aquele que seria o último encontro.
Em suas mãos, um maço de papéis amarelados pelo tempo, contrastava com o vermelho-rubro da fita que delicadamente os envolvia. Na frouxidão do laço, uma sugestão:

Desate-me, eu ainda estou aqui...

novembro 22, 2008

A Minha Casa, tem História!






A minha filha, preocupada com a minha segurança e o meu bem-estar, verbalizou dessa maneira o seu receio:
- Minha mãe, venda esta casa! Ela ficou espaçosa demais para você, depois que saímos.


Respondi-lhe no ato:
- Filha, a minha casa é um país dentro do meu país. É a minha pátria de intimidades. Ela tem cor, cheiro, som, passos e lembranças. Ela tem história! ... E se me tiram o chão, eu me torno estrangeira de mim mesma.

Ela ainda tentou argumentar, mas foi vencida pelo peso das minhas lembranças.
Disse-lhe eu: Triste é o homem, que não cultiva suas memórias!

- No passado, morei em outra casa, por força das circunstâncias fui obrigada a deixá-la e até hoje, depois de tantos anos, o caminhão de mudanças continua estacionado no mesmo lugar. É que uma menina de olhos tristes e lágrimas silenciosas, vendo-se sem saída, indagou ao motorista: - moço tem espaço aí para levar os meus pertences?

Ele respondeu: - tem, pode ir buscar. Ela, então, olhou-o bem dentro dos olhos e pediu-lhe que a ajudasse a transportar às suas lembranças. Aqui estão: a minha infância, e a felicidade correndo no meu corpo de criança, sorriso fácil, abraçando o mundo. Tem o pé de cajá – cobrindo de amarelo o chão, na madrugada - a goiabeira de onde recolho os frutos quando abro a janela do meu quarto, os pés de pinha, de groselha, de abacate e de mamão. E ainda, o flamboaiã amigo, onde instalei um balanço de cordas para recolher das nuvens, o algodão doce das minhas fantasias. Tem a horta com o verde das alfaces, coentros e pimentões lembrando-me a cor da esperança, e o tomate em seu tom vermelho, dizendo-me que em breve será tempo de paixões. Ah, não posso esquecer o jardim com suas rosas, dálias, cravos e margaridas. Como é bonito ver o orvalho da madrugada depositar as suas gotículas sobre as flores, e sentir o perfume que delas emanam misturando-se na manhã seguinte, ao cheiro que vem da cozinha. E, como é alegre a cozinha da minha mãe e doce a sua figura, a mexer no tacho de canjica, a costurar as pamonhas, a assar o milho verde, preparar a tapioca fresquinha e um delicioso bolo baeta, sempre, acompanhado de uma xícara de café. Tenho, ainda, passeando sobre as minhas memórias, o cheiro da galinha de cabidela, do cozido inigualável, dos famosos bolinhos de bacalhau, das rabanadas e dos perus assados no forno, ajudando-me a lembrar dos sons.

O crepitar do fogão à lenha é um espetáculo à parte: lembra-me o meu tio Chico e os seus fogos de artifícios nas noites de São João. A fogueira acesa provoca o calor que nos aquece, nessa época em que o vento frio anuncia que a canção da chuva vai tocar em nossos telhados. Um som de piano, e as minhas tias Marluce e Laice a dedilharem canções de amor, noite adentro; só interrompido quando o canto do galo já se faz ouvir. Nessa hora, os passos suaves de mãe Julia se aproximam e ela nos diz que a manhã já se avizinha, desejando-nos bons sonhos.

O beijo de boa noite, agora, seu moço, tem gosto de saudades. Os contos de fadas e todas as fantasias que povoam o meu mundo infantil, com seus jogos e brincadeiras, pedem socorro: Por favor, ajude-me a transportar as minhas lembranças! Tem espaço aí?

O homem olhando-me entre lágrimas, disse: - menina, essa mudança eu não faço por dinheiro nenhum! A sua casa tem história. E partiu, deixando o caminhão estacionado para nunca mais voltar.

novembro 16, 2008

Máscaras



Esta aí sou eu!

Eu plural, cheia de disfarces, mascarando o rosto para preservar a alma. Vivo pelas coxias da vida encenando uma peça que não é a minha. As palavras se vestem de colombinas e saem por aí, dissimulando sonhos, ocultando desejos. Elas não me representam, são apenas uma pálida impressão da alegoria do meu viver.

Anseio a liberdade dos abismos, a violação dos segredos! Poder mergulhar fundo nas profundezas do meu ser e de lá emergir, inteira, absoluta, sem máscaras, sem vestes; e desnuda, assumir sem pudores o que sou.

novembro 14, 2008

Uma rua... Uma saudade!






Hoje, ao lembrar de uma rua eu me senti aquecida.

É que outro dia, visitei a General Osório, no centro da cidade, e trouxe na bagagem lembranças, para colocar nas gavetas já tão abarrotadas da minha alma. No estojo da memória guardei os mais belos anos da minha vida: os anos dourados da juventude, com as suas inquietações, arroubos, paixões avassaladoras, e ainda, no rastro das recordações; um rosto, uma voz, uma mão amiga – minha tia Laice – ajudando-me a tecer fantasias.

Ao me entregar ao exercício de aquecer a memória, deleito-me com o prazer inefável dos cheiros e aromas que perfumam o ambiente, e compõe a cena de uma rua chamada saudade.

As reminiscências desfilam, neste momento, ante os meus olhos: são as cinzas do passado espalhando ternuras, perpetuando encantamentos, e trazendo sons adormecidos de palavras que escreveram a mais bela canção de amor: solidariedade.
(...).
E agora, feito bolas de sabão ao vento, as lembranças se dissipam e com elas, os personagens, seus perfumes e a trilha sonora de uma época onde o amor guardava poesia.

novembro 03, 2008

Um Buquê de Margaridas





Amo as flores e, entre elas, escolho as margaridas.
No amarelo está o sol a cada amanhecer, possibilitando-nos um recomeço, uma nova vida; no verde a esperança modelando os nossos desejos, e no branco, a paz dos lençóis desfeitos.
Há transbordamento de alegria quando suas pétalas se abrem em sorrisos para o sol; alvoroço e contentamento, quando reunidas desfilam beleza e vestem de cores às campinas.
Um buquê de margaridas abastece sonhos, é vida pulsante, reedição de histórias de amor. É a paixão que ainda goteja, por entre as dobras dos lençóis desfeitos.
Um canteiro de margaridas é convite ao amor; cama armada em plena luz do dia à espera dos amantes, sensualidade da natureza fazendo pulsar os nossos corações.
Há um buquê de margaridas espargindo sonhos, e cultivando esperanças em meu caminho...

novembro 01, 2008

Canção de Amor






Estou tirando férias de mim. Já fiz e refiz a mala inúmeras vezes e não sei o que levar: sobram-me dores, saudades e desejos... Na dúvida eu quero:

Quero me esquecer gente grande, retirar as máscaras e soltar as amarras;
Quero assumir sem pudores a menina-moça que eu deixei lá atrás - um dia - e com ela, resgatar todos os meus sonhos;
Quero percorrer os campos de girassóis, ver a dança das borboletas em seus volteios - nos jardins das margaridas – e saldar cada amanhecer com o sorriso das flores;
Quero, no entardecer dos dias, ouvir a canção da chuva tocando na minha janela e o colírio do arco-íris se desmanchando em cores para alegrar a minha alma;
Quero alcançar o pôr-do-sol com as mãos e recolher as estrelas que vêm a seguir;
Quero da noite a lua cheia, o riso solto da madrugada a desenhar ternuras pelo meu corpo e, dessa alegria, fazer uma canção de amor pra você.

Este texto é uma homenagem a Gilberto, o homem que me ensinou a dimensão da palavra ‘amar’.